1240,6kWh poupados 1240,6 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

GettyImages-1040487178
i

▲A Oeno vendia o investimento em vinho e whisky como "seguro em quase todas as condições de mercado".

picture alliance via Getty Image

▲A Oeno vendia o investimento em vinho e whisky como "seguro em quase todas as condições de mercado".

picture alliance via Getty Image

“Como é que fui entregar dinheiro a estas pessoas?”. Os lesados da Oeno, a corretora de vinhos de luxo que colapsou e não deixou rasto

Investidores da Oeno, a corretora britânica de vinhos de luxo que terá deixado centenas de lesados em Portugal, acreditam ter sido vítimas de fraude. Administração diz que empresa foi vendida.

Já passaram algumas semanas e “João” (nome fictício) ainda não acredita no que se passou. No início de 2024, quando decidiu investir alguns milhares de euros em vinho e whisky de luxo através da corretora Oeno, não imaginava que iria terminar o ano seguinte a fazer contas ao que perdeu. Que pode ter sido tudo o que investiu. Desde o colapso da empresa a 22 de dezembro, que os investidores da Oeno estão à procura de respostas. Não sabem o que aconteceu ao dinheiro que investiram nem sequer quem podem contactar. Têm cada vez menos dúvidas de que foram vítimas de uma fraude.

“João” conheceu a Oeno através de um anúncio no Facebook. Clicou no pop up para “saber mais” e foi conduzido a um formulário de contacto, que preencheu. Pouco tempo depois, foi contactado por Tiago Stattmiller, à altura diretor da Oeno em Portugal. Em abril de 2024, decidiu avançar. Os contactos com a empresa decorreram sempre por telefone com o responsável pela operação em Portugal.

“Falámos bastante. Eu tinha algum dinheiro que queria investir. E ele conseguiu convencer-me que isto era uma coisa boa. Explicou-me como é que funcionava o mercado e a experiência. Investi tanto em vinho como em whisky. E pensei, ‘isto vai ficar na minha mão até envelhecer’. E quando envelhecer vai ter um valor acrescentado. Faz todo o sentido que isto não perca valor. Também não há de desaparecer. Há de estar guardado em algum lado. Portanto, qual é o risco disto? Estava tranquilo”, conta “João”.

“Situação complexa” de corretora de vinhos de luxo deixa centenas de lesados em Portugal e milhões de euros sem rasto

O investimento mínimo era de cerca de cinco mil euros, ainda que num prospeto informativo de 2024 a Oeno aponte para um valor mínimo de 10 mil libras (cerca de 11 500 euros) e refira que o portefólio médio dos clientes oscilava entre as 25 mil e as 50 mil libras (entre 28 mil e 57,7 mil euros), com alguns a poderem chegar aos milhões. Em Portugal, a empresa estimava ter cerca de 600 clientes em 2024.

O mesmo folheto indicava que “tanto o vinho como o whisky provaram ser um porto seguro em quase todas as condições de mercado”, já que, por terem uma “baixa correlação com os mercados que afetam as economias, são setores que tendem a ser usados como ferramenta de proteção contra investimentos mais arriscados”. Apontava como exemplos o Brexit, a pandemia de Covid-19 e a invasão da Ucrânia como momentos em que o efeito no preço dos ativos tinha sido “mínimo”.

A empresa reconhecia que havia sempre “o risco de quebra ou de danos no stock durante o transporte ou armazenamento” e, por esse motivo, “todo o stock mantido pelo Oeno Group é segurado a preços de mercado, caso o pior aconteça. Os nossos clientes estão totalmente cobertos”, dizia a empresa. Após assinado o contrato, a Oeno enviava aos clientes um certificado de autenticidade e a apólice de seguro. A maior parte dos vinhos, referia ainda a corretora, era mantida em “armazéns alfandegados altamente seguros”.

“O que sempre me foi vendido era que mesmo que a Oeno fosse à falência por um motivo qualquer, o investimento estava seguro e as garrafas estavam guardadas em meu nome”, afirma. Hoje, as autoridades britânicas acreditam que “apenas uma pequena percentagem do vinho dos clientes – talvez 20% – está depositada em contas individuais às quais os clientes são capazes de aceder”. O alerta é da City of London Corporation, a autoridade municipal londrina, e surge desde 22 de dezembro na página de entrada do site da Oeno.

O ex-diretor que acusa a Oeno de “gestão danosa” e a suposta venda à ‘Casa del Fuego’

Depois de fazer o investimento, “João” falou com o diretor da Oeno em Portugal “mais uma ou duas vezes ao longo do ano”. Achou normal por ser “um investimento a longo prazo” e não precisar de contactos frequentes. Nas vezes que manteve contacto com Tiago Stattmiller, o responsável deu-lhe nota do crescimento da empresa, que em abril de 2024 abriu um escritório próprio em Oeiras. A Oeno também anunciaria o lançamento de um fundo de investimento em Portugal que nunca chegou a iniciar atividade.

Só em dezembro de 2025, após um email de Tiago Stattmiller a anunciar que ia abandonar a Oeno, é que “João” começou “a ficar um bocadinho desconfiado”. “Era o meu único ponto de ligação à empresa. Os outros são ingleses, eu nunca falei com eles… É sempre desconfortável, não é? A pessoa que nos liga desaparecer”.

O Observador tentou chegar à fala com Tiago Stattmiller, que referiu apenas já não estar ao serviço da empresa. Ao que o Observador apurou, deixou a corretora a 10 de dezembro para se dedicar a um “novo projeto profissional”.

As dúvidas de “João” adensaram-se quando alguns dias depois do email de despedida, recebeu outra mensagem do ex-diretor da Oeno em Portugal. “Dizia que a empresa vinha a sofrer de uma gestão danosa, que se tinha despedido, que os nossos produtos estavam em risco. E que nos queria ajudar, mesmo já não fazendo parte da empresa. Bem, aí caiu-me tudo. Ganhei consciência de que fui enganado”.

GettyImages-472525430

▲ A Oeno garantia aos investidores que as garrafas estavam guardadas em “armazéns alfandegados altamente seguros”.

AFP via Getty Images

À Revista de Vinhos, o antigo diretor da Oeno em Portugal disse ter sido apanhado de surpresa pelo colapso da empresa. “Eu perdi tudo. Perdi o trabalho, perdi o meu ganha-pão, perdi o meu investimento”, afirmou à publicação, descartando responsabilidades pelas perdas dos investidores. “Não há nenhum ‘broker’ que soubesse nada disto. Estamos a falar de algo que aconteceu no topo. Se eu tiver dinheiro no banco e o banco for à falência, a culpa não é do gestor de conta”, acrescentou, dizendo ainda estar a tentar “ajudar” os antigos clientes.

Em correspondência com investidores a que o Observador teve acesso, Tiago Stattmiller admitia, já depois da sua saída da empresa, que “por tudo o que tem vindo a acontecer na empresa nas últimas semanas, tudo indica que a Oeno Group irá encerrar atividade nos próximos dias/semanas, devido a questões financeiras que, infelizmente, tornaram a continuidade da empresa inviável”.

O ex-responsável dizia que, em consequência, todos os trabalhadores da Oeno, incluindo o próprio, “ficaram sem liderança, sem direção e sem qualquer comunicação, uma vez que o CEO abandonou a empresa e se tornou incontactável”. Contava que havia salários, clientes e fornecedores que não foram pagos. E que, além de colaborador, tinha sido também investidor da Oeno, “tendo sido significativamente afetado por esta má gestão”, e sofrido perdas “devido a decisões que estiveram totalmente fora do meu controlo”.

Na mesma mensagem, Tiago Stattmiller dizia ter sido contactado pela empresa Accru Limited, que tal como a Oeno é uma empresa britânica dedicada ao investimento em vinho. O ex-diretor da Oeno em Portugal sugeria aos investidores que transferissem o seu stock da Oeno para a Accru “o mais rapidamente possível, antes que a OENO Group seja oficialmente encerrada pela Trading Standards [a autoridade britânica] e respetivas autoridades, pois isso dificulta o processo e poderá já não haver nada a fazer. O timing é crucial”, incitava o ex-responsável. O Observador contactou a Accru Limited mas não obteve resposta.

Tiago Stattmiller garantia não representar a Accru Limited, limitando-se a partilhar uma “sugestão” de “boa fé” para ajudar a “minimizar” as perdas. Assegurava não ser responsável “pela má gestão nem pelo colapso da OENO Group”, dizendo ter sido ele próprio “profundamente afetado por esta situação”. No final da mensagem, o ex-diretor alertava que deixaria de ter acesso ao email profissional a qualquer momento e que não haveria resposta. Ao que o Observador apurou, alguns clientes tentaram contactar o ex-gestor depois da sua saída da empresa mas sem sucesso.

“O que sempre me foi vendido era que mesmo que a Oeno fosse à falência por um motivo qualquer, o investimento estava seguro e as garrafas estavam guardadas em meu nome”.
"João" (nome fictício), investidor na Oeno

O Observador sabe que os investidores que tentaram vender as suas carteiras após a saída de Tiago Stattmiller receberam uma resposta por parte da administração da Oeno na qual era indicado que a transação não era possível, porque a empresa estava em processo de aquisição e a atravessar “várias mudanças internas”. Num email de 16 de dezembro, a Oeno avisava os clientes que tinha um novo CEO, Oliver Patterson, que teria substituído Michael Doerr no mesmo cargo, e que ia passar a ser uma subsidiária da gestora de ativos Casa del Fuego Family Office & Trust. O Observador tentou contactar os responsáveis desta empresa, sem sucesso.

Na mesma mensagem enviada aos investidores, a Oeno refere que a Casa del Fuego é uma “gestora de investimentos internacionais que gere mais de trinta mil milhões de dólares em ativos”, e que investe em áreas como “tecnologias transformadoras, luxo, hotelaria e ativos alternativos”. Da pouca informação pública que é possível recolher sobre a suposta nova dona da Oeno, há notícias sobre a compra de uma empresa norte-americana de 5G, a Digital Global Systems (DGS), em junho de 2025 por cinco mil milhões de dólares. O Observador também contactou a DGS e não obteve retorno.

Ainda no mesmo email, a Oeno reconhece que em “anos recentes” alguns clientes “nem sempre receberam o nível de serviço ou comunicação que esperavam”. A empresa dizia estar “cuidadosamente a explorar soluções digitais reguladas para que a experiência de colecionar e investir em vinho e whisky seja mais transparente, segura e acessível”.

Perante a insistência dos investidores na venda das carteiras, a administração da Oeno respondia que “no presente não existem diretores ou gerentes sénior no ativo” autorizados a tratar das operações “financeiras, contratuais ou legais”. Prometia reencaminhar o pedido internamente para ser tratado “assim que for reposta a capacidade de governança ou de tomada de decisão”, mas dizia não ser capaz de prever uma data para dar resposta aos pedidos.

Lesados querem levar Oeno a tribunal

Numa plataforma de avaliação de serviços, a Services Reviewed, há mais de duas centenas de avaliações à Oeno, quase todas negativas. A mais recente tem data de 3 de janeiro e foi feita pelo utilizador Fabrizio Murruni. “Claramente um esquema. Se alguém quiser entrar em contacto e avançar com uma ação legal contra estas pessoas, eu farei parte”, diz.

Os relatos de quem investiu milhares e não consegue entrar em contacto com a empresa nem recuperar o dinheiro sucedem-se na mesma plataforma. Como a alemã Sophie Zillmann que tinha na Oeno uma carteira de investimento avaliada em 15 mil euros. “Apesar das repetidas tentativas de contactar a empresa e pedir a venda do meu portefólio, a Oeno não respondeu nem fez nada”, referia a 17 de novembro na plataforma de avaliações. Contactada pelo Observador, Sophie Zillmann confirmou que desde essa data nada mudou. Não recebeu resposta aos contactos que fez nem conhece o paradeiro dos seus investimentos. Admite avançar para tribunal.

É essa também a vontade de “João”, que apresentou uma queixa através de formulário às autoridades britânicas, mas pretende juntar-se a outros possíveis lesados portugueses para levar o caso a tribunal. “Não sei muito bem como é que isto vai acabar, mas tudo indica que está perdido”, admite. Confessa ter ainda, porém, “alguma esperança de que não esteja. Ou melhor, tenho esperança de ter restado alguma coisa. Pode ser que as autoridades do Reino Unido consigam confiscar alguma coisa e ajudar-me”. Hoje, não consegue evitar o lamento. “Como é que eu fui entregar dinheiro, este valor a estas pessoas? Olhando para trás, não sei porque fiz isto. Porque é que confiei?”.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.