A 5 de fevereiro de 1985 nascia algures no oceano Atlântico aquele que viria a ser um dos melhores futebolistas de sempre – para o próprio, “o melhor”. Quis o destino que, 566 anos depois de Tristão Vaz Teixeira, Bartolomeu Perestrelo e João Gonçalves Zarco ali terem chegado, o arquipélago da Madeira fosse capaz de transcender a sua designação de “Pérola” e passasse a ser conhecido mundialmente devido um nome: Ronaldo. O grande ex líbris da região – e de Portugal – comemora esta quarta-feira 40 anos e, se a sua carreira desportiva caminha para o fim, o futuro está mais que assegurado. À boleia do seu percurso nos relvados, a marca do jogador continua a crescer a um ritmo estratosférico.
Em 2025, a marca do avançado está avaliada em 850 milhões euros, de acordo com um estudo feito pelo Instituto Português de Administração e Marketing (IPAM), que se debruça sobre o impacto de Ronaldo desde 2011, altura em que este se cifrava nos 24,5 milhões. Assim, em apenas 14 anos, a marca Cristiano Ronaldo cresceu 825,5 milhões, algo que só foi possível devido à importância que o português ganhou fora dos relvados, transformando-se em embaixador de algumas das maiores marcas do mundo. Na década passada, a marca CR7 alcançou os 200 milhões, em 2020, o que perfaz um crescimento exponencial de 733%. O estudo feito pelo IPAM tem como base o Sports Reputation Index, metodologia desenvolvida pelo instituto, e que explora “a reputação, popularidade e notoriedade de um atleta ou treinador” com base em “seis dimensões (receitas, média, redes sociais, palmarés, social e impacto) e um total de 28 variáveis”.
▲ Ronaldo é o desportista mais popular do planeta
AFP via Getty Images
Na vertente das receitas, Ronaldo atinge o topo da escala (100), depois de ter sido considerado o desportista mais bem pago do mundo em 2024, com um ordenado de 200 milhões de euros e 150 milhões em direitos de imagem. Na componente relativa às redes sociais, o madeirense também atinge a perfeição, já que é a grande referência no mundo dos influencers, com mais de mil milhões seguidores e 187 milhões de pesquisas no Google em 2024. Nos media, o avançado tem um valor de 75 e, apesar de ter mantido a exposição mediática — 22,3 milhões de notícias globais em 2024 —, a ida para a Arábia Saudita originou a descida neste ponto.
O palmarés centra-se na prestação futebolística, onde, como se sabe, Cristiano Ronaldo atingiu um nível de excelência e ao alcance de poucos. Com 31 grandes competições conquistadas e 220 distinções individuais, o português alcançou os 91 pontos segundo o critério do IPAM. Quanto ao social, “Ronaldo atinge um valor de 98 pontos, o que demonstra uma projeção social muito forte que ultrapassa o domínio do desporto”, sendo evidências os quatro mil livros e os 63 mil artigos científicos em que é mencionado. Por fim, Ronaldo soma 74 pontos no impacto, tendo “uma enorme vantagem em relação aos seus concorrentes”.
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— Cristiano Ronaldo (@Cristiano) February 1, 2025
Deste modo, o relatório conclui que, num ponto de vista global, Cristiano Ronaldo soma 88 pontos numa escala de zero a 100, “o que evidencia a enorme relevância reconhecimento da marca CR7 em termos globais”. “CR7 é o desportista mundial com maior fontes de receitas e também o desportista mais seguido e procurado na Internet e redes sociais em todo o mundo. Nas dimensões social (98 pontos) e palmarés (91 pontos) CR7 atinge também valores extraordinariamente elevados que revelam o jogador português como um dos futebolistas com melhor palmarés na história do futebol bem como um futebolista com estatuto de celebridade presente em todo o tipo de rankings de diferentes áreas. As dimensões menores pontuadas são media (75) e impacto (74), muito influenciadas atualmente por Cristiano Ronaldo jogar atualmente numa liga periférica do futebol mundial”, aponta o estudo.
“Desde o estudo realizado em 2020 a marca CR7 cresceu 325%, o que representa um crescimento espantoso em apenas cinco anos. Quando pensamos nos fatores que contribuíram para este crescimento, e o seu impacto no Sports Reputation Index, destacam-se o crescimento do salário em 308%, o crescimento das receitas de patrocínios em 435%, o crescimento de seguidores nas redes sociais em 280%, o aumento do número de jogos em 51% e o aumento do número de golos em 60%. Além disso, a faceta de investidor de Cristiano Ronaldo ganhou um enorme impulso nos últimos cinco anos com a diversificação de investimentos e participações em diferentes indústrias e geografias”, concluiu.
“Não há uma máquina tão bem montada como a de Cristiano Ronaldo”
Daniel Sá, diretor executivo do IPAM e responsável pelo estudo, explicou ao Observador que, atualmente, Cristiano Ronaldo divide-se em “quatro personagens distintas”, o que explica o aumento do seu património. “Existe o atleta – com um percurso brilhante nos relvados –, o patrocinado – a cara de várias marcas, muitas delas das mais importantes do mundo, há vários anos, com enormíssimas campanhas publicitárias –, o influenciador – o maior do mundo, com mais de mil milhões de seguidores nas redes sociais – e o investidor – participa em cadeias de hotéis, média e que espera ser dono de um clube. A marca Cristiano Ronaldo bebe destes quatro Ronaldos”, acrescentou.
Quanto à carreira desportiva do capitão da Seleção Nacional, o professor detalha que existem dois momentos significativos do seu crescimento. “O primeiro acontece com 18 anos, quando Ronaldo passa do Sporting para o Manchester United, onde atinge o estrelato desportivo como um fenómeno. Aqueles anos em Manchester foram de evolução e maturidade, passando para um palco com um protagonismo muito grande e uma super equipa com um super treinador [Sir Alex Ferguson]. O segundo momento é a ida para Madrid, para o clube mais mediático, maior, mais famoso e o que tem mais receitas no mundo. Nesse momento Ronaldo ultrapassou a dimensão do futebolista famoso e passou a ser uma celebridade mundial, ao lado dos músicos, atores e políticos”, sublinhou.
Nos últimos cinco anos, os números de Ronaldo “explodiram”, com um aumento salarial na ordem dos 30%, um crescimento de patrocínios de 430% e de 280% no que concerne aos seguidores nas redes sociais. “Apesar de ter ido para um campeonato e clube periféricos, essa foi a única coisa periférica e descendente que aconteceu. Tudo o resto explodiu. Em cinco anos, Ronaldo fez mais 50% de jogos e marcou mais 60% de golos”, explicou Daniel Sá, evidenciando que, atualmente, Cristiano é a marca desportiva global com maior crescimento. “É o desportista mais conhecido da história do desporto em todo o mundo. É evidente que tudo isto foi feito com Ronaldo a navegar o mundo atual, que é de televisões, rádios e redes sociais. Quando falamos de atletas, não há uma máquina tão bem montada como a de Cristiano Ronaldo”.
Em declarações ao Observador, Daniel Sá referiu ainda que “o impacto da marca depende cada vez menos do desempenho desportivo e isso pode ajudar a explicar a explosão dos últimos cinco anos. O Ronaldo futebolista é o que vai tendo cada vez menos impacto na marca, mas é evidente que foi a base de tudo”. Quanto ao futuro, o professor prevê que, quando se reformar, “a marca vai disparar ainda mais e com mais velocidade”. “Vamos ter um Ronaldo mais focado e com mais energia para as outras três dimensões. Acredito que a marca vá ter um peso maior nos próximos anos. Temos de pensar em Ronaldo como uma marca. Todas as empresas mundiais têm planos estratégicos. A presença de Ronaldo nas redes sociais já está perfeitamente segmentada e é exatamente o que qualquer empresa faz. Haverá sempre o limite do esforço e da capacidade financeira, mas conceptualmente acho que não existem limites. A marca Cristiano Ronaldo pode diversificar-se em termos de indústrias, porque já tem o reconhecimento mundial”.
Por fim, o professor acrescentou que, atualmente, a marca CR7 “já estaria no top 50 das principais empresas portuguesas”. “Se Ronaldo construir um império como a Disney e passar a ser dono de canais de televisão e fizer filmes, haverá um risco de Ronaldo ser muito lembrado pela função de investidor. Parece-me muito difícil de acontecer porque haverá limites. A carreira dele é absolutamente espantosa e parece que não será batida tão cedo. Creio que o futebolista será lembrado para sempre. Impacto negativo? O que houve foi mínimo, desde pequenos episódios pessoais a uma passagem falhada pelo Manchester United, no regresso. Se pusermos as coisas em perspetiva, são cinco páginas num livro de 500. O desgaste da marca é mínimo. Se pensarmos na parte qualitativa da marca, toda a gente guarda, dos atributos da marca, combatividade, profissionalismo, esforço, trabalho, dedicação e compromisso. Isto é indiscutível. Esta atitude do Ronaldo é o que acaba por ser importado para a marca CR7 e por isso é que as pessoas a admiram, reconhecem e sentem que tem qualidade”, terminou.