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Cícero: "O que canto, penso e digo é uma ilustração pública de um aspeto do Brasil" /premium

A música portuguesa, que "o brasileiro conhece pouco" e o Brasil atual, politicamente dividido. A vida levada "dentro da mala", em digressão e os concertos em Portugal. Entrevista ao músico Cícero.

Nos primeiros concertos que deu em Portugal, incluídos na programação dos festivais Vodafone Mexefest (em 2013) e Fusing (em 2014), Cícero Rosa Lins, conhecido simplesmente como Cícero no meio musical, era muito diferente do que é hoje. Para já, tinha acabado de lançar Sábado, um disco mal recebido pelo público e pela crítica brasileira, que esperavam um segundo disco mais parecido com o seu álbum de estreia a solo: Canções de Apartamento.

O problema, diz hoje Cícero, foi a expetativa: o público queria ouvi-lo cantar “encantos” como nesse primeiro disco, recheado de canções de amor (como “Tempo de Pipa” e “Vagalumes Cegos”; na última das quais, Cícero canta: “Vamos ver um filme / ter dois filhos / ir ao parque discutir Caetano / planejar bobagens”), mas ele queria era cantar desencantos, influenciado pelos problemas do Rio de Janeiro, cidade onde nasceu e na qual vivia. “Foi uma frustração.”

A verdade é que o cantor, que depois regressou a Portugal em 2016 para quatro concertos, deu logo aí um sinal claro de que não se queria repetir. No terceiro disco, A Praia, a fórmula voltou a mudar e o quarto e mais recente trabalho do músico, Cícero & Albatroz (editado no ano passado), tem algumas das canções mais expansivas e próximas do rock da sua carreira. Um rock ainda assim muito sui generis, de bermuda e chinelo no dedo, não fosse Cícero carioca.

O músico falou com o Observador num dia que se tornou de boa memória para muita gente. Para os portugueses em geral, que viram Cristiano Ronaldo ajudar (e de que maneira) a seleção portuguesa a empatar com a seleção espanhola no Mundial de futebol, com três golos, e para o público que estava no Douro, que umas horas depois pôde ouvir Cícero tocar “canções novas e antigas” no festival Rock Nordeste, em Vila Real.

A conversa durou quase uma hora e passou pela situação política brasileira, pela relação de Cícero com a música portuguesa e a música popular brasileira, pela vida do cantor (“A gente está vivendo na mala”), por Lisboa, onde tenciona viver uns meses, pela namorada portuguesa e pelos concertos que ainda vai dar em Portugal: esta quarta-feira, dia 20, no Capitólio, no renovado Parque Mayer, em Lisboa; no dia seguinte no Centro Cultural de Alcains, em Castelo Branco; depois, dia 22, no Teatro das Figuras, em Faro; e por fim sábado, dia 23, no Centro Cultural de Ílhavo. Interrupções na conversa, só uma de breves segundos, por causa de um penalty de Ronaldo. “Mas tudo bem, o dia vai raiar”, já cantava Cícero em “Tempo de Pipa”. E assim foi.

Nasceu e cresceu no Rio de Janeiro e também viveu em São Paulo. Como é que estas duas cidades o influenciaram?
Quando fiz o meu primeiro disco a solo, que saiu em 2011, ainda não tinha saído do Rio de Janeiro. Nem para morar em São Paulo, nem para conhecer a Europa. Era um disco bem mais centrado no dia-a-dia do Rio de Janeiro. Conforme fui viajando com os discos que vieram depois, fui assimilando locais como São Paulo, Lisboa e outras cidades europeias. O facto de ter saído de onde nasci altera os discos por si só, independentemente do sítio para onde vá. Mas cada cidade e lugar onde morei imprimiu uma característica específica nos discos. Por exemplo, o Albatroz [Cícero & Albatroz, o álbum mais recente, de 2017] foi o primeiro disco que fiz depois de ir morar para São Paulo. Então, tem uma característica mais urbana, mais áspera, menos fantasiosa, um pouco menos inocente, devido à vivência numa cidade como São Paulo. A Praia [o penúltimo álbum, de 2015] fiz assim que me mudei para São Paulo. É um disco que olha para o Rio de Janeiro, para a cidade da qual tinha acabado de sair. Carrega uma certa leveza carioca. Sair de onde se mora, não ter mais aquelas relações que nos formam — que temos com nossos pais, nossos amigos, com o lugar onde estudamos, etc. —  muda-nos completamente. E a música acaba refletindo isso.

Cícero com a sua banda Albatroz, que pela primeira vez acompanha-o na íntegra em Portugal. Fotografia: Flavia Bonan

Falou num “disco carioca”. Como é que é ser carioca? É tudo aquilo que, por exemplo, o Ruy Castro escreveu (tão bem) no livro Carnaval no Fogo: Crônica de uma Cidade Excitante Demais?
Sou um carioca do subúrbio, da periferia do Rio de Janeiro, que é uma área que não é nada turística. Não tem praias, não tem morros, essas coisas. Tem um sentido de humor muito particular e tem um compromisso menor do que São Paulo, que é uma cidade grande. Mas é também uma cidade muito difícil, muito perigosa. É difícil levar uma vida diária, quotidiana, que não seja ir visitar, tirar fotografias e ir embora. É uma cidade muito dura e isso é um contraste que artisticamente foi sempre muito inspirador. O samba, a bossa nova e várias outras coisas nasceram um pouco dessa tensão entre o que é bonito e descontraído e o que é feio e duro. Isso coexiste num espaço de um quarteirão, às vezes na mesma rua. Mas a vida quotidiana, acho que é difícil para o carioca médio, normal.

Foi por isso que se mudou?
Um pouco, sim. Foi por vários motivos. O primeiro motivo foi: São Paulo era o lugar onde mais ia tocar, ainda é o  onde mais toco. Desde que lancei o primeiro disco que a cada duas, três semanas, vou para lá tocar. São Paulo tem o dobro da população de Portugal inteiro. É gigantesco! Então, é uma cidade onde se pode ficar para sempre tocando. O que acontece é que, sempre que ia tocar em outros lugares, passava por São Paulo, então achei que seria melhor morar lá. Tinha morado um ano em Nova Iorque, já estava morando há muito tempo no Rio, e eu moro “de aluguer”. Os contratos de aluguer de um apartamento acabam depois de 30 meses e acabo sempre por me ir mudando para não ficar mais de 30 meses no mesmo lugar. Às vezes mudo de bairro, às vezes mudo de estado. Estou com um plano de vir para Lisboa entre o final deste ano e o começo do próximo.

Então podemos esperar um próximo disco lisboeta?
Este último disco, Cícero & Albatroz, tem uma música que fiz aqui, chamada “Velho Sítio”. Eu venho a Portugal desde 2013, 2014, mas gostava de vir para ficar aqui, para me relacionar mesmo com a cidade. Para ter uma perspetiva pessoal sobre as cidades daqui. E naturalmente isso resultaria em música, sem ser planeado. Mas como faço música o tempo todo, independentemente de onde esteja…

Este último disco tem algumas canções mais expansivas, com arranjos mais “grandiosos”, com mais instrumentos. Quando foi para estúdio, o que é que queria fazer? Essa ideia original acabou por mudar?
Este foi o disco que mudou menos [entre ser composto e finalizado], porque montámo-lo num estúdio de ensaio, a tocar as músicas todos juntos e a ver como soavam. E quando fomos para estúdio gravar, na semana seguinte, fomos gravar como tínhamos ensaiado. O que se tornou diferente foi o som das coisas, porque os arranjos e as ideias foram exatamente as mesmas que tínhamos ensaiado. Mas gravar os instrumentos em separado, em vez de ser com todos a tocar ao mesmo tempo, muda logo a sonoridade. Houve uma intenção nossa de que não soasse nem como um disco ao vivo nem como um disco de produtor, feito em computador. A ideia era uma terceira coisa, era que se percebesse que existia uma banda e que as ideias comunicavam umas com as outras e que se sentisse que os arranjos tinham sido feitos coletivamente — mas que não soasse a um disco ao vivo. Os outros discos foram diferentes: gravava sozinho em casa, depois mostrava à banda e adaptávamos e alterávamos muita coisa nos arranjos.

[“A Cidade”, tema do novo disco de Cícero Rosa Lins:]

Como é que foi o trabalho de composição com os outros instrumentistas? É uma banda democrática?
A democracia na banda aconteceu na fase dos arranjos. Eu chegava ao estúdio com o violão [guitarra acústica] e com uma letra e tocava a música para a banda ouvir. Depois, cada instrumentista ia tendo as suas ideias. E só no fim todos opinavam sobre as ideias de todos. O baterista falava com o baixista, o guitarrista dava uma ideia de bateria… Nesse aspeto foi muito democrático. O único ponto que ainda não envolveu a banda foi a parte das letras. Acho que tudo isto tornou o disco muito diferente de todos os anteriores.

Porque é que a banda [de sete elementos] que o acompanha se chama Albatroz?
O nome vem do pássaro albatroz, que é o maior pássaro do mundo. Por isso e por ser transoceânico — é capaz de voar do Brasil até Portugal, por exemplo –, tracei aí o paralelo: nós também vimos tocar a Portugal, viajamos pelo Brasil inteiro e somos uma banda grande, de sete músicos [a que se soma Cícero]. Albatroz também é o nome de uma canção do meu disco anterior, A Praia, e é o nome de um poema de Baudelaire, que é um poeta de que gosto muito e que li na faculdade [de Direito].

Neste disco, tem temas muito diferentes uns dos outros: umas canções são mais expansivas e têm arranjos complexos, outra são mais minimalistas, por exemplo “Aquele Adeus”, que tem quase só a voz do Cícero e o violão. Faz isso para não aborrecer as pessoas? Ou para não se aborrecer a si?
Interesso-me mais por artistas que fazem esse tipo de movimento. Não acho que seja um demérito alguém se especializar em si mesmo e fazer a mesma coisa repetidamente para sempre. Há algum artesanato nisso. É como a pessoa que faz o mesmo santinho de madeira durante 50 anos, chega um momento em que aquilo começa a ganhar um nível de excelência muito grande. Também acho bonito compositores que fazem só “aquele” tipo de música “naquele” formato, mas não é aí que está a minha paixão. Essa vai normalmente na direção de fazer o que ainda não fiz, e de o fazer talvez com algum desajuste ou alguma imperfeição. Isso estimula-me muito mais, mas também não sei se vai ser assim para sempre. Não sei se, em algum momento da vida, vou querer fazer um disco só de canções de voz e violão ou se, pelo contrário, nunca vou querer voltar a fazer um disco como o Canções de Apartamento. O que sei é que, nos últimos anos, pelo facto de me ter mudado muito e ter conhecido muitos lugares, os meus interesses musicais foram mudando. Acho que este movimento musical tem um pouco a ver com o meu movimento humano. Se um dia, sei lá, casar, tiver filhos e quiser morar num sítio e ficar lá, talvez faça músicas para esse estado de espírito. Mas hoje em dia estou assim: um dia estou em São Paulo, outro dia estou em Vila Real, na outra semana estou em Lisboa, na seguinte em Belo Horizonte, na outra em Buenos Aires… As músicas acabam por absorver isso tudo.

Disse numa entrevista que a situação no Brasil influenciou o disco, porque “fala com menos inocência”. Ainda há algum desencanto? Ou, nesta fase, já nada o surpreende na política brasileira?
Há um desencanto total, mas não acho que seja ruim e não acho que seja algo que nos torne apáticos. Acho que o desencanto muitas vezes movimenta-nos mais do que o encantamento. O que aconteceu no Brasil, nos últimos tempos, não dá para não sentir nas pessoas, na rua, no dia-a-dia, na padaria, no hipermercado… Está no ar em todos os lugares. É um sentimento de que deu errado, mas também um sentimento de que isso tem de ser usado como combustível para alguma nova direção. Para fazer o Brasil dar certo, e ninguém sabe o que isso é. Vai dar muito trabalho. Isto não surgiu nos últimos anos, vem de há muitas décadas. Estamos é na fase do extremo incómodo e do extremo desencanto, que vão gerar um movimento de construção de alguma coisa nova, que ainda ninguém sabe o que é. Mas vai ter de ser feito para melhorar as coisas.

"O que aconteceu no Brasil, nos últimos tempos, não dá para não sentir nas pessoas, na rua, no dia-a-dia, na padaria, no hipermercado... Está no ar em todos os lugares. É um sentimento de que deu errado, mas também um sentimento de que isso tem de ser usado como combustível para alguma nova direção."
Cícero

Da minha parte, situo-me como um elemento ilustrador dessa fase: o que canto, o que penso, o que digo é uma ilustração pública de um aspeto do Brasil. Há outros músicos, cineastas, políticos, jogadores de futebol, médicos, advogados e por aí fora que também fazem as suas ilustrações do que está a acontecer. Tenho a minha visão política e sociológica mas também tenho a minha visão humana, as minhas questões pessoais, poéticas. Tudo junto, organiza-se num disco. Não carrego a intenção de ser especificamente um cronista político, deixo que isso atravesse o meu disco juntamente com todas as outras questões. Acho que é um pouco por isso que o Cícero & Albatroz é tão caótico. A palavra é essa, tanto que digo a palavra “caos” duas vezes no disco, na segunda música e na penúltima. Porque você tem de ter espaço para “Aquele Adeus”, que é um momento de você com a sua saudade, e também para “A Cidade”, que é quando você tem de lidar com as interações humanas e urbanas que invadem essas questões pessoais. E vice-versa, porque as questões pessoais também refletem essas interações urbanas. É uma coisa só.

Continuando nesta temática da cidade e da observação urbana, das ruas. Quem anda pelo Brasil nota muitas desigualdades. Era assim no passado e ainda é assim hoje. A situação piorou ou está igual?
O que acho — e é uma opinião que resulta da minha trajetória geográfica, dos lugares onde morei e vivi –, é que houve um grande nivelamento das camadas sociais. As pessoas mais pobres conseguiram melhorar as suas vidas consideravelmente  durante o período do governo de esquerda no Brasil, dos dois mandatos do Lula e do mandato da Dilma. Nesse período, o que sentia em torno de mim era que as pessoas pobres estavam a ser incluídas através de um olhar público. Num dado momento, essa ascensão começou a causar algum atrito com uma classe média que estava um pouco estacionada, o que fez com que a classe pobre alcançasse o mesmo nível.

Resumindo, é como se a ascensão das pessoas mais pobres não fosse agradável ao meio de vida das camadas mais ricas. Com isso, gerou-se uma tensão nos setores mais conservadores e nos grupos economica e socialmente interessados, que queriam tirar alguma força desse deslocamento. E isso, para mim, é o que tem vindo a acontecer nos últimos cinco anos ou mais. É como se essas classes média e média-alta estivessem a empurrar novamente para baixo as classes baixas. Só que estas já estão com alguma força — ganharam-na ao longo de 12 ou 15 anos –, então estão empurrando de volta. E criou-se essa tensão de haver dois lados a empurrar. Não há aqui alguém que tenha feito o mal e alguém que tenha feito o bem, é uma questão de conforto, de uma classe estar desconfortável com a expansão da outra. Essa guerra de classes acabou por ser apoderada por grupos políticos, que acabaram reivindicando essas tensões. Quando a coisa começou a ficar muito incómoda para os dois lados, começou tudo a tornar-se agressivo. As pessoas vão para a rua para objetivamente atacarem ou serem atacados. Os últimos cinco ou seis anos foram basicamente assim.

Essa divisão do Brasil foi notória ainda recentemente em Portugal. Nas notícias sobre a ida a Lisboa e Porto de Chico Buarque, que aqui não provoca muitos ódios, surgiram comentários muito extremados de brasileiros nas redes sociais. Comentários com ataques muito fortes, motivados pela ligação dele à esquerda brasileira.
É, tem isso. O Chico Buarque é reconhecidamente um artista que sempre se posicionou a favor das classes menos favorecidas. A esquerda e a direita reivindicaram as instâncias sociais. Isso não significa que as pessoas menos favorecidas pertencem à esquerda e as mais favorecidas pertencem à direita, foram a esquerda e a direita que se apropriaram. Então o simples facto do Chico Buarque ser um cara sociologicamente interessado, fez com que ele fosse posicionado pela direita como sendo de esquerda. E esse simples facto gerou um ódio muito grande das pessoas de direita pela figura que ele representaria para uma esquerda. Ou seja: há um posicionamento político que não tem nada a ver com as reais intenções das pessoas. E o Chico Buarque sofreu e sofre muito com isso.

Até que ponto é que o modo como encara o Brasil foi influenciado pelas viagens que fez? Quando volta ao Brasil, regressa com ideias diferentes? É uma pessoa diferente?
Totalmente, em todos os aspetos. Acho que o que mais me mudou foi conhecer outras pessoas. Conhecer a arquitetura, a paisagem, a comida, a praia de outros lugares, tudo isso é um prazer estético. Mas quando conhecemos pessoas em outros lugares, que passaram por infâncias noutros lugares e tiveram problemas [típicos] de outros lugares, mudamos completamente. As nossas questões mudam. Começa-se a pensar: nunca considerei isto, sempre considerei isto e aquela pessoa nunca considerou isto… Isso muda muito o nosso olhar sobre tudo — política, relacionamentos, o que é a felicidade, a infelicidade. Tudo isso muda através do olhar do outro. E como viajei muito, tudo isso mudou muito para mim. Ainda está a mudar.

Uma jornalista brasileira escreveu, a propósito do seu último disco: “Cícero & Albatroz tem a velocidade e a urgência da metrópole junto com a calmaria e o isolamento de casa. Tem o conforto que se sente ao estar cercado de pessoas e a aflição de ficar sozinho. E vice-versa”. Concorda?
Acho que sim. Acho que é uma visão carinhosa e fico feliz. Mas acho que o grande motivo [para o disco ser assim], foi o facto de ter sido feito com amigos. O resultado artístico desse disco, do próximo e do seguinte ainda, vão sempre advir dessa motivação principal. Em nenhum momento nos juntamos para falar sobre certas coisas ou para apresentar algum tipo específico de sensação às pessoas. A gente queria estar junto tocando. E essas questões acabaram por aparecer.

[“Tempo de Pipa”, tema do primeiro disco a solo de Cícero, ‘Canções de Apartamento’, editado em 2011:]

A relação do Cícero com a crítica passou por uma fase mais complicada. Disse uma vez: “Quando lancei Sábado [o segundo disco, de 2013], fui entregue para um pelotão de fuzilamento”. E disse também que “nunca tinha visto na história da Internet brasileira um artista ser tão abertamente atacado por ter feito um disco seguindo os seus próprios instintos”. Sentiu que isso era injusto?
Agora acho que não sinto. Esse foi um momento em que todas as opiniões estavam catastroficamente convivendo na Internet sobre tudo. O meu disco foi só mais uma das coisas. Atacava-se canais de televisão, meios impressos, figuras públicas, atores, por exemplo. Era um momento em que as pessoas estavam a descobrir que tinham voz nas redes sociais e isso gerou um grande êxtase coletivo, uma histeria de dizer tudo o que se pensava sobre todos os assuntos. E o meu disco saiu nesses anos. Como foi o meu disco, tinha o meu nome, era a minha carne, parecia que era algo pessoal, comigo. Mas não, hoje percebo que as pessoas estavam a dar aquela opinião e no dia seguinte não estavam a ouvir, estavam já a pensar e a dar opinião sobre outra coisa. Hoje ainda acontece, mas menos, porque já houve consequências, já houve muita gente a ser processada e a passar pelo que chamamos de “linchamento virtual”. Mas, em 2012 e 2013, não havia cautela. O que aconteceu comigo foi uma quebra de expectativas: tinha um primeiro disco que foi muito bem aceite por ser positivo e lancei um segundo disco que veio a seguir a manifestações e convulsões sociais do Rio de Janeiro. Era um disco que tinha uma esfera um pouco negativa. As pessoas ainda tinham muito presente o espírito do primeiro disco e aconteceu essa frustração, de cantar desencantos quando as pessoas ainda me queriam ouvir cantar encantos. Mas isso é natural.

Os rótulos de MPB [música popular brasileira, um termo por vezes aplicado a uma sonoridade específica que tem influências do samba, bossa-nova e música folk] e nova MPB foram muito aplicados à sua música numa fase inicial. À época fazia sentido? Hoje faz menos?
Nunca me incomodei com o rótulo de MPB porque eu não entendo esse rótulo como uma estética. O que eu faço é música, é popular — porque não é erudita — e é brasileira… porque não é japonesa. Sabe? Música popular brasileira. Mas entendo que muitas pessoas pensam em MPB como uma forma de arranjo ou uma estética específica. Cresci ouvindo MPB e para mim Radiohead e música africana são MPB, porque na música popular brasileira eu ouvi essas coisas sendo misturadas desde os anos 1940, 1950. Portanto, estou confortável. Agora a ideia de nova MPB, eu já acho um pouco imprudente, porque o novo implica o velho e eu não acho que o que faço é necessariamente novo em relação ao que já foi feito. É só a minha visão do que o Brasil faz, porque a minha música resulta do bairro em que eu nasci, da relação que tive com os meus amigos, com a minha infância, com os meus pais, as coisas pelas quais eu passei. Não é necessariamente algo novo. Muitas vezes vejo coisas muito antigas que gostaria de ter feito e que, se fossem feitas amanhã, eu acharia incríveis. Quem é que fez? Ah, foi o fulano tal em 1947… Ótimo. Não consigo fazer essa análise cronológica do que é novo e velho. Mas que a MPB me deixa bem à vontade, deixa.

Sente-se mais próximo dos músicos seus contemporâneos ou das gerações mais antigas?
Ao nível do comportamento ou esteticamente?

"Quase todos os artistas [brasileiros] dos anos 1950 e 1960 eram de esquerda. Porquê? Pelo simples facto de haver uma ditadura militar. Ou se era contra ou a favor dos militares que matavam pessoas. Era mais fácil se posicionar. Obviamente que o Chico Buarque e o Caetano Veloso estavam contra os militares e ponto final. Hoje em dia não é tão fácil."
Cícero

Pode ser as duas?
Claro. Esteticamente acho que estou mais alinhado com a galera da minha geração, porque lidamos com questões com que as gerações mais antigas não lidavam. Por exemplo, produzir discos em casa, programas de computador, microfones caseiros, plug-ins, software… São questões com as quais as gerações anteriores da MPB não lidavam. Para mim, é tão interessante saber qual foi o microfone utilizado por um músico quanto saber qual foi o violão  que ele usou. O Canções de Apartamento, por exemplo, é um disco que soa velho — tem muito violão, parece que tem um som antigo –, mas foi feito em 2010, 2011 e foi uma busca estética. Não foi algo que aconteceria naturalmente hoje num estúdio tradicional, como acontecia com os discos que eram gravados nos anos 60. Hoje em dia, chegamos a sons também através de programas. Então, esteticamente acho que me identifico mais com os compositores da minha geração.

Agora, em termos comportamentais, o Brasil atual está muito dividido por questões políticas e de identidade ideológica. Acho que antigamente havia mais unidade. A classe artística identificava-se com a esquerda nas questões sociais. Quase todos os artistas dos anos 1950 e 1960 eram de esquerda. Porquê? Pelo simples facto de haver uma ditadura militar no país. Ou se era contra ou a favor dos militares que matavam pessoas. Era mais fácil se posicionar. Obviamente que o Chico Buarque e o Caetano Veloso estavam contra os militares e ponto final. Hoje em dia não é tão fácil — há uma névoa, com muitas variáveis, muitas opiniões. Muitas vezes você discorda totalmente de um artista que faz uma música idêntica à sua. É muito difícil haver essa unidade porque, antigamente, havia um inimigo claro à vista. E hoje não há, há apenas uma situação opressora no ar.

Então criam-se inimigos?
Exatamente. Criam-se presidentes inimigos, políticos inimigos, artistas inimigos, jogadores de futebol inimigos, médicos inimigos.

Lembro-me de ter descarregado A Praia quando saiu, porque o Cícero disponibilizava os discos online. O streaming acabou com a pirataria? Ou também pode ser pirataria?
Essa questão está viva, não é? Qualquer opinião que damos hoje pode mudar amanhã, como mudou de ontem para hoje. Está tudo acontecendo e tento acompanhar. Quando lancei o Canções de Apartamento, em 2011, o download gratuito fazia sentido, não existia streaming ainda. Havia o Soundcloud, o Myspace, talvez o Youtube estivesse a começar… O download gratuito era um grande facilitador. Com o passar dos anos e dos discos, fui notando que o número de downloads foi caindo e que o streaming foi aumentando. Até que notei que no meu telemóvel e no meu computador não cabiam mais discos. O download foi caindo em desuso, como a cassete. Mesmo estando disponível, já não interessava a ninguém. Por isso, acabei por deixar os meus discos só para streaming nas plataformas que são pagas e nas que não são pagas. As últimas são mais ou menos o download dos dias de hoje.

Está todo o mundo gritando. Está alguém a jogar?

É Portugal.
Contra quem?

Contra a Espanha.
Iiiihhh, quero ver também. Mas vamos continuar, é claro.

Fotografia: Flavia Bonan

Com a dimensão do Brasil, com o crescimento da Internet, com os jornais e a imprensa a perderem espaço, é mais fácil ou mais difícil para um músico chegar ao público?
As duas coisas. Depende do artista, do que ele está a fazer. Depende do objeto artístico, especificamente. Antigamente, quem tinha muito poder económico conseguia objetivamente chegar ao grande público, porque podia-se comprar espaço na rádio, espaço na televisão, espaço nos media e chegava-se ao público. Hoje em dia, alguém pode ter poder económico e as pessoas não se interessarem. A música pode tocar em rádios, nas televisões e as pessoas não…

[Ouve-se barulho.]

Outro golo? Houve dois?

Parece que foi penálti antes. Agora é que foi golo.
Ah, certo.

Bom, o inverso também acontecia. Quem não tinha dinheiro nem editora dificilmente chegava às pessoas. Hoje, pode-se chegar sem ter isso, porque editora e dinheiro já não garantem que se tenha sucesso. E não ter não é condição de insucesso. O jogo está muito mais aberto.

E o Cícero, quando começou a fazer música, que episódios, vivências e pessoas é que o fizeram ter vontade de compor?
O que me levou a compor foi a minha infância, as coisas pelas quais passei. Boas e ruins. Isso foi gerando alguma necessidade de me expressar individualmente para poder aprender a lidar com as sensações que comecei a ter. E o meu canal de expressão foi o violão, que já estava ali no meu ambiente, que já tinha em casa, porque o meu pai deixava-o ali ao pé do sofá. Se tivesse tinta e papel talvez tivesse começado a pintar, se tivesse uma bola talvez fosse jogar futebol… mas era o violão que estava ali. Aos 8, 9 anos, o que gostava dependia muito do que se ouvia em minha casa. Caetano, Chico Buarque, fado… Depois na adolescência é que comecei a procurar por mim.

Em termos sociais, por exemplo, como é que vivia à época?
Como morava no subúrbio as pessoas ficavam muito na rua, as atividades eram quase todas imprevisíveis, ficávamos vagando [deambulando] de bobeira na rua, sujávamo-nos…

Sempre quis ser músico?
Sempre, desde que me lembro de ser gente.

Falava há pouco de fado… o que é que conhece e gosta de ouvir da música portuguesa?
Conheço muita coisa! Hoje toca aqui [festival Rock Nordeste, em Vila Real] uma banda que eu gosto, os Capitão Fausto. Amanhã toca aqui um artista que eu gosto, o Manel Cruz. E B Fachada, também gosto. Gosto de bastante gente daqui.

Viu o Salvador Sobral cantar com o Caetano Veloso agora na Eurovisão?
Vi, vi.

O que achou?
Gostei! Eu conheci o Sobral porque a minha namorada é portuguesa e ela gostava, dizia-me que era maravilhoso.

[“De Passagem”, tema do terceiro disco de Cícero Rosa Lins, ‘A Praia’, editado em 2015:]

Não lhe pergunto como está música brasileira em geral porque o Brasil é muito grande. Mas que bandas e músicas, da sua geração e mais novas, é que acha que os portugueses deviam conhecer?
Há muitas bandas boas. Até a minha banda, Albatroz, tem membros de outras bandas do Rio de Janeiro. Por exemplo, Baleia e Ventre. O [músico a solo] Vovô Bebê também faz parte da minha banda. No Brasil há uma banda chamada Rua que adoro. Se for para o sul, há o Apanhador Só. Se for para Goiânia, há os Boogarins. Em São Paulo há O Terno. No Belo Horizonte gosto da banda Transmissor. O Brasil é um continente… onde quer que se olhe há gente a fazer alguma coisa. O que sinto é que o português conhece muito a música brasileira. E o brasileiro conhece pouco a música portuguesa. Isso é que me incomoda. Eu conheço um bocadinho mais porque venho muito para cá. Mas como o Brasil é um país muito grande, os brasileiros bebem da sua própria cultura e não prestam muita atenção ao que vem de fora. E isso acho que a internet pode ajudar a resolver.

Das anteriores estadias e concertos aqui, das pessoas que conheceu cá, quão parecido é o público que tem em Portugal com o público que tem no Brasil?
O público de Vila Real é diferente do público de Lisboa, não é possível generalizar. Mas o público de Lisboa e Porto acho que é muito parecido, é um público muito simpático. Como o meu público não é muito grande e conheceu-me através dos mesmos veículos — a internet, o youtube, as redes sociais –, noto uma generosidade no olhar que me deixa muito confortável para poder tocar com prazer. Isso faz com que não sinta que estou a ser julgado ou analisado em palco.

Depois do concerto de Vila Real, vai ainda dar mais quatros concertos em Portugal. Nunca tinha atuado cá com uma banda tão grande. O que é que o público pode esperar dos concertos?
O alinhamento vai incluir músicas deste disco e músicas de todos os outros. Tocamos um pouco de tudo. É a primeira vez que toco com uma banda deste tamanho, com estes arranjos. Nas vezes anteriores que vim para Portugal faltaram sempre instrumentistas — por exemplo, o anterior disco já tinha violinos, trompete e trombone e a banda com que vim não os incluía. É a primeira vez que, em concertos em Portugal, os arranjos de um disco meu vão estar totalmente fiéis ao que está nos discos. Isso já é uma experiência boa por si só. E depois estes músicos são os meus amigos, há uma energia que acho que o público conseguirá perceber. Estamos em digressão, um dia estamos num lugar, no outro dia estamos noutro, então estamos próximo, vivendo muito esta vida de estrada. A nossa vida está assim, a gente está morando na mala. Por isso, acho que os concertos neste momento são muito ‘legais’.

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