Quando Emmanuel Macron saiu do carro preto em que viajara e enfrentou a chuva copiosa que caía em São Bento para apertar a mão de Luís Montenegro, na chegada à residência oficial do primeiro-ministro, não estava certamente a começar a viagem mais delicada que teve para fazer esta semana. Essa fora a Washington, quando se tornou o primeiro líder internacional a visitar Donald Trump neste seu segundo mandato, cabendo-lhe fazer a defesa da posição europeia sobre a Ucrânia enquanto as relações entre Europa e Estados Unidos atravessam um momento particularmente delicado.
Em comparação, o gesto de andar de mãos dadas durante uns segundos com Montenegro pareceu fácil, caloroso e, a avaliar pelo resto do dia que os dois líderes partilharam, uma tentativa de provar que Portugal e França devem fortalecer as suas relações em tempos difíceis.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
A viagem era “histórica”, como diria Montenegro: afinal, desde a visita de Jacques Chirac, em 1999, que um chefe de Estado francês não marcava uma visita de Estado a Portugal. Mas o contexto atual tornava-a mais relevante, já que foi noticiado pelos órgãos franceses, perto da altura em que Montenegro e Macron já almoçavam juntos, que Donald Trump terá chegado a cancelar, nesta quarta-feira à noite, o encontro que tinha marcado com Volodymyr Zelensky nos Estados Unidos para esta sexta-feira, tendo acabo por ser dissuadido precisamente pelo Presidente francês — uma notícia que o próprio Macron acabaria por confirmar, na sua passagem pela Assembleia da República, por entre uma agenda recheada que incluiu idas ao Mosteiro dos Jerónimos, a São Bento e ao Centro Cultural de Belém.
E se o Palácio do Eliseu tinha informado os jornais franceses de que um dos objetivos da visita seria discutir os “desafios essenciais” partilhados por Portugal e França no que toca à segurança europeia, o tema acabou por invadir a visita mesmo em momentos que eram, em tese, dedicados a outros assuntos.
Aconteceu quando os dois líderes se encontraram no Centro Cultural de Belém, da parte da tarde — a chuva insistente atrapalhou os planos, que tinham sido desenhados para decorrerem num veleiro e tiveram de ser alterados de improviso — para assinalarem a passagem de testemunho de Portugal, que co-organizou com o Quénia a última conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos, para França, que fará arrancar a próxima edição em Nice, em junho deste ano. Na plateia estavam vários elementos dos dois governos, incluindo os ministros portugueses Paulo Rangel (Negócios Estrangeiros), Maria da Graça Carvalho (Ambiente e Energia), Pedro Reis (Economia) e Nuno Melo (Defesa).
E, se ambos os líderes lembraram a grande ligação ao mar dos dois países e frisaram o caminho que ainda é preciso percorrer para “governar o alto mar”, ainda quase todo por regulamentar, e preservar a biodiversidade, depressa se chegou ao tema que ocupa boa parte da agenda europeia e mundial. Depois de cumprimentar o “cher Emmanuel”, a quem deu a “bienvenue” a Portugal, Montenegro frisou a importância de ambos terem partilhado reflexões sobre temas como “o papel da Europa no mundo”, a necessidade de “assegurar mais paz”, o valor das “vidas humanas” e do “direito internacional”.
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Depois foi mais específico: “Quero congratular o Presidente Emmanuel Macron pela sua postura e pelo trabalho que tem evidenciado e que nas últimas semanas tem estado muito notado, precisamente para, no contexto internacional, dar passos positivos para que possamos ter um processo de paz na Ucrânia, com a Ucrânia, com a Europa”, sinalizou Montenegro, frisando a relevância do papel do Presidente francês na “superação de conflitos” e para “um mundo onde os direitos das pessoas sejam sempre salvaguardados”.
Macron deixa avisos: é preciso proteger “multilaterismo” num mundo “fragmentado”
Também o Presidente francês, que subiu depois de Montenegro ao palco para defender a importância da assinatura do Pacto Europeu do Oceano, conseguiu, por entre elogios à “inspiração” que é Portugal em termos de proteção marítima, referir a relevância de estas duas “nações marítimas” preservarem laços fortes e protegerem os valores do multilateralismo, dado o “contexto geopolítico” atual.
“É precisamente neste contexto que um trabalho deste cariz é mais importante”, com um mundo a “fragmentar-se” e em que os valores partilhados e os valores do multilateralismo “se deslocam”, avisou, antes de convidar Montenegro a viajar até Nice em junho. Já à tarde, de passagem pela Assembleia da República, tinha deixado avisos semelhantes, depois de ter sido conhecida a notícia de que teria convencido Trump a receber Zelensky para celebrarem o acordo dos minerais, a pedido do Presidente ucraniano.
No Parlamento português, o Presidente francês confirmou a notícia e explicou que está em causa um “combate pelo direito internacional, pela soberania e pela segurança dos europeus”: “É existencial”, assegurou, em declarações aos jornalistas. E insistiu: “Os europeus têm que estar unidos e fortes mais do que nunca. O laço entre Portugal e França é um dos sinais dessa Europa mais forte. Temos que ser mais fortes em matéria de tecnologia, indústria, defesa…”.
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Pelo meio, uma farpa aos Estados Unidos e ao atual estado da relação com a Europa: “Estou muito feliz por esta visita de Estado neste momento que atravessa a Europa e o mundo, quando há muitas incertezas e às vezes as alianças muito antigas são questionadas”, fez questão de sublinhar.
Um recado no mesmo sentido já tinha sido deixado por Marcelo Rebelo de Sousa, depois de ter partilhado os primeiros momentos da visita a Portugal com Macron, na chegada ao Mosteiro dos Jerónimos: aos jornalistas, o Presidente da República fez questão de defender que “a Europa está unida” no desejo de uma “paz justa e duradoura” e falar da Ucrânia — tema que abordara na sua audiência com Macron — para dizer que neste segundo mandato de Trump, mais próximo de Vladimir Putin, os “líderes europeus estão a encontrar fórmulas para a Europa não ser metida fora do que também lhe respeita”.
Além disso, também se pretende que “Ucrânia possa não só ser metida dentro como ter uma palavra a dizer” sobre o seu futuro, reforçou o Presidente da República. E deixou um elogio a Macron por “sempre se ter dado bem com os governos portugueses”.
O encontro privado demorado, o bacalhau e a chuva “abençoada”
Esta quinta-feira, primeiro dia da visita a Portugal — na sexta-feira Montenegro andará pelo Porto com Macron –, o Presidente francês pareceu assim querer dar sinais, numa altura em que frisa a importância de a Europa se mostrar unida e preparada para preservar a sua força no xadrez mundial, de que a relação com Portugal está em boa forma.
Das mãos dadas com Montenegro ao “gosto” com que o primeiro-ministro disse estar a recebê-lo e a assinar uma série de instrumentos bilaterais, incluindo um tratado de amizade e cooperação entre Portugal e França, a visita foi cheia e, segundo o primeiro-ministro, “abençoada” pela chuva constante.
O encontro privado a dois, entre a chegada a São Bento e a hora de comer, demorou-se (atrasando também o almoço dos convivas). E a gastronomia portuguesa — que Montenegro chegou a elencar, junto da “recetividade” dos portugueses, como motivo para os franceses gostarem de passar férias em território luso — ficou em exposição no almoço que as duas delegações partilharam em São Bento: bacalhau com broa em cama de grelos, seguido de um pudim abade de priscos.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Esta sexta-feira Macron segue para o Porto, estando previsto que responda a perguntas ao lado de Montenegro, que não falou aos jornalistas durante este primeiro dia de visita. Deverá ainda assim ser um momento diplomaticamente mais simples para Macron do que a última conferência que fez ao lado de um líder estrangeiro, Donald Trump, e em que acabou a corrigir o Presidente norte-americano sobre as ajudas europeias à Ucrânia.