Capital do Humor: passa a ser este o nome de Alcobaça entre 21 e 23 de novembro. A cidade acolhe a primeira edição de um festival que reúne referências, como Salvador Martinha ou Joana Marques (espetáculos para os quais restam alguns bilhetes); nomes mais jovens, como Miguel Vaz, que ganham cada vez mais espaço no meio; open mics (momento em que qualquer pessoa pode atuar) espalhados por diversos bares; e até uma emissão em direto de Isto é Gozar com Quem Trabalha, programa da SIC conduzido por Ricardo Araújo Pereira.
As atuações espalham-se pelo cineateatro e pelo mais recente multiusos da cidade, chamado Panorama. Foi exatamente aí que nasceu a ideia. Nuno Gonçalves, dos The Gift, é o diretor artístico do espaço inaugurado em março e, além de espetáculos isolados, quis criar “eventos que perdurassem no tempo e passassem de ano para ano”, explica ao Observador.
Juntou-se a Tiago Santos Paiva, da agência WSA, e à Setlist e o cartaz construiu-se sem grandes percalços graças à recetividade imediata dos artistas do meio. “Penso que é uma área que até se desenvolveu em Portugal tardiamente, mas fico muito feliz por, mesmo longe de Lisboa ou do Porto, termos público. Neste caso, temos muitas sessões quase esgotadas. As pessoas procuram um espetáculo para se sentirem bem e o humor desempenha esse papel de uma forma muito particular.”
Ainda este ano, de 13 a 18 de dezembro, Lisboa recebe o Festival Porta dos Fundos, produzido pela H2N. Hugo Nóbrega, que está à frente da agência (promotora também do The Famous Fest), recorda que em 2014 já houve um Festival Porta dos Fundos — que era um fenómeno digital nessa altura —, mas explica que, apesar da continuidade, não há uma “intenção direta de estarmos a celebrar os dez anos”. “Estamos a celebrar esse fenómeno que é hoje em dia o humor e esta ponte entre Portugal e Brasil”, esclarece ao Observador.
▲ O cartaz da primeira edição de "Alcobaça - Capital do Humor"
Nos próximos meses, as salas com maior capacidade do País vão transbordar de gargalhadas: Ricardo Araújo Pereira esgotou uma primeira noite na Meo Arena e está prestes a repetir o feito com uma segunda data, com Verificando se Você é Humano; Joana Marques acrescenta diariamente datas à tournée de Em Sede Própria; Bumba na Fofinha está em plena digressão de Sombra; e Inês Aires Pereira regressa com Namastê no início de 2026, após ter enchido todas as sessões de outubro em Lisboa e no Porto. As mulheres humoristas destacam-se no mercado neste momento e o público é, também ele, dominado por mulheres. Falámos com promotores e humoristas para perceber se o humor está na moda, se é um negócio apetecível e se as salas fora dos grandes centros urbanos continuam ou não reticentes a este tipo de programação.
Uma procura crescente
A Força de Produção foi responsável pelo primeiro solo de comédia a esgotar a Meo Arena. Aconteceu em 2020 com Bruno Nogueira, chamava-se Depois do Medo. A promotora está agora por detrás de Namastê, de Inês Aires Pereira, e não teve receio de avançar logo para salas grandes, como o coliseu — depois das primeiras datas esgotadas, o espetáculo regressa em janeiro e fevereiro.
A procura por conteúdos deste género “é um fenómeno não só em Portugal, mas também lá fora”, garante Sandra Faria, responsável pela Força de Produção, e intensificou-se após a pandemia. Hugo Nóbrega identifica os últimos três anos como um ponto de viragem, sobretudo porque nos confinamentos o consumo era feito online — e aí está o rastilho que propagou tudo.
O diretor da H2N recorda o primeiro espetáculo de Fábio Porchat em Portugal, depois dos confinamentos. “Enchemos o Campo Pequeno com seis mil pessoas e acho que, desde aí, o stand-up tem realmente conquistado uma força grande. Neste momento, temos mais de 10 ou 12 humoristas em Portugal com uma carreira sólida e que todos os anos enchem salas. É uma indústria muito afirmativa, vejo isso na procura do público.”
Vasco Teixeira, sócio da Setlist, não arrisca avançar um número concreto, mas está convicto de que o stand-up é o setor cultural que mais vende neste momento. “Basta vermos que três ou quatro grandes humoristas, do top 10, decidem fazer uma tour no mesmo ano, com 60 e tal datas pelo país.”
A procura era elevada já há muito, mas a oferta não acompanhava. “Quando produzimos o The Famous Fest, esteve sempre esgotado, Quando estreamos a Nêspera no Cu, em 2016, tivemos a sala esgotada mesmo à 1h30 da manhã. O circuito existia, mas não era tão vasto.”
Aos 30 anos, Miguel Vaz vive do humor. Estará em Alcobaça e, atualmente, consegue fazer quatro ou cinco atuações de stand-up por semana na zona de Lisboa, onde vive. “Eu comecei a fazer stand-up há quatro anos e meio e, em 2021, não havia muitos espaços. Com o Lisboa Comedy Club, muitos humoristas da minha idade começaram a ter um palco mais regular e sinto que esse foi o boom”, diz ao Observador.
▲ Inês Aires Pereira regressa em 2026 com "Namastê" e a última edição do Mock Fest foi um sucesso
Rodrigo Correia tem 32 anos e, depois de uma carreira na engenharia aeroespacial, despediu-se em setembro para se dedicar ao stand-up. “Entrei nisto há três anos e agora dei um salto de fé mas há, realmente, muito espaço no mercado”, conta. Para ele, os últimos anos têm sido uma espécie de bola de neve. “Haver uma boa geração nova de comédia atrai público. Como há mais público, há mais noites e há mais espaço também para crescer. Acho que se alimentam um ao outro.”
No Festival Porta dos Fundos, além de outros eventos, Fábio Porchat irá estrear-se em Portátil, um espetáculo de improviso que se desenrola em torno de uma história contada por alguém do público. Até aqui chegar, e ainda antes da explosão do fenómeno Porta dos Fundos, foi pelo stand-up que o humorista brasileiro começou. “Eu fiz parte do Comédia em Pé, que é o primeiro grupo de stand-up do Brasil. Estamos a falar de 2007, era uma novidade, tínhamos de explicar às pessoas o que era stand-up, porque é que não havia personagens, que as piadas tinham que ser escritas por nós mesmos”, recorda ao Observador.
Porque é que o público procura a comédia?
O humorista brasileiro considera que o público português acolheu mais rapidamente este tipo de humor, “talvez porque também recebem humoristas americanos e ingleses”, e por isso recebeu sem grandes questões o stand-up brasileiro. Além disso, concorda que o período pós-pandemia deu um impulso. “Sinto que as pessoas queriam muito sair de casa para ver alguém a fazê-las rir e essa procura não se esbateu com o tempo.”
Tanto que, além das atuações ao vivo, Porchat irá também gravar para a RTP um especial de humor. Chama-se Porta Para o Milhão, será uma sátira ao filme Quem Quer Ser um Milionário? e vai contar com um elenco português, de Ana Bola a José Raposo.
Nas salas de espetáculos, o objetivo é só um. “O público quer rir-se, divertir-se. Quer, durante o tempo que está ali, vivenciar aquela experiência de ter um artista a falar com ele em discurso direto. Portanto, faz parte daquele momento exclusivo e único”, aponta Sandra Faria. Além disso, os textos abordam geralmente situações do dia a dia com as quais as pessoas se identificam.
Hugo Nóbrega concorda. “Os espetáculos são bem pensados, há uma estratégia, mas penso que o público procura muito a simplicidade. Gosta de um texto com punch lines, que tem graça e ritmo, é basicamente isso. Penso que estamos todos aqui a viver uma fase em que a simplicidade aliada ao profissionalismo está a trazer grandes resultados.”
Para Jel, que vive deste mercado há mais de 20 anos, estamos perante “uma época dourada do humor e da comédia”. “A comédia é uma arte que vive de uma reação, que é o riso, e acho que há mais necessidade de as pessoas rirem hoje em dia devido ao excesso de informação que têm.”
O impulso do digital
O boom, concordam todos, deu-se muito graças à expansão das redes sociais e das plataformas digitais, como o YouTube, ou streamings como Netflix, que passaram a ter espaço para conteúdos de comédia. “Percebemos que o aparecimento das redes sociais mudou muito o jogo”, explica Hugo Nóbrega.
O streaming deu a conhecer o stand up comedy a muito mais público, considera Vasco Teixeira. “A Netflix fez muito pelo stand-up ao nível da oferta. Tirando o Levanta-te e Ri e humoristas pontuais, o stand-up era desconhecido em Portugal e acho que a curiosidade e o interesse das pessoas cresceu por aí.”
As plataformas digitais começaram por ser um inimigo que depressa se tornou aliado. “Antes, os humoristas não queriam divulgar o espetáculo, porque tinham medo que as pessoas já conhecessem as piadas. E agora com o streaming, mudaram essa cabeça, e mesmo a Porta de Fundos também contribuiu para isso. O facto de trabalharem tanto o digital e distribuírem os conteúdos, também mudou um bocado a cabeça aos humoristas portugueses. Podem ter material exposta e, mesmo assim, as pessoas vão querer ver os espetáculos”, diz Hugo Nóbrega.
Os festivais existem há largos anos, tinham público, mas não deixavam de ser um mercado de nicho. “Não havia esta dimensão de as pessoas poderem partilhar um story ou um post e esgotarem uma sala em minutos, não é? Realmente é uma ferramenta de divulgação que permite que as pessoas multipliquem datas, façam sessões extras, que trabalhem com uma estratégia e numa escala muito maior.”
O panorama, drasticamente diferente, permitiu uma democratização. “Antigamente os nomes eram conhecidos através da televisão. Os mídia decidiam quem estaria na televisão e era assim que a audiência crescia”, lembra Ricardo Soares, promotor do Mock Fest e diretor da agência Kilt. “Quando eu comecei, eu e a malta da minha idade, e estávamos na televisão ou não existíamos”, concorda Jel.
Na perspetiva do humorista, houve uma mudança na última década que também o obrigou a atualizar-se. “Sobretudo com o aparecimento do Instagram e do YouTube, apareceu uma nova geração que vem com muita força e que aproveita essas redes, essa possibilidade de contacto com os fãs para se tornarem profissionais da comédia. Nunca houve tantos humoristas profissionais em Portugal como há hoje. Eu acho que isso é bom para a malta mais velha, dá pica, temos de acompanhar.”
O fator da proximidade traz ainda outra mais-valia. “Este pessoal interessa-se em agradar àqueles que gostam deles. Sabem quem são os fãs, os seus seguidores, e é para eles que eles fazem os espetáculos e os conteúdos. Já não há aquela tendência que era comum à minha geração de querer agradar a toda a gente ou chegar a toda a gente, nem que fosse pelo choque, um bocadinho como eu fazia.”
Uma vaga passageira?
Que o crescimento foi rápido e que a oferta é grande, são factos, mas os promotores não consideram que seja uma moda passageira.
“Há pessoas que vão ficando pelo caminho, é como em tudo, é como na música. Há-de haver uma seleção natural, não é? Exatamente. E há-de haver quem continue a crescer e vá tendo cada vez mais público, mais visibilidade”, considera Sandra Faria.
Ricardo Soares consegue identificar vagas no passado, como o fenómeno Herman José ou Levanta-te e Ri, mas considera que o mercado é agora mais consistente. “Acho que não há retorno e até diria que há ainda uma grande expansão pela frente, quando o humor e o stand-up conseguirem chegar a mais salas e a mais mídia.”
Um negócio rentável
O mercado é atrativo, reconhece Ricardo Soares. “A margem de lucro será maior, à partida, é verdade. Será maior e será fácil de montar. Se for no sentido literal do stand-up comedy, basta efetivamente um banco, um tripé, um microfone e uma pessoa a falar, mas a partir dessa base também há uma desconstrução no humor e no stand-up comedy.”
“Vemos grandes produtoras multinacionais, como a Live Nation, a investirem em stand-up comedy porque é barato. Vemos grandes comediantes, aqui em Portugal a encherem as maiores salas do país. Não há grandes cenários, é uma pessoa em palco, pode ter algum artista convidado a abrir ou não, mas não é um grande musical da Broadway, não é uma banda de música que vem com não sei quantos camiões, equipamentos e imensas pessoas. É muito motivador a nível financeiro”, reconhece Sandra Faria.
▲ Fábio Porchat regressa a Portugal em dezembro para o Festival Porta dos Fundos
Quanto a valores, não há uma tabela, garante Sandra Faria, até porque há várias formas de produzir estes espetáculos. “Depende se é pensado por nós e fazemos o convite à pessoa, se o espetáculo é da pessoa e entramos como parceiros.
No caso dos teatros municipais, por vezes a entidade promotora e o artista conseguem ficar com 90% ou até 100% da bilheteira, além de esses espaços terem muitas vezes meios técnicos que cedem. Porém, os números não são lineares. O investimento e o lucro também varia consoante a forma como a bilheteira é trabalhada. “Há um formato de compra por parte do teatro ou de uma câmara municipal. Compra o espetáculo para dar aos seus munícipes a possibilidade de ver aquela apresentação. Há a modalidade de uma parceria: o artista e a produção fica com a receita da bilheteira e a autarquia pode ajudar com a logística de alojamento e refeições, por exemplo. Por último, há o aluguer puro e duro. A produção aluga a sala, sendo que as despesas e o lucro ficam todos do nosso lado”, resume Sandra Faria.
Por outro lado, há mais despesas, porque a logística para montar um espetáculo de stand-up é agora muito mais elaborada. É preciso investir em luz, vídeo, som, e por vezes convidados. “Os humoristas também já querem, muitas vezes, algo além do texto. Querem imagem, querem ecrãs, querem luz, no fundo querem criar uma experiência imersiva com o público”, explica Vasco Teixeira.
Nenhum dos promotores avança números concretos, tendo em conta as inúmeras variantes, mas se simplificarmos e voltarmos ao básico (uma apresentação de stand-up num clube de comédia), Miguel Vaz dá uma ajuda. “Tendencialmente, uma pessoa menos experiente ganha se calhar 10€ ou 20€ por uma atuação de cinco minutos, muitas vezes nem ganha. Os comediantes convidados conseguem ganhar 50, 60 ou 70€ numa noite, por uma atuação também de 10 ou 15 minutos”, diz, ressalvando que os números concretos variam consoante o espaço e o dia da semana. Passando para os cabeças de cartaz num evento como um festival, por exemplo, “talvez ganhem 200 ou 300€ numa atuação”.
Rodrigo Correia, que se despediu recentemente, está a aprender a gerir as contas. As noites de stand-up em clubes são uma fonte certa de rendimento, mas há outros projetos que vão dando uma ajuda. “Tenho um podcast, o Correr de Chinelos, e tenho tido algumas reuniões para novos projetos. Há muita coisa a acontecer na área.”
Para Ricardo Soares, o crescimento do setor explica-se igualmente pela atratividade que estes espetáculos começam a representar para diversas marcas. “Os comediantes começam a ser cada vez mais pesados, começam a ter uma massa maior de audiência. As marcas interessam-se por esse tipo de oferta de comunicação, na medida em que conseguem ter aqui um veículo de que chega a muitas pessoas. É um veículo muito independente, que funciona de forma muito eficaz através das redes sociais.”
Cada vez mais clubes de comédia
“Há um crescimento gigante de clubes de comédia, não só em Lisboa, mas um bocadinho por todo o país, onde começa a aparecer malta nova a experimentar material novo. Isso acaba por ter um crescimento e uma ramificação grande e também crescem para outros palcos”, explica Sandra Faria.
Hugo Nóbrega concorda e acha que o público até vai à procura de talentos desconhecidos. “Acho que as pessoas estão a arriscar, querem ver pessoas que ainda não são conhecidas.”
Lisboa Comedy Club, Cais a Rir (no Cais do Sodré), Bairro da Comédia (no Bairro Alto) ou mesmo do outro lado da ponte, o Barrir, no Barreiro, são apenas alguns dos espaços que fervilham no momento. A ânsia de descobrir nomes novos por parte do público é grande, a vontade de fazer rir ainda é maior por parte dos comediantes.
Em Lisboa, que concentra o maior número de humoristas, não é, por isso, preciso procurar muito para ver comédia em qualquer dia da semana. “O aparecimento de espaços como o Comedy Club, que foi pioneiro, fez muito para potenciar esta área”, considera Jel.
Contrariamente ao teatro e à música, cuja preparação se faz em ensaios, um comediante só evolui em frente ao público. “Tu podes estar em casa a pensar que estás a escrever a melhor piada do mundo, mas só quando a levas ao público é que tu sabes se ela resulta ou não, ou de que maneira é que podes melhorá-la.”
Segundo Miguel Vaz, há uma diferença no público dos clubes de comédia que habitualmente procuravam estes espaços em datas especiais. “Antes era uma coisa diferente para se fazer num aniversário, por exemplo. Agora vejo grupos de amigos que vão semanalmente a um clube de comédia.”
Um fenómeno curioso acontece no Barreiro. “Antigamente as pessoas vinham da Margem Sul para ver comédia. Agora atravessam a ponte para ver comédia na Margem Sul. O Hélder, a pessoa que está à frente do Barrir, é um ótimo dinamizador. O conceito espalhou-se de boca em boca e agora tem grandes nomes a passarem por lá.”
Depois de ter atuado com frequência no Comedy Club, foi num local inesperado que Madalena Malveiro encontrou espaço para oferecer ainda mais programação de stand-up em Lisboa. Uma noite, no Finalmente Club, viu uma atuação da drag queen Deborah Krystall que, no final, interagiu com o público como se estivesse num espetáculo de stand-up. “Pensei logo: ‘Isto era um ótimo sítio para fazer comédia’. Chateei o dono, que nos deixou fazer espetáculos de forma esporádica.” Correu tão bem que o esporádico deu lugar a uma sessão semanal, que dinamiza juntamente com Pedro Correia, cujo cartaz é segredo até bem perto da data.
Aos 28 anos, Madalena trabalha numa editora discográfica e, apesar de o objetivo a longo prazo ser viver do humor, sabe que até lá chegar o essencial é essencial desdobrar-se em espetáculos. “O meu principal objetivo é só trabalhar o meu texto e ficar boa nisto.”
As mulheres humoristas dominam?
Até 2018, diz Hugo Nóbrega, era muito difícil ter nomes femininos num espetáculo de stand-up. “Eram sempre pessoas que eram convidadas a fazer, e faziam bem, mas não se assumiam como profissionais.” Para o promotor, o receio era o principal fator — receio de não terem piada, de não serem levadas a sério. “Até um certo ponto, as mulheres achavam que isto era um convite e pronto. ‘Vou ali ao palco, faço um festival, mas isto não vai ser a minha vida. Face ao crescimento da indústria profissionalizaram-se e trabalharam bastante. Estes nomes todos de mulheres que temos agora a encher salas, não nascem só da vontade do público, elas trabalharam de forma muito dedicada e criaram estruturas próprias.”
“Estão a aparecer muitas mulheres, o que é um fenómeno incrível”, aponta Sandra Faria, mas explica: “Penso que é uma coincidência de timing”. “Não acho que elas estejam a dominar. Acho que, por coincidência, criaram espetáculos que estrearam agora nestes últimos tempos ou vão estrear. E acredito que no próximo ano apareçam novas tours de homens e, de repente, pensamos, ah, eles agora estão a dominar.”
No entanto, reconhece, há meia dúzia de anos podiam contar-se pelos dedos de uma mão as mulheres que faziam stand-up.
O facto de espetáculos como Sombra (de Bumba na Fofinha), Namastê (de Inês Aires Pereira) ou Em Sede Própria (de Joana Marques) esgotarem rapidamente têm um motivo, considera. “Estatisticamente, há mais mulheres do que homens a comprarem bilhetes para ir ver espetáculos — estou a falar de espetáculos sem ser de concertos de música. São muito mais proativas em relação a comprar um bilhete para ir ver um espetáculo e, portanto, acredito que também esta apetência por parte das mulheres de irem ver mulheres é um facto nestes últimos anos. Obviamente que depois arrastam os homens.”
Ainda há salas onde o stand-up não entra
Auditórios, multiusos, cineteatros — há uma rede grande de salas capacitadas para receber espetáculos de humor. Porém, diz Sandra Faria, “existe, por vezes, receio pelo país fora de receber comediantes menos conhecidos ou que causam algum desconforto”.
Dá como exemplo Sincera Mente, espetáculo drag que já esgotou várias datas no Teatro Villaret, em Lisboa. “Temos sentido que se saímos de Lisboa e do Porto já é mais difícil colocá-la por causa do receio. ‘Uma drag queen, mas o que é isso?’ Como é que isto vai funcionar?”.
Há salas de gestão pública e de gestão privada. As primeiras, explica, são as que levantam mais entraves. “Os teatros públicos estão muito entregues a direções artísticas que têm uma linha autoral que faz com que exista alguma ditadura de rosto e, portanto, não estão abertas a todos, não é?”
Segundo Hugo Nóbrega, “80% das salas em Portugal hoje em dia mostram abertura”. Ainda assim, há salas onde não é comum haver stand-up e essas portas não se abrem de um dia para o outro. Considera, por isso, que por vezes deve haver versatilidade por parte dos artistas. “Acho que os humoristas também têm de perceber que têm que se calhar apresentar o espetáculo de uma forma mais trabalhada para os teatros entenderem a programação. As salas têm direito a ter uma programação. Também têm direito a opinar qualitativamente sobre o que é que acham que devem apresentar ou não.”
▲ Jel garante: vivemos “uma época dourada do humor e da comédia”
FILIPE AMORIM/OBSERVADOR
Para Miguel Vaz, a grande maioria dos humoristas não está disposta a fazer grandes cedências no respetivo material, mas ressalva que “é uma questão de bom senso e de saber entender as reticências do local em causa”.
Na Kilt também se sentem dificuldades nesta questão. “Há salas que ainda têm um perfil tacanho de diminuir o tipo de arte ou o tipo de espetáculo que é o stand-up e portanto nem sequer abrem a porta. Sobretudo se sairmos de Lisboa, e estamos a falar de salas públicas na sua maioria”, conta Ricardo Soares.
Restam muitas vezes as salas de gestão privada, com as quais a interação é mais fácil, mas há um reverso da medalha. “Dou como exemplo o Diogo Batáguas, que está por exemplo a desenvolver um espetáculo durante um ou dois anos. De repente, estarmos a levar o espetáculo para uma sala privada que, por mais que dê o seu melhor, não consegue ter a capacidade de uma sala pública, é desprestigiante para o tipo de espetáculo que queremos oferecer. É raro que uma sala privada tenha as mesmas condições de um Tivoli ou de um Coliseu, mas jogamos com as regras que existem no mercado.”
Para a Setlist, a questão das salas é a maior entrave no setor. “Se existe mais abertura das salas? Existe, na medida em que há 15 anos existia zero, mas continua a ser muito difícil chegar a certos teatros municipais. Muitas vezes demoram semanas a responder a um simples email, ou nem respondem. São teatros geridos por fundos municipais, são pessoas que ganham os seus ordenados certos ao fim do mês e, portanto, o teatro não dependem de bilheteiras. Logo, muitas vezes notamos pouca paciência ou vontade de gerir a abertura de novas datas, já para não falar da burocracia. Exigem muita documentação, muitas camadas de aprovações.”
Jel conhece bem as entraves, que tem enfrentado inúmeras vezes nos últimos anos. Reconhece que têm vindo a diminuir, “até pela pressão das pessoas que vivem nesses locais e que querem ver humor e stand-up”, mas ainda há um caminho longo a percorrer. “É triste, quase criminoso, mas há alguns programadores à frente dos teatros municipais que torcem o nariz à comédia, que olham para a comédia como um espetáculo menor.”
Os festivais roubam público?
Nomes conhecidos chamam público, o público descobre nomes novos e, assim, o mercado continua a alimentar-se e a crescer. “As pessoas que se calhar vão comprar um bilhete para o festival para ver o humorista X, acabam por descobrir outros nomes. E é acesso à cultura, o que é sempre positivo”, defende Sandra Faria.
Porém, Hugo Nóbrega, reconhece que há algum receio por parte dos humoristas de se apresentarem a solo e num festival. “Acho que há mercado para as duas coisas. Não há nada que nos diga que as pessoas vão ao festival e depois já não vão ver aquela pessoa a solo, mas é um medo que os humoristas têm muitas vezes. Porém, os formatos são diferentes.”
Recorda que, na época do The Famous Fest, encontraram uma estratégia para retirar esse peso aos artistas. “Tínhamos sessões inéditas e, muitas vezes, tínhamos dois ou três humoristas na mesma sessão, nomes de topo a trabalharem com 20 ou 25 minutos cada. Tínhamos também encontros inesperados entre artistas e isso deixava-os mais descontraídos.”
▲ Diogo Batáguas é um nome habituado a atuar pelo País e, em 2018, Hugo Nóbrega já juntava grandes nomes no The Famous Fest
Hugo Macedoninstagram:@macedo
Para Ricardo Soares, além da oferta que dão ao público, os festivais têm o propósito de juntar humoristas e, assim, fomentar possíveis novas ideias. “Eles estão no backstage e falam, interagem, criam novos projetos. Então, os festivais compreendem esse propósito de união e de comunicação.”
Segundo Fábio Porchat, essa união é das coisas que mais procura neste tipo de eventos. “Penso que no meio da comédia há uma comunidade que gosta genuinamente de ver os colegas atuarem. E, no caso do stand-up, que não é considerado teatro e na comédia é um pouco rebaixado, os comediantes de stand-up acabam por unir-se mais por estarem ali no meio a levar porrada.”
Ainda assim, alerta Vasco Teixeira, a gestão tem de ser bem feita por parte de artistas e promotores. “É um bocadinho o nosso trabalho como agentes, perceber o que faz sentido em termos de vendas. Se um artista tem datas a solo que está a vender no próximo mês, se calhar não vai agora a um festival.”
Há 12 anos que Jel é responsável pela programação do Palco Comédia do NOS Alive e nessa altura, lembra, não era assim tão fácil compor um alinhamento. “Às vezes tínhamos mais dificuldade em preencher os primeiros horários. Hoje acontece o oposto. Quando vou a clubes de comédia, vejo miúdos novíssimos com um andamento que é estimulante.”
Quando se apresenta em festivais, além de descobrir nomes novos, percebe que ele próprio conquista outro tipo de audiência. “De repente, estes miúdos criam um público de miúdos que vai ali por eles, mas que, se calhar, olha para mim e pensa: ‘Deixa-me lá ver o que é que este velhote está a fazer, porque eu gosto de stand-up.’ Às vezes é tão simples quanto isso.”