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De que é feita e o que representa a escrita de Miguel Sousa Tavares /premium

Ao deixar o jornalismo, é para o romancista que as atenções agora se viram. Entre "Equador " e "Último Olhar" (o novo livro), Carlos Maria Bobone escreve sobre as singularidades de um escritor.

Vendeu como nunca ninguém em Portugal tinha vendido. Há uns anos, explicava também um editor que a Autobiografia de Gabriel García Marquez tinha sido um fiasco em Portugal porque encontrara pela frente um inultrapassável Equador, que ocupara as preferências dos leitores portugueses. Passou da televisão para os livros, para ver os livros voltarem à televisão.

Apesar disso, a crítica pareceu pouco impressionada pela glória popular. Vasco Pulido Valente resmungou, com aquela sua concisão agressiva, contra o Equador, chumbou o Rio das Flores com mais minúcia, e o próprio Miguel Sousa Tavares se queixa de ter havido um “esforço deliberado” para não premiarem Equador.

Ora, esta parece ser a versão clássica dos mecanismos de receção de um livro. Àquilo que as massas comem, torcem os especialistas o nariz. É assim com José Rodrigues dos Santos, foi assim com Campos Junior, com Ken Follett, George Martin, numa lista que podia recuar até à primeira plaquinha copiada em larga escala pelos assírios. Esta é, aliás, uma situação que convém aos dois campos. Enquanto o público não souber reconhecer a boa literatura, a crítica tem o seu lugar assegurado – continuam a ser precisas guias literárias que se diferenciem da barbárie; e enquanto o êxito repelir os críticos, os escritores mais afamados conseguem refugiar-se no bordão consolador: como o livro se vendeu, os críticos decidiram espremê-lo, a ver se pinga dele alguma das moedas que rendeu ao leitor. A crítica dos zoilos não se deve à falta de qualidade, mas ao êxito do livro. O próprio Miguel Sousa Tavares, aliás, sustentou esta tese.

As capas das novas edições de "Equador", originalmente publicado em 2003, e "Rio das Flores", livro de 2007. "Último Olhar" é o mais recente romance de Miguel Sousa Tavares (Porto Editora)

Com o autor de Rio das Flores, porém, o caso é ligeiramente mais complicado. As falhas históricas que Pulido Valente encontrou nos seus romances, embora reais, são perdoáveis. É certo que ainda no mais recente livro, Último Olhar, confunde requetés com pelotões do exército de Queipo de Llano, como noutros livros fez vista grossa às dinâmicas do aparelho político português da primeira república, mas convenhamos: não são erros gritantes, são confusões que até podem ter aquele encanto bruto do homem insensível que aterra num lugar exótico, aquela agitação ligeiramente trapalhona própria dos homens de ação, a lembrar um general americano a ter de decidir o que fazer no meio das montanhas afegãs, ou um Kipling, com a sua mentalidade imperial, a escrever sobre as castas indianas. Por muito que haja nos livros aquele pequeno incómodo de quem assiste à História contada com mais convicção do que rigor, Miguel Sousa Tavares também sabe dar às suas contextualizações a condescendência viril de quem tem pouca paciência para rendilhados, como se preferisse despachar os assuntos para contar o que realmente interessa.

Criticar as imprecisões históricas de Miguel Sousa Tavares é, assim, insuficiente para o considerar um mau escritor, como serão insuficientes as críticas feitas por João Pedro George, por exemplo, que encontra no Equador a expressão acabada de um pensamento machista e reacionário, em que mesmo as personagens discursivamente liberais ou tolerantes são estruturalmente reacionárias.

É verdade que esta pode ser uma crítica mais consequente. O que está em causa não é o facto de haver personagens progressistas ou reacionárias, mas o facto de serem artificialmente uma coisa ou outra. É na contradição entre aquilo que declaram ou fazem e o modo subentendido como olham para o mundo que podemos encontrar a inépcia do escritor. Note-se que não haveria, deste ponto de vista, problema nenhum em que tivéssemos personagens machistas ou reacionárias ou o que quer que fosse no livro: o único problema está na falta de controlo sobre as suas próprias personagens, que levaria o escritor a estar focado apenas num plano (o plano mais óbvio, do discurso ou das ações principais), de tal modo que tornaria as suas personagens inconsistentes. É esta mesma ideia que pode levar a que consideremos as personagens unidimensionais ou plásticas.

Mais importante do que o conhecedor da gramática é aquele que a revoluciona, mais importante do que vocalizar o ar do tempo é vir da frente e contra o tempo, mais importante do que a grandiosidade é a marginalidade, de tal modo que houve uma transferência dos campos de prestígio literário que não favoreceu Miguel Sousa Tavares.

Como a escrita de Miguel Sousa Tavares é sobretudo virada para a ação, as circunstâncias acabam por ser aquilo que melhor define as personagens. Estas não têm propriamente um carácter, têm um cadastro, e esse cadastro pretende mostrar-nos o tal carácter. Porém, se são realmente as ações aquilo que importa na definição das personagens, é o contexto que as faz, mais do que elas próprias. Nada conseguiríamos saber sobre o Pablo de Último Olhar se ele não tivesse combatido na Guerra de Espanha. Mais, caso Pablo não tivesse combatido, teríamos uma pessoa diferente, e uma perceção diferente do seu carácter. Isto significa que o fundamental da personagem não está nela, mas nas circunstâncias. Ora, o facto de não se ligar às pequenas circunstâncias, ou estas terem um papel meramente funcional na História, é o que pode levar às personagens incoerentes.

É claro que as pessoas são incoerentes, como as personagens também podem ser. A incoerência, porém, geralmente está invertida: é nos momentos mais difíceis que é mais improvável sermos virtuosos, e nos fáceis que a virtude cresce. Mesmo que isto não seja uma absoluta regra de vida, será com certeza uma regra da ficção: não faz sentido do ponto de vista de um enredo que as situações mais fáceis se sigam às mais difíceis. Se um governador se porta como um grande homem nos momentos decisivos, não faz sentido que pouco liguemos àqueles em que se porta com menos justiça – é anticlimático e contribui para termos uma sensação de que as personagens são artificiais.

Ainda assim, mesmo com personagens artificiais e com uma certa trapalhice histórica, Miguel Sousa Tavares podia ser um grande escritor. Eugénio Lisboa, aliás, atravessa-se pelo Equador, e considera as “boquinhas” da crítica um sinal de hipocrisia (os críticos leriam, como fazem com os contos de Somerset Maugham, o Equador às escondidas). De facto, haveria em Miguel Sousa Tavares uma série de características que poderiam fazer dele um autêntico “écrivain nationale”, na aceção que Elias Canetti faz do escritor que encarna o “espírito” de uma época ou de um país. Miguel Sousa Tavares escreve como um “écrivain nationale”, pensa como um “écrivain nationale” e porta-se como um “écrivain nationale”.

Miguel Sousa Tavares tem as qualidades da discreta escrita jornalística. Mesmo que isto seja pouco valorizado literariamente, não deixa de ser uma qualidade, própria de um “escritor nacional”

Diana Quintela

Aquilo que era próprio desta grande figura canónica das letras, o verdadeiro arquétipo do escritor antes de ser ultrapassado pelo escritor maldito, era uma espécie de capacidade vocal para concretizar o ar do tempo, uma noção do cânone, a correção gramatical e um uso alargado do vocabulário, uma certa grandiosidade, enfim: tudo aquilo que encontramos primeiro em Vitor Hugo e depois em Barrês, em Hermann Broch ou em Almeida Garrett. Republicanos no tempo da Revolução, nacionalistas no tempo de Boulanger e da Action Française, liberais com a vitória de D. Pedro, etc.

Em certo sentido, o problema de Sousa Tavares está no facto de a figura do escritor nacional ter sido ultrapassada, em matéria de prestígio literário, pela figura do escritor maldito. Mais importante do que o conhecedor da gramática é aquele que a revoluciona, mais importante do que vocalizar o ar do tempo é vir da frente e contra o tempo, mais importante do que a grandiosidade é a marginalidade, de tal modo que houve uma transferência dos campos de prestígio literário que não favoreceu Miguel Sousa Tavares. É porque o grande plano passa a ser menos importante do que o pormenor que Miguel Sousa Tavares, sem escrever com os pés, parece tão deslocado da alta literatura. Toleram-se, hoje, falhas de enredo, enredos desinteressantes, histórias inexistentes, desde que o pormenor seja explorado ao máximo. Vemo-lo nos grandes exemplos da literatura contemporânea, como Proust e Joyce, que deixaram o enredo para segundo plano. O feitio de Miguel Sousa Tavares é, neste sentido, anti-literário, pelo menos pelo cânone da literatura contemporânea.

Percebemos, assim, que críticos menos interessados na “contemporaneidade” queiram salvar Miguel Sousa Tavares. É um escritor com as qualidades próprias de um jornalista: sabe o que é importante, quer contar a história e não contar-se a si próprio (coisa que também o prejudica nos pergaminhos literários, ganhos com a personalidade e com a originalidade) e escreve funcionalmente, sem ademanes e sem surpresas, exatamente como esperamos que as coisas sejam escritas. Não há revoluções no seu modo de escrever, os ambientes não são vistos por perspetivas desconhecidas, os comunistas românticos pensam como todos os comunistas românticos desde que a literatura é literatura e os capitalistas alarves pensam como todos os capitalistas alarves desde que o tempo é tempo. A sua escrita atinge o pináculo do lugar-comum, naquilo que de mais elogioso se pode dizer sobre o lugar-comum: não é fácil expressar com clareza e do modo mais natural aquilo que as pessoas pensam sobre os assuntos. É esta uma das grandes qualidades da discreta escrita jornalística e Miguel Sousa Tavares tem-na. Mesmo que isto seja pouco valorizado literariamente, não deixa de ser uma qualidade, e uma qualidade própria de um “escritor nacional”.

O seu modo de escrever tem simplesmente aquela estranheza de quem entra numa conversa sem saber que um acontecimento fulcral alterou aquilo que de mais importante pode ser dito.

O azar de Miguel Sousa Tavares passa, assim, do ponto de vista crítico, por escrever de um modo desprestigiado ou, quase que o poderíamos dizer, atrasado. Da mesma maneira que não faz sentido, depois de Kant, continuarmos a discutir conceitos de sujeito e objeto como se a Crítica da Razão Pura não existisse, também não fará sentido escrever romances como se não existissem Proust ou Kafka ou Joyce – pelo menos caso queiramos ser reconhecidos como bons escritores. O problema maior de Miguel Sousa Tavares é, do ponto de vista literário, escrever como se nada se tivesse passado, o que lhe dá um ar um tanto anacrónico. Não tem aquela contenção simples de quem escreve com uma contenção propositada, que se encontra em Thomas Mann ou em E. M. Forster, com o formalismo daqueles que deliberada e conscientemente rejeitam as formas modernas de escrever: o seu modo de escrever tem simplesmente aquela estranheza de quem entra numa conversa sem saber que um acontecimento fulcral alterou aquilo que de mais importante pode ser dito.

Poderíamos daqui depreender que Miguel Sousa Tavares podia ser um excelente escritor de outro tempo. Não serviria para a literatura do nosso tempo, mas se a posteridade viesse a confundir datas de nascimento, poderia ser considerado um grande escritor de princípios do século XX, por exemplo. Não nos parece, porém, que seja exatamente assim. Para já, porque Miguel Sousa Tavares tem um perfil de escritor anacrónico, o que é diferente de ter um perfil de escritor do passado. Porque como um escritor sobretudo de ação, de exterior, naturalmente não tem o mundo de um escritor de princípio de novecentos. Depois, porque aquilo que o caracteriza é o facto de ser um escritor “do seu tempo”, de uma maneira que a literatura contemporânea não é. Em Joyce, mais do que o seu tempo, vemos Joyce, como em Kafka vemos Kafka e não um tempo preciso (é claro que há nele um lado alegórico temporalmente convertível, mas não temos um retrato do seu tempo).

O problema é ser-se convencional num tempo que não acredita nas convenções. E é isso que faz de Miguel Sousa Tavares um escritor com um lugar só seu, mesmo que seja um lugar que poucos (do ponto de vista exclusivamente literário, claro) queiram.

Com Sousa Tavares, porém, aquilo que temos é precisamente uma projeção do seu tempo. Do modo como o seu tempo olha para a História, no caso dos romances mais históricos, e do modo como este tempo olha para si próprio, no caso por exemplo deste Último Olhar. A escrita de Miguel Sousa Tavares é, neste sentido, transparente, com o problema de ser este um tempo que não favorece este tipo de escrita. Não porque tenha havido tempos mais pinturescos – essa é, também, uma característica literária, de tal modo que são os grandes artistas que moldam a compreensão que temos de outros tempos – mas porque é um tempo que está de todo em todo contra o tipo de escrita de Sousa Tavares. O que é próprio do nosso tempo é a consagração da marginalidade, pelo que a defesa dos marginais aparece com o ridículo de se ter tornado a causa central, pervertendo assim o seu lugar. A ideia do maldito, do contra-corrente, da vanguarda, da contradição como ideais coletivos transformam-nos numa caricatura de si próprios.

Miguel Sousa Tavares escreve como porta-voz destas ideias (com uma ou outra exceção que fazem parte da “pose Hemingway” e que contribuem para a ideia de idiossincrático ou de homem livre, que diz o que pensa), ideias essas que perdem o propósito quando são quase consensuais. O facto de as ideias progressistas se terem tornado consensuais e de a vanguarda se ter transformado no comum obrigam a que um escritor com o perfil de Miguel Sousa Tavares se torne uma estranha construção. É convencional defender o original, é estranho ser um escritor que respeita a gramática e o vocabulário do seu tempo quando a gramática e o vocabulário foram praticamente abolidos, de tal forma que o papel de Miguel Sousa Tavares enquanto escritor tem forçosamente de ser artificial. Não há problema nenhum em ser-se convencional. Castilho foi um grande emulador das convenções, como aliás toda a Arcádia. O problema é ser-se convencional num tempo que não acredita nas convenções. E é isso que faz de Miguel Sousa Tavares um escritor com um lugar só seu, mesmo que seja um lugar que poucos (do ponto de vista exclusivamente literário, claro) queiram.

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