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▲Aos 33 anos, a cantora lança o sétimo álbum de originais, "Chorar no Club"

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

▲Aos 33 anos, a cantora lança o sétimo álbum de originais, "Chorar no Club"

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Carolina Deslandes: "Sou constantemente aconselhada a ser menos polémica, a dizer menos coisas, a estar mais caladinha, mais no meu canto"

Cansou-se das baladas, rodeou-se de mulheres e gravou o novo "Chorar no Club", música para dançar os males. "Tenho de ser educada, mas não tenho de ser amiga de toda a gente", diz-nos em entrevista.

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“Lá vem ela com as frases sobre politiquices, quer ser capa de revista e escrever quatro livros.” Há muito que Carolina Deslandes deixou de ter Tento Na Língua. Podem reduzi-la ao milhão de seguidores, ao séquito de fãs típico de cantora pop, ou cobrar-lhe a incoerência do que não ficou para A Vida Toda. Facto é que, aos 33 anos, Carolina Deslandes tornou-se uma das vozes mais marcantes da música portuguesa contemporânea. Cantautora de coração aberto, tem construído uma carreira que cruza vulnerabilidade, força e uma rara autenticidade — tanto nas canções como na forma como habita o espaço público desde que despontou no concurso Ídolos.

Acaba de lançar Chorar no Club, sétimo disco de originais, composto por 24 faixas — uma para cada hora do dia. O álbum, produzido pela artista em conjunto com Feodor Bivol, MAR, Jon e D’AY, traz novidade ao repertório que tem construído: soa a noite, pista de dança, introspeção, feminismo, desejo e ironia. O oposto para quem a reconhece apenas na doçura de Avião de Papel (2018). “Sê bem-vindo ao capítulo do posso e eu mando”, escutamo-la em Plotwist, canção-âncora do disco mais afiado, mais direto e talvez mais livre da carreira.

Em entrevista ao Observador, Carolina Deslandes fala sobre o processo de criar um disco que é tão pessoal quanto político, da libertação face à pressão dos números, do peso das expectativas que, diz, ainda recaem sobre as mulheres, do clima político atual e da urgência de não ficar em silêncio. Fala sobre música, mas sobretudo sobre o que a música carrega: identidade, corpo, voz e posicionamento: “Queriam-me caladinha? Eu venho de outro sítio.”

A sensação, ao ouvir este disco, é de transformação, quase como um novo capítulo. O título Plotwist, de uma das canções, parece sublinhar isso. Este trabalho representa um verdadeiro ponto de viragem?
100%.

Por vezes num filme há uma altura em que percebemos que o plotwist se aproxima. Quando é que isso aconteceu? 
Este momento de viragem do disco e da maneira como ia fazê-lo começa quando me junto com a MAR, produtora da primeira canção do disco, que se chama Armas e Rosas, que foi produzida por ela e fi-la com ela. Tal como o O Sexo Fraco.

Como se conheceram?
Através dos DAMA. Disseram-me: tens de conhecer esta miúda, que produz, canta e escreve. Cheguei ao estúdio, fizemos uma sessão juntas e ficámos logo muito próximas. Esta libertação de trabalhar com uma mulher foi muito importante para mim, vê-la a não ter medo de correr riscos com a produção. A dizer: porque é que agora não metemos aqui umas baterias? Pensei: esta pessoa é absolutamente livre. E eu já me tinha esquecido que se pode ser assim. Na minha cabeça estava algures escondida a noção de que as canções tinham que ter uma forma mais redondinha, uma forma mais transversal, mais fácil de compreender. E não têm.

Os discos são para as pessoas que já estão pré-dispostas a ouvir tudo o que tu queres experimentar. Os singles são para os visitantes, mas os discos são para tu seres o mais que conseguires ser. Foi nesse momento que comecei a trabalhar com ela que percebi que este disco ia ser completamente imprevisível e que o meu maior erro seria tentar que não fosse, tentar domá-lo ou tentar torná-lo mais comercial, mais redondinho ou mais próximo daquilo que já fiz. Era matar o disco. A partir daí foi: buckle up, it’s going to be a bumpy ride!

Como chegou ao título do disco?
O álbum era para se chamar Cantigas de Menina Grande. Foi o que pensei fazer quando fiz o Como é Linda (single lançado em maio de 2024), que acabou por nem ficar no disco. Mas quero guardar esse conceito de “cantigas de menina grande” para a sonoridade que usei no Como é Linda, para a sonoridade que usei no Saia da Carolina (do álbum CAOS, 2023), que é música tradicionalmente portuguesa, mas em 2025, cantada agora. Achei que, com a música que estava a fazer, o título ia induzir a erro. E odeio quando isso acontece, quando o título me diz uma coisa, vou ouvir e não tem nada a ver. Passou para Cansei de Ser Triste, porque como é um disco que fala muito sobre sexo, sobre amor, mas também sobre desamor, pensei: vou fazer isto porque cansei-me só de cantar baladas.

"Agora há uma coisa de: 'olha, não é tudo tão profundo, relaxa, relaxa um bocado'. O mundo está a acabar e toda a gente quer que o outro relaxe. O mundo está a acabar e toda a gente quer falar de skincare. O mundo está a acabar e toda a gente quer falar de autocuidados e spas. Autocuidado é ser politicamente informado. Autocuidado é saber fazer o IRS, saber quando é preciso fazer terapia e ter capacidade financeira para suportar o que a saúde mental pede."

Também podia ser uma graça com as Cansei de Ser Sexy [banda brasileira que explodiu no início dos anos 2000].
É. Cansei de ser sexy e cansei de ser triste! Às tantas, comecei a perceber que estava a fazer música para dançar, o Pensar em Mim, o Disco Darkie, outra que era o Desespero e que acabou por não ficar, mas que eram letras tristes na mesma. Comecei a dizer: isto é mesmo música de chorar no club. Que é quando estás numa discoteca às três da manhã a dançar com as tuas amigas e de repente dá-te para chorar com a letra da música que é super profunda! E isto foi crescendo, esta expressão. Estava sempre a dizer: isto é mesmo chorar no club. Depois pensei: porque é que não chamo ao disco Chorar no Club? E acabou por ficar. Tenho uma coisa que é: todos os seus discos começam por “c”, todos os meus EPs começam por “m”, desde sempre. Por isso ficou Chorar no Club.

Em DizerKTamo, logo na segunda canção do disco, ouvimos: “Deixa-me falar de amor”. Esse verso soa quase como um pedido de permissão. Foi essa a intenção?
Na verdade esse é um pedir licença a mim mesma. Falei tanto do desgosto nos últimos anos, falei tanto sobre o que era separares-te e sofreres, o que era o avesso do “amor para a vida toda” que cantei em 2018 (A Vida Toda, do álbum Casa)… Agora para mim era: “Deixa-me falar de amor, cansei de falar a língua do abismo, vou atrair o romantismo, quero dizer que te amo e ser um eufemismo”.

Quero cantar as coisas boas também. Quero dar protagonismo às coisas boas. Estou sempre a dizer que as histórias tristes de amor dão mais vontade de escrever, mas as histórias felizes de amor dão mais vontade de cantar. Queria ter um disco e um concerto que me desse felicidade a cantar, que não fosse sempre o peso da história de uma coisa que lancei e que acabou por se tornar de toda a gente, mas que custa. Há dias em que me sai do pelo cantar o Por um Triz [do álbum Por um Triz, 2021]. Há dias em que me sai do pelo pelo cantar o Não Me Importo [2020]. Apetecia-me ter um disco que fosse melancia no verão, que fosse mar, que fosse uma coisa mais coletiva. Mesmo que fale de coisas tristes, mas que dê para estar a falar de coisas tristes abraçada às minhas amigas com um rímel até ao queixo.

É um pedido de licença a mim mesma, porque não peço licença para falar de nada. A não ser aos meus pais quando sinto que posso magoá-los com algum poema ou com alguma canção, são as únicas pessoas a quem peço licença, de resto, I’m used to the hate [“estou habituada ao ódio”, em português]

Na sexta canção, A Terra é Redonda, canta: “Em direções opostas a gente ainda se encontra”. Esta é uma mensagem de esperança ou de resignação? Ainda nos podemos encontrar no meio de tantas polarizações?
O [tema] Terra é Redonda nasceu de um poema que escrevi que dizia só: “Corremos em direções opostas só porque sabemos que a Terra é redonda”. Gostei tanto desse poema e pensei que isto se traduz para muitas coisas. Pode ser tanto de resignação como de esperança. Muitas vezes temos relações, não só conjugais, de amigos também, em que temos facilidade em discutir com a pessoa e em tornar a discussão mais acesa do que é porque sabemos que aquela pessoa não se vai embora e sabemos que não nos vamos embora daquela pessoa. Isso acontece muito com os irmãos. De repente, o irmão comeu a última bolacha, deixou o pacote no armário e isso dá uma guerra dentro de casa. Com as relações conjugais também tenho muita tendência a não conseguir fechar capítulos. Não consigo. Quando acabo uma relação, ela já acabou dez vezes! Primeiro que decida mesmo: ok, este é que foi o mesmo fim, fico a enrolar… Este disco fala muito sobre isso.

Era uma coisa que tinha muita dificuldade em assumir assim, tão claramente. Temos muita dificuldade em nos assumirmos como falíveis e como um quêsinho de tóxicos. Essa canção, na verdade, fala sobre uma história de amor de duas pessoas que estão sempre a dizer que precisam de distância, mas a querer, na verdade, que a outra pessoa contrarie esse pedido e que alguém ande atrás de alguém. No refrão há essa coisa do “Há vida depois do fim, essa vida há-de ser nossa, se não resultou aqui, amor, eu vou dar a volta”. Devemos sempre ter uma continuação desta história onde temos que nos resolver, tem que ser.

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“Porque é que tu falas tanto? Sê lá uma boa menina e cala lá a boca. Posa para a fotografia, compra a roupa”. “Tens de ser bonita, depois pensas na escrita ninguém ouve uma mulher que não vai querer comer”. Brinde é porventura das canções mais acutilantes deste disco. Qual foi o ponto de partida?
Não faço muitas canções irónicas. Normalmente, quando quero falar de uma coisa sou bastante frontal e bastante agressiva. Aqui quis ser um bocadinho irónica e diverti-me a fazer esta canção porque é meio gozar com quem nos torna gozáveis. É um bocadinho isso.

Há um verso que diz: “Um brinde ao país onde ser feminista é cringe”.
Exatamente. Agora há uma coisa de: “Olha, não é tudo tão profundo, relaxa, relaxa um bocado.” O mundo está a acabar e toda a gente quer que o outro relaxe. O mundo está a acabar e toda a gente quer falar de skincare. O mundo está a acabar e toda a gente quer falar de autocuidados e spas. Autocuidado é ser politicamente informado. Autocuidado é saber fazer o IRS, saber quando é preciso fazer terapia e ter capacidade financeira para suportar o que a saúde mental pede. É um bocadinho isso. Sou constantemente aconselhada a ser menos polémica, a dizer menos coisas, a estar mais caladinha, mais no meu canto. “Se não disseres nada, vais ver que o teu hate baixa imenso. Porque te pões a falar dessas coisas?” Como se as problemáticas do mundo existissem porque falo delas e como se falar delas justificasse o tipo de ódio que recebo.

Ouve isso de quem a agencia, mas de quem se preocupa também, imagino.
Sim, mais até de quem se preocupa. Mas no dia em que fizer isso, perco o meu propósito. Temos que pensar porque é que estamos aqui, porque é que fazemos as coisas. Tenho um papel. Esta coisa de estarem constantemente a convencer-me que me devia parecer de outra maneira… Tenho três filhos rapazes, sou mãe de família, mas estou toda tatuada e sou artista, sou gorda mas sou popstar, está toda a gente à espera que eu me vista com bodies e saltos altos. Depois há aquela coisa de… dizerem que sou um mau exemplo de saúde. “A obesidade é uma causa de mortalidade e esta pessoa promove a obesidade.” Como chegaram a dizer que promovo o divórcio! Só porque me dou bem com o pai dos meus filhos. Decidi divertir-me com essa temática, pegar nisso tudo.

É aquela coisa: “Olha, está ali um homem super importante, ele é meio inconveniente, mas ele é o dono de não sei o quê”. Somos quase aconselhadas a fazer a corte aos homens que estão em posições de poder. É uma coisa que acontece em todos os setores. Sentimo-nos quase na obrigação de ser sensual, de entreter. Fiz uma canção sobre isso. “Um brinde na festa onde só entras com um convite”, aquela coisa super exclusiva e elitista das nossas festas onde estamos todos tristes, a sofrer ansiedade e todos a fingir que somos super equilibrados e ricos!

"Mais do que nos debruçarmos sobre o quanto somos anti-todas as coisas que estão a acontecer, temos de nos debruçar sobre o quanto o país não é Algarve, Porto e Lisboa. O quanto a pobreza é real. As pessoas estão a fazer contas para ir ao supermercado, não estão a conseguir comprar uma casa, nem sair de casa dos pais sem dividir casa. É preciso olhar para a realidade do outro e perceber que o outro está desesperado. E que, às vezes, o lugar do privilégio nos dá uma capacidade de reflexão e um pedestal moral que nos distancia efetivamente dos motivos pelos quais as pessoas fazem as coisas."

Esta entrevista acontece 78 horas depois das eleições legislativas. Não é o que se possa chamar uma artista com um perfil neutro, mas é certo que os artistas têm o direito de não se posicionar.
E têm.

Quando vivemos tempos como este também?
Acho que defender a liberdade é exatamente defender que aquilo que para mim não é contornável, para outra pessoa será. Depois, é preciso definir como é que se olha para essa pessoa e como é que nos relacionamos com essa pessoa ou não. Não posso obrigar uma pessoa a falar de uma coisa sobre a qual ela não se sente capaz de falar, uma pessoa que não consegue lidar com as consequências. Ser ameaçada e ter medo de sair de casa é uma coisa que influencia toda a tua vida. Temer pela segurança é uma coisa que influencia toda a vida. Portanto, não me sinto no direito de impor nada na vida de ninguém.

Enquanto artista, vejo-me como um reflexo do tempo em que vivo. Um dia quando já cá não estiver e se estiver a falar da História, de uma pandemia, dos números de violência doméstica a crescerem exponencialmente, desta ascensão da extrema-direita, gostava que encontrassem na minha pegada artística a minha posição perante todas essas coisas. Para mim é importante. É e sempre foi. O que não é importante e nunca foi é ser amada por toda a gente. Isso não é importante para mim — estou mesmo a ser sincera. Não é importante para mim entrar numa sala e toda a gente gostar de mim.

É importante entrar numa sala e saber que não fiz nada de que não me orgulhe e que não disse nada que vá contra aquilo em que acredito. Isso tira-me o sono, o resto não. Quando não era conhecida e andava na escola, já não era consensual. Entre os meus professores havia quem me adorasse e quem me odiasse. Mesmo dentro da minha família há quem me ache muita graça e há quem não ache. Não tenho qualquer pretensão de ser consensual.

Como olha para o contexto atual?
Aquilo que está a acontecer acredito que é reflexo de um preconceito que já existia, mas que simplesmente foi deixando de ter vergonha de existir. O racismo foi-se tornando mais gritante. O machismo foi-se tornando mais gritante. A ignorância foi-se tornando maior. Porque se temos um smartphone e lemos dois segundos sobre um artigo e achamos que sabemos coisas sobre coisas, não sabemos. Muitas pessoas que votam em partidos não sabem sequer quais são as propostas desses partidos, mas acham que sabem porque passam por muitas informações.

Alguma vez ponderou ser pública com o sentido de voto?
De uma maneira ou outra acabo por fazer isso.

Na reta final da campanha eleitoral, como é habitual, alguns artistas posicionaram-se ao lado de partidos e líderes políticos. Alguma vez pensou nisso, ou mesmo ser mandatária de um partido, por exemplo?
Ser mandatária de um partido não. Estar associada a um partido ou ir a eventos do partido é uma coisa que por acaso nunca fiz, mas não escondo a ninguém que tenho uma admiração profunda pelo Rui Tavares [porta-voz do Livre] e que ouvir o Rui Tavares falar num Parlamento onde se tem ouvido as coisas que se tem ouvido, para mim é um alívio muito grande. A sensação que tenho — porque sou poeta e não consigo não pensar nestas coisas — é a de um prédio cheio de andaimes em obras e, de repente, por alguma razão, está lá um cravo. Nasceu ali uma flor. Alguém que fala de História, alguém que me dá um contexto factual, que não vive de ofender, que não vive de chocar.

Mas também é importante perceber isto: as pessoas estão francamente desesperadas. As pessoas vivem para trabalhar, vivem a não ter tempo para estar com os filhos, a não ter tempo para se conhecerem sequer, a não ter tempo para fazer as coisas de que gostam. Aquilo que descontam vai para um Estado que sentem constantemente que lhes falha, que o ensino lhes falha, que a saúde lhes falha. Portanto, acho que as pessoas reagem mais por desespero do que por preconceito. Quero acreditar nisso. Acho que estamos a viver um mundo em que mais do que nos debruçarmos sobre o quanto somos anti-todas as coisas que estão a acontecer, temos de nos debruçar sobre o quanto o país não é Algarve, Porto e Lisboa. O quanto a pobreza é real. As pessoas estão a fazer contas para ir ao supermercado, não estão a conseguir comprar uma casa, nem sair de casa dos pais sem dividir casa. É preciso olhar para a realidade do outro e perceber que o outro está desesperado. E que, às vezes, o lugar do privilégio nos dá uma capacidade de reflexão e um pedestal moral que nos distancia efetivamente dos motivos pelos quais as pessoas fazem as coisas.

Para mim começa tudo numa reestruturação do ensino. Há uma frase que costumo dizer que é: educai as crianças e não terás de prender os homens. [É preciso] reestruturar o ensino, falar do que é votar, do que é a direita, do que é a esquerda, apresentar os programas eleitorais, dissecá-los e perceber do que é que se está a falar. Falar do que são os impostos, para que é que se pagam as coisas, porque é que se fazem descontos. Tornar as pessoas mais capazes de serem cidadãos informados e capazes de entender o que lhes é dito e também o que lhes é prometido.

Onde cabem os artistas nesse processo?
Os artistas, na minha opinião, cabem porque precisamos todos de um poema no meio da merda. Estou a falar a sério!

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Em Testamento canta: “a cantiga é uma arma, pega na pistola”.
Sim.

As canções são mais arma ou escudo?
As duas coisas. É muitas vezes uma arma. É um poder muito grande conseguir falar para tanta gente. Ser ouvida por tanta gente. Digo muitas vezes isto: os meus irmãos mais novos, e mesmo os meus filhos, têm muito menos paciência para me ouvir ralhar do que para me ouvir cantar. É às vezes a cantar que conseguimos dizer coisas. Consegui fazer uma canção que fala sobre nunca ter gostado de usar saias (Saia da Carolina), nunca ter sentido que correspondia ao padrão do que é uma mulher feminina e isso não mexer minimamente e não ter de mexer com a minha identidade. Se tivesse feito um post sobre isso ou se tivesse feito uma palestra sobre isso, 60% das pessoas iam revirar os olhos. Com uma canção, consigo dizê-lo. A canção é eterna e chega a muitas pessoas. É por isso que os artistas estão cá. Porque a arte tem este poder de atravessar, entrar pelas fendas das portas, pela tampa do esgoto. Entra pelo rádio da cozinha da avó, pelo telemóvel, mas há-de chegar e há-de chegar uma mensagem que tinha de encontrar alguém.

Na canção Subir na Vida, diz: “quero ser boa pessoa antes de ser artista”. Esta escolha tem um custo na indústria?
Claro que tem! “Não sou tua amiga nem sou tua sista. Quero ser boa pessoa antes de ser artista. Ouve os passarinhos. Olha-me esta vista, durmo no primeiro andar porque subi na vida”. É exatamente isso. Não estou num lugar da minha vida onde vá fazer amizades por conveniência ou onde vá fazer featurings porque aquela pessoa está a ter muito sucesso ou está a ter muitos números e é exatamente isso que é. Não, nós não somos grandes manos ou grandes amigos porque fazemos a mesma coisa. Atenção, isto não é ódio. É só factual para mim. É mesmo importante e é uma coisa que acho que vai garantindo qualidade. Fazer canções com pessoas de quem gosto verdadeiramente. Pessoas que recebo na minha casa e é essa coisa de eu “não ser tua amiga, nem sou tua sista” e eu quero ser boa pessoa antes de ser artista. Quero estar em contacto com a minha verdade. Quero-te dizer que gosto de alguém. Quero saber elogiar a arte. Esta coisa de temos de fazer parte da coisa mais quente do momento, da novidade mais quente do momento, é algo que vamos percebendo que não interessa e esta canção é sobre isso. É sobre cada vez mais as pessoas dizerem que sou bicho de mato, que estou sempre do outro lado do rio em Alcochete na minha casa ao pé dos cavalos. Os cavalos não são meus, eu moro mesmo ao pé de um picadeiro, atenção. E que passo muito tempo fechada em casa. E é isso. Mas gosto de estar em casa, a ouvir a minha música, a ler os meus livros. Gosto de receber pessoas em casa. Pessoas que eu amo. Sou muito esquisita com as pessoas que ponho em casa. E durante muito tempo achei que tinha de me dar com toda a gente, que tinha de estar aberta a toda a gente. Tenho de ser educada, mas não tenho de ser amiga de toda a gente. E o meu núcleo não tem de ter toda a gente. Prefiro ter o meu núcleo mais fechado. E ser melhor amiga para as pessoas que estão dentro do meu núcleo.

Eu não era boa amiga. Queria estar em todo lado e fazer tudo. E não fazia nada bem. Hoje sou muito melhor filha. Muito melhor neta. Muito melhor mãe. Muito melhor amiga. Porque fecho as portas, mesmo. Não faz mal. Está toda a gente num evento não sei o quê. Nem sequer sei. Evento do quê? Não vou. Estou em casa. Por isso é que digo: desculpa. Hoje não vou. Amanhã não vou. E não me arrependo. Digo isso nessa canção.

Falou de não ser “do momento”, mas tem uma carreira em que tem conseguido manter-se sempre relevante, algo que é difícil para muitos artistas. Como lida com a pressão dos números?
Este disco e mesmo as minhas últimas canções não têm os números que teve A Vida Toda. E mesmo o meu disco a seguir. Acho que me mantenho consistente. Estou sempre a trabalhar, a fazer música e com projetos novos. Também gosto de escrever para outros artistas e é uma coisa em que as pessoas também vão reparando. Dá-me muito gozo as pessoas dizerem: “Fui logo ver e tinha a certeza que tinhas sido tu a escrever”. Mas essa coisa de ter de ser relevante foi uma coisa que também acalmei.

O que mudou?
Encontrei paz na vida que tenho. Não quero mais nada. Gostava de poder viver confortável a fazer arte para o resto da minha vida. Não ter que estar preocupada com números — que já estive. Nos primeiros dois discos ninguém ouvia e isto também não é eterno. Mas tenho exatamente a vida que quero. Tenho os meus filhos bem e saudáveis. Moro na casa que quero. A minha família está bem. Portanto, deixei de estar desassossegada. Mudei 17 vezes de casa, os meus pais separaram-se, eu era pequena. Venho de muitas separações e reencontros. A minha vida sempre foi um desassossego. Sempre senti que estava a trabalhar para a vida que sabia que queria ter. Esta coisa de ter uma família, de poder criar os meus filhos, de poder fazer música, de poder escrever poemas, de poder ler livros… Hoje em dia faço exatamente aquilo de que gosto e aquilo que quero. E isso traz-te uma paz de espírito… Quero lá saber se não ponho nada no Instagram há três dias! Quero lá saber se me estão a achincalhar na notícia.

Criei uma distância disso. Aquilo que uma pessoa está a dizer em Lisboa num café, ou em Leiria no comboio, ou no Algarve na praia sobre mim não pode ser mais importante do que o que a minha mãe diz sobre mim. Nem pode ser mais importante do que o trabalho que faço, ou do que os meus fãs a quem dedico também tanta coisa. Os daquilo que os meus filhos pensam sobre mim. A partir do momento em que mudei o chip, percebi: “Calma, foda-se, esta pessoa não me conhece de lado nenhum, esta também não me conhece de lado nenhum”. Às vezes as pessoas ofendem-me nas mensagens e há dois meses estavam a dizer que me amavam. É nonsense. Também comecei a perceber que se jogava mais com o meu nome e com o facto de saber que as pessoas clicam do que efetivamente levarem a sério quando falava de alguma coisa. Então prefiro dizer a cantar. Ninguém escreve, grava uma canção, produz, mixa, masteriza e lança se não for uma coisa que leva a sério. Não bato boca na internet. É só isso. Isso mudou também muita coisa.

"Consegui fazer uma canção que fala sobre nunca ter gostado de usar saias, nunca ter sentido que correspondia ao padrão do que é uma mulher feminina e isso não mexer minimamente e não ter de mexer com a minha identidade. Se tivesse feito um post sobre isso ou se tivesse feito uma palestra sobre isso, 60% das pessoas iam revirar os olhos. Com uma canção, consigo dizê-lo. A canção é eterna e chega a muitas pessoas. É por isso que os artistas estão cá. Porque a arte tem este poder de atravessar."

Deixou de ler?
Deixei de ler, tenho tudo bloqueado, tenho todos os meios fora da minha vista. Não quero saber. Só vou ver notícias sobre o mundo. Não vejo nada de entretenimento, nem nada. Não quero ser ofensiva…

Mas lê notícias.
Sim, vejo as notícias só, mas não quero que me chegue mais nada. Quero que a minha vida possa ser também nutrida das coisas a que dou atenção.

Viver como artista em Portugal é muitas vezes a arte dos sete ofícios. Tem um programa de entrevistas no Youtube muito popular e uma das coisas que lhe é muito apontada é o lado mais cómico nos espetáculos ao vivo. Há uns anos lembro-me de a ver num festival em que o objetivo era ter artistas a contar histórias verídicas — Festival Grant’s True Tales, no Cinema São Jorge — e a conferência da Carolina deixou pessoas a chorar a rir.
Ah, foi tão fixe isso!

A pergunta é se a ambição passa por ser mais do que cantora, sem qualquer tom pejorativo nesta apreciação, mas no sentido de uma maior amplitude de criação artística. Quando pensa na pegada artística, como dizia há pouco, o que lhe dá mais vontade de fazer?
Aquilo que gosto de fazer é de pensar em coisas e potenciá-las. Bora fazer um podcast. Bora trazer pessoas e conversar com elas e ligar isso a uma causa social. Bora fazer um livro, juntar os meus poemas, criar uma narrativa ou fazer um livro infantil que aborde isto. Hoje em dia, por exemplo, só aceito coisas e publicidades que posso escrever. Isso também é um privilégio, não foi sempre assim. Gostava só que me vissem como uma criativa, que é isso que gosto de fazer. Gosto de cultivar a minha imaginação e de levá-la para onde ela quiser.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Fez uma peça de teatro musical, A Madrugada Que Eu Esperava [2024], cuja digressão foi interrompida. Nunca ficou claro: há planos de voltar a palco?
As pessoas souberam que houve um acidente com um membro do casting, então tivemos que parar. Toda a gente tinha uma janela dedicada a esse projeto. Íamos voltar não sei quanto tempo depois, só que para voltar com um teatro musical não sei quanto tempo depois é preciso abrir ensaios porque há toda uma coreografia e havia muita gente que já não ia poder fazer porque já não conjugava as agendas. Íamos ter que arranjar elenco substituto… Achámos que ia ser um caos e que ia trazer o caos para a vida de toda a gente. Então fizemos as pazes. Tivemos três meses em cena, foi imenso tempo, e fizemos as pazes com isso. Está entregue, se não aconteceu não vamos fazer a vida de toda a gente no inferno. Entregámos as nossas chaves.

Voltando ao álbum, há uma canção, Sexo Fraco, que termina com uma voz. É a voz de Maria Teresa Horta?
É a Maria Teresa Horta, sim! Sou absolutamente apaixonada pela Maria Teresa Horta. Acho-a extraordinária. Por acaso, no domingo à noite estava a ver vídeos dela e o meu namorado perguntou: porque é que estás a ver vídeos da Maria Teresa Horta do nada? De vez em quando gosto de ouvi-la falar. Cada vez que me sinto assim, que vou lançar um disco, que estou mais amedrontada com alguma coisa da minha vida ou com o estado do mundo ou com o estado do país, vou a ouvi-la falar. Já vi quase todas as entrevistas dela. Aliás, acho que já ouvi todas. E no dia a seguir ela fazia anos! Pensei: não acredito, estive a noite toda a ouvir-te falar e agora tu fazias anos hoje!

Enfim, quis pô-la no disco. Ela é um exemplo para qualquer mulher portuguesa feminista e foi importante para mim ter um bocadinho da voz dela ali. Acompanhou-me muito nesta evolução minha enquanto mulher, nesta vontade de falar das coisas. Houve uma frase que ela disse numa entrevista que estava à procura que era: “Eu fui agredida pela polícia, eu lutei pela minha liberdade, eu lutei para poder votar e, naqueles tempos de perigo, até o vento a passar parecia fogo a arder no meu cabelo”. Achei aquilo lindo, a maneira como ela descreveu aquilo… Sinto uma gratidão muito grande. Ainda agora fui viajar com a minha avó e falava disso. Sinto uma gratidão muito grande para com as mulheres que tiveram de lavrar terra, o caminho, para que nós pudéssemos existir. Ela fez isso muito bem, pelas artistas e pelas mulheres. Isto de: não sou menos que vocês, posso falar e devo falar. Por isso, sim, é a voz dela.

A propósito de abrir caminho, há um verso algures neste disco com essa ideia…
“Abrir caminho com as mãos, levei tijolos na mochila.”

"Encontrei paz na vida que tenho. Mudei 17 vezes de casa, os meus pais separaram-se, eu era pequena. Venho de muitas separações e reencontros. A minha vida sempre foi um desassossego. Sempre senti que estava a trabalhar para a vida que sabia que queria ter. Não quero mais nada. Tenho exatamente a vida que quero."

Precisamente. Também se sente a abrir caminho?
Tenho dito que se abrir caminho para alguma coisa, que seja não deixar que o medo ganhe. Porque é tão fácil na era do cancelamento toda a gente querer ser baunilha. É muito fácil. É fácil não ter personalidade para ser uma figura pública. Não ter gosto, não ter clube, não ter partido, não ter nada, que é para não haver hate. Há um medo constante de ser mulher e ser conhecida e assumir traços de personalidade, vontades e tuas indignações, principalmente.

Está muito enraizado que a mulher mais transversal é a mulher que menos incomoda. Somos incentivadas a: mistura-te, não causes problemas. [Se estiver a abrir caminho] que seja isso: não tenham medo e não deixem de se concretizar como pessoas. Fiquei conhecida com 18 anos. Se tivesse ficado refém dessa perceção pública, não me tinha tornado mulher sequer. Se me tivesse precavido desse auto-conhecimento e de falar, de me insurgir, nunca ia saber quem sou na realidade. Isso acontece com tantas pessoas: reprimir aquilo tudo o que temos de mais selvagem, de mais urgente, adiar os  gritos, adiar as dores, as opiniões e, entretanto, damos por nós e a vida passou. Sinto que muitas vezes as pessoas viviam mais descansadas se me pusessem na caixinha: “Esta pessoa, mãe de três filhos, que faz canções sobre a família, veste-se como uma mãe e fala como uma mãe”. Como não sou nada disso as pessoas ficam: então mas afinal és o quê?

E o que é a Carolina Deslandes?
Sou uma coisa a acontecer [risos]. Mas sinto que há muitas mulheres que se deixam corresponder a isso. “Para estares em televisão tens de te parecer com esta pessoa, tens de te apresentar desta maneira.” Isto é um público que rejeita mulheres excêntricas. Tatuagens, mais alternativa, menos consensual? Dá logo um falatório imenso… Dá muita vontade de usar All Stars brancas, calças de ganga e risco ao lado.

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