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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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Carpool com Gonçalo Caroço, da CDU Loures: “Ninguém está contra as demolições. Agora, deixar as pessoas na rua não pode ser”

Gonçalo Caroço quer devolver à CDU a governação no município de Loures. No Carpool do Observador acusa Ricardo Leão de eleitoralismo perante as demolições e avisa que o Chega não tem soluções.

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Gonçalo Caroço, 49 anos, técnico de engenharia na Valorsul, é atualmente vereador sem pelouros na Câmara Municipal de Loures. Durante 8 anos foi um braço direito de Bernardino Soares na governação neste município. Assumiu funções executivas na área Social, Educação, Saúde, Recursos Humanos e Habitação. Agora, Gonçalo Caroço é o candidato da CDU à Câmara Municipal de Loures e procura recuperar o município que é liderado pelo socialista Ricardo Leão.

Num concelho que se tornou manchete recorrente devido às demolições no bairro do Talude Militar, Gonçalo Caroço não tem dúvidas que o atual autarca deixou arrastar a situação para poder conquistar votos ao ordenar a demolição em cima das eleições. Ainda assim, o candidato da CDU assume que “demolições sempre houve” e por isso lamenta a falta de soluções para as pessoas que estão no Talude Militar e em outros bairros.

Num cenário de diminuição do peso eleitoral da CDU, Gonçalo Caroço garante que não está preocupado com o que aconteceu nas eleições anteriores e aponta para uma oportunidade perdida pelos socialistas: “O PS teve o seu papel. As pessoas agora vão julgar.” No carpool do Observador, o candidato da CDU analisa ainda o crescimento esperado do Chega e fala de um partido que se aproveita dos problemas das pessoas e que sabe apontar para o que está mal, “soluções é que não há.”

“As casas que estão a ser construídas são muito caras”

Arrancamos este Carpool na Valor Sul, onde trabalha.
É o meu posto de trabalho já há 20 anos, uma empresa muito importante para a Área Metropolitana. Sou técnico de engenharia e acompanho questões relacionadas com a qualidade, o ambiente e a segurança.

E como é que tem sido a evolução desta empresa? Há muitos postos de trabalho? Como é a relação da empresa com a autarquia?
Esta empresa tem uma série de acionistas. O acionista principal, que é a EGF, foi privatizado pelo Governo de Pedro Passo Coelho. Desde aí, começou a ter também outros objetivos associados, que não só o tratamento adequado dos resíduos, mas também o lucro. As taxas e as tarifas têm aumentado fortemente. Isso tem consequências para os munícipes. Essa estratégia não foi adequada porque não foi a melhor forma de defender o serviço público, não foi a melhor forma de defender as populações e agora estamos também todos a pagar.

Mas piorou o serviço à população?
O serviço é prestado pelas Câmaras Municipais, que depois depositam os seus resíduos aqui na Valorsul ou nos aterros da Valor Sul. O que acontece é que a empresa que faz essa recolha, que é o SIMAR, tem que pagar agora muito mais do que aquilo que pagavam antes da empresa ser privatizada. Como todos sabemos, quando as empresas têm que pagar mais, são depois os utilizadores que pagam. Portanto, no fundo é a população do concelho que está a pagar mais por esse serviço. Olhe, só nestes últimos quatro anos em que o PS e o PSD estiveram na Câmara, a fatura da água aumentou 22%. É um aumento enorme. Torna-se incomportável para as pessoas.

Esta zona da Valor Sul, fica aqui ao lado do IC2, e tem esta zona toda envolvente que tem agora o Parque Papa Francisco, que mudou completamente nos anos.  Era uma zona de muitos contentores. O projeto foi bem executado?
De cada vez que vejo esta zona, fico muito contente com aquilo que se conseguiu fazer aqui. Quando a CDU estava na Câmara não havia nada de projetos para aqui. Eram tudo coisas impossíveis. Mas batalhámos e tivemos que ter muitas discussões com o governo de António Costa, até com demonstrações técnicas. E conseguimos duas grandes vitórias A primeira foi a retirada de parte dos contentores — evidentemente, a vinda do Papa ajudou. Foi muito importante para que este espaço pudesse ser devolvido às pessoas. Agora, estamos com um problema: o resto dos contentores têm que sair. O  Governo não parece estar com muita vontade e a Câmara também não.

Não existe um problema de manutenção?
Talvez tenha havido uma precipitação na sua inauguração. Não estão os acessos todos feitos, não foi tudo acautelado. E a população não utiliza este espaço. É muito raro ver aqui alguém utilizar este espaço. Têm que ser tomadas medidas para que o parque possa ter outro tipo de atividades que chamem a população. Precisa de espaços para o desporto, por exemplo. Tem que ser aproveitado de forma a que as pessoas o possam utilizar

Mas e a questão da manutenção?
A manutenção, que venha a ser necessária, também terá alguma mais-valia relacionada com as atividades económicas que aqui possam vir a existir. Tem que haver um equilíbrio. Agora, este parque tem a possibilidade de dar uma resposta às pessoas que não existe em mais nenhuma parte do concelho.

Nesta viagem, conseguimos perceber que não há acessos em condições a este parque, nem de carro nem a pé.
Não há. É muito difícil chegar ao parque. Portanto, temos que fazer duas coisas: acessos pedonais e dar vida a este parque com atividades e com equipamentos. É isso que temos que fazer. Paulatinamente, porque não se consegue tratar disto de uma vez, com respostas relacionadas com o desporto, a cultura, com as artes, com as atividades económicas. É algo que temos que fazer. Fomos nós que iniciámos todo este processo, achamos que ele não está bem concluído e estamos cá para o concluir da melhor forma possível.

Do outro lado do IC2, temos o passadiço que liga por Loures o município de Vila Franca de Xira a Lisboa, que depois acaba por fazer a ligação até Oeiras e Cascais. Há aqui um projeto entre todos estes municípios para fazer uma ligação por passadiços na zona ribeirinha. Como é que avalia a obra que ficou feita?
Temos aqui o passadiço que liga Sacavém até Santa Iria da Azóia. Era mais um sonho daqueles que eram impossíveis de concretizar, mas que a CDU meteu mãos à obra, ainda com o Bernardino Soares como presidente da Câmara — e, novamente, com muitas discussões com a Administração Central, conseguimos fazer o projeto e fazer com que o projeto fosse aprovado. Mas depois o PS votou contra esta obra quando nós estávamos na Câmara. Houve ali uma abstenção por parte do PSD e o projeto passou. Depois foi à Assembleia Municipal e o PS tentou, novamente, impedir que esta obra avançasse. Não conseguiu, por muito pouco, mas não conseguiu. Por isso, este passadiço é um grande orgulho. Tem muita utilização, há pessoas a correr, a andar a pé, bicicletas. Mas tem essa particularidade: o atual presidente da Câmara [Ricardo Leão, do PS] fala do passadiço como se fosse algo de muito bom; mas se tivesse dependido do PS este passadiço não existia.

Há uma grande proximidade ao rio e as cheias começam a ser um problema cada vez maior. Este passadiço é seguro?
As pessoas podem usar com segurança todo o passadiço. Isso foi assegurado. Existe um problema junto a Santa Iria, quando há marés vivas. Há uma pequena zona que fica com dificuldades de circulação, é verdade. Teremos de ver como é que isso se poderá ultrapassar. Também está um pouco ao abandono, não evoluiu mais. As pessoas precisavam de ter alguns bebedouros, precisavam de ter uma casa de banho… São oito quilómetros de um lado ao outro. Quanto à questão ambiental, o passadiço foi feito já tendo em conta o sítio onde está, que é um sapal. Houve uma série de condicionantes que tiveram que ser respeitadas e foram respeitadas.

Junto ao Trancão não ficou nenhum problema com o passadiço?
Não, não. Há um problema ali mais à frente, no sapal, que teremos que ajudar a tratar para que recupere o mais depressa possível.

E estão aqui ao nosso lado os contentores que falta retirar…
Tivemos uma resolução de Conselho de Ministros que dizia que primeiro tinham que sair os contentores de lado baixo, do Parque do Papa, e até dezembro de 2026 tinham que sair os restantes contentores. É essa a nossa preocupação.

Esta zona ribeirinha tinha um problema relacionado com o mau cheiro. Esta é situação está resolvida? Percebeu-se totalmente a origem de todos esses odores nesta zona da cidade?
Talvez haja três fontes de odores nesta zona: a própria Valor Sul, que acho que agora está mais controlada; uma fábrica de farinhas que existe ali em São João da Talha, que tem um cheiro também bastante forte; e a ETAR também em São João da Talha, que por vezes tem alguns odores, embora esteja melhor.

Vai nascer aqui um novo parque logístico. Isso é algo que o preocupa? Ou acha que pode dinamizar a capacidade industrial e a criação de emprego no município?
É muito preocupante. Tínhamos uma fábrica de vidro, era a Covina, A única fábrica em Portugal em que se fabricava o vidro plano. Foi vendida à Saint-Gobain. Depois, a Saint-Gobain acabou por atingir o objetivo que era terminar a laboração para poder importar para Portugal o vidro que é produzido noutros países. Aquilo que agora estamos a assistir é a terraplanagem de toda a zona da Covina. Um centro logístico com muitos camiões, com muito trânsito pesado, a acrescentar a duas novas urbanizações, que vão ser construídas. Vamos ter um problema sério. Chegando à Câmara, vamos ter de perceber muito bem as consequências que vão ter todas estas decisões, tomadas de forma casuística e individual.

Não pode ser uma oportunidade para Loures crescer?
É claro que pode. Têm que haver obrigações daqueles que investem. Não basta construir aquilo que têm interesse em construir. A partir do momento em que vamos passar a ter duas novas urbanizações e um centro logístico de grande dimensão tem que estar assegurada a circulação das pessoas e a circulação dessas viaturas. E não está.

Mas não é importante a criação desse centro logístico?
Isso não está em causa. Agora, não podemos é criar o caos. Isso não podemos. As pessoas vivem aqui. Portanto, a Câmara tem a obrigação de assegurar que a implantação dessas empresas, dessas novas casas, é feita de forma a que a qualidade de vida se mantenha. É isso que nos preocupa.

A qualidade de vida é uma questão importante. Loures é um município cada vez mais procurado. Os preços em Lisboa ajudam a criar essa pressão. Sente que existe essa pressão e dificuldades de resposta às pessoas que procuram Loures para viver?
Depende da condição económica. Quem tem dinheiro, quem tem condições para comprar casas, não tem esse problema. Compra uma casa sem dificuldade em Loures, porque há muitas casas a serem construídas. Só que o problema é que as casas que estão a ser construídas são muito caras.

Já vamos falar um pouco mais sobre habitação durante esta viagem, mas estamos agora a chegar a um local importante para a CDU. Que local é este?
Estamos a chegar ao Palácio de Valflores, que tem cerca de 500 anos. Há uns oito anos, foi declarado como um dos sete monumentos em maior risco na Europa. Aquilo que fizemos foi aproveitar e concorrer a fundos comunitários para, em conjunto com o governo, recuperar o palácio. Tudo isso foi tratado, adjudicado, mas, quatro anos depois, o palácio lá está, ainda sem estar completamente recuperado.

A obra já podia estar terminada?
Já.

E encontra razões para não ter terminado esta obra?
O empreiteiro levanta dificuldades, diz que não há madeira, que está cara… Mas essa não é a questão essencial. A questão é que não há um rumo para a Cultura aqui no concelho de Loures. O Palácio de Valflores não é só recuperar; tem que ser dado uma finalidade. O PS não tomou qualquer decisão, nem sequer abordou esse assunto — e não é caso único. Temos uma proposta que é a de finalmente Loures ter um centro cultural.

E seria ali no Palácio de Valflores?
Não, seria no centro da cidade. Na Área Metropolitana de Lisboa, Loures é o único que não tem um sítio onde se possa usufruir da cultura, onde se possa criar e onde possa haver troca de opiniões, troca de saberes.

"Talude Militar? O Partido Socialista sentiu que estava a ser penalizado e tentou desta forma captar algum eleitorado que poderia estar a fugir para o Chega. É evidente que esta decisão que foi tomada é uma decisão a pensar nas eleições. E as pessoas foram utilizadas para fins eleitorais. É isso que nós dizemos. Porque senão, se a Câmara tivesse de facto preocupada em março, abril ou maio tinha vindo tratar dessa situação"

“PS, Chega e o PSD estão a lutar por um certo eleitorado”

Não seria de esperar algum cruzamento de ideias entre a CDU e o PS na autarquia de Loures? Principalmente devido ao crescimento do Chega.
Bom, isso não nos pode tolher nas nossas propostas e nas nossas posições. De facto, o PS tomou algumas atitudes neste mandato que o aproximou mais do Chega do que da CDU. Isso é conhecido.

Está a falar da situação no bairro do Talude Militar.
Essa ação é própria de um partido de direita. Não há dúvida nenhuma. Mas basta lembrar que o Chega apresentou propostas na reunião de Câmara que foram aprovadas pelo próprio PS, em particular a proposta relacionada com as pessoas que tivessem participado nos distúrbios na altura da morte de Odair Moniz.

Mas encontra certamente pontos de ligação com Ricardo Loures.
Sim, claro. Aqui em Loures os únicos partidos que governaram foram a CDU e o PS. É evidente que existem pontos de ligação. Agora, aquilo a que assistimos durante este mandato foi um afastamento do próprio PS em relação a alguns princípios que o nortearam sempre. Neste momento,  temos claramente três partidos que estão juntos a lutar por um certo eleitorado, que é o PSD, o Chega e o PS.

A CDU posiciona-se como se estivesse a discutir outro eleitorado?
As pessoas têm que sentir que a Câmara lhes dá possibilidades de ter uma melhor vida, lhe dá respostas sobre aquilo de que precisam. Aquilo que acontece é que o PS, neste mandato, tomou algumas medidas que afastaram pessoas. Aquilo que aconteceu no Talude Militar faz com que haja muita gente que não se reveja minimamente no partido, alguns deles até do próprio PS.

Vamos ter a oportunidade de falar melhor sobre o Talude Militar, mas estamos a entrar na zona de São João da Talha. e passar junto a uma obra para a construção de um lar. Um projeto da responsabilidade da CDU. Mas só no ano passado é que se deu o lançamento da primeira pedra. Como é que está a situação deste lar?
É um símbolo daquilo que não deve acontecer. Estes projetos foram todos integrados naquilo que se chamou Programa PARES e no PRR. Alguns avançaram, outros não. Este avançou. Mas o problema é que este avançou com 2 milhões de euros de apoio da Segurança Social e 600 mil euros de apoio da Câmara. Mas o problema é que o lar já vai em 4 milhões e meio de euros. Portanto, esta instituição vai ter muitas dificuldades em terminar a obra. Com um problema acrescido:  é que o IVA, que era suposto ser de 6%, vai ser de 23%. A Administração Central demite-se do problema, a Câmara Municipal dá aquele apoio e fica por ali… Isso não pode ser. Vamos ter que apostar fortemente nas respostas sociais, vamos ter que trabalhar com o Governo e com as instituições sociais no terreno para criar 250 novas vagas de lar e mais 500 novas vagas de creches, que é um dos maiores problemas do nosso concelho.

Foi vereador desta área.
E foi nessa altura que falámos com as instituições e conseguimos trabalhar com elas para apresentarem cerca de 15 projetos destes. De lar, de centro de dia, de creche. Depois vieram as eleições, houve mudanças e houve uma série destes projetos que ficaram na gaveta e as instituições gastaram dezenas de milhares de euros em projetos. A Câmara tem de ajudar a dar estas respostas às pessoas. A extrema-direita não está interessada em resolver os problemas das pessoas, mas pessoas de facto não sentem que os poderes públicos estejam preocupados em resolver os seus problemas. E é isso que nós precisamos de provar.

Muitas vezes, estes problemas são questões que os candidatos prometem resolver, mas depois esbarra-se naquilo que é a capacidade de resolução por parte da autarquia e na articulação com o Estado central. A CDU tem dito que Ricardo Leão falhou nessas pontes que são necessárias com o Governo. A CDU acha que conseguiria fazer melhor?
Sem dúvida. Não somos daqueles que funcionam como um escudo protetor. Estamos cá para defender sempre os interesses da população. Já agora, só dizer que estamos aqui na entrada de São João da Talha, nesta rua, que vão poder ver que está bastante degradada. É preciso reabilitar esta entrada, é uma das questões que queremos resolver.

Mas era um problema que já existia na governação da CDU. Esta zona sempre foi assim.
É verdade, é verdade. Mas a CDU iniciou reabilitações em Loures, em Moscavide, em Sacavém, que pararam. Não houve mais reabilitações urbanas durante o mandato do PS.

Porque é que não foi recuperada durante a governação da CDU?
Não é possível fazer tudo. Agora que a Estrada Nacional 10 passou para as mãos da Câmara Municipal vai ser possível intervir de outra forma.

Aguarda-se também por uma saída da A1. Que impacto é que isso pode ter para esta zona de Loures?
Em São João da Talha já há uma entrada, não há saída. O que faz com que acumule o trânsito todo em Santa Iria. Essa é uma questão muito importante, embora tenhamos uma preocupação que tem a ver com o centro da Bobadela. Esse é o projeto. Teremos que observar com muita atenção essa questão, porque a população da Bobadela está preocupada com a entrada de dezenas de milhares de carros na vila. A saída da A1 é uma coisa boa, é uma coisa que sempre defendemos, mas que temos que ver as medidas necessárias para que a população da Bobadela não seja afetada.

Voltamos à questão anterior: a pressão que a autarquia pode ou não pode fazer. Acha que a CDU consegue fazer melhor do que está a fazer, por exemplo, o Ricardo Leão?
O PS tem as suas prioridades, mas as nossas são muito claras: respostas sociais. Isso está no topo das nossas prioridades. Temos que fazer com que o concelho de Loures tenha respostas sociais para a população. A primeira terá que ser a habitação, que é aquela que mais preocupa. Creches e jardins de infância, mas também a Saúde. Nesta questão o PS, na sua relação com o Governo, falhou redondamente: neste momento, temos 60 mil pessoas sem médicos de família. Existem uma série de centros de saúde que estão a ser construídos…

Como aqui na Bobadela, onde estamos agora a entrar, uma obra que avançou durante esta governação do PS. Concorda que é importante esta obra?
É evidente que é. O problema é que não basta só fazer centros de saúde. Porque as pessoas depois chegam aos centros de saúde e não têm médicos, estão a ter teleconsultas ou em filas de espera. Isso é inaceitável. O que tivemos com o PS foi diminuição dos médicos de família no nosso concelho.

Estamos a falar de  um problema que está a acontecer em todo o país.
É verdade.

É um problema que tem que ser resolvido pela autarquia?
A autarquia tem que trabalhar com a população para que isso aconteça. Temos que dizer ao Governo que é preciso mudar as opções políticas nesta matéria. Não pode continuar desta forma. Porque só assim é que vamos conseguir ter os médicos necessários para as pessoas.

Falemos do Hospital Beatriz Ângelo. Está em discussão a possibilidade de o hospital ter uma parceria público-privada (PPP). Sabemos que a CDU se posiciona contra as PPP. Mas se isso representar uma melhoria do serviço prestado à população, isso não acaba por ser positivo?
Passamos o tempo todo a discutir se queremos a PPP ou não queremos a PPP. Mas não discutimos as questões de fundo. O que é poderíamos ter feito para que os anestesistas, que saíram todos de lá, tivessem ficado? Como é que não se tomaram as medidas para manter os técnicos, para manter os médicos…? Como é que temos os médicos para que, por exemplo, a urgência de pediatria do Hospital Beatriz Ângelo esteja a funcionar em pleno? Foi fechada ao fim de semana governo do PS, pelo ministro Manuel Pizarro, que agora é candidato à Câmara Municipal do Porto. Isso são as questões de fundo. Se vamos discutir PPP ou não PPP, não vamos discutir os problemas dos cuidados de saúde primários, por exemplo.

A autarquia, atualmente, é liderada pelo PS com o apoio do PSD. O Governo é liderado pela Aliança Democrática. Imaginando que a CDU conquista a autarquia de Loures, não vê uma relação difícil a ter com o Governo?
Nalguns casos, talvez. Mas é preferível isso do que não acontecer nada. No passado, também foi possível negociar com outros governos e avançar com propostas importantes. A partir do momento em que se deixa tudo acontecer sem que haja uma reação, as coisas vão continuar neste caminho de degradação.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“É evidente que a decisão de demolir barracas é a pensar nas eleições”

Começamos agora a subir por uma estrada que nos vai levar ao bairro do Talude Militar. Historicamente é uma zona que tem problemas de construção de habitação precária, construção ilegal, construção de barracas. Isto que está a acontecer agora com o bairro do Talude Militar já aconteceu anteriormente. Este é um problema crónico?
É um problema que não foi completamente resolvido e que a crise da habitação só veio agravar.

Mas podia ter sido resolvido antes dessa crise da habitação que veio agravar?
O bairro do Talude é apenas a ponta do Iceberg. Estas pessoas que estão aqui no bairro do Talude vivem naquelas condições porque não têm condição económica nenhuma e não têm redes familiares aqui no país. São pessoas que trabalham cá, mas que vieram de outros países. Mas a crise da habitação é geral e nunca esteve tão forte.

Mas que solução há para este bairro?
Não são apenas para este bairro. Estamos a propor uma solução integrada.

O bairro do Talude Militar tem especificidades próprias. Portanto, para esta situação de construção ilegal em territórios da Câmara, que soluções é que a CDU tem?
As demolições não começaram agora. Já houve demolições na CDU. Quando era vereador da CDU na área da habitação, demolimos centenas de barracas. Só que nós fazíamos isso mal a construção se iniciava.

Está a dizer que a situação se arrastou?
A própria Câmara afirma que desde março a 3 de julho aumentou em 152 as habitações.

Encontra razões para isto se ter arrastado? A CDU também não sabia o que se estava a passar aqui?
Não. Não sabia dessa situação. A Câmara é que diz isso, que aumentou muitíssimo. A Câmara não deu orientações políticas [para demolir logo] porquê? Se há uma barraca, deita-se abaixo imediatamente para que o problema não ganhe outro tipo de proporções. E porquê é que só aparecem no mês de julho a tomar esta decisão?

Está sugerir que foi eleitoralista.
Exatamente. Foi uma decisão que teve em conta as eleições de outubro. Porque o PS sentiu que estava a ser penalizado e tentou desta forma captar algum eleitorado que poderia estar a fugir para o Chega. É evidente que esta decisão é a pensar nas eleições. E que as pessoas foram utilizadas para fins eleitorais. É isso que nós dizemos. Se a Câmara estivesse de facto preocupada, em março, abril ou maio tinha vindo tratar dessa situação.

A CDU, perante esta situação, tentaria resolver mais cedo? E era também para demolir?
Claro, mas sem as pessoas cá estarem. O problema é que o que aconteceu aqui nunca tinha acontecido. Sempre houve demolições, mas as pessoas ficarem lá sem alternativa durante mês e meio, já dois meses quase, isso nunca aconteceu. Foram feitas demolições sem qualquer alternativa, coisa que nós não fazíamos.

Nunca soube que estas construções aqui estavam? Não tinha conhecimento do que se passava aqui nesta zona de Loures?
Não temos eleitos aqui na junta de freguesia. A junta é só do PS. Portanto, para nós é claro: hove essa ação para tentar ir buscar esses votos.

A Câmara Municipal do PS está a avançar com demolições. A CDU acredita que deve ser seguido outro tipo de estratégia para esta zona. Vamos imaginar que a CDU conquista a Câmara Municipal e tem que lidar novamente com este problema. Começam as construções outra vez…
Temos que fazer como fazíamos na nossa altura: mal se inicia a construção, temos que atuar imediatamente.

Mas há resposta para dar a todas essas pessoas?
A Câmara, no momento em que sabe que está a ver com as construções ilegais, tem que atuar. E não fez isso. No passado, nós fizemos isso em muitos sítios. Fomos nós que acabámos com o bairro da Torre, em que as pessoas que lá estavam foram todas realojadas. Existem várias formas de atacar o problema. Nunca deixámos ninguém na rua. Esta é a verdadeira questão. Ninguém está contra as demolições. Agora, deixar as pessoas na rua, como deixaram, não pode ser. As pessoas estão continuam a viver ali, em tendas. E algumas já reconstruiram as barracas, porque assim estão mais protegidas. Portanto, a solução tem que passar pela construção de habitação. Habitação pública para várias respostas.

E a gestão destes terrenos, uns da Câmara, outros têm parte do Estado….
Isso de ser do Estado é um problema. Vou contar uma história também relacionada com o bairro das barracas que existe ali, que é o bairro do Condenado, ali em Sacavém, ao pé da Quinta do Mocho. Houve um incêndio, há talvez seis anos. As pessoas ficaram sem as suas habitações. Terreno do Estado. Propusemos que o terreno passasse para as mãos da Câmara. O Governo decidiu que não. O Estado tem aqui uma responsabilidade enorme nesta matéria. E tem também que ajudar às soluções. Aquilo que metemos na nossa estratégia foi 950 novas habitações. O PS ganhou as eleições e decidiu outra estratégia. Tentou três opções diferentes. A primeira opção foi comprar prédios ao privado. Não correu bem, porque nem sequer foi aprovado esse financiamento do PRR. Depois, decidiram pôr às costas das juntas de freguesia as recuperações de cerca de 120 casas. Evidentemente, as juntas de freguesia não têm capacidade para fazer isso. E depois, por último, já em final de mandato, e já com desespero, tentaram meter terrenos e edifícios que estavam na nossa estratégia local de habitação aqui de Loures, propostas por nós, para reabilitação com dinheiro do PRR. Tentaram passar aquilo para privados. Ninguém concorreu. Aquilo que tivemos foi um esvaziar das propostas da CDU, uma mudança por parte do PS, que não resolveu nada. Só piorou o problema. Durante estes quatro anos, não tivemos uma única nova habitação municipal em Loures. Estão a começar a ser construídas agora algumas, daquelas que estavam na nossa estratégia. Vamos ter que inverter isto rapidamente.

O que é que a CDU pode fazer a nível da habitação?
Neste momento, o mínimo que temos no nosso Programa Natural são 559 novas habitações no próximo mandato.

Mais de 500 habitações nos próximos quatro anos?
Em quatro anos. Não quer dizer que não possam ser mais.

Novas? Ou estamos a falar de casas recuperadas?
Casas que neste momento não estão a ser utilizadas para a habitação. Pode ser reabilitação, podem ser novas. É evidente que gostaríamos de dar prevalência a quem vive e trabalha em Loures, mas não podemos sequer pôr isso como critério. Isso legalmente não é possível. Agora, isto é só um princípio. Depois temos que atuar também de outras formas e também junto dos privados, que têm 6 mil fogos de devolutos em Loures. Precisamos de trabalhar com eles para que eles comecem a recuperar alguns.

O que é trabalhar com eles?
Arranjar incentivos fiscais para a recuperação desses edifícios e colocação no mercado do arrendamento acessível. A Câmara pode fazer isso em conjunto com o Governo, porque existem programas de arrendamento acessível do Governo que podem e devem ser utilizados. Agora, muitas vezes, o Governo não gosta muito de utilizar esses programas.

Estamos agora a ver uma bela paisagem.
Isto é magnífico. Esta vista pelo território de Loures. É a nossa base. A zona da Várzea com muito território agrícola, muito terreno aqui. Produção de tomate.

Não teme que um dia possa cair para zona de construção?
Não. Esta parte da produção agrícola é economicamente muito importante para o nosso concelho. Além de que é uma paisagem magnífica e as pessoas também podem utilizar para fazer os seus passeios de bicicleta ou a pé. E há muitos que o fazem.

"O PS e a CDU são os que estão em melhores condições de fazer aquilo que o concelho precisa porque são aqueles que conhecem melhor todo o passado, todos os problemas, as soluções para esses problemas. Isso não há dúvida. São, sem dúvida, aqueles que estão em condições de disputar o poder e dar a resposta que o concelho necessita. E as nossas opções são diferentes do PS"

“PS está preocupado com ascensão do Chega e quer ocupar esse espaço”

A CDU perdeu a autarquia para o PS nas últimas autárquicas. Propõe-se agora a uma reconquista nesta autarquia. Mas há um grande elefante na sala — o Chega, que cresceu em Loures nas legislativas de forma gritante e surge como uma grande força política. Tudo isto deixa a CDU numa luta de votos muito difícil. Acha que tem mesmo condições para chegar à liderança desta autarquia?
Temos um projeto completamente diferente de todos os outros. O PS está muito preocupado com a ascensão do Chega, a razão pela qual toma posicionamentos que tentam ocupar esse espaço político. Estão-se mais ou menos a acotovelar uns aos outros para ver quem é que consegue ocupar esse espaço político — PS, PSD e Chega.

Muitas pessoas que estão a votar no Chega já votaram anteriormente na CDU.
Algumas terão votado, mas também muitas terão votado no PS. Temos de perceber porque é que isso acontece. As pessoas não têm respostas no seu dia a dia e nós temos respostas concretas. Na habitação, já disse, 559 novas casas. Nas creches, 500 novas vagas de creches. Nos lares, 250 novas vagas de lares. Na escola, a escola e o pré-escolar. Há muitas crianças que não têm lugar na escola, neste momento, com 3 anos. Vão ficar de fora.

Há quatro anos, na última eleição, a CDU estava no poder. Os eleitores de Loures disseram que depois de oito anos de governação queriam mudança. Acha que, passados estes quatro anos, há uma tendência para voltarem a querer a CDU?
O PS teve a sua oportunidade. As pessoas quiseram experimentar o PS. Muito bem. Quatro anos depois, o PS tomou as suas iniciativas e fez as suas opções políticas. As pessoas agora vão julgar esse papel. E as pessoas sentem-se, de facto, injustiçadas. Porque trabalham, fazem os seus descontos, fazem sacrifícios e depois sentem que tudo se vai desmoronando. Na saúde, na educação, nas respostas sociais.

Sente que a “máquina” da CDU está mais enfraquecida nesta altura?
Todos estão nesta campanha com muita força e com vontade de mudar a situação do concelho. Temos conseguido renovar as nossas listas.

O partido está a rejuvenescer?
Sim. Aliás, foi uma preocupação que tivemos na construção das listas e conseguimos. De facto, existe uma viragem à direita, isso é evidente, e temos é que perceber porque é que isso aconteceu. Porque o PS, no Governo, não deu resposta aos problemas das pessoas, e por isso abriu a porta a que a direita e a extrema-direita pudessem entrar. Precisamos de fazer diferente.

A culpa do decréscimo da votação à esquerda é toda do PS?
Não é toda do PS porque o PSD tem esteve no governo durante muitos anos.

Estou a falar do que foi o voto à esquerda. Essa votação caiu — o único partido em crescimento é o Livre. A minha pergunta é: a culpa da queda do voto à esquerda é toda do PS?
Não. A queda do voto à esquerda tem várias razões. A Europa caminha para a direita e para a extrema-direita e Portugal não é imune a toda essa pressão ideológica. Isso é muito difícil de combater. A esquerda só se vai conseguir afirmar se as pessoas sentirem que é ela quem tem as soluções para os problemas do dia a dia. A direita e a extrema-direita não têm. As pessoas têm que ter confiança em nós. É isso que vamos tentar.

Estamos a chegar à zona de Santo António dos Cavaleiros e ao bairro onde está a Torre da Fidelidade. Isto são duas, três torres. Pertencia ao Grupo Fidelidade e foi vendida a privados, a uma empresa imobiliária. As pessoas que aqui moravam, de repente, viram as rendas aumentar. Já tinham passado por uma tentativa de despejo que acabou por não funcionar, até por causa de alguns esforços da Câmara. Agora, as pessoas começaram a receber cartas com a informação de que as rendas iam aumentar. Qual é o ponto da situação?
Os moradores aqui destes edifícios denunciaram a situação e a Câmara atuou em conjunto com eles. Fomos à Assembleia da República e o que é que se conseguiu? Estes prédios aqui foram retirados dessa venda. Só que, em 2025, a Fidelidade pôs à venda o prédio e vendeu por 4 milhões de euros, o que dá 80 mil euros por apartamento.É uma pechincha aqui neste local. A Câmara podia ter acionado o direito de preferência e decidiram não o fazer.

Mas se fosse a CDU tinha acionado?
Tínhamos ponderado.

Se tivesse acionado mantinha as rendas com o mesmo valor?
Seriam para o arrendamento acessível. E o arrendamento acessível tem regras. O que aconteceu é que os preços das rendas não passaram para os de arrendamento acessível. Algumas pessoas mantiveram a casa, mas com muito sacrifício. Houve outros que tiveram que sair mesmo. A especulação imobiliária neste momento está em roda livre. Não há qualquer controlo. A Câmara pode comprar e impedir que aquilo entra no negócio especulativo e fazer com que aquele fogo seja disponibilizado para uma resposta de arrendamento acessível.

“PS e CDU são os únicos em condições de disputar o poder”

Temos agora à nossa frente um autocarro da Carris Metropolitana. Isto é resultado de uma grande parceria entre todos os municípios da Área Metropolitana de Lisboa. Que avaliação faz deste projeto?
Aquilo que aqui está é uma medida que o PCP fez aprovar. Os passes metropolitanos foram uma medida proposta pelo PCP na Assembleia da República. Foi aprovada ainda nos tempos do governo do PS e foi uma ótima medida.

Mas há trabalho para fazer ou não? Isto ficou tudo bem feito?
Há muito trabalho para fazer. Por exemplo, temos de ter um município muito mais atuante. A Câmara pode fazer as alterações que entender na rede e podia ter feito essa alteração.

Há aqui uma mudança que se está a preparar para os próximos anos em Loures, que é a chegada do Metro a Loures. É uma luta muito antiga. O que é que a CDU espera dessa obra?
Foi a CDU que, em conjunto com a população, colocou este problema na agenda. E isso despertou uma pressão sobre o Governo que o obrigou a olhar para este problema de outra forma.

Estamos a passar por um cartaz onde se pode ler “Linha Violeta. O Metro está a chegar, futura estação.” Aqui temos o que será a estação do Conventinho. As estações que estão definidas neste projeto do metropolitano são as mais corretas?
As nossas opiniões sobre esse assunto divergem do PS. Temos aqui três problemas. Primeiro, a estação final, em Odivelas, não vai terminar onde está o Metro, há ali 100 a 150 metros que as pessoas vão ter que percorrer. Depois, temos também um problema lá em cima, na Cidade Nova, onde a estação do Metro ficou muito deslocada da zona mais habitacional. Por último, não era a nossa opção que a paragem terminal ser no Loures Shopping. Isso vai criar um problema grave e uma forte pressão de estacionamento.

Esta construção do Metro vai criar muita obra, vai complicar muito o trânsito nesta fase. Estamos a falar de uma obra que é para os próximos anos. Sente que a população está preparada para aquilo que vai acontecer? Estão informados daquilo que vai exigir este trabalho de construção?
Acho que falta ainda muita informação. Uma das preocupações maiores que temos é a questão do estacionamento, que tem de ser muito bem pensada. Achamos que isso neste momento não está feito. Vamos ter que criar estacionamentos que as pessoas possam utilizar para deixar o carro e depois seguir a sua viagem no Metro.

Estamos a chegar à praça do município. E queria terminar com uma referência mais pessoal. Viveu sempre aqui neste município, vive intensamente a vida deste município. Sente que é uma pessoa mais capaz do que outros candidatos?
O PS e a CDU são os que estão em melhores condições de fazer aquilo que o concelho precisa porque são aqueles que conhecem melhor todo o passado, todos os problemas e as soluções para esses problemas. Disso não há dúvida. São, sem dúvida, aqueles que estão em condições de disputar o poder e para dar a resposta que o concelho necessita. Agora, as nossas opções são diferentes das do PS. É isso que as pessoas vão ter que optar. As pessoas vão ter que, no dia 12 de outubro, saber o caminho que querem.

Chegámos ao último ponto da nossa viagem. A sede da Câmara Municipal. Se vencer estas eleições, qual é que será a sua primeira medida?
A primeira será trabalhar no diagnóstico de habitação que não foi mexido nestes quatro anos e atualizá-lo rapidamente. E depois, vamos ter que adaptar os programas que existem do Governo para dar respostas na habitação da população aqui do concelho.

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