“Bom Crioulo”: o livro “podre”, “detestável” e maldito que chocou o Rio de Janeiro

14 Abril 2018104

Em 1895, Adolfo Caminha chocou os críticos com a publicação de um romance sobre um marinheiro gay e negro que se apaixona por um grumete loiro de olhos azuis. O livro tem uma nova edição portuguesa.

Quando Adolfo Caminha publicou, em 1895, Bom Crioulo, os homossexuais e os negros não tinham lugar na literatura brasileira. Não é por isso de estranhar que os críticos da altura não tenham sido brandos com o segundo romance do escritor cearense, que relata a paixão louca e trágica de dois oficiais da Marinha, um branco e outro negro. Chamaram-lhe de tudo — um livro “asqueroso”, “podre”, pornográfico e ignóbil –, acusaram Caminha de não perceber nada de literatura e de, nas páginas da sua obra, ter descrito a sua própria vida. Indignado, defendeu-se num texto que veio a ficar famoso: a “julgar como certos imbecis” afirmavam que as “personagens de um romance devem reflectir o carácter do autor”, Flaubert, Zola e Eça de Queiroz tinham praticado “incestos e adultérios monstruosos”. Eram monstros e sobre monstros tinham escrito.

Apesar do escândalo que a publicação de Bom Crioulo provocou naquele ano de 1895, sobretudo no Rio de Janeiro, a morte precoce do seu autor aos 29 anos fez com que o romance caísse no esquecimento. Só voltou a ser editado, muito parcialmente, décadas depois, em 1936. O lançamento não caiu bem à Marinha brasileira que, inicialmente, nem tinha dado conta da existência do livro. Pediu-se então a sua proibição, com a justificação de que se tratava de uma obra comunista. O que acabou mesmo por acontecer — durante a ditadura de Getúlio Vargas, tornou-se num dos livros proibidos pelo Estado Novo. Só na década de 1950 é que Bom Crioulo voltou a ser reproduzido com alguma dignidade, numa edição de Adriano da Gama Kury, que restabeleceu o texto original, alterado significativamente por J. Fagundes 20 anos antes.

Foi, contudo, nos anos 80 que o Brasil e o mundo despertou para a obra, para o seu autor e para a sua importância. Bom Crioulo foi então alvo de inúmeras reedições e até traduções, recebendo boas críticas fora do Brasil. Em 1982, quando saiu a edição em inglês da Gay Sunshine Press, foi louvado por alguns críticos como o texto fundador da “literatura gay” brasileira e não só. O tradutor, Edward Lacey, foi mais comedido: descreveu-o como “uma das obras de ficção mais peculiares do século XIX”, numa referência à “curiosa ambiguidade do trabalho” de Caminha, “que tem inspirado muitas interpretações”, como salientou o investigador Robert Howes. Considerado hoje um marco na literatura brasileira por ser o primeiro a abordar abertamente a homossexualidade e a ter um negro como personagem principal, o romance foi classificado por alguns — incluindo por Lúcio Miguel-Pereira, autor de História da Literatura Brasileira — “o ponto alto do naturalismo”, corrente da qual Caminha é considerado um dos grandes representantes no Brasil.

A edição da Guerra & Paz do romance Bom Crioulo, de Adolfo Caminha, chegou às livrarias em março. A nota introdutória e glossário é de Ana Salgado

Em Portugal, Bom Crioulo sempre passou despercebido. Nunca recebeu grande atenção da parte da crítica ou do público, e a maioria das edições saíram já depois de 2000. A Sistema Solar publicou-o em 2014, com prefácio de Aníbal Fernandes, e a Guerra & Paz no passado mês de março (no âmbito da coleção “Grandes Clássicos”), com nota introdutória e glossário de termos náuticos da responsabilidade de Ana Salgado. Na nota de imprensa, a editora chamou a atenção para o facto de o romance ter sido “votado ao esquecimento na primeira metade do séc. XX”, sendo hoje “traduzido em todo o mundo”.

Adolfo Caminha: singularíssimo, temperamental e abusado

Adolfo Caminha foi, na opinião do seu biógrafo Sânzio de Azevedo, um dos poucos romancistas brasileiros cuja vida se relacionou “estreitamente com a sua obra ficcional”. Essa “existência breve e ao mesmo tempo atormentada” ficou marcada por escândalos, posições controversas e publicações que deixaram os críticos sem saber o que pensar ou dizer. Autor ligado ao Naturalismo — e por muitos considerado um dos grandes nomes dessa corrente literária no Brasil –, uma ramificação do Realismo, Caminha procurou sempre descrever as coisas tal como elas eram — umas vezes bonitas, outras vezes cruéis. Porque, como ele chegou a dizer, “o naturalismo é a própria vida interpretada pela arte”. O que nem sempre foi bem visto pelos seus pares. O seu mau feitio, referido por todos aqueles que o conheceram, aliado à polémica de alguns dos temas que decidiu explorar, fizeram com que ganhasse fama de autor maldito. Papel para o qual o seu terceiro romance, Bom Crioulo, contribuiu. E muito.

Adolfo Ferreira dos Santos Caminha nasceu a 29 de maio de 1867, na Rua do Comércio (hoje Rua Coronel Alexanzito), em Aracati, no estado do Ceará. Filho de Raymundo Ferreira dos Santos Caminha e de Maria Firmina Caminha, perdeu a mãe quando tinha apenas dez anos, vítima da chamada Grande Seca do nordeste brasileiro, que se estima que tenha provocado a morte de mais de 400 mil brasileiros num só ano. Depois de uma temporada em casa de familiares em Fortaleza, quando tinha 13 anos, Adolfo Caminha mudou-se para o Rio de Janeiro, onde ficou a cargo do seu tio-avô Álvaro Tavares da Silva. Foi lá que, de acordo com Sânzio de Azevedo, iniciou a sua carreira literária, publicando os primeiros poemas na Fênix Literária. Depois de ter entrado para a Escola de Marinha da Ilha das Enxadas, ao largo do Rio de Janeiro, em 1883, começou também a publicar os seus textos na Revista Escola de Marinha.

Foi na escola da Ilha das Enxadas que, aos 18 anos, Caminha cometeu o “seu primeiro grande ato de rebeldia”, como lhe chamou Azevedo. Convidado para discursar na homenagem a Victor Hugo, que tinha então morrido, o jovem decidiu aproveitar a oportunidade para defender a liberdade e a democracia, lamentando, em tom irónico, que o escritor francês não tivesse vivido o suficiente para assistir à “marcha triunfal” do Brasil em direção à abolição e à república. Fortunato Foster Vidal, comandante da Escola de Marinha, ficou furioso. Felizmente para Caminha, o imperador Pedro II, que esteve presente na homenagem dos marinheiros, desvalorizou a tirada, que atribuiu à juventude do estudante.

O escritor francês Victor Hugo foi homenageado na Escola de Marinha do Rio de Janeiro por altura da sua morte, em 1885 (Fotografia: Wikimedia Commons)

Esquecido o incidente, Adolfo Caminha mergulhou na literatura. E o esforço deu frutos: no ano seguinte, 1886, publicou o seu primeiro livro, Voos Incertos, enquanto servia a bordo do navio Solimões. Tinha apenas 19 anos. A este — o único de poesia — seguiu-se, em 1887, Judite e Lágrimas de um Crente, duas colectâneas de contos. Estas três primeiras obras são, segundo o escritor e crítico literário Sânzio de Azevedo, que tem trabalhado na reedição dos romances do escritor cearense, livros “fraquíssimos”. “São românticos e fracos de mais. Nunca foram reeditados nem merecem sê-lo. Outra produção mais interessante, datada do mesmo ano, é o conto “A Chibata”. Publicado na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, foi o primeiro texto em que Caminha condenou abertamente a chibata, uma prática violenta usada para repreender os marinheiros mal comportados. Nos anos seguintes, voltaria várias vezes ao tema, sempre para apontar a crueldade do castigo corporal. Foi, aliás, com essa prática que abriu o romance Bom Crioulo.

Adolfo Caminha, que haveria de morrer vítima de tuberculose, começou a sentir os primeiros sintomas da doença em 1888. Temendo que estes se agravassem, pediu nesse ano transferência para Fortaleza, onde o clima era mais seco. Ao início, tudo correu bem. Até que o escritor conheceu Isabel Jataí de Paula Barros, dois anos mais nova. Apaixonaram-se e tornaram-se amantes. Mas havia um problema: Isabel já era casada com Fausto Augusto de Paula Barros, um alferes do Exército de 33 anos. “O idílio começou com todas as secretas cautelas, tímido a princípio, mais tarde audacioso e imprudente”, contou Frota Pessoa, amigo próximo de Caminha, que lhe lhe dedicou um capítulo no livro Crítica e Polêmica, publicado em 1902, já depois da sua morte. “Nasceram ponderadas suspeitas no espírito do marido”, que culminaram numa discussão com Isabel, de 19 anos. Furiosa com Fausto, com o casamento que se via obrigada a manter e com toda a situação, Isabel decidiu sair de casa e ir bater à porta do amante. Ao vê-la ali, Adolfo Caminha pegou-lhe na mão e levou-a para casa de uns amigos, onde a deixou em segurança. Os dois amantes atravessaram de braço dado a cidade de Fortaleza.

“Poucas são as vidas de romancistas do Realismo brasileiro que se relacionem estreitamente com a sua obra ficcional. Uma delas é a de Adolfo Caminha, uma existência breve e ao mesmo tempo atormentada.”
Sânzio de Azevedo, biógrafo de Adolfo Caminha

Isabel nunca mais voltou para o marido e o caso tornou-se público. Na mesma obra de 1902, Frota Pessoa relatou que, perante a indignação dos seus colegas da Marinha, “a oficialidade da guarnição tomara atitude”, dirigindo-se ao ministro e “pedindo” a “retirada urgente” de Caminha do Ceará. “Ou isso, ou uma desgraça, que ninguém poderia evitar, aconteceria.” Depois de muitas pressões, Adolfo Caminha decidiu sair pelo próprio pé. Apresentou demissão e, por intermédio de um tio, arranjou um cargo no Tesouro Nacional, trabalhando até ao final da vida como funcionário público.

Como afirmou o biógrafo Sânzio de Azevedo em entrevista ao canal de televisão da Assembleia do Ceará, em 2017, “Adolfo Caminha era cheio de altos e baixos”, descrição que parece ir de encontro à opinião de quem o conheceu. Em Crítica e Polêmica, Frota Pessoa descreveu-o como tendo um jeito especial para fazer inimigos e Antônio Sales que durante algum tempo se contou entre estes achava-oarroubado, birrento e rancoroso”. Um obituário publicado pouco depois da sua morte, assinado por um “Léo”, dizia que “o carácter de Adolfo Caminha, que poucos conheciam pessoalmente e com quem raríssimos privaram na intimidade”, era “singularíssimo”. Por outras palavras: Caminha era “temperamental e abusado”. De dificílima convivência, como mostra o desentendimento que teve com Sales e um outro escritor, Rodolfo Teófilo, por altura do lançamento da sua Revista Moderna.

O “enjeitado”, a quem é impossível tirar o mérito

Adolfo Caminha criou a Revista Moderna em 1891, por considerar que não havia boa crítica literária no Ceará. Sem perder tempo, o escritor usou os primeiros números para condenar o trabalho de Antônio Sales, que tinha então publicado Versos diversos, o seu livro de estreia, e Rodolfo Teófilo, cujo romance A fome tinha também acabado de sair. No caso do primeiro, chegou mesmo ao ponto de desafiar o autor, num artigo publicado no jornal O Estado do Ceará, para “um tour de force em prosa ou verso”, com direito a juízes, padrinhos, testemunhas e tudo, como se de um verdadeiro duelo se tratasse. Sales, porém, parece não ter levado os insultos a sério já que, em 1892, precisamente um ano depois da polémica da Revista Moderna, decidiu convidar Caminha para integrar a “Padaria Espiritual”, um grupo que tinha formado juntamente com outros artistas em Fortaleza. Constituída por escritores, pintores e músicos, que costumavam reunir-se nos cafés do centro da cidade, como o Café Java, a “Padaria Espiritual” tinha por objetivo despertar o interesse dos fortalezenses para a literatura e as artes. O grupo chegou até a ter um jornal oficial, O Pão, do qual foram publicados 36 números até à sua falência em 1896. Caminha chegou a colaborar numa das secções — a “Sabatina” –, mas sem nunca ter chegado a ocupar um lugar de destaque dentro do grupo.

Foi ainda no Ceará que Adolfo Caminha começou a escrever o seu primeiro romance, A Normalista, que viria a publicar apenas em 1893, depois de regressar definitivamente ao Rio de Janeiro para ocupar o cargo de 3.º oficial do Tesouro Nacional. A obra, hoje considerada uma importante representante do Naturalismo brasileiro, relata a triste história de Maria do Carmo, uma jovem ingénua que é entregue pelo pai ao padrinho (um homem de carácter duvidoso chamado João da Mata), que passa ser responsável pela sua educação. Maria muda-se então para Fortaleza, onde se apaixona pelo filho de um coronel, Zuza, que estuda Direito no Recife. Tomado por violentos ciúmes, João da Mata viola a sobrinha e engravida-a. Desonrada, Maria vê-se obrigada a casar com um alferes da polícia e a esquecer o romance com Zuza.

O romance — que denuncia a sordidez da sociedade fortalezense de finais do século XIX — terá sido inspirado, de acordo com Robert Howes, no caso verídico de uma jovem seduzida pelo seu tutor em Fortaleza. Este atingiu algum sucesso, mas foi considerado “libidinoso” pela crítica. Um comentário usual aos livros de Caminha que, ao longo da sua carreira, explorou temas pouco convencionais como o adultério, o abuso sexual ou a traição, sempre com referências a lugares por onde passou, como apontou Regina Dalcastagnè em “Retrato sem parede: o Bom Crioulo de Adolfo Caminha”. “Apesar de serem, até certa medida, temas usuais na ficção romântica, estes parecem ter tido particular ressonância em Caminha, que certamente não era um apologista da moralidade convencional, na sua vida ou no seu trabalho”, referiu Howes em “Race and Transgressive Sexuality in Adolfo Caminha’s Bom Crioulo”.

Adolfo Caminha estudou na Escola de Marinha da Ilha das Enxadas, ao largo do Rio de Janeiro. Entrou para a instituição em 1883

Mas o escritor não se deixava desanimar pelas críticas: passado apenas um ano de A Normalista, publicou o seu segundo romance, No País dos Ianques, inspirado na viagem de instrução que fez aos Estados Unidos da América em 1886, a bordo do cruzador Almirante Barroso. A este seguiu-se Bom Crioulo, publicado no mesmo ano que Cartas Literárias, volume que reúne os artigos que o escritor publicou revistas e jornais, como o Gazeta de Notícias e O País, sob o pseudónimo C.A. (que alguns acreditavam pertencer ao jornalista Constâncio Alves ou ao historiador Capistrano de Abreu) em anos anteriores. Entre estes contavam-se as duras críticas feitas em 1891 a António Sales e Rodolfo Teófilo. Alguns investigadores acreditam que esta foi a gota de água numa relação já por si frágil, tendo levado à saída definitiva do definitiva do autor do grupo “Padaria Espiritual”.

Sarah Ipiranga, professora de literatura na Universidade Estadual do Ceará, explicou num artigo publicado no blog do jornal O Povo que a crítica literária de Cartas Literárias e a narrativa de viagens (explorada em No País dos Ianques) não eram géneros “férteis no Brasil do século XIX, o que mais uma vez assegura a argúcia do escritor”. “Ambos de valor testemunhal, aproximam-se dos chamados ‘relatos do eu’, em que o narrador possibilita ao leitor acompanhar os passos da sua formação”, afirmou. Além disso, numa altura em que a literatura brasileira procurava aproximar-se mais da europeia, sobretudo da francesa, Caminha escolheu os Estados Unidos como pano de fundo para um dos seus romances, o que, para Ipiranga, demonstra mais uma vez a capacidade do autor de ver “mais à frente”.

“Recebi n'alma e nela — agora para sempre — essa melancólica expressão dos seus olhos febris, a indefinível expressão do seu sorriso triste, a lancinante, a dolorosa expressão da sua voz pausada e surda.”
Frota Pessoa, amigo próximo de Adolfo Caminha

Em 1896, Adolfo Caminha decidiu lançar uma nova publicação, A Nova Revista, que circulou entre janeiro e setembro. Controverso até ao fim, usou as páginas da revista para continuar a “exercitar o seu espírito polémico”, como escreveu Sânzio de Azevedo, e para defender a obra que considerou ter sido injustamente atacada no ano anterior, Bom Crioulo. O texto ficou famoso. Entre números, começou também a escrever Tentação, romance que só seria editado depois da sua morte, em 1897, e alguns contos. De acordo com Frota Pessoa, terá também dado início à tradução do teatro de Honoré de Balzac e aos primeiros rascunhos de “duas histórias”, por ele anunciadas. Fragilizado pela doença, Adolfo Caminha acabou por morrer a 1 de janeiro de 1897, na sua casa do Rio de Janeiro, quatro meses antes de completar 30 anos. Pessoa, que o visitou no leito de morte, lembrou, no seu livro de 1902, a “melancólica expressão dos seus olhos febris, a indefinível expressão do seu sorriso triste, a lancinante, a dolorosa expressão da sua voz pausada e surda”, que recebeu “na alma” e guardou “para sempre” na memória.

A morte do escritor foi noticiada por alguns jornais brasileiros, mas o autor cearense depressa caiu no esquecimento. Sânzio de Azevedo acredita que isso se deveu sobretudo à “aura de antipatia criada pelos seus arroubos iconoclastas”. Só várias décadas depois é que Adolfo Caminha viria a receber a atenção merecida, sobretudo a partir de 1933, data em que o crítico literário Agrippino Grieco sugeriu a reedição dos seus romances esquecidos. Apesar da proibição da reedição de Bom Crioulo durante a ditadura, em 1941, Valdemar Cavalcanti publicou na Revista do Brasil o artigo “O enjeitado Adolfo Caminha”, que reivindicou definitivamente o escritor como um dos mais importantes no Brasil do final do século XIX. É que, como escreveu Azevedo, “é impossível tirar-lhe o mérito”. Romancista “criativo, audacioso, experimentalista”, Caminha deixou um legado único, e por isso merece um lugar de honra entre os nomes grandes da literatura brasileira.

Um “livro podre”, um “romance vómito”

Em traços gerais, Bom Crioulo conta a história de Amaro, um escravo fugido que encontra a liberdade por que sempre ansiou a bordo de um navio da Marinha brasileira — um lugar onde “não se olhava a cor ou a raça”, onde “todos eram iguais” e “tinham as mesmas regalias”. Bom trabalhador, Amaro depressa ganha a confiança e o respeito dos seus superiores, recebendo a alcunha de “Bom Crioulo” devido à sua personalidade meiga. Aos poucos e poucos, começa a ganhar fama “em todos os navios”, sobretudo pela sua grande destreza física. Em força, não havia quem o igualasse.

Durante os primeiros anos de serviço, tudo corre dentro da normalidade. Até que um dia, “tudo começa a desandar”, e Amaro torna-se preguiçoso e indisciplinado. No navio em que presta serviço — a “velha e gloriosa corveta” –, começam a surgir boatos entre os marinheiros: “Diziam uns que a cachaça estava deitando a perder ‘o negro’; outros, porém, insinuavam que Bom Crioulo tornara-se assim, esquecido e indiferente, desde que ‘se metera’ com o Aleixo, o tal grumete, o belo marinheirito de olhos azuis que embarcara no sul.” Não podiam estar mais certos — por causa dele, Amaro estava a ficar “sem vergonha”. Aleixo — um “belo” grumete loiro “de olhos azuis”, muito claros — era “muito querido de todos”, mas “diziam-se ‘coisas’” sobre ele. Oriundo de uma família pobre de pescadores, o seu trabalho consistia em colher cabos, arear os metais e, por vezes, fazer a ronda da noite. Tímido e ingénuo, tenta a princípio evitar as investidas de Bom Crioulo. Mas Aleixo acaba por ceder, certa noite, no passadiço, dando-se assim o primeiro passo em direção à queda de Bom Crioulo.

Perdidamente apaixonado pelo “belo marinheirito” de olhos azuis, Amaro convence-o a partilharem um quarto no Rio de Janeiro. É aqui que entra a terceira personagem da trama: D. Carolina. Carolina “era uma portuguesa que alugava quartos na Rua da Misericórdia, somente a pessoas de ‘certa ordem’, gente que não se fizesse de muito honrada e de muito boa”. Ex-prostituta (nos seus tempos áureos era conhecida como Carola Bunda), “não fazia questão de cor e tão-pouco se importava com classe ou profissão”. Tinha uma profunda amizade por Amaro, que tinha conhecido anos antes, depois de este a ter livrado de um assalto. Mulher independente, quarentona, D. Carolina acaba por cair de amores por Aleixo, com quem inicia uma relação secreta. A história, claro está, acaba mal: depois de descobrir o caso, cego de ciúme, Bom Crioulo assassina o jovem marinheiro em frente à casa onde os dois viveram aquele amor idílico, condenado ao fracasso.

No romance de Adolfo Caminha, a Marinha brasileira é descrita como um lugar onde “não se olhava a cor ou a raça” e onde “todos eram iguais”

Publicada em 1895 — no mesmo ano em que Oscar Wilde foi julgado em Inglaterra pelo crime de sodomia –, a trágica história de amor dos dois marinheiros chocou alguns críticos do Rio de Janeiro, que atacaram violentamente o romance e o próprio autor. A homossexualidade não era tema que se tratasse na literatura brasileira de finais do século XIX, muito menos naqueles moldes. Contudo, de um modo geral, pode-se dizer que a publicação de Bom Crioulo passou despercebida. Durante a sua investigação, Robert Howes, autor de “Race and Transgressive Sexuality in Adolfo Caminha’s Bom Crioulo”, não encontrou evidências “de qualquer tentativa de banir a primeira edição do romance apesar de as edições posteriores terem sido alvo de algum assédio”. Além disso, “a maioria dos diários” parece tê-lo ignorado por completo. Entre eles contava-se O País, o jornal brasileiro de maior circulação onde Caminha tinha publicado anonimamente algumas das suas duras críticas literárias. O diário revelou ter recebido um exemplar da obra a 12 de novembro de 1895, não chegando, porém, a publicar qualquer artigo sobre o romance.

No Gazeta de Notícias também não foi feita qualquer referência a Bom Crioulo, enquanto no Cidade do Rio saiu apenas uma “crítica simpática”, assinada pelo jornalista Alves de Faria, que chamava a atenção para o facto de o escritor não ter evoluído muito desde a publicação de A Normalista, dois anos antes. Porém, Faria considerou que a obra tinha algumas boas cenas e que, “apesar desse processo naturalista tão explorado, de escrever atos indecentes, reais, mas repulsivos”, o romance era capaz de não desagradar “ao leitor”. O surpreendente nesta crítica é que não foi ao encontro da opinião dos críticos literários do Jornal do Comércio e d’A Notícia. Baseando-se sobretudo na forma como a questão da homossexualidade dos dois protagonistas tinha sido abordada por Caminha, os jornalistas acusaram o autor de ter escrito uma obra obscena, sem valor nenhum, baseada em eventos da sua própria vida, que teriam ocorrido durante os oito anos que passou na Marinha de Guerra brasileira.

A primeira destas críticas saiu na edição de 20 e 21 de novembro de 1895, na coluna “Semana Literária” do jornal A Notícia. Nesta, Valentim Magalhães — que viria a fundar juntamente com outros escritores a Academia Brasileira de Letras, em 1897 –, que assinava como V.M., defendeu que Bom Crioulo excedia “tudo quanto se possa imaginar de mais grosseiramente imundo”. “Não é um livro travesso, alegre, patusco, contando cenas de alcova ou de bordel, ou noivados entre as ervas, à lei do bom Deus, como no Germinal… Nada disso”, afirmou Magalhães, um dos mais celebrados críticos brasileiros. “É um livro asqueroso porque explica — primeiro a fazê-lo, que eu saiba — um ramo de pornografia até hoje inédito por inabordável, por ante-natura, por ignóbil. Não é pois somente um livro faisandé: é um livro podre; é o romance-vómito, o romance-poia, o romance-pus.”

“É um livro asqueroso porque explica — primeiro a fazê-lo, que eu saiba — um ramo de pornografia até hoje inédito por inabordável, por ante-natura, por ignóbil. Não é pois somente um livro 'faisandé': é um livro podre; é o romance-vómito, o romance-poia, o romance-pus.”
Valentim Magalhães, no jornal "A Notícia”

Acusando o escritor, então com 28 anos, de ser um “moço inconsciente, por obcecação literária ou perversão moral”, o crítico defendeu que só assim se poderia explicar o facto de Caminha ter “achado literário tal assunto” e “de ter julgado que a história dos vícios bestiais de um marinheiro negro e boçal” — isto é, recém trazido de África — podia ser “literariamente interessante”. Magalhães, que esperava que o romance “falasse em nome dos negros brasileiros e os tentasse reabilitar”, enfatizando “as suas qualidades físicas e psíquicas” — como apontou Robert Howes em “Race and Transgressive Sexuality in Adolfo Caminha’s Bom Crioulo” –, disse ter encontrado em Bom Crioulo “unicamente um negralhão bronco, analfabeto, completamente instintivo, e aberrantemente vicioso”. Além disso, era óbvio para Valentim Magalhães que o livro de Adolfo Caminha era um relato das experiências do próprio na Marinha. De literatura tinha pouco.

Outro duro crítico de Caminha parece ter sido José Veríssimo. Num texto anónimo publicado na edição de 27 de novembro de 1895 do Jornal do Comércio, que se acredita ser da sua autoria, Veríssimo, diretor do Ginásio Nacional e um dos mais respeitáveis críticos brasileiros — e também futuro co-fundador da Academia Brasileira de Letras –, fez questão de frisar que Bom Crioulo era “pior do que um mau livro”. “É uma ação detestável, literatura à parte”, afirmou. “Como quer o Sr. Adolfo Caminha que seja respeitado e estimado um homem que, sem utilidade alguma social, passou longos dias ocupado em analisar e discutir a psicologia improvável de nauseantes crimes contra a natureza e tenta depois com isso despertar em nós o arrepio da curiosidade impura e mórbida?” Mas nem tudo era mau para Veríssimo. Mais à frente no mesmo artigo, o jornalista admitiu que “se fosse um professor de composição literária, fazendo abstração do tema escolhido, que era ‘baixamente repugnante’, aplaudiria certas partes pelo estilo vigoroso e claro, embora por vezes incorreto, e lhe daria uma nota de progresso”.

Francisco Pacheco, um republicano português recentemente chegado ao Brasil, saiu em defesa de Caminha, de quem era amigo. Foi, de acordo com Robert Howes, o único a tomar publicamente partido do escritor cearense. Num dos números da Arcadia: Revista d’ Arte, Pacheco escreveu que “o assunto” do romance era “escabroso” e que a história não passava de “um corriqueiro caso de pederastia”, que “Carolina, a boa portuguesinha, transverteu”. “O Bom Crioulo é inegavelmente uma belíssima obra realista. Caminha desenvolveu, com uma calma admirável o escabrosíssimo tema pederasta, do qual vários homens de reputação científica e literária se hão ocupado”, afirmou o português.

Todos os grandes escritores “chafurdaram na crápula”

José Veríssimo acreditava que Caminha haveria de se arrepender de ter publicado “literatura pornográfica e obscena”, mas não foi isso que aconteceu. Em vez disso, indignado com as críticas dos dois jornalistas do Rio de janeiro, saiu em defesa da sua obra, publicando, a 2 de fevereiro de 1896, no número dois d’A Nova Revista, por ele fundada, o artigo “Um Livro Condenado”. Neste, reproduzido na nova edição de Bom Crioulo da editora Guerra & Paz, Adolfo Caminha considerou que a crítica brasileira de então — em especial a do Rio de Janeiro — estava “entregue ao diretor de uma companhia de seguros de vida”, formado em Direito Económico e Administrativo, e “ao chefe de um estabelecimento nacional de instrução”, doutorado em Pedagogia. O “diretor de uma companhia de seguros de vida” era Valentim Magalhães, o outro José Veríssimo. O primeiro, formado em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo, tinha aberto uma empresa de seguros depois da proclamação da República brasileira, em 1889, acabando por levá-la, mais tarde, à falência. José Veríssimo, associado à corrente naturalista e considerado um dos mais importantes críticos literários brasileiros, tinha sido diretor de instrução do Pará. Na altura da publicação de Bom Crioulo, era diretor do Ginásio Nacional.

Para defender o seu romance, Caminha baseou-se sobretudo no conceito de Naturalismo, um movimento literário e artístico da segunda metade do século XIX que — como explica Ana Castro Salgado na nota introdutória à edição da Guerra & Paz — “advoga a descrição dos factos observáveis da forma mais objetiva possível, sem idealizações nem preconceitos morais ou estéticos”. Era nesta corrente, que o escritor definiu como “a própria vida interpretada pela arte”, que Bom Crioulo se enquadrava. “E, sendo o romance a forma mais natural da arte, claro está que só é imoral quando não apresenta caracteres da obra artística”, afirmou. Dando como exemplo obras de escritores como Gustave Flaubert, Émile Zola, Joris-Karl Huysmans, Guy de Maupassant e até do português Eça de Queiroz, Caminha considerou, ironicamente, que “todos os grandes escritores, todos os grandes artistas da palavra, renegam a moral, chafurdam na crápula, tornam-se desprezíveis e indignos da consideração pública”. Ele não era exceção.

“Enfim, todos os grandes escritores, todos os grandes artistas da palavra, renegaram a moral, chafurdaram na crápula, tornaram-se desprezíveis e indignos da consideração pública.”
Adolfo Caminha, em “Um Livro Condenado”

Argumentando que a “guerra à verdade na arte” já vinha de trás, Adolfo Caminha considerou que ainda não tinha saído “dos prelos obra naturalista que não fosse taxada de imoral, desde que o grande Balzac atirou à circulação o seu primeiro livro de análise”. Referindo-se às críticas que insinuavam que Bom Crioulo tinha sido inspirado em experiências pessoais, Caminha voltou a dar como exemplo outros escritores naturalistas, afirmando que, “a julgar como certos imbecis”, Flaubert, Zola e Eça de Queiroz “praticariam incestos e adultérios monstruosos”. A verdade é que, como apontou Robert Howes em “Race and Transgressive Sexuality in Adolfo Caminha’s Bom Crioulo”, não existem quaisquer indícios, na obra ou na vida do autor, de que Caminha fosse homossexual. Uma das provas em contrário, que costuma ser apontada pelos especialistas, é a forma como Caminha prejudicou a sua carreira na Marinha por causa de Isabel Jataí, a quem dedicou o livro Cartas Literárias: “A Isabel C***. Quero que o nome dela fulgure como uma legenda de ouro à primeira página de meu livro”. O amor entre os dois parecia ser sincero.

O mais provável é que, ao contrário do que argumentaram os críticos literários, Adolfo Caminha se tivesse inspirado nas observações da vida a bordo, durante os anos que esteve na Marinha, e em casos reais. Foi isso, aliás, que deu a entender em “Um Livro Condenado”, ao escrever que “a crítica desejava que ele escrevesse ‘um livro travesso, alegre, patusco, contando cenas de alcova ou de bordel (textuais) ou noivados entre as ervas à lei do bom Deus’!… Mas como, em vez disso, apresentou uma obra estudada, um livro bem-intencionado e verdadeiro, uma análise da vida, os críticos, mordidos na sua impotência de rodapeístas, fizeram de D. Quixote e juraram dar cabo do escritor que, ousadamente, preferiu o escabroso tema do Bom Crioulo às tais ‘cenas de alcova e de bordel’.” Interrogando quando acabaria “a dinastia dos La Palisse”, o autor terminou a sua defesa dizendo que “enquanto o Brasil foi literariamente governado por homens que em outro qualquer país nenhuma ação teriam sobre os espíritos, dominará a literatura de bric-à-brac, e o fertilismo Sr. Xavier de Montépin [um popular romancista francês] arrancará lágrimas à crítica nacional”.

É mais ou menos unânime que uma das histórias que serviu de base para o romance foi o chamado “Crime do Largo do Mitelo” ou “Caso Martinho da Cruz, ocorrido em Lisboa, a 22 de abril de 1886. Nesse dia, António Candido Pereira, um cadete de 21 anos da Escola do Exército, foi assassinado por um alferes de 24 anos, Martinho da Cruz, junto à instituição, no Largo do Mitelo. À medida que os jornais começaram a investigar o caso, chegou-se à conclusão que o incidente tinha sido provocado por uma crise de ciúmes. Segundo informações recolhidas pelo Diário Popular, um jornal lisboeta, António Pereira — um rapaz “muito branco, aloirado, de olhos grandes”, natural do Funchal — teria sido convidado por Martinho da Cruz, de uma família de classe média de Portalegre, para ir viver com este num quarto alugado em Lisboa. Pereira, que “era muito pobre”, aceitou. Não tardou até começarem a surgir boatos sobre os dois, o que levou Pereira a ir viver sozinho e a cortar todas as relações com o alferes, que não terá ficado muito contente com a decisão do colega. O assassinato teria acontecido depois de Martinho da Cruz, que “abusava das bebidas alcoólicas”, ter descoberto que o cadete tinha arranjado uma namorada.

Amaro mata Aleixo na Rua da Misericórdia, no Rio de Janeiro, onde os dois partilhavam um quarto. Foi aí que teriam assassinado um jovem grumete negro, em 1888

É impossível não reparar nas semelhanças do “Caso Martinho da Cruz” com o enredo de Bom Crioulo (até a descrição de António se assemelha à de Aleixo), mas Caminha poderá ter sido inspirado ainda num outro crime. Em março de 1888, foi noticiado nos jornais do Rio de Janeiro que um grumete negro de 16 anos teria sido assassinado. De acordo com os relatos algo confusos altura, o rapaz, André Nogueira, teria sido encontrado morto na Rua da Misericórdia — a mesma onde Aleixo é assassinado por Amaro. Acabou por se descobrir que o marinheiro tinha, afinal, desertado.

Todas estas histórias causaram escândalo na altura, por isso não é de admirar que o romance de Caminha também o tenha provocado. Mas se ele sabia disso, por que é que decidiu escrever sobre um tema interdito? É difícil de dizer. César Braga-Pinto, professor de literatura espanhola e brasileira da Northwestern University que estudou a obra a fundo, considera até que não há “uma resposta simples a isso”. “Há, no final do século, grande interesse da psicologia nos chamados desvios sexuais. Enquanto romance naturalista, que tem ambições científicas, Bom Crioulo insere-se nessa vaga”, explicou ao Observador. “Ainda assim, é curioso, pois [o tema] não deixa de ser tabu, e em outras literaturas é raro.” Leandro Valentin, autor de “A recepção crítica e a representação da homossexualidade do romance Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha”, acredita que foi a “perspetiva adotada pelo escritor sobre o trabalho artístico” e a crença de que a arte está subordinada à ciência o motivo que levou Caminha a escolher como tema um “assunto que era grande tabu na época” e que “o próprio autor condenava”.

O primeiro romance homoerótico? Talvez não

Bom Crioulo parece ser um romance à frente do seu tempo. No Brasil, foi o primeiro a tratar com alguma profundidade um relacionamento entre dois homens e a ter um protagonista negro. Só que, ao contrário do que se possa pensar, a obra de Adolfo Caminha não trata de forma positiva nenhum dos temas. Isso é visível na forma como aborda a própria homossexualidade. Num dos capítulos, ao se aperceber da sua paixão por Aleixo, Amaro, o “Bom Crioulo”, diz para si próprio que nunca se tinha percebido “de semelhante anomalia”, um “castigo” que lhe era imposto pela “natureza”. Quando o amor dos dois marinheiros é consumado, Caminha termina o parágrafo falando num “delito contra a natureza”. Esta sua posição em relação à homossexualidade ficou ainda mais clara no texto que escreveu em defesa do seu romance. Em “Um Livro Condenado”, Adolfo Caminha explicou que Bom Crioulo era um livro em que se estudava e condenava “o homossexualismo” — termo usado para definir a homossexualidade como uma patologia — e que nas suas páginas não existia uma única palavra de apoio ou de defesa, sendo por isso menos “pernicioso” do que outras obras que por ali andavam “pregando, em tom filosófico, a dissolução da família, o concubinato, o amor livre e toda a espécie de imoralidade social”.

Para consolidar esta posição, Caminha recorreu à ciência. Na altura da publicação de Bom Crioulo, multiplicavam-se as pseudo-teorias científicas que procuravam explicar questões ligadas à psicologia e à sexologia, áreas aindas em desenvolvimento. Estas doutrinas, hoje absurdas, serviam muitas vezes de base à literatura, nomeadamente a autores ligados às correntes realista e naturalista, onde Caminha se enquadra. Ele próprio fez questão de frisar que, para construir o enredo de Bom Crioulo, recorreu às “observações da ciência”, às obras de Amboise Tardieu (professor de Medicina Legal na Faculdade de Paris) e Albert Moll (psiquiatra alemão considerado o pai da sexologia), às quais acrescentou as suas próprias considerações. Por essa razão, a história de Amaro e Aleixo não passava de “nada mais do que um caso de inversão sexual estudado por Krafft-Ebbin, em Moll, em Tardieu e nos livros de Medicina Legal”. Apesar de, obviamente, não poder haver certezas (e até de se poder colocar a hipótese de que “Um Livro Condenado” espelhasse a “necessidade social da condenação do ato homossexual”, nas palavras de Regina Dalcastagnè), isto significa que a visão de Caminha poderia não ser muito diferente da dos seus contemporâneos.

Para César Braga-Pinto, autor de “Othelo’s Pathologies: Reading Adolfo Caminha with Lombroso”, o romance de Caminha deve ser entendido como uma “interseção entre o naturalismo, o discurso científico, o decadentismo e a literatura popular do século XIX” e deve ser lido à luz das teorias científicas da época, nomeadamente das que foram exploradas por Cesare Lombroso, antropólogo criminal italiano “amplamente lido, admirado e comentado no Brasil” admirado pelo escritor cearense. Lombroso acreditava que a homossexualidade era um “crime” — um “pecado” —, que podia indicar a “natureza criminosa ou a degeneração do organismo” de um homem. Na base desta ideia — e de muitas outras que surgiram no mesmo período — estavam as teorias da degeneração, um conceito nascido dos trabalhos do zoologista Jean-Baptiste Lamarck e do psiquiatra Bénédict Morel, autor de Traité des dégénérescences (1857). Segundo estas teorias, os organismos eram capazes de se adaptar às influências negativas do exterior. Isso fazia com que, a longo prazo, se tornassem auto-destrutivos.

Na segunda metade do século XIX, numa altura que tanta coisa estava ainda por esclarecer e descobrir, a degeneração tornou-se na explicação óbvia para muitos fenómenos biológicos, psicológicos e até sociais, para os quais não havia aparente justificação. Muito populares entre os europeus, e sobretudo entre os franceses, as teorias da degeneração avançadas por Lamarck e Morel depressa deram origem a doutrinas mais extremistas (as de Lombroso são apenas um de muitos possíveis exemplos), contribuindo para “o pessimismo cultural que marcou a Europa do final do século”, como apontou Robert Howes em “Race and Transgressive Sexuality in Adolfo Caminha’s Bom Crioulo”. Sabemos que “Caminha não só lia Lombroso, como elogiava repetidamente as suas teorias”, como apontou Braga-Pinto. Por essa razão, as semelhanças entre as ideias que explorou em Bom Crioulo e as teorias do antropólogo italiano não são mera coincidência, como tentou provar o investigador em “Othello’s Pathologies: Reading Adolfo Caminha with Lombroso”. Além disso, num dos artigos da coletânea Cartas Literárias, Caminha admitiu que, apesar de admirar Zola, não concordava com as ideias deste em relação à hereditariedade (que desempenhava um papel importante no destino das suas personagens, como a protagonista de Nana). A orientação sexual e a raça, como eram entendidas à luz das teorias científicas da época, não interessavam a Émile Zola e aos naturalistas franceses. As suas obras raramente incluíam personagens explicitamente homossexuais.

Apesar de admirar Émile Zola, Adolfo Caminha não concordava com as ideias do escritor francês em relação à hereditariedade, que desempenhava um papel importante no destino das personagens (Fotografia: Wikimedia Commons)

Para escrever Bom Crioulo, Adolfo Caminha ter-se-á, portanto, inspirado noutros escritores. Em “Um Livro Condenado”, para comprovar que “o assunto do Bom Crioulo” não era “novo em literatura”, o escritor deu como exemplo o romance O Barão de Lavos, do português Abel Botelho. Botelho foi um escritor, político e diplomata português que publicou, entre 1891 e 1910, uma série de cinco livros dedicada aos males que, na sua opinião, afetavam a sociedade portuguesa de finais do século XIX. O primeiro desses romances, O Barão de Lavos (que também foi alvo de uma análise de Robert Howes), tinha a homossexualidade masculina como tema. O livro conta a história de Sebastião de Castro e Noronha, o Barão de Lavos, e de Eugénio, um jovem vendedor de cautelas. Este, seduzido pelo nobre no Passeio Público, em Lisboa, acaba por ir viver para uma casa do barão, que acaba cair de amores pelo vendedor. Apercebendo-se da sincera afeição de Sebastião, Eugénio decide explorá-lo. O esquema começa a correr mal quando conhece a mulher do amante e se apaixona por ela. Depois de descobrir a verdade, Sebastião inicia uma queda vertiginosa. Arruinado, é morto por um grupo de jovens delinquentes. Depois de O Barão de Lavos, Abel Botelho ainda voltou uma outra vez ao tema. O segundo romance da sua série, intitulada Patologia Social, O Livro de Alda, fala da homossexualidade feminina e tem como personagem principal uma prostituta lésbica, Alda, que o narrador descreve como sendo alguém que sofre de uma “aberração moral”, tal como Sebastião de Castro e Noronha.

O livro teve alguma popularidade, como mostra a existência de uma segunda edição sete anos depois, em 1898. No prólogo, Botelho explicou que o que pretendia com os dois primeiros romances de Patologia Social era fazer uma “análise de dois exemplares humanos tiranizados pela diátese das faculdades afetivas”, isto é, de duas doenças mentais. De acordo com o autor — que provavelmente terá recorrido a artigos científicos para escrever os dois livros, tal como Caminha –, estas ocorriam devido um desequilíbrio das faculdades mentais, que provocava “desequilíbrios, aberrações e anormalismos patológicos”. Eram estes “o objeto dos estudos” da sua “série de romances”. Na defesa que publicou no início de 1895, pouco antes de morrer, Caminha escreveu que, ao contrário do que aconteceu com Bom Crioulo, as “quinhentas e tantas páginas de psicopatia sexual” de Abel Botelho mereceram “o respeito e a admiração da sociedade em que vive, porque lá, em Portugal, há um critério firme no julgamento da obra de arte”.

No que diz respeito à literatura luso-brasileira, apesar de não se puder “postular uma uniformidade do tratamento deste tópico”, Anna Klobucka, professora na University of Massachusetts, explicou que existem, “certamente, traços comuns, decorrentes do contexto epistemológico partilhado”, onde se incluem os “conhecimentos científicos ou pseudo-científicos emergentes e em evolução”, e “dos estilos literários em voga na época”, o Realismo e o Naturalismo. “O mais predominante destes traços comuns será o sistema de vasos comunicantes que se instala entre as novas ciências emergentes do sujeito humano (psicologia e sexologia) e a escrita literária, com O Barão de Lavos, de Abel Botelho, como exemplo provavelmente mais ilustrativo da ficção narrativa com as fórmulas de representação (inclusivamente no que diz respeito ao léxico) derivadas da literatura dita ‘científica’.”

Há, contudo, uma característica transversal a obras referidas: “A perspetiva homofóbica que todas estas representações partilham”. Em todas elas, “a homossexualidade é encarada como um desvio da norma e perversão moralmente condenável”, existindo, porém, “diferenças consideráveis de grau e estilo”, esclareceu a professora da University of Massachusetts que, em breve, irá lançar um livro sobre António Botto. “Por um lado temos a homofobia extrema d’O Barão de Lavos, por outro as visões menos claramente moralizantes e mais ambíguas de Bom Crioulo, d’O Cortiço, de Aluísio Azevedo, ou d’O Crime do Padre Amaro. Neste último, por exemplo, a relativa tolerância de Libaninho pela sociedade de Leiria pode ser interpretada como um índice narrativo da indigência e/ou corrupção moral dos grupos sociais que o acolhem — os padres e as beatas –, mas ainda assim não deixa de ser interessante, se sobretudo em contraste com a perspetiva violentamente homofóbica do romance de Abel Botelho.”

Ousado, mas com muitas limitações

Em conversa com o Observador, Leandro Valentin admitiu que se pode dizer “que a abordagem de Caminha é um pouco diferente da dos escritores seus contemporâneos porque, mesmo sob um prisma naturalista e afeito às avaliações morais da época, a caracterização do plano afetivo e do desejo homoerótico de Amaro apresenta certa complexidade”. “Ou seja, embora o romance trate a homossexualidade como um vício e um delito, os procedimentos narrativos adotados fazem com que o tratamento conferido ao tema não construa uma crítica tão violenta como acontece nos outros romances da época. O resultado disso é uma espécie de ambivalência ou contradição que torna a obra menos redutora e mais interessante”, afirmou o investigador da Universidade Estadual Paulista. Por essa razão, Valentin acredita que “seria complicado e talvez impreciso afirmar que o objetivo do romance tenha sido uma condenação aberta da homossexualidade porque, por vezes, há uma diferença entre as intenções do autor e o resultado efetivo da obra que ele produz”.

Para o autor de “A recepção crítica e a representação da homossexualidade do romance Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha”, talvez o autor tenha escrito “o romance com o objetivo de condenar a homossexualidade ou se ter valido desse argumento apenas para se defender dos críticos — o que jamais saberemos de fato, creio —, mas é preciso lembrar que o texto literário pode portar sentidos não previstos pelo escritor”. De forma a exemplificar isso, Valentin lembrou “as cenas com descrições pormenorizadas do desejo homoerótico de Amaro e do ato sexual entre ele e Aleixo”, que podem ter sido construídas no romance para chocar os seus leitores e condenar a homossexualidade por meio da articulação deste efeito de choque descritivo com as avaliações morais do narrador”. Mas é importante lembrar que foram essas descrições que acabaram por tornar “a obra inovadora, justamente por sustentarem uma abordagem de um tema tabu de modo tão aberto”. ”Isto é, o preconceito palpável no discurso do narrador em alguns momentos do texto não invalida a importância do tratamento narrativo conferido à representação da homossexualidade na obra, marcada também pela exploração literária do plano afetivo complexo de Amaro, afastando, assim, o romance de um sistema completamente fechado e reiterado de condenação da homossexualidade. Ambivalências e contradições deste tipo são próprias do texto literário e revelam uma dinâmica curiosa da inserção de obras num determinado sistema literário.”

“O romance é ousado por tratar uma temática tabu, mas tem as limitações e contradições do pensamento científico da época em que foi escrito.”
César Braga-Pinto

No artigo “Race and Transgressive Sexuality in Adolfo Caminha’s Bom Crioulo”, Robert Howes também lembrou o facto de o romance de Caminha  ter sido sempre “encarado pelos críticos”, ao longo das últimas décadas, “como ambíguo e contraditório, especialmente no seu tratamento da homossexualidade”. “Apesar de Caminha chamar à relação física um ‘delito contra a natureza’, os aspetos mais impressionantes do romance são a abertura das descrições e a atitude despegada do autor em relação ao tema principal.” César Braga-Pinto também considera que, apesar de se tratar de um romance naturalista, Bom Crioulo não se resume a tratar a homossexualidade como “uma patologia social”. “Na verdade, o romance é ousado por tratar uma temática tabu, mas tem as limitações e contradições do pensamento científico da época em que foi escrito. Enquanto em outros países há romances do século XIX, como Moby Dick ou Huckleberry Finn, que tratam a amizade entre o homem branco e o homem negro com alguma carga de homoerotismo, a relação sexual nunca se consuma. Em todo o caso, o livro contém uma carga emotiva forte, a descrição é bastante viva e continua a ser provocador, muitas vezes indo além dos estereótipos.”

Foi talvez por isso que, na altura da sua publicação, Bom Crioulo foi recebido de forma tão negativa por parte da crítica, sobretudo devido às “cenas explícitas de atos sexuais entre dois homens, o que era algo inconcebível para o senso comum da época”, como apontou Leandro Valentin. “A simples representação mais direta de um tema tabu era algo inaceitável. Isso não deixa de ser parecido com os problemas que Gustave Flaubert teve de enfrentar depois da publicação de Madame Bovary, que posteriormente se tornaria num dos maiores clássicos universais.” César Braga-Pinto também acredita que a explicação está no facto de Caminha ter tratado “o tema da homossexualidade de forma tão explícita”, o que “não era de fácil assimilação” na altura. “Mesmo se o objetivo fosse condenar a homossexualidade.” Mas Leandro Valentin acha que houve ainda uma outra razão: “Acredito que nem sempre os contemporâneos de uma obra” compreendem “as várias possibilidades de leitura que ela apresenta”, disse ao Observador, explicando que foi precisamente isso que aconteceu com a crítica de Dom Casmurro, de Machado de Assis, “produzida até meados do século XX, que tratava a traição de Capitu como algo certo”. “Foi só a partir de 1960, seis décadas depois da publicação do romance, que se passou a questionar essa traição e o discurso enviesado de Bentinho”, marido de Capitu. “Os contemporâneos nem sempre conseguem compreender as várias possibilidades de leitura das obras da sua época justamente porque nem todos conseguem avaliá-las com um distanciamento crítico do pensamento corrente.”

Regina Dalcastagnè vai mais longe: para a professora de literatura brasileira da Universidade de Brasília, o terceiro romance de Adolfo Caminha é, ainda hoje, “uma perturbação” no “cenário cultural” do Brasil. “Reivindicado atualmente como o primeiro romance brasileiro a trazer a público um protagonista homossexual, Bom Crioulo chama a atenção ainda para uma série de outras ausências em nossa literatura — não apenas a do século XIX, mas também a de hoje, que, de um modo geral, não dá guarida a personagens como Amaro”, gay, negro e trabalhador braçal. “Três características que, isoladas, já seriam suficientes para torná-lo invisível nos discursos predominantes que circulam pelos mais variados espaços sociais”, salientou em “Retrato sem parede: o Bom Crioulo de Adolfo Caminha”. “Nos romances brasileiros contemporâneos, em especial aqueles publicados pelas editoras prestigiadas e que obtêm maior impacto entre o público e a crítica, são raros os protagonistas negros, raros os protagonistas homossexuais, raros os protagonistas trabalhadores. Por isso mesmo, o estranhamento que o leitor sente ao ler o livro permanece, mais de cem anos depois de ele ter sido escrito.”

Mas a homofobia está lá, facto que levou César Braga-Pinto a considerar, no artigo “Othelo’s Pathologies: Reading Adolfo Caminha with Lombroso”, que Bom Crioulo não é um “texto fundador” da “literatura gay”, como chegou a ser defendido, mas antes uma exploração da homossexualidade masculina. Como frisou o professor da Northwestern University, no Illinois, ao Observador, “ao considerará-lo inaugurador de uma literatura gay e não simplesmente de temática gay, subestima-se o que ele tem de preconceituoso em relação à homossexualidade”. “Além disso, subestima-se o papel da raça e do racismo no romance. Em  todo caso, o livro não deixa de ter grande interesse para o leitor e crítico queer”, afirmou. Anna Klobucka concorda: “Apesar do tratamento relativamente positivo do seu protagonista, o romance não é propulsionado pela energia política emancipatória, mas antes pela exploração oportunista, embora com efeitos muito interessantes e incomuns, de um tópico em voga na época, particularmente, no que diz respeito ao Brasil, tendo em vista o cruzamento entre o ‘desvio’ sexual e o fantasma da miscigenação que se opera no romance”.

“Ao considerará-lo inaugurador de uma literatura gay e não simplesmente de temática gay, subestima-se o que ele tem de preconceituoso em relação à homossexualidade.”
César Braga-Pinto

Os preconceitos da época — e provavelmente do autor — são também visíveis numa outra característica do romance — o facto de ter o primeiro protagonista negro da história da literatura brasileira –, muitas vezes passada para segundo plano, já é mais difícil de explicar. Muitos acreditam está relacionada com o desejo homoerótico e a sua possível relação com o conceito de raça do final do século XIX. “Naquele momento, explicava-se a homossexualidade de duas maneiras: ou era inata ou era causada pelo meio. Porém, ao se associar a homossexualidade ao corpo negro, a influência do meio deixa de ter importância, já que a raça era supostamente imutável”, afirmou César Braga-Pinto, que acredita que “a verdadeira novidade na obra de Caminha é a maneira” como examinou “a homossexualidade congénita na sua interseção com a crença a imutabilidade da raça”.

Isso não significa, porém, que Adolfo Caminha considera-se que havia uma ligação direta entre a cor da pele do protagonista e a sua orientação sexual. Mas a verdade é que havia “da parte do autor um certo interesse em identificar o sujeito que tinha inclinações inatas ao crime e também à homossexualidade”. “Ambas se manifestavam no corpo negro. Porém, não se pode dizer que, com isso, ele quisesse dizer que todo o negro tinha inclinação à homossexualidade. Enquanto obra de ficção, o romance permite uma certa ambiguidade”, disse ainda o professor, que está prestes a lançar o livro A Violência das Letras: Amizade e inimizade na literatura brasileira (1888-1940), que procura “entender a transformações nos discursos sobre a amizade entre a elite letrada do Brasil”. Leandro Valentin também não põe de lado a hipótese de Caminha “ter mobilizado a cor do protagonista para indicar que a sua inferioridade de raça seria mais propícia para o desenvolvimento de comportamentos sexuais considerados anómalos pelo momento histórico”, sobretudo tendo em conta que Bom Crioulo foi “produzido sobre o prisma naturalista e científico da época, que tratava os negros como uma raça inferior”. “Um indício dessa possibilidade de leitura é a reiteração do procedimento de zoomorfização de Bom Crioulo ao longo do romance, que bestializa a figura do negro corpulento, cujo desejo é, na verdade, produto do instinto. Um procedimento racista, ressalte-se.”

Adolfo Caminha passou os últimos anos no Rio de Janeiro, onde os críticos literários receberam de forma muito negativa o seu terceiro romance

Assim sendo, como é que devemos encarar Bom Crioulo? Como um romance homofóbico, preconceituoso, marcado pelas pseudo-teorias científicas do seu tempo? Ou como uma obra inovadora? A resposta não é fácil.

Anna Klobucka acredita que, apesar dos preconceitos que lhe são inerentes, o romance é “um caso importante no arquivo histórico das representações das identidades e relações não heteronormativas”. Já Leandro Valentin defende que Bom Crioulo está “quilómetros à frente do seu tempo” porque “as ambivalências, contradições e procedimentos de representação da homossexualidade demonstram que a abordagem deste tema no romance de Caminha não é redutora e foi inovadora para a época”. “Não importante se isso foi um sentido previsto pelo autor ou não ao conceber a obra.” Como escreveu no artigo “A recepção crítica e a representação da homossexualidade do romance Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha”: “Talvez esta seja a primeira exploração, na literatura brasileira, do plano erótico-amoroso de uma personagem homossexual. Obviamente, isto não se dá sem contradições e sem a presença de valores morais da época. Portanto, ainda que possua certa carga de moralismo, Bom Crioulo é um romance muito significativo por representar a homossexualidade abertamente num contexto muito conservador”.

Mais claro é o seu lugar na história da literatura brasileira. O autor é, juntamente com Júlio Ribeiro e Aluíso Azevedo, geralmente apontado como um dos expoentes máximos do Naturalismo no Brasil, ocupando “um lugar de destaque na ficção naturalista do final do século XIX”, como apontou ainda Valentin. Para o investigador, Adolfo Caminha é ainda “precursor das narrativas brasileiras em que o homoerotismo é representado, justamente por ser o primeiro romance da literatura brasileira a tematizá-lo como assunto central”. Regina Dalcastagnè, em “Retrato sem parede: o Bom Crioulo de Adolfo Caminha”, defendeu que “Bom Crioulo não é apenas um documento da época ou uma correta aplicação, no Brasil, das teorias do Naturalismo francês”. É muito mais do que isso. “Ao dar vazão a outras possibilidades de apreensão do mundo social e a outros modos de viver a sexualidade, Adolfo Caminha instaura a ambiguidade em sua narrativa”, escreveu a professora, esclarecendo que, “graças a essa ambiguidade”, o romance é, “sem se querer, ‘atemporal’ (qualidade que, a rigor, só seria conquistada por uma obra que negasse aquilo que possui de mais valioso, seu carácter humano), é capaz de desafiar seus leitores mais de um século depois de ter sido escrito”. “E que, por isso mesmo, deve ser lido não com a condescendência destinada aos velhos textos do passado, nem com o enfado ao qual se relegam as tarefas escolares, mas com o rigor crítico e o interesse que merecem as obras que ainda falam a nós.”

Texto de Rita Cipriano, ilustração de Maria Gralheiro.
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