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Beastie Boys. A história de três malandros que conquistaram o mundo com punk, hip hop e ativismo /premium

De putos tolos e inconvenientes a grupo com consciência sócio-política. Os Beastie Boys são um dos exemplos mais inspiradores de evolução da música pop. E escreveram um livro que conta tudo.

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Perderam a atitude parva quando passou o acne, mas nunca deixaram de ser realmente irreverentes, nem mesmo agora, com mais de 50 anos. Na verdade, eles não queriam ser insolentes quando fizeram criancinhas chorar nos espectáculos em que abriram para Madonna, em 1986. Ou quando destruíram quartos de hotel em Londres, no mesmo ano. Ou, no ano seguinte, quando fizeram uma digressão com dançarinas dentro de gaiolas e um pénis gigante que entrava em palco ao som de “Fight For Your Right To Party”. Essas e outras parvoíces aconteceram só porque pareciam ter piada — e os adolescentes acham sempre que devem ter piada. Depois as pessoas crescem.

Há algumas coisas nos Beastie Boys de que apetece não gostar, quase todas da fase de Licensed To Ill, o álbum que os tornou estrelas aos 20 anos, lançando-os num circo mediático surreal. Mas toda a gente, até as feministas, que deviam odiá-los por causa das miúdas nas gaiolas e algumas bocas impróprias, etc, desenvolveram um carinho especial pelos rapazes (Kathleen Hanna, das Bikini Kill e Le Tigre, é casada com Ad Rock…). Parece agora que toda a gente reconhecia a ironia que sustentava a pose e atitude do início mas eles próprios olham para o passado com alguma vergonha. Citando Adam Horovitz Rock, “é preciso mesmo pensar bem antes de se dizer ou fazer coisas estúpidas (…) pensem em vocês no futuro, a olhar para trás (…) vão acabar a pagar renda de um armazém em New Jersey durante 30 anos para guardar um pénis gigante numa caixa”.

Ao longo dos anos, os Beastie Boys aproveitaram vários momentos para uma redenção pública dos atos embaraçosos de juventude. Em 1999 já escreviam cartas na TimeOut New York a pedir desculpa à comunidade LGBT pelos disparates ditos no primeiro álbum. Mais significativo ainda, nunca mais tocaram “(You Gotta) Fight For Your Right (To Party)” depois de 1987. Quiseram descolar-se dessa imagem.

[“(You Gotta) Fight For Your Right (To Party)”, do primeiro álbum, “Licensed to Ill”:]

Questões de adolescência

Ficamos a saber que a relação dos Beastie Boys adultos com os Beastie Boys adolescentes é de algum conflito, quando lemos Beastie Boys Book, o livro que conta a história do grupo pela voz dos próprios e alguns amigos próximos. É mais de 1kg (571 páginas de capa dura) de histórias e fotos incríveis, um dos documentos sobre música mais cativantes que podemos ler por estes dias, talvez porque é feito de pequenas histórias na primeira pessoa, sem filtro e com muitas anotações.

Está cheio de humor, amor, informação e música. O puzzle de perspetivas é rico e caleidoscópico, mas não esgota a história, até porque falta a visão de Adam Yauch/MCA, que morreu em 2012. Segundo Mike D e Ad Rock, Yauch era o elemento propulsor, a carta fora do baralho que aparecia com novas ideias (válido para snowboard e budismo, entre outras). Ainda assim, Beastie Boys Book é o mais perto que conseguimos chegar da autobiografia oficial do grupo: três miúdos de Nova Iorque que começaram por ser uma banda punk hardcore de 4 elementos, um deles uma rapariga. Tinha tudo para não dar certo, mas deu. Só que não na cena punk hardcore.

A capa de “Beastie Boys Book”, à venda nas lojas online como a Amazon ou o Book Depository

BEASTIE é acrónimo de Boys Entering Anarchistic States Towards Inner Excellence. O próprio Mike D, num dos textos que assina, considera que a frase “não fazia sentido nenhum”, menos ainda com a palavra Boys a seguir, que tornava o nome “ridículo e redundante”, além de falso, porque tinham uma baterista, Kate Shellenbach (acabou por ser despedida por Rick Rubin antes do primeiro álbum por ser rapariga, mais tarde juntou-se às Luscious Jackson. Conta no livro como se sentiu posta de parte no dia em que regressou de uma viagem pela Europa e os rapazes estavam vestidos com fatos de treino iguais comprados por Rick Rubin, que também tinha um).

Beastie Boys soava bem a putos com menos de 18 anos, era um nome com atitude e foi o início de tudo. Antes mesmo de haver canções, houve pins com o nome, porque eles eram (ou aspiravam ser) punks, ouviam Bad Brains e Black Flag, mas também coisas europeias como PIL ou Clash. Começaram no emergente punk hardcore, a venerar a velocidade da música e a facilidade de fazer as coisas acontecer. Os pins faziam parte da cena. Tal como imitar o look de Joe Strummer e Mick Jones, dos Clash. Ou não usar mochilas. No caso de ter mesmo que ser, segundo Adam Horovitz, a mochila “só pode estar presa por uma alça, num dos ombros” e “deve ter pins de bandas, máximo cinco”, sob pena de “parecer que estamos a esforçar-nos demasiado”.

Em 1981 tudo acontecia ao mesmo tempo. O grupo de miúdos a que pertenciam os Beastie Boys saía todas as noites e tanto ia ao CBGB, ver concertos punk, como à Danceteria ou ao Mudd Club, ouvir música e dançar. Também ouviam rádio e frequentavam lojas de discos, uma loja de discos em particular, a Rat Cage.

Tanto os textos de Mike D como de Adam Horovitz/Ad Rock sobre esta fase de descoberta da música pela via do punk, e como, na cidade de Nova Iorque de final dos anos 70, isso os levou a uma infinitude de música (punk mas também funk, rock, disco, hip hop, reggae, ritmos latinos…), são de riqueza comovente e entusiasmo contagiante. O texto das mochilas (“Well, Back In My Day”), por exemplo, assinado por Horovitz, é quase um tutorial da complexa problemática de gravar, transportar, ouvir e reparar cassetes, na era em que as cassetes eram um acessório fundamental para qualquer adolescente com aspirações a ser “alternativo” (a expressão não existia ainda, falava-se em punk, ou pós punk, a ideia era sempre ser cool).

Através dos seus relatos, percebemos um pouco da efervescência da cidade e de como tudo o que aconteceu com os Beastie Boys reflete a liberdade criativa de uma época em que uma banda punk hardcore sofrível pôde transformar-se no primeiro grupo de hip hop, de brancos, com sucesso à escala mundial.

Nova Iorque 1981

Em 1981 tudo acontecia ao mesmo tempo. O grupo de miúdos a que pertenciam os Beastie Boys saía todas as noites e tanto ia ao CBGB, ver concertos punk, como à Danceteria ou ao Mudd Club, ouvir música e dançar. Também ouviam rádio e frequentavam lojas de discos, uma loja de discos em particular, a Rat Cage, local de encontro e fonte de informação, foi fundamental na história da banda porque forneceu abrigo, inspiração e conhecimento, além de lhes ter editado os primeiros EPs. O livro tem um mapa de Nova Iorque com todos os pontos importantes na história da banda, que também serve de roteiro para perceber o pulsar criativo da cidade. “Beastie Revolution”, o texto de Luc Sante, retrato de 1981 com os Beastie Boys no meio, fornece referências a velocidade estonteante, contextualizando e unindo os pontos dentro da cidade e para fora dela.

É difícil não desejar ter lá estado, tal o fervilhar cultural, político e musical retratado. Foi por causa desse caldeirão em ebulição que os Beastie Boys deixaram o punk hardcore e seguiram pela via do hip hop, na altura o elemento agregador de todas as referências. A primeira experiência foi acidental: “Cookie Puss”, em 1983, um proto punk funk feito por brincadeira quando tiveram horas de estúdio para fazer experiências. Para surpresa de todos, “Cookie Puss” começou a tocar nos clubes e chamou a atenção, o que criou expectativas e oportunidades. E obrigou a tomar decisões estratégicas.

[“Cookie Puss”, dos Beastie Boys:]

Para passarem ao próximo nível e fazerem de facto hip hop, como aspiravam (era o som do momento!), os Beasties tinham que deixar as guitarras de lado, ser MCs e ter um DJ. Para serem MCs estudaram os exemplos disponíveis (saíam discos novos todas as semanas, era só apanhar dicas e imitar o flow, o que explica algum primarismo lírico do primeiro álbum). O DJ escolhido, apresentado por um amigo, foi DJ Double R, mais tarde conhecido como Rick Rubin, o fundador, com Russell Simmons, da Def Jam, que lançou Licensed To Ill em 1986 e fez dos Beastie Boys estrelas mundiais.

O êxito do disco foi tremendo, superou em muito os delírios mais extravagantes de três miúdos brancos e só queriam ser os Run DMC. As solicitações dispararam, havia até planos para fazer um filme. Mas as relações azedaram. Os Beastie Boys acabaram por sair da editora porque já não achavam piada ao facto de serem outros a tomar decisões por eles.

Emancipação

Após a rutura, o grupo entrou em fase de reclusão e reflexão. Regressou em 1989 com o brilhante Paul’s Boutique. Se Licensed to Ill era nervoso adolescente, Paul’s Boutique é obsessão metódica, vontade de ir mais longe, diggin e ciência rítmica. Com ajuda dos Dust Brothers e de Mario Caldato Jr, os Beastie Boys fizeram uma verdadeira obra prima do sampling, um disco que ainda hoje desafia e emociona, sobretudo quando pensamos na mudança de paradigma que representa. Também foi uma confusão legal por causa dos samples e um flop comercial aquando do lançamento mas, continua a ser, para muitos (eu incluída), o melhor disco dos Beastie Boys. Ainda que rivalize com os dois seguintes.

[“Hey Ladies”, do álbum “Paul’s Boutique”:]

A frustração de Paul’s Boutique, o facto da própria editora (Capitol) não ter investido nele, levou os Beastie Boys a procurar outras vias e a regressar aos instrumentos e tocar em vez de confiar exclusivamente em samples da música de outros. O resultado foi Check Your Head, um disco que somava tudo e acrescentava algo mais. Check Your Head é hip hop, mas também tem punk rock, expressa amor por músicos de jazz como Richard Groove Holmes e de rock como Jimi Hendrix. Ao terceiro disco, depois da turbulência juvenil da estreia e da ambição do segundo álbum, os Beastie Boys decidiram que o melhor era divertirem-se e criaram um clássico nada óbvio, um disco livre e diverso.

Por esta altura, faziam realmente o que queriam. Aproveitando o facto de, segundo Mike D, ninguém na Capitol querer ter nada a ver com eles, mas ainda assim continuarem a dar dinheiro, os Beastie Boys foram criando o seu próprio reino: a Grand Royal. Também começou por ser só um nome, depois transformou-se em editora, fanzine, marca de roupa… acabou por consumir demasiado tempo e dinheiro aos Beastie Boys e cessou atividade em 2001 mas deixou alguns items de culto (nomeadamente as fanzines com flexidiscs e vários discos, entre eles das Luscious Jackson que acabaram por editar em jeito de redenção por terem despedido Kate Shellenbach anos antes).

[“Pass the Mic” do álbum “Check Your Head”:]

Esta fase, a de emancipação, quando os Beastie Boys libertam a pele da provocação juvenil e partem à procura de nova identidade e desafios, ajudados por gente como Mario Caldato ou Money Mark, é a mais interessante do grupo. Ill Communication, de 1994, faz parte desse período, mantém o mesmo espírito livre e aberto que permite disparar em várias direcções e é também o primeiro disco onde começam a ser claras as preocupações humanitárias dos Beastie Boys.

Adam Yauch, converteu-se ao budismo e foi ao Tibete conhecer o Dalai Lama. Rapidamente se tornou activista e contagiou não apenas Mike D e Ad Rock, como praticamente toda a comunidade musical mundial, através da organização dos Tibetan Freedom Concerts, festivais que aconteceram entre 1994 e 2003. Ninguém mais se atreveu a tratá-los como putos inconsequentes depois disso, mas nunca se livraram realmente de toda a mística provocatória do primeiro álbum que, por sinal, é dos menos interessantes a nível criativo, embora tenha uma energia incomparável (e continue irresistível, mesmo com todas as parvoíces).

Há muitos pormenores no Beastie Boys Book que nos agarram. Pequenas e grandes e histórias sobre coisas importantes e algumas sobre aparentes insignificâncias que se revelam fundamentais, fotos de Spike Jonze, textos de Wes Anderson, Amy Poehler ou Mixmaster Mike.

Na verdade, os Beastie Boys não têm nenhum disco mau, ainda que tenham alguns menos bons. Hello Nasty não tem grandes falhas e, tal como Hot Sauce Committe part 2, o derradeiro álbum, revela uma chama criativa bem real. To The 5 Burroughs parece ser o menos bem amado por toda a gente, Beastie Boys incluídos, talvez porque tinham decidido previamente que não iam ter instrumentais e estavam nas gravações quando aconteceu o 11 de setembro, o que acabou por condicionar a mensagem e tudo o resto. A veia lírica consistentemente interventiva nunca foi o forte dos Beastie Boys (nem na fase do punk hardcore, como explicam no livro, eles tinham letras abertamente políticas, apesar de serem fãs de Crass… segundo eles era falta de empenho e talento para escrever com a substância necessária).

[“Nonstop Disco Powerpack”, do álbum “Hot Sauce Committe part2”:]

Há muitos pormenores no Beastie Boys Book que nos agarram. Pequenas e grandes e histórias sobre coisas importantes e algumas sobre aparentes insignificâncias que se revelam fundamentais, fotos de Spike Jonze, textos de Wes Anderson, Amy Poehler ou Mixmaster Mike. É uma visão panorâmica de 30 anos de Beastie Boys que não pode ser resumida mas que Mike D condensa numa espécie de manifesto final:

“Ao longo dos anos a banda passou de uma máquina em gravação e digressão permanentes, a algo sustentável, a que podiamos voltar quando precisávamos. Aconteceram-nos coisas de adultos. Construímos famílias, tivemos filhos, desenvolvemos interesses separados, tudo. Mas voltávamos sempre a estar juntos para nos divertirmos e fazermos coisas. E continuaríamos a fazer isso se Yauch fosse vivo”.

História bonita. Música incrível. Livro magnífico.

Isilda Sanches é jornalista e animadora de rádio na Antena 3

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