A conversa no restaurante na Rua Arthur Brandão, em Oeiras, vai parar ao tema do dia: os fogos que deflagraram durante a madrugada desta terça-feira em dezenas de contentores, pela segunda vez consecutiva. “Então, como é que estás? Se fosses um caixote é que estavas pior”, comenta Tiago, enquanto serve um café atrás do balcão. “Estava queimadinho”, completa o cliente. Acabou de passar em frente ao ecoponto parcialmente destruído. O papelão desapareceu na totalidade, mas as chamas foram travadas antes de queimarem a parede lateral do vidrão. Um grupo de três desportistas estrangeiros da academia de ténis em frente observa o monte de garrafas enegrecidas caídas para o chão, que ainda não foram recolhidas pelos serviços da câmara.
No total, desta vez, foram destruídos 14 ecopontos e 10 contentores do lixo. Várias árvores também ficaram queimadas e uma carrinha estacionada próxima de um caixote também sofreu danos. Mas na madrugada anterior alguns moradores já tinham despertado com os focos de incêndio. Queixam-se de que o cenário se tem repetido várias vezes desde agosto. “Parece organizado”, comenta-se no restaurante. “É para pôr medo, só pode”.
Ao Observador, o vice-presidente da Câmara Municipal de Oeiras rejeita que se trate de uma situação recorrente, mas refere que nos últimos dois meses se registaram pelo menos quatro episódios de incêndios em equipamentos de recolha do lixo no concelho. “Até agora, não há sinal de ser resultado de violência grupal. À partida, de acordo com o que nos é transmitido pelas autoridades competentes, da PSP sobretudo, trata-se de situações de vandalismo”, diz Francisco Rocha Gonçalves.
O autarca admite, no entanto, que possa ser aumentada a vigilância das autoridades. “De acordo com a gravidade que as autoridades extraiam destes relatórios, será aumentada a frequência das patrulhas ou do patrulhamento local”, refere. Na segunda noite de distúrbios em Oeiras, voltou por instantes a memória das noites de outubro de 2024, quando dezenas de caixotes do lixo na zona da Grande Lisboa foram queimados em ações que se seguiram à morte de Odair Moniz, um morador da Cova da Moura baleado por um agente da PSP depois de desrespeitar uma ordem para parar e de entrar em confronto físico com elementos dessa patrulha; depois dos caixotes queimados, as ações escalaram, tendo sido ateado fogo em carros privados e num autocarro da Carris, num episódio que deixou gravemente ferido o motorista da empresa de transportes. Para já, o vice-presidente da Câmara de Oeiras garante que os mais recentes casos estão controlados. “Não nos deixa demasiado apreensivos”, garante.
Contactada pelo Observador, a PSP, que num primeiro momento foi chamada a intervir, refere que “não há suspeita de atividade de grupo criminoso em concreto”. O caso está agora nas mãos da Polícia Judiciária, que confirma apenas que está a decorrer uma investigação.
“Quando há vários pontos, já é maldade”
Filipa Madeira estava a dormir quando um barulho a despertou. Percebeu que vinha do exterior. Levantou-se e a partir da janela do prédio viu um ecoponto a arder na Rua Arthur Brandão. Pegou no telemóvel e tirou algumas fotografias. Pouco depois viu chegar um carro dos bombeiros. Eram cerca das 6h40 do dia 19 de agosto quando as captou. “Tenho sono pesado, mas tenho acordado sempre. Arderam os três caixotes [do ecoponto]. Um carro ainda conseguiu fugir”, conta, enquanto almoça no restaurante próximo de casa.
Ainda não o sabia, mas esse não seria o único foco de incêndio nessa madrugada. De uma rua próxima, a Carlos Mardel, também partiram alertas para as autoridades. Segundo o comandante dos Bombeiros Voluntários de Oeiras, Maximiano Viegas, nessa quarta-feira foram queimados dois ecopontos e dois caixotes do lixo. “De vez em quando vai acontecendo”, diz.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Sobre esse episódio, a autarquia diz apenas que a Proteção Civil tomou registo da ocorrência e que está a ser acompanhado pelas autoridades.
O ecoponto perto da casa de Filipa Madeira foi substituído pela Câmara de Oeiras em pouco tempo, mas esta terça-feira foi novamente destruído. Desta vez os moradores não esperaram pela chegada dos bombeiros e foram apagar as chamas munidos dos extintores do prédio e de baldes de água. Tiago foi um dos que ajudaram. “Isto anda mau. Só quando pegar a alguma casa ou houver alguma pessoa …”. Deixa a frase por completar.
A Arthur Brandão foi uma de quatro ruas afetadas na madrugada de terça-feira. A mais afetada foi a Alameda Conde de Oeiras. Pelas 14h, perto de uma placa que assinala a Torre I ainda se vê o esqueleto de um ecoponto junto a um parque de estacionamento. Fitas da Proteção Civil assinalam a área como interdita. Mesmo ao lado está a carrinha danificada pelo incêndio. A tinta branca ficou escurecida e os plásticos do espelho lateral e das portas derretidos pelo calor.
Cerca de uma hora depois, os trabalhadores da câmara de Oeiras chegam em carrinhas ao local para retirar os destroços. Estão a trabalhar desde as 7h da manhã. Há de seguir-se outra equipa que está a percorrer as zonas afetadas para colocar novos ecopontos. “Há um mês e tal fizeram a mesma coisa. Quando há vários pontos, já é maldade”, critica um funcionário durante uma pausa nos trabalhos.
Quatro episódios em dois meses
Dos quatro episódios, o mais grave deu-se esta terça-feira. Segundo a Câmara de Oeiras, registaram-se focos de incêndio em quatro ruas: a Alameda Conde de Oeiras; a Rua Monsenhor Ferreira de Melo; a Rua Arthur Brandão; e a Avenida da República, junto à fronteira com o concelho de Cascais.
Na madrugada anterior, as autoridades já tinham sido alertadas pelas 6h06 para focos de incêndio. Dessa vez foi afetada a Rua Doutor Flávio Resende. Esta terça-feira os destroços do ecoponto já tinham sido retirados, mas não substituídos. Ainda eram visíveis as marcas do incêndio. Foram queimados três ecopontos.
Alguns dias antes, na sexta-feira do dia 25 de setembro, foi também queimado um outro contentor na Rua Alfredo Keil. O alerta para os bombeiros foi dado às 5h49 da manhã.
O primeiro episódio terá sido a 19 de agosto, nas Ruas Arthur Brandão e Carlos Mardel. Arderam dois ecopontos e dois caixotes do lixo.
O Observador questionou a PSP sobre se têm registo de mais episódios ao longo dos últimos meses, mas não recebeu resposta até ao momento de publicação deste artigo.
[Annie está de volta a Havana. Apesar das relações privilegiadas com altas figuras do regime, quer viver como os cubanos, divertir-se como os cubanos e… sofrer como os cubanos. Mas continua a ser filha do diretor da PIDE. E Fernando Silva Pais e Armanda Palhota não estão dispostos a deixá-la passar tão facilmente para o lado do inimigo. Já pode ouvir o terceiro episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]