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Animal de palco e eterna sobrevivente: Tina Turner faz 80 anos, mas ninguém acredita /premium

É uma das maiores intérpretes de sempre da música popular e sopra as velas nesta terça-feira. Retirada desde 2009, onde pára Miss “hot legs”?

Apareceu a 7 de novembro à porta do teatro Lunt-Fontanne, na Broadway, e quem lhe abriu a porta da limousine foi o marido, Erwin Bach. Ela saiu com um vestido castanho de cristais Swarovski, seguida da mais famosa apresentadora da televisão americana, a amiga Oprah Winfrey. A multidão na rua gritava “Ti-na, Ti-na” e ela sorria, num rosto maquilhado e sem rugas que disfarçava um semblante já tão diferente do de outros tempos. A estreia nova-iorquina de um musical inspirado na vida da rainha do rock’n’roll fez com que ela regressasse a casa por estes dias, depois de tantos anos afastada dos EUA. Aos 80 anos – que se assinalam nesta terça-feira –, Tina Turner vive rendida ao conforto de um chalet na Suíça, o Chateau Algonquin, na zona de Küsnacht, com vista para o Lago de Zurique, onde há jardins cuidados, paredes cobertas de heras e interiores sumptuosos que incluem sofás em estilo Luís XIV, como relatou o New York Times. E orgulha-se de dizer que já não canta, não dança e nem se produz para sair (ou só às vezes).

“Tina: The Tina Turner Musical”, com a atriz Adrienne Warren no papel principal, estreou-se no West End de Londres em abril do ano passado e foi apresentado em Hamburgo, na Alemanha, a partir de março deste ano, tendo agora chegado aos EUA. É dirigido por Phyllida Lloyd, realizadora de “Mamma Mia!” (2008) e “A Dama de Ferro” (2011), e tem libreto de Katori Hall, nascida no Tennessee, tal como Tina. A produção é da multinacional holandesa Stage Entertainment, fundada a partir da produtora Endemol, e o seu responsável, Joop van den Ende, chegou a ir à casa de Tina Turner em Zurique para discutir com ela os detalhes do projeto. O custo é de cerca de 15 milhões de euros. A crítica já elogiou o resultado, mas também apontou problemas na estrutura narrativa e alguma falta de criatividade.

Além de Oprah Winfrey, a estreia nova-iorquina contou com a presença do realizador Spike Lee; da atriz Whoopi Goldberg; da diretora da Vogue, Anna Wintour; da cantora Deborah Cox, da antiga apresentadora de televisão Martha Stewart, da apresentadora Gayle King. As fotos foram entretanto publicadas no Instagram.

Ao regressar ao país que a viu nascer, a intérprete de “Proud Mary” encheu-se de recordações, como quando cantou pela primeira vez em Nova Iorque, em 1960, numa sala de espetáculos do bairro negro do Harlem. “A cidade tinha uma luz especial, quase dourada. Adorava ler revistas de moda e as mulheres desta cidade pareciam diretamente saídas das páginas dessas revistas”, escreveu há dias na revista “Rolling Stone”.

Nesse artigo, publicado a propósito da estreia do musical, Tina revelou que a ideia do musical partiu do marido, por volta de 2014, e que ela recebeu a proposta sem interesse, por querer manter o passado arrumado. “Estava a gozar a reforma e os primeiros tempos de casada, feliz por ser a senhora Bach [apelido do marido] e a última coisa que me passava pela cabeça era trabalhar noutro sítio que não fosse no meu jardim.”

O projeto ajudou-a a ultrapassar a fase negativa que viveu recentemente, com graves problemas de saúde e o suicídio do filho mais velho em 2018 – Craig Turner, nascido em 1958 da relação de Tina com o saxofonista Raymond Hill.

Símbolo de certa rebeldia na década de 80, com uma imagem felina e fácil que conquistou as massas, Tina Turner pode hoje ser vista como uma das mais completas e consequentes artistas do rock’n’roll, com um domínio total do palco, com voz e presença que já estão na história.

O texto na “Rolling Stone” tem data de 1 de novembro e oferece na primeira pessoa uma rara síntese da vida de Tina Turner. “Uma miúda que cresceu com grandes ambições; uma jovem ingénua que embarcou num casamento problemático, sem outra coisa que não fosse a sua voz e os seus sonhos, e que dali se escapou à tangente, sem outra coisa que não fosse a sua voz e os seus sonhos; a cantora de meia-idade que enfrentou ventos contrários e encontrou sucesso e verdadeiro amor junto do homem que nunca pensou conhecer.”

Símbolo de certa rebeldia na década de 80, com uma imagem felina e fácil que conquistou as massas, Tina Turner pode hoje ser vista como uma das mais completas e consequentes artistas do rock’n’roll, com um domínio total do palco, com voz e presença que já estão na história. É certamente uma das últimas protagonistas de um género musical de ferro e fogo, hoje muitas vezes mais próximo do “playback” e do Auto-tune.

No YouTube, um dos melhores exemplos do abalo que Tina representou para a música popular é o da atuação de 1979 em Londres, quando já em fim de concerto apresentou “Everyone’s Winner” (original da dupla Hot Chocolate, a mesma do famoso “You Sexy Thing”). É uma performance intemporal do domínio do sublime, pela qual se percebe bem a origem da alcunha “Miss Hot Legs”, que há muito lhe atribuíram e ela aceitou.

[“Everyone’s Winner”, 1979:]

Numa época de regresso aos feminismos, sobretudo depois do movimento americano Me Too, a cantora também tem sido reavaliada como símbolo de emancipação feminina – a mulher que reconstruiu a vida pessoal e artística depois de anos de violência doméstica às mãos do antigo companheiro, Ike Tuner (1931-2007). “A mulher que desafiou os limites da idade, do género e da raça”, na fórmula oferecida pela sinopse do musical. E, no entanto, em entrevista recente ao New York Times, rejeitou a colagem a qualquer movimento político. “Identifico-me apenas com a minha própria vida”, afirmou.

Em 1997, no programa de Larry King na CNN, em reposta a uma pergunta sobre se tinha noção do estatuto de “heroína feminista” que lhe atribuíam nos EUA, Tina respondeu que começava a aperceber-se disso e sugeriu que tal se devia ao facto de ter contado ao mundo a história de violência e abusos sexuais que protagonizara anos antes.

Referia-se ao livro de 1986 I, Tina, uma autobiografia que escreveu com Kurt Loder, antigo diretor da revista “Rolling Stone”, e adaptada ao cinema sob o título “What’s Love Got to Do With It”, filme realizado em 1993 por Brian Gibson.

[trailer de “What’s Love Got to Do With It”, de Brian Gibson:]

A primeira vez que Ike lhe bateu foi por volta de 1960, pouco depois de gravarem juntos “A Fool in Love”, lembrou em 2013, numa entrevista a Oprah. Nessa altura, Ike tinha decidido que o nome artístico dela passaria a ser Tina, o que, na interpretação da cantora, tinha por objetivo controlá-la: se um dia ela o quisesse deixar, não poderia usar o nome artístico Tina, que ele entretanto registara.

Nessa fase inicial, Ike e Tina eram apenas amigos e um dia, sem mais, atirou-lhe à cabeça uma forma de madeira para alargar sapatos. “Depois começou a bater-me, eu estava no chão, a chorar, e ele mandou-me para a cama e fizemos sexo. Foi horrível”, relatou Tina.

Curiosamente, numa velha gravação de 1972, o apresentador Dick Cavett perguntou a Ike e a Tina quem é que “apaziguava as discussões” lá em casa e ela, numa frase premonitória ou talvez num alerta, respondeu: “Nem tudo é o que parece.”

Considerado um dos pioneiros do rock’n’roll, da soul e do rhythm-and-blues, Ike Turner tocava na banda Kings of Rhythm, em St. Louis, quando conheceu Tina, no fim da década de 50, era ela uma cândida miúda de 17 anos com aspirações a cantora. Respondia pelo nome de batismo, Anna Mae Bullock, natural de Nutbush, no Mississippi.

Casaram-se em 1962 e separaram-se em 1976. Ela literalmente fugiu de casa com a roupa que tinha no corpo e ele nunca se arrependeu do que lhe tinha feito. Sempre negou e sempre assumiu, ao mesmo tempo. Como numa entrevista nos anos 90: “Se fosse verdade o que ela diz, e se isso foi aquilo de que ela precisava para ser o que é hoje, não me arrependo.” Ou nesta declaração de 1985: “Bati-lhe, mas não lhe bati mais do que é costume os homens baterem às mulheres.”

A partir de 1966, com o álbum "River Deep, Mountain High", produzido por Phil Spector, Ike & Turner ganham uma atenção sem precedentes e não apenas nos EUA. Em 1969 fazem a primeira parte da digressão americana dos Rolling Stones e em 1971 ganham dois Grammys pelo álbum “Proud Mary” (tema original dos Creedence Clearwater Revival).

De origens humildes e rurais, Anna Mae Bullock nasceu a 26 de novembro de 1939, filha de Zelma Priscilla e Floyd Richard Bullock, ambos agricultores. Foi criada como cristão, na Igreja Baptista, e foi aí que começou a cantar (o budismo, de que é praticamente, surgiria apenas na sua vida já em meados da década de 70, por influência de uma funcionária de um estúdio de gravação na Califórnia).

Aos 11 anos, a mãe separa-se do pai, descrito como um homem violento, e vai viver para St. Louis, no estado Missouri, enquanto a rapariga fica a cargo da avó, que morre no início dos anos 50. Anna Mae decide então mudar-se para perto da mãe e da irmã Alline, em St. Louis, e aí começa a frequentar clubes e salas onde se tocava música negra ao vivo. Conhece Ike Turner, torna-se vocalista da banda e passam a ser conhecidos como Ike & Turner.

A voz rouca de Tina e o seu estilo original de interpretação tornam-na rapidamente uma estrela. Admirava Ray Charles e Sam Cooke e queria cantar como eles, revelou mais tarde.

[“Proud Mary”, Ike & Tina no início da década de 70:]

A partir de 1966, com o álbum River Deep, Mountain High, produzido por Phil Spector, Ike & Turner ganham uma atenção sem precedentes e não apenas nos EUA. Em 1969 fazem a primeira parte da digressão americana dos Rolling Stones e em 1971 ganham dois Grammys pelo álbum Proud Mary (tema original dos Creedence Clearwater Revival).

O divórcio data de 1976 e, de alguma forma, ao focar a sua carreira na Europa, Tina quis também cortar com o passado. Aos poucos, a rapariga de cabelo escuro e comprido deu lugar à mulher madura de farta cabeleira loira e rebelde. Se é certo que as suas atuações foram sempre eletrizantes e sensuais – Ike chegou a dizer que foi ele que a tornou um “sex symbol”, porque lhe escolhia as roupas – é também inegável que esse ascendente sexual se tornou mais evidente ao regressar aos discos em 1984, aí definitivamente a solo. Nessa época, recebeu o elogio da académica e feminista desalinhada Camille Paglia: “Private Dancer”, a canção de Mark Knopfler que dava título ao álbum, invocava a prostituição como escolha da mulher – numa época de “cruzada puritana e feminista contra a pornografia” – e oferecia o brilho da sexualidade madura e dominante, projetava-a como mulher guerreira feita de ternura.

[videoclip de “Private Dancer”, 1984:]

Tina estava na fase mais poderosa e significativa da carreira, que a colocou nos lugares cimeiros da música popular. Uma fase iniciada com o histórico Rough, de 1978, onde apareciam canções como “Sometimes When We Touch” e “Bitch Is Back” (original de Elton John). E depois o já referido, e inacreditável, Private Dancer, em 1984, álbum carregado de singles, alguns dos quais ainda hoje são hinos de Tina Turner: “What’s Love Got To Do With It”, “I Can’t Stand The Rain”, “Private Dancer”, “Let’s Stay Together”, “Better Be Good To Me”, “Steel Claw” ou “Help!”. Este último é uma versão dos Beatles e foi apresentado ao vivo da BBC, num dos melhores momentos televisivos da artista.

[“Help!”, 1984:]

O mesmo álbum criou o êxito britânico de Tina, que aos poucos se afastou do país de origem. Viveu alguns anos no Reino Unido, depois mudou-se para a Alemanha, de onde é natural o namorado de longos anos (executivo da editora EMI, que conheceu em 1986 e com quem se casaria em 2013) e depois comprou uma casa no sul de França. Finalmente passou a viver na Suíça em 1995. Tem desde há muito um sotaque mais britânico do que americano e há seis anos garantiu a nacionalidade suíça.

“A Europa dá-me muito mais apoio dos que a América”, disse a Larry King, em 1997. O jornalista contrapôs que ela era uma super-estrela nos EUA. Tina respondeu com suavidade e alguma amargura: “Não tanto quanto Madonna.  Na Europa, sou maior do que Madonna. Em alguns países, maior do que os Rolling Stones.”

Na autobiografia de 2018, "My Love Story" (não traduzida em Portugal), a cantora revelou que nos últimos anos ponderou a eutanásia, por ter um problema de insuficiência renal e um cancro nos intestinos. “Mesmo nos piores momentos que passei, encontrei sempre momentos de riso e boa disposição. É da minha natureza. Que podemos fazer?"

Ultrapassados os 40, as décadas de 80 e 90 foram momentos de glória, de construção de uma carreira mais comercial e de uma fortuna imensa, anos de celebridade global. Foi a fase de “Typical Male”, “Paradise Is Here”, “The Best”, “I Don’t Wanna Fight” “Goldeneye”, “On Silent Wings”. A fase também dos grandes concertos de estádio, incluindo em Lisboa a 29 de setembro de 1990 (Estádio de Alvalade) e a 22 de setembro de 1996 (Estádio do Restelo).

O último disco de estúdio apareceu em 1999, Twenty Four Seven, de repercussão limitada, e a última digressão mundial, anunciada desde pelo menos 1990, chegou finalmente em 2008/2009, quando as capacidades da cantora já estavam limitadas.

[The Best”, em 1999:]

Mas será que lhe custou abandonar os palcos? “Tenho de ter cuidado com a maneira como digo isto, porque as pessoas podem interpretar mal”, explicou em 2013. “Depois do Ike, em que eu era uma escrava, tive de voltar à escravidão, por mim mesma, para sustentar a família e fazer frente às responsabilidades. Queria reformar-me sem ter de me preocupar e foi esse o significado da última digressão. Cheguei àquele momento e percebi que era ali que terminava, já podia ir para casa. Ninguém imagina: estava cansada de cantar e dançar, foi o que fiz a vida toda. Já se tornava difícil. Queria chegar às notas e já não conseguia.”

Tina Turner raramente escreveu as canções que cantou. Uma das exceções é “Nutbush City Limits”, de 1973. Notabilizou-se nas versões, entre as quais se destacaram “Let’s Stay Togehter”, de Al Green, ou até mesmo “Unfinished Sympathy”, dos Massive Attack.

Na autobiografia de 2018, My Love Story (não traduzida em Portugal), a cantora revelou que nos últimos anos ponderou a eutanásia, por ter um problema de insuficiência renal e um cancro nos intestinos. “Mesmo nos piores momentos que passei, encontrei sempre momentos de riso e boa disposição. É da minha natureza. Que podemos fazer? As coisas simplesmente acontecem, temos de continuar em frente, é assim que vivo a vida”, resumiu Tina há alguns anos numa entrevista.

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