Christina Dalcher: “E se a cultura da mulher doméstica, que veio e foi, voltasse?” /premium

13 Fevereiro 2019

"Vox" está a ser associado ao movimento #MeToo, mas a autora assegura que há mensagens políticas no livro que agora chega a Portugal. Nesta distopia as mulheres só podem dizer 100 palavras por dia.

O livro Vox, recém-chegado a Portugal e a ganhar comparações com “Handmaid’s Tale”, é uma distopia que mostra os Estados Unidos da América mergulhados num regime de domesticidade feminina, onde as mulheres não podem dizer mais do que 100 palavras por dia sob pena de receberem choques elétricos. Uma realidade alternativa que, num repente, apanha muitas pessoas de surpresa que, ignorando sinais e avisos, nunca pensaram que perderiam a sua liberdade. O livro que fala sobre o silenciamento da mulher está a ser amplamente associado ao movimento #MeToo. Mais do que feminismo, a obra pode ser encarada como uma chamada de alerta com mensagens políticas à mistura. “O mundo pode mudar quando não estamos a prestar atenção”, diz Christina Dalcher ao Observador numa segunda-feira de manhã. A autora esteve em Portugal para apresentar o primeiro livro publicado (mas de longe o primeiro escrito).

Enquanto toma o pequeno-almoço sucessivamente interrompido pela entrevista — a primeira de um dia que se adivinha longo –, a autora, doutorada em Linguística Teórica, explica como o livro nasceu de um conto e de uma combinação de fatores: a história que dá origem ao thriller resulta de uma interpretação da autora do fim do mundo. Enquanto a maior parte pensaria em terramotos devastadores ou em desastres nucleares, Dalcher optou por levar o leitor numa viagem onde a palavra, limitada no feminino, é o princípio de um fim. Em 1972, diz-nos enquanto trinca um croissant, leu um livro infantil sobre uma vila onde cada habitante só podia dizer até 10 palavras. Isso mais experiência em linguística e a atualidade noticiosa fê-la criar um universo em que os americanos vão às urnas e escolhem um demagogo:

“No início de 2017 as mulheres começaram a falar muito alto, a marchar em Washington D.C., a protestar e pensei ‘Oh Meu Deus, aposto que alguém está a observá-las, a pensar que elas estão a fazer muito barulho e que se deviam calar”. Depois, tenho muito medo de um governo com muito poder — penso que todos têm desde que leram ‘1984’ –, mas também muito medo de um governo que seja influenciado pela religião. Juntei isto tudo e escrevi um conto. Submeti-o a uma revista muito importante de ficção científica e o conto passou à segunda ronda, o que é muito difícil. Então, na primavera de 2017 falei com a minha agente, disse que tinha esta ideia para um romance e ela respondeu que a história soava deliciosamente arrepiante. E aqui estamos.” 

O livro da editora Top Seller custa 17,69 euros.

Mulheres que “perdem” a voz e a identidade, que se tornam escravas do lar e que ficam limitadas aos papéis de mãe e de mulher. O livro procurou inspiração no feminismo?
Um pouco, mas grande parte veio desta ideia de que as mulheres estão a ficar mais barulhentas, a falar mais. Imaginei que alguém pudesse estar a observar e a pensar “Calem-se!”. Toda a gente diz que este é o livro do movimento #Metoo, mas eu escrevi-o antes do movimento existir. O #Metoo é sobre abuso sexual, o meu livro não é propriamente sobre isso, antes sobre um grupo fundamentalista de cristãos, de algumas partes dos EUA, que querem regressar a uma cultura de domesticidade.

O livro vai além do feminismo?
Sim. Já antes tivemos períodos desta cultura — no século XIX, na era vitoriana, e depois da II Grande Guerra, nos anos 1950. Quando os homens foram lutar na Primeira Grande Guerra e na Segunda Grande Guerra, as mulheres deixaram a esfera doméstica e entraram na esfera pública porque alguém tinha de trabalhar nas fábricas. O que aconteceu quando os homens regressaram? As mulheres voltaram à cultura doméstica e foi isso que vimos nos anos 1950. Na década seguinte, nos EUA, houve uma grande revolução cultural, sexual e feminista. Acho que escritores se devem questionar: “E se alguma coisa acontecesse?”. A minha pergunta “e se” foi esta: “E se a cultura da mulher doméstica, que veio e foi, voltasse?”. Descobri, durante a minha investigação, que ainda existem movimentos extremistas nos EUA que realmente querem isto. Um deles chama-se “True Woman Movement”, não é dirigido por homens, mas sim por mulheres.

O cenário descrito no livro consegue parecer demasiado real, como se fosse uma possibilidade…
É verdade. Temos muitos livros de fantasia e de ficção científica. Até a distopia de ficção… se olharmos para o livro 1984 [de George Orwell], o mundo é horrível, mas quase parece irreal, pouco plausível, artificial. Nos outros livros, por exemplo, há disfarces, as pessoas têm de usar coisas diferentes…

Não é o caso de “Vox”. Esses “adereços” distanciariam os leitores do mundo descrito em “Vox”?
Exato. Se pensarmos em “Vox” e naquela primeira cena, naqueles primeiros parágrafos… o que está a acontecer é uma situação completamente normal, em que há uma família sentada a jantar, sem disfarces, sem máquinas estranhas; há adolescentes que regressam da escola, maridos que regressam do trabalho, e a família está a falar à volta da mesa. É normal, à exceção de uma coisa: as mulheres não estão a falar e usam “pulseiras” [responsáveis pelos choques elétricos].

Já alguma vez tentou falar apenas 100 palavras por dia? Já imaginou somo seria?
Sim e não. No processo de escrever o livro, não. Mas tive uma experiência interessante quando eu e o meu marido vivemos no Reino Unido. Quase imediatamente após a mudança, ele arranjou um trabalho part-time em Abu Dhabi — ele ia para lá duas semanas e voltava durante uma semana, e assim sucessivamente. Tínhamos tecnologia, como o Skype, falávamos um pouco um com o outro, mas ele estava a trabalhar a maior parte do tempo. Como não conhecia ninguém na cidade, havia alguns dias em que passava das 09h ou das 08h até às 17h sem falar com ninguém. Isto foi muito antes de escrever Vox, mas é muito assustador, mexe com a nossa cabeça. Se pensarmos nos homens presos em solitárias… como se devem esforçar para não ficar doidos! Também li uma coisa sobre prisioneiros de guerra que, uma vez capturados, são isolados de forma a serem quebrados e, para isso, é preciso remover a sua humanidade. A língua é o que faz de nós humanos.

"Se pensarmos em "Vox" e naquela primeira cena, naqueles primeiros parágrafos... o que está a acontecer é uma situação completamente normal, em que há uma família sentada a jantar, sem disfarces, sem máquinas estranhas; há adolescentes que regressam da escola, maridos que regressam do trabalho, e a família está a falar à volta da mesa. É normal, à exceção de uma coisa: as mulheres não estão a falar e usam "pulseiras" [responsáveis pelos choques elétricos]."

No livro, as mulheres não só não podem falar, como também não têm acesso a livros, cadernos e canetas. Porquê?
Não há livros, papéis e canetas porque não querem que as crianças aprendam a ler. Querem acabar com o seu desenvolvimento linguístico para que, daqui a uma ou duas gerações, as capacidades linguísticas das mulheres estejam tão degradadas que estas se tornam numa espécie de animal doméstico.

A importância da liberdade e da responsabilidade cívica também são mensagens importantes que o livro quer passar?
Sem dúvida. Penso que temos tendência, enquanto cidadãos de qualquer país, a pensar que amanhã vamos acordar e o nosso mundo vai estar exatamente igual. A História já nos ensinou que isso não é verdade — olhemos para a Alemanha e para a II Guerra Mundial. Há muitos outros exemplos, incluindo guerras civis. Estas coisas acontecem e, às vezes, podem acontecer da noite para o dia. É muito importante prestar atenção e não dar por garantida a nossa liberdade, a nossa voz e os nossos direitos porque eles podem, realmente, desaparecer. Soa ridículo dizer isto. Parece que estamos a exagerar, mas tudo o que temos de fazer é olhar para o passado. Tive uma experiência muito curiosa em Nápoles com um painel de jornalistas e de outros autores. Um dos escritores disse que quando viu o livro pensou “Que ridículo, isto nunca aconteceria” — ele não estava a ser mau, estava a tentar fazer valer um ponto de vista. De seguida, disse: “Se em 1920 disséssemos a qualquer pessoa no mundo que dentro de 10 ou 15 anos haveria 6 milhões de judeus mortos as pessoas rir-se-iam e diriam que isso era absurdo”.

Geralmente, e falando em eleições presidenciais, cerca de 65% dos eleitores votam, isso é duas pessoas em três, o que significa que uma pessoa fica em casa, não vai votar. Onde está o terço que não vota? Naturalmente que o livro tem esta mensagem. E não são apenas as pessoas que vivem em pequenas cidades ou os iletrados que não votam, são pessoas como a Jean [McClellan, a personagem principal], pessoas inteligentes que acham que tudo vai continuar na mesma.

© Laurens Arenas

O cenário não deixa de ser ficcional, mas é curioso como a narrativa vai dando apontamentos de como subtilmente este governo extremista chega ao poder. Vê situações semelhantes a acontecer no mundo?
Sem dúvida e de ambos os lados. Vox parece um manifesto contra o conservadorismo, mas se atualmente um orador conservador — e não me refiro a um radical — for a uma Universidade dos EUA falar, a população estudantil protesta e, muitas vezes, chegar a dizer que não. Isso é um exemplo de silenciamento vindo do lado oposto. Há uma teoria chamada “horseshoe effect”: se pensarmos sempre na política num espetro, extrema-esquerda, extrema-direita, centro… à medida que nos afastamos mais do centro, as coisas parecem-se cada vez mais com a ferradura de um cavalo. A extrema-direita e a extrema-esquerda ficam mais próximas uma da outra, ainda que tenham diferentes métodos; objetivo é o mesmo, o controlo. Hoje em dia, os jornalistas só mostram pequenas partes [das notícias], é preciso ir à fonte primária. Em dias de Twitter, Instagram e Facebook, há muitas pessoas que não fazem esse trabalho. Há outro movimento extremista nos EUA chamado “Capitol Ministries“, que é uma organização que já existe há algum tempo. A sua missão é trazer o Cristianismo e o estudo da Bíblia a todos os níveis do governo. A maior parte das pessoas não sabe que isto existe.

Porque é que acha que o ser humano precisa de estar em controlo?
Talvez seja a natureza humana. Talvez seja esta a forma como estamos programados. Desde que evoluímos e começámos a andar com os dois pés que está na nossa natureza identificarmo-nos com determinados grupos por uma questão de necessidade. Queremos estar com a pessoa que pertence à nossa tribo porque nos sentimos mais seguros; a pessoa que se parece ligeiramente diferente ou que fala de forma ligeiramente diferente é algo desconhecido, assustador e possivelmente perigoso. Acho que sempre tivemos tendência para nos separarmos em grupos ou em tribos, seja através da religião ou do género, da política ou da etnia. A língua dá-nos capacidade para categorizar e nós fazemos isso, o que não é um problema terrível até se tornar extremista. É isto que está a acontecer agora nos EUA, nunca fomos assim tão divididos: quando cresci nos anos 1970, os Democratas e os Republicanos não eram assim tão diferentes. Agora, estão tão distantes que nem falam uns com os outros. Talvez queiramos poder para nos sentirmos mais seguros.

Escreveu o livro antes do movimento #MeToo, mas durante a presidência de Donald Trump. Há alguma relação entre o livro e a situação política vivida nos EUA?
Sim e não. Trump é um presidente muito interessante, mas o outro candidato também era muito interessante e penso que não ajudou termos uma divisão assim tão grande. Há quem pense que os EUA são apenas Nova Iorque, Chicago, Los Angeles e São Francisco. Bem, o país é um pouco mais do que isso… É preciso ter cuidado. Acho que muita gente assumiu que as únicas pessoas que importavam eram as que viviam nas grandes cidades e esqueceram-se do resto do país. De certa forma, e não estou a concordar com todas as políticas de Trump, as eleições passadas foram uma chamada de atenção muito interessante. Toda a gente pensou que o outro lado ia ganhar. À última, descobrimos que o Trump ganhou, foi uma eleição muito renhida, o que nos diz o quão divididos estamos. Não tenho a ideia de que o Trump seja uma pessoa muito religiosa, mas acho que ele é influenciado. E isso é o que acontece em “Vox”: temos um presidente fraco que não é bem o Trump, podia ser qualquer outra pessoa, que precisava de votos e onde é que os foi buscar? Aos grupos religiosos extremistas, particularmente a este reverendo que é muito carismático, muito popular e conhecido. Ele é um “lame duck”, uma marioneta, não tem poder, porque todo o poder vem do “Pure Moviment”.

"Honestamente, se pudesse voltar atrás e tirar algumas destas referências muito óbvias, provavelmente faria-o. Penso que seria melhor para o livro. Isto não está ligado à adminstração Trump, podia estar ligado a qualquer administração. Isto podia acontecer daqui a 30 anos."

Mas é possível traçar um paralelismo entre a narrativa e algumas ideias de Donald Trump?
Sim, “Make America Great Again”, “Make America Moral Again”… Honestamente, se pudesse voltar atrás e tirar algumas destas referências muito óbvias, provavelmente faria-o. Penso que seria melhor para o livro. Isto não está ligado à adminstração Trump, podia estar ligado a qualquer administração. Isto podia acontecer daqui a 30 anos. Escrevi o livro muito depressa porque tinha um deadline muito apertado e o livro também foi publicado muito depressa. Se tivesse mais tempo, teria apurado algumas destas coisas só para torná-las mais vagas.

Mais intemporais talvez?
Exatamente. Mas continuo a achar que a mensagem é intemporal. Mas também sei que muitos leitores acham que estou a falar de Trump.

Acha que histórias como esta estão na moda ou são um reflexo dos tempos?
Talvez nada disso. Acho que a distopia existe há muitos anos. Podemos chamar o livro de “distopia feminista”, mas prefiro distopia. No fim, se uma mulher é oprimida numa distopia feminista, toda as pessoas vão sofrer, incluindo os homens. A mensagem mais geral em Vox é maior do que a opressão feminina, tem que ver com a combinação de governo e religião, o que é um perigo, e isso não resulta necessariamente na opressão das mulheres. Tem que ver com o quanto o mundo pode mudar quando não estamos a prestar atenção e quando não agimos. Acredito que podia ter escrito Vox numa perspetiva muito diferente. Se escrever uma sequela, para ser honesta, acho que vai ser um backlash — acho que vai deixar muitas mulheres zangadas…

Vai criar uma personagem principal masculina?
Penso que sim, talvez.

Mas estamos num período em que as personagens principais são mulheres…
É verdade, mas também estamos numa fase em que muitas mulheres acreditam que são vítimas. Eu sou uma feminista diferente. Eu não acredito que somos vítimas. Claro que podemos ter experiências que fazem de nós vítimas, mas enquanto mulheres não devíamos agir como vítimas, acho que não devemos abraçar uma mentalidade de vítimas. Esse é o meu tipo de feminismo.

Sem comunicação, o que pode o ser humano alcançar?
Diria que muito pouco. Basta olharmos para a Torre e Babel. Temos de pensar na língua de formas diferentes: o diálogo é comunicação, muitos animais fazem isso de formas rudimentares, mas se a língua estivesse baralhada na nossa cabeça isso seria um problema diferente porque não poderíamos pensar, ficaríamos perdidos.

A Christina foi ou é uma pessoa faladora?
Sim! Sempre fui tímida em grupos grandes, mas quando estou a falar com uma pessoa, ou com poucas pessoas, sim, absolutamente, falo muito. Mas também gosto de pensar que oiço muito e tenho muita sorte porque estou casada com um homem incrível que também gosta muito de falar. Nós temos conversas fascinantes; ele é advogado e, por isso, temos conversas fascinantes sobre lei, política, cultura… Nem sempre concordamos, mas é muito bom. Não vemos muita televisão, jantamos à mesa e falamos. Ou vamos beber um copo e falamos. Isso nem sempre acontece com os casais. Vejo muitos casais que vão jantar fora e não largam o telefone, não falam uns com os outros, é muito triste. Toda a gente pensa que o sexo é a maior forma de intimidade, não sei… É muito bom, mas… é melhor do que ter uma conversa real com alguém, uma conversa mesmo boa? Em que se discutem ideias e até podemos sair dali com uma visão diferente das coisas? Isso até pode ser mais íntimo do que o sexo.

*Fotografias de Laurens Arenas

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