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Como Cotrim tenta recuperar depois da alegação de assédio
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▲Como Cotrim tenta recuperar depois da alegação de assédio

Maria João Gala

▲Como Cotrim tenta recuperar depois da alegação de assédio

Maria João Gala

Cotrim. As conversas com a advogada e a dificuldade em mudar de tema depois da polémica

Ligar à advogada para avançar com a queixa. Mudar de assunto. Controlar danos e diminuir riscos. Regressar aos lares. Dramatizar o voto útil com sondagens desatualizadas. E o novo apelo a Montenegro.

E vão duas noites longas a tentar fazer a gestão de danos possível. A cúpula da campanha de João Cotrim Figueiredo tem tentado recuperar do abalo provocado pela alegação de assédio sexual a uma antiga assessora da Iniciativa Liberal e pela confusão criada pelas declarações do candidato sobre a hipótese de vir a apoiar André Ventura numa segunda volta. Sem colocar a hipótese de desistir, a candidatura precisa de tentar voltar à normalidade.

Primeiro, de segunda para terça-feira, houve a necessidade de publicitar uma carta, assinada por 30 mulheres que trabalharam com João Cotrim Figueiredo, a manifestar-lhe solidariedade. Depois, a candidatura do liberal decidiu trocar a visita à Feira Semanal de Viseu por uma ida a um lar por causa da chuva — o que acabou por proteger o candidato de reações imprevisíveis no contacto com a população. Na madrugada desta quarta, às 2 da manhã, foi enviada aos jornalistas o apelo a Luís Montenegro a pedir o apoio do PSD, com embargo até às 7h da manhã, quando arranca o horário nobre das rádios. Objetivo: introduzir um novo tema na agenda mediática.

Mas o caso do alegado assédio sexual vai tendo réplicas. Na terça-feira, o candidato iniciou o dia a tentar voltar onde foi feliz na primeira semana de campanha, a fazer conversa com reformados no Lar da Fundação Mariana Seixas, em Viseu. A meio da visita, disse ao Observador que a queixa de assédio não tinha circulado na Iniciativa Liberal há dois anos, tentando contrariar essa informação. “Então circulou e ninguém me ia dizer nada?”, alegou o candidato.

Já esta quarta-feira, em declarações aos jornalistas que acompanham a candidatura, Cotrim veio garantir que não tinha tido conhecimento anterior da situação. O Observador mantém a informação que avançou ontem, terça-feira, de que houve elementos da IL com relevância política que tiveram conhecimento da alegação de assédio há dois anos.

Até ao momento, a assessoria de imprensa da Iniciativa Liberal não desmentiu, nem adiantou qualquer informação sobre denúncias ou inquéritos internos que possam ou não ter existido. Tem-se limitado a responder às solicitações de vários órgãos de comunicação social com a seguinte frase: “A Iniciativa Liberal não vai alimentar uma campanha suja que decorre neste momento por via das eleições presidenciais”. Sem mais.

Cotrim de Figueiredo em Coimbra. Presidenciais 2026 Foto: Paulo Novais/Lusa

▲ O candidato Liberal no jantar de Coimbra, onde disse que Marques Mendes já estava fora da corrida

PAULO NOVAIS

O regresso de Mariana Leitão e as conversas de Cotrim com a advogada

A líder do partido, Mariana Leitão, não assinou a carta aberta de 30 mulheres a manifestar solidariedade com o candidato, nem assumiu qualquer posição pública. João Cotrim de Figueiredo revelou que a líder da Iniciativa Liberal lhe fez uma “chamada bastante calorosa”, mas, segundo Cotrim, por ser presidente do partido não gostaria de assinar a carta juntamente com as mulheres de outra posição hierárquica que trabalharam com o candidato.

Mariana Leitão, que foi chefe de gabinete do grupo parlamentar da IL entre 2022 e 2024, aparecerá numa ação de campanha esta quinta-feira, no Porto. Recorde-se que a presidente da Iniciativa Liberal ainda não reagiu publicamente à acusação de assédio sexual de que é alvo João Cotrim Figueiredo. Quando falou sobre isso, Cotrim garantiu o seguinte: “Tenho a certeza que se for uma questão disso, a Mariana Leitão tornará pública a sua posição [sobre o caso]”.

Cotrim já falou ao telefone com a sua advogada, sócia no escritório de um dos seus principais apoiantes. Tiveram uma primeira conversa sobre o tipo de queixa que pode ser apresentada, analisaram como o facto de a alegação ter sido feita numa story do Instagram partilhada apenas com “Amigos Chegados”, um circuito mais privado, pode ter influência, e também a viabilidade ou dificuldade de demonstrar como uma cópia dessa story se espalhou por tanta gente tão rapidamente, incluindo os jornalistas que estão a fazer a cobertura editorial da sua campanha.

Outra questão que também pode estar ainda em aberto para lá da reputação é a dos danos patrimoniais provocados pelo caso, com eventuais consequências nos donativos da campanha, por exemplo. João Cotrim Figueiredo anunciou que vai tentar que a queixa contra a ex-assessora da IL seja apresentada ainda antes do fim da campanha, na próxima sexta-feira. Voltou a falar com a advogada esta quarta-feira de manhã, mas não conseguiu comprometer-se com uma data.

A psicóloga Maria João Faustino contou nas redes sociais que no dia 13 de junho de 2024 foi procurada por uma jovem, no fim do lançamento de um livro sobre o assédio sexual. “Contou como estava a passar uma fase difícil da sua vida devido às situações de assédio sexual de que era alvo por alguém muito influente da IL”. Não foi nomeada no post a pessoa da IL que estaria a exercer o assédio.

O desabafo da ex-assessora da IL sobre situações de assédio em Junho de 2024

A tentativa de esvaziar o assunto é um exercício difícil para os elementos da candidatura, por não controlarem todos os possíveis desenvolvimentos do caso. Ainda na terça-feira à noite, a psicóloga Maria João Faustino contou nas redes sociais que, no dia 13 de junho de 2024, foi procurada por uma jovem, no fim do lançamento de um livro sobre assédio sexual, que lhe contou o seu testemunho pessoal. Jovem que, perante este caso, Maria João Faustino identificou como sendo a autora da acusação contra Cotrim.

Segundo Maria João Faustino, essa mesma jovem “contou como estava a passar uma fase difícil da sua vida devido às situações de assédio sexual de que era alvo por alguém muito influente da Inicitiva Liberal”. A psicóloga e as outras autoras do livro souberam agora pela fotografia publicada em jornais que a jovem que as procurou é a antiga assessora da Iniciativa Liberal. Não foi nomeada no post de Maria João Faustino a pessoa da IL que estaria a exercer o assédio.

Esta terça-feira, o candidato disse que não foi ele a redigir o comunicado onde se refere que a antiga assessora trabalha agora no Governo da AD. Ao mesmo tempo, argumentou que considera relevante saber-se que “num órgão de soberania da nação está alguém que publica mentiras”. Cotrim indignou-se quando lhe perguntaram sobre a acusação de política suja: “Então eu sou acusado de uma coisa gravíssima, sem qualquer fundamento, e acha que vem do nada?”.

Horas depois, o seu diretor de campanha, Bernardo Blanco, publicou nas redes sociais uma insinuação contra a candidatura de Marques Mendes e a possibilidade de o adversário inventar acusações: “Se [a sondagem da Católica] der Cotrim a lutar pela 2.ª volta e Marques Mendes sem hipótese… veremos o que vão inventar amanhã. Contra a campanha negativa”.

Independentemente dos desenvolvimentos deste caso, não haverá qualquer decisão da justiça antes de os eleitores fazerem o seu próprio julgamento sobre a alegação de assédio e decidirem se influencia ou não o voto e em que direção. Nas redes sociais, a candidatura já amplificou publicações de utilizadores que terão decidido votar Cotrim depois do surgimento deste caso. Muitos outros eleitores já se manifestaram em sentido contrário.

O cansaço e o desabafo: “Não vamos voltar aos mesmos temas, não?”

Na terça-feira, logo depois do seu dia mais negro, notavam-se poucas mudanças na caravana de Cotrim, tirando talvez a presença de mais jornalistas e algumas respostas que ia dando às pessoas com quem se cruzou e que podem ser interpretadas à luz do seu novo contexto. A uma idosa que lhe disse ter “103 anos e juízo”, respondeu: “Mais juízo do que outros com muito menos idade”. A outro idoso que lhe falou, respondeu um “Contra ventos e marés”. Cotrim sempre foi um candidato muito físico, a pedir beijinhos e a pôr a mão no ombro. Isso manteve-se inalterado.

Na terça-feira, no fim da visita, quando falou aos jornalistas ao longo de 14 intensos minutos, tentou esvaziar todas as polémicas, mas acabou a dar mais munições aos adversários. Justificou as frases sobre Ventura e a segunda volta com “falta de discernimento” provocada pela preocupação de já saber da acusação de assédio. Mas fê-lo com frases como: “Não consigo explicar o que é que me passou pela cabeça”.

Mereceu logo duros ataques do maior adversário, Luís Marques Mendes, que criticou a sua “imaturidade política” e alvitrou que alguns eleitores que votaram antecipadamente em Cotrim no domingo, antes da segunda-feira negra do candidato, já estariam arrependidos. André Ventura foi ainda mais ao osso, dizendo que o país “não é para quem não está bem da cabeça”.

O segundo ponto de campanha de terça-feira foi uma visita ao Centro de Tropas de Operações Especiais do Exército, em Lamego. A recolha de imagens no interior das instalações militares acabou por ser interdito. Cotrim prestou declarações à porta no final, frente a uma capela. “À porta de uma capela, não sei se é premonitório”, disse, antes de entrar no espaço. E imediatamente antes de começarem as perguntas dos jornalistas soltou em voz baixa um misto de desejo e desabafo em forma de apelo: “Não vamos voltar aos mesmos temas, não?”

Teve oportunidade de criticar Montenegro, que falara em perceções para atenuar a dimensão dos problemas na Saúde, mas voltou ao tema Ventura, para tentar clarificar afinal a sua posição. Insistiu que o único cenário em que está concentrado é na passagem dele próprio à segunda volta e repetiu várias vezes esta ideia: “Qualquer coisa que acrescente à frase enfraquece ou fortalece um adversário”. Como se ele próprio não tivesse já admitido em fases anteriores que o crescimento da sua campanha tinha resultado também do enfraquecimento dos adversários numa disputa tão acesa pelo mesmo espaço ideológico.

▲ Cotrim de Figueiredo (com Liliana Reis) na primeira ação de campanha depois do escândalo, num lar do Fundão

Maria João Gala

A simpatia de Santana e a dramatização do voto útil

Na noite de terça-feira, João Cotrim Figueiredo subiu ao palco para discursar embalado pela sondagem da Universidade Católica para a RTP, que o coloca em 3.º lugar, mas mais importante do que isso com 19%, enquanto Marques Mendes aparece apenas com 14%, confirmando-se a tendência verificada pela tracking poll da TVI/CNN.

O trabalho de campo foi concluído a 9 de janeiro, três dias antes do dia mais difícil da campanha de Cotrim e não reflete eventuais consequências das afirmações controversas sobre Ventura e do alegado assédio. Como a maior parte dos eleitores não lê as letras pequeninas da ficha técnica das sondagens, nem essas minudências aparecem nas redes sociais, Cotrim pode dramatizar, dizendo que Marques Mendes está fora da corrida e que o ex-presidente da IL é a única esperança dos eleitores que não quiserem uma segunda volta entre Ventura e Seguro.

Quem se sentou à mesa dele no jantar notou algum cansaço e abatimento provocado pela campanha e pelos dias difíceis, mas reparou que fez conversa com o rapaz que estava a servir à mesa. E cumprimentou um a um os cerca de 200 apoiantes presentes, que pagaram dez euros para se inscrever no jantar (o resto da despesa é assumido pela candidatura).

Saiu à pressa para ir falar com Santana Lopes no seu espaço de comentário no canal Now, uma das raras entrevistas que dará por estes dias. Outros compromissos com elementos da sua candidatura foram desmarcados, para evitar correr riscos de deslizes que comprometam ainda mais as hipóteses eleitorais.

No encontro em direto na TV, recolheu uma manifestação de simpatia do ex-primeiro-ministro em relação à sua candidatura (dividida com a de António José Seguro). Mas precisamente por causa dessas entrevistas de Santana aos candidatos presidenciais, teve de ser cancelado o evento de campanha desta quarta-feira, que seria um encontro entre ambos na Figueira da Foz, depois de ter estado de manhã em Montemor-o-Novo, a fazer queijadas, de avental e touca na cabeça.

A chuva, outra vez, também já obrigou a alterar a agenda desta quinta-feira de manhã. A visita à Feira de Gondomar foi trocada novamente por uma ida a um Centro de Dia do mesmo concelho — onde voltará a fazer a sua ronda pelos idosos, o tipo de ação mais repetida desta campanha, mesmo depois de o momentum se ter transformado em tormento.

▲ Cotrim esteve também numa creche no Fundão, onde conheceu as educadoras e fez as crianças rir, trocando-lhes o nome

Maria João Gala

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