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No trabalho de Carlos Bunga há uma semiótica particular ligada ao modo como determinados objetos do quotidiano se transformam em portadores de memória, emoção e pensamento
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▲No trabalho de Carlos Bunga há uma semiótica particular ligada ao modo como determinados objetos do quotidiano se transformam em portadores de memória, emoção e pensamento

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

▲No trabalho de Carlos Bunga há uma semiótica particular ligada ao modo como determinados objetos do quotidiano se transformam em portadores de memória, emoção e pensamento

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Carlos Bunga: "Que o museu seja menos museu e seja mais casa"

O artista português apresenta no CAM Gulbenkian uma das suas exposições mais complexas e pessoais e uma das suas maiores instalações de cartão site-specific. “Habitar a Contradição” inaugura dia 7.

Não é a primeira vez que a casa, enquanto elemento simbólico e estrutural, assume um papel central no trabalho de Carlos Bunga (n. Porto, 1976). Já assim fora na exposição individual — precisamente intitulada  Casa — apresentada na Galeria Vera Cortês em 2021, como também na Fundação Calouste Gulbenkian — e em itinerância por outros locais — no âmbito do programa curatorial CAM em Movimento, com o projeto site-specific concebido para um contentor marítimo a que chamou, precisamente, Home (2022). Nesses anos marcados pela pandemia, o artista refletia sobre a transformação do espaço que ora servia de abrigo, ora se tornava prisão. Chamava igualmente a atenção para o lugar de onde vimos e a que pertencemos, mas que, por contraste, também pode ser o espaço que todos ansiamos ter, ainda que até possa nunca ter existido. Dentro e fora de portas, é no CAM Gulbenkian, em Lisboa, que o artista regressa agora a essa dimensão de casa, com a mostra Habitar a Contradição, que abre ao público esta sexta-feira, 7 de novembro.

Antes de nos conduzirmos pelas obras que integram a exposição, que ocupa diversos espaços da instituição, importa reconhecer que há, no trabalho de Carlos Bunga, uma semiótica particular ligada ao modo como determinados objetos do quotidiano se transformam em portadores de memória, emoção e pensamento. Para o caso, deve sublinhar-se o facto de a casa que o artista propõe ser simultaneamente biográfica e política, ou seja, um espaço de ligações familiares inusitadas, mas também de uma ética fundada no poder da empatia, destinada a todos os que se proponham a fazer parte desta alegoria.

▲ A partir da memória individual, que se transforma em memória coletiva, Bunga amplia o sentido da casa, convidando outras vozes e obras a entrarem neste diálogo

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Como explica o artista ao Observador, trata-se de uma casa-museu onde somos convidados a entrar e a participar, tornando-nos, também nós, agentes da sua contínua transformação. Não havendo, assim, ponto de partida nem de chegada, Habitar a Contradição rompe com os limites espaciais e procura afirmar-se pela capacidade de nos levar a questionar o mundo que nos rodeia. “O desafio é como aprender a habitar juntos hoje, num mundo polarizado, com uma política do medo e, novamente, conservadora e, no meio disso, como aprender a habitar na contradição”, sintetiza.

Uma coreografia de objetos e pessoas

Nada como falar através dos espaços que o artista se propôs trabalhar em conjunto com o curador Rui Mateus Amaral. Mesmo antes de entrarmos no edifício, é no próprio jardim – numa estrutura de pedra ali preservada – que um sinal visível diz apenas “Beijódromo”. É um pequeno gesto que presta homenagem à história de afeto humano no jardim da Gulbenkian, um local ocupado pela familiaridade, a amizade e o romance, que ao longo dos anos acolheu todas as formas possíveis de convívio. “Batizar este espaço serve de convite às pessoas para que venham beijar-se, abraçar-se, valorizar a importância da empatia e de estarmos juntos. Um espaço simbólico que é também um ponto de encontro”, sublinha.

“Esta exposição está pensada como uma espécie de dança coreografada, em que tudo está em movimento e também o público faz parte desse movimento. Quero que as pessoas se sintam vivas e que, de alguma forma, o museu seja menos museu e se torne mais casa.”

É igualmente no jardim que o curador chama a atenção para as cadeiras ali dispostas. Não sendo raras nem valiosas, fazem “parte da vida quotidiana em Portugal”. Produzidas pela Adico, o modelo escolhido, denominado Manel, é também um elemento essencial na mostra, uma vez que várias destas cadeiras se encontram na nave central do CAM para serem movidas livremente. “Queríamos trazer as cadeiras para a exposição, dando o mote às pessoas para que as usem e as movam dentro do espaço expositivo, para que se sentem nelas, seja para repousar, seja apenas para habitarem de outra forma a exposição”, salienta o curador, atual diretor artístico do Museu de Arte Contemporânea de Toronto (MOCA).

Não é coincidência que mais cadeiras e objetos de repouso – ou que figurariam como elementos decorativos no interior de uma casa – se encontrem no hall da instituição. Entre cadeiras equilibradas e empilhadas umas sobre as outras e objetos domésticos alterados, entre mesas, candeeiros, armários e tapetes, desafia-se a classificação fácil, ampliando de igual forma o conceito de “engawa”, que esteve na base do projeto do arquiteto Kengo Kuma para o edifício do CAM, e que designa um espaço de passagem, interior e exterior, encontrado habitualmente nas casas tradicionais japonesas.  “Evocando esse conceito e jogando com a ideia de interior e exterior, queremos que as pessoas sejam encorajadas a fazer deste o seu espaço”, explica Carlos Bunga.

▲ A exposição "Habitar a Contradição" foi pensada e organizada por Carlos Bunga com o curador Rui Mateus Amaral

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Numa ideia permanente de transição entre espaços, toda a mostra é mapeada por uma dimensão coreográfica. Não é por acaso que estas cadeiras rememoram o célebre Café Müller, de Pina Bausch, ou para a importância que a dança teve no contexto da Fundação Calouste Gulbenkian. Neste hall, e recuperando precisamente essas referências, serão exibidas imagens em vídeo de antigos bailarinos do Ballet Gulbenkian, que refletem sobre o fim da companhia e sobre a importância da dança nas suas vidas – e que, no dia da abertura, também participarão nesta coreografia que o artista propõe alargar a todos os visitantes. “Esta exposição está pensada como uma espécie de dança coreografada, em que tudo está em movimento e também o público faz parte desse movimento. Quero que as pessoas se sintam vivas e que, de alguma forma, o museu seja menos museu e se torne mais casa”, completa.

Num bosque de memórias

Passados estes primeiros momentos, marcadamente conceptuais, chegamos à nave central do CAM. Trabalhando, como habitualmente, com materiais frágeis e provisórios – cartão, tinta e fita adesiva –, Bunga apresenta aqui uma monumental floresta de formas cilíndricas de diferentes escalas, que tanto evocam colunas arquitetónicas como troncos de árvores. “Estamos num lugar híbrido, que é tanto artificial como convoca a ideia de estarmos no meio da natureza, refletida para lá dos vidros que nos rodeiam. Este sentimento, marcado pela arquitetura austera e industrial do espaço, vai mudando à medida que deambulamos por ele, até porque não há um percurso específico. Cada pessoa fará o seu caminho”, acrescenta o curador.

“Interessa-me a ideia de refúgio, sendo que a minha utilização do cartão funciona como uma espécie de projeção mental num espaço real”, explica o artista, que remete também para a dimensão temporal “onde os corpos deambulam numa experiência entre passado, presente e futuro”.

Explorando a estética do provisório e a política da sobrevivência, as construções de Carlos Bunga envolvem o visitante espacial e emocionalmente, evocando lugares de abrigo transitório moldados pela memória, o trauma e a precariedade da vida. “Podem ser tocadas ou simplesmente contornadas, mas uma das nossas ideias é precisamente quebrar esse estigma de que são peças com as quais não se pode interagir. Pelo contrário, esta obra convida as pessoas a entrar e a tocar”, salienta Bunga.

Neste bosque em que entramos, recorda-se igualmente a monumentalidade das esculturas em ferro e aço de Richard Serra (1938–2024), também elas um convite inescapável a viver num lugar moldável e mutante, onde tanto nos perdemos como nos encontramos. “Interessa-me a ideia de refúgio, sendo que a minha utilização do cartão funciona como uma espécie de projeção mental num espaço real”, explica o artista, que remete também para a dimensão temporal “onde os corpos deambulam numa experiência entre passado, presente e futuro”.

▲ "A arquitetura, o corpo humano, a natureza e até mesmo a reflexão sobre o período colonial português” fazem parte desta exposição, diz Rui Mateus Amaral

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Entre as várias obras de Bunga que ocupam o espaço – para lá das obras de outros artistas que o artista convocou em diálogo – há surpresas pelo caminho, com alguns destes cilindros a revelarem, também eles, espaços que se descobrem a partir do seu interior. Por outro lado, acrescenta o curador, há outras esculturas em madeira, denominadas Nomad, moldadas tanto pelo movimento voluntário como pela migração forçada. São figuras sem género, multirraciais, que cruzam espécies e apresentam diferentes formas de abrigo como cabeças. Algumas assemelham-se às criações surrealistas interessadas na disrupção antropomórfica.

Mesmo sem um ponto de partida definido, é também nestas obras que se encontra uma ligação natural ao desenho de Bunga, A Minha Primeira Casa Foi Uma Mulher 1975 (2018), que evoca a viagem da mãe do artista, grávida, de Angola para Portugal, em 1975, fugindo à guerra civil para salvar a filha de dois anos e o filho [Bunga] por nascer. Situado num dos cantos da nave central, é a partir dele que se inicia um percurso por obras que convocam a história familiar de Bunga, nascido no Porto, com raízes angolanas e hoje radicado em Barcelona.

“De forma livre, trabalha-se aqui com obras de artistas que integram uma coleção permanente, em diálogo com o trabalho de um artista [Bunga] que trabalha com o efémero e com a impermanência”, salienta o curador.

“Foi claro, desde o princípio, que este desenho tinha todos os elementos presentes no trabalho do Carlos e que aqui revisitamos: a arquitetura, o corpo humano, a natureza e até mesmo a reflexão sobre o período colonial português”, diz Rui Mateus Amaral. A partir desta obra-síntese, deambulamos entre fotografias da mãe do artista, que saiu de Angola numa das pontes aéreas disponíveis no período da revolução, para aqui refazer a sua vida, um quarto reconstruído à escala, onde o próprio Bunga viveu em Peniche, e as imagens e maquete de uma casa na Lourinhã, que evocam não só a casa onde cresceu, como também o Fundo de Fomento da Habitação, que existiu até 1982 e que amparou a sua família neste período de transição. “Estas fotografias e esta maquete ilustram a casa onde vivi – entretanto demolida – que, entre outras, foram construídas para colmatar a urgência habitacional que se verificou depois do 25 de Abril, tal como hoje existe”, realça.

Ainda sobre esse trabalho de recuperação de lembranças pessoais, Carlos Bunga sublinha como há hoje uma falta de memória sobre esses processos que marcaram a história recente do país. “Na Lourinhã, ninguém sabe, e os que sabem não falam destas casas. Tal como muitas línguas que ainda hoje existem por haver quem as cultive como um ato de resistência, também estas obras são uma forma de resistência da minha parte contra a tentativa de apagar as coisas ou de as esquecer.” É a partir dessa memória individual, que se transforma em memória coletiva, que Bunga amplia o sentido da casa, convidando outras vozes e obras a entrarem neste diálogo.

Uma casa em diálogo

Tal como na exposição de Leonor Antunes, que inaugurou a nova nave central do renovado CAM, também Carlos Bunga foi convidado a escolher, a partir da coleção do CAM, obras de outros artistas com os quais se estabelecesse um diálogo. Numa casa cada vez mais expandida, destacam-se Sala de Descontração (1975–76), de Túlia Saldanha; Pelagrian Muda (2008), de Doris Salcedo; esculturas de Francisco Tropa; desenhos de Ana Hatherly; e ainda obras de Helena Almeida, Lourdes Castro, Alberto Carneiro, Wolf Vostell e Maria Helena Vieira da Silva, entre outras. Todas, à sua maneira, aportam elementos para uma reflexão sobre o espaço habitado, a tela que se rompe e transfigura, ou o espaço público repensado.

▲ Carlos Bunga: "Devemos aprender a habitar a contradição, porque é isso que nos permite sobreviver e encontrar o equilíbrio no mundo hoje”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“De forma livre, trabalha-se aqui com obras de artistas que integram uma coleção permanente, em diálogo com o trabalho de um artista [Bunga] que trabalha com o efémero e com a impermanência”, salienta o curador. Por essa razão, explica, os trabalhos aqui mostrados são reflexo desse “território escorregadio, situado entre diferentes categorias e numa zona cinzenta que não é de simples conceptualização”, completa.

Estamos, afinal de contas, num microcosmo em que tudo entra em diálogo. É, pelo menos, dessa forma que Carlos Bunga perspetiva esta conversa estabelecida entre obras e diferentes períodos históricos, onde se convocam diferentes modos de ver. “É uma exposição em que tento testar os limites do que é um museu. Mesmo existindo paredes, quis trabalhar os diversos espaços e manter a ideia dessa coreografia, que tem um lado íntimo, mas que não se fecha nisso. Não falo apenas de mim – fala-se de política, de Portugal, da arte – e, por isso mesmo, está cheia de contradições. É precisamente por isso que devemos aprender a habitar a contradição, porque é isso que nos permite sobreviver e encontrar o equilíbrio no mundo hoje”, conclui.

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