Destituições, rescisões, intimidações e Bruno Fernandes onde todos queriam: o Sporting, um ano depois do ataque à Academia /premium

15 Maio 2019

Grupos onde ataque à Academia foi combinado queriam poupar Bruno Fernandes – e que fosse capitão. Rescindiu, voltou e um ano depois tem braçadeira. O que mudou no Sporting, da presidência às claques.

Noite dentro, de 15 para 16 de maio, todos os jogadores do Sporting foram passando pela GNR do Montijo para apresentar queixa horas depois de um ataque sem precedentes ao coração do futebol leonino, em Alcochete. Bruno Fernandes foi um deles. Estava no balneário nessa altura perto das 17 horas, ainda ouviu alguns companheiros dizerem que adeptos tinham invadido a Academia e se deslocavam para aquele espaço, lembrava-se de ter visto o secretário técnico e o segurança da equipa a tentar fechar a porta. Ao lado de William Carvalho, foi empurrado para o lado e viu o subcapitão ser agredido com chapadas – a ele, a Rui Patrício, a Battaglia e a Acuña, que identificou como principais alvos daquela ação. Recordava-se de coisas mais gerais, como o fumo intenso no interior do espaço, e de outros pormenores, como a bolsa com produtos de cosmética que acertou na cara de Ludovico Marques, fisioterapeuta da equipa. Não tendo sido agredido, temeu pela sua integridade física.

O médio contratado no início da temporada 2017/18, naquela que foi a terceira aquisição mais cara de sempre do Sporting, surgia no primeiro vídeo que chegou do interior do balneário leonino depois do ataque (antes, tinha chegado ao público a imagem de Dost ferido na cabeça, as marcas e o sangue visível, e uma lágrima a cair). “Foi um prazer estar com vocês”, dizia Bruno Fernandes no final, despedindo-se dos companheiros enquanto acabava de trocar de roupa. Houve a final da Taça de Portugal, o arranque da preparação para o Mundial pela Seleção Nacional, a chegada à Rússia. Aí, a 11 de junho, o número 8 avançou com a rescisão de contrato com justificações que mostravam bem que estava longe de esquecer o que se tinha passado.

“Ainda hoje acordo de noite, em sobressalto, com as imagens de terror que retive e que revejo e não consigo pensar em voltar àquele local (…) Acordo banhado em suor e com a sensação física, até de dor, que estou a levar chapadas (…) Tenho 23 anos, amo o que faço, sei que não o poderei fazer mais do que uma década e sei que dependo, para alcançar os meus objetivos, não só do meu desempenho individual, como de um grupo de trabalho, motivado e respeitado. Tenho, pois, o direito a exercer a minha profissão em condições semelhantes e com a dignidade que o Sporting não me proporcionou. Vim para o Sporting por causa de um projeto desportivo que já não existe, que se desmoronou por culpa exclusiva do Sporting“, argumentou na desvinculação unilateral. Um mês depois, voltou; um ano depois, tornou-se no principal símbolo da equipa.

O processo continua na fase de instrução, de novo adiada depois de mais um pedido de recusa do magistrado depois de o Tribunal da Relação ter decidido já por duas vezes manter o juiz de instrução Carlos Delca à frente do caso. Aliás, a única novidade surgiu mesmo na última semana, quando um dos arguidos em prisão preventiva passou para prisão domiciliária enquanto aguarda pelo julgamento. No entanto, muito se foi sabendo. Nesse âmbito, percebe-se que Bruno Fernandes era o único jogador que, nas conversas mantidas nos três grupos de Whatsapp que marcaram o ataque, deveria ser “poupado”. “Levam todos menos o Bruno Fernandes”, “Espero que não me venha a desiludir”, “Todos os jogos que deram merda foi ele à flash” e “Braçadeira de capitão tem de ser para o Bruno Fernandes, treinador tem de mudar, presidente tem de ter mais juízo” foram algumas das mensagens trocadas. Foi poupado mas, em paralelo, um dos mais marcados com o que aconteceu.

No início da época, Bruno Fernandes subiu à hierarquia de capitães; seis meses depois, com a saída de Nani, tornou-se número 1

Depois do Mundial, onde foi por exemplo titular com a Espanha, Bruno Fernandes estava à vontade para escolher o que quisesse para o seu futuro. Podia continuar em Portugal num grande que não o Sporting (e teve uma proposta concreta para isso), podia ter voltado ao estrangeiro onde se destacou – e não foi apenas do mercado italiano que chegaram as abordagens – mas acabou por ficar em Alvalade. Razões? Três: porque a parte da segurança foi assegurada, porque o projeto desportivo no clube continuava a ser lutar por títulos e porque se sentia bem no Sporting. “Estava bem aqui, não via por que melhorar as condições a meu pedido. Uma coisa é o Sporting chegar à minha beira e dizer que tive uma boa prestação e me quer aumentar; agora, eu fazer chantagem, não. Se fosse só pela parte financeira, não estava de regresso ao Sporting. O contrato foi melhorado pelo meu empresário mas rejeitado por mim. Quando ele me disse que estava a negociar, disse-lhe que só voltaria nas mesmas condições”, frisou.

A dois clássicos do final da temporada, Bruno Fernandes está no melhor momento da carreira. Voltando o filme atrás, e nos primeiros tempos após regressar, ainda chegou a ouvir alguns assobios por ter rescindido em junho. Com o tempo, tudo passou. Aquele que se tornou o médio com mais golos marcados numa só época na Europa (superando Balakov e Oliveira nos leões, Lampard e Alex no plano internacional) tem ainda um último desejo de “vingar” a derrota com o Desp. Aves na última final da Taça de Portugal; depois, vai sair, como a maior venda de sempre dos verde e brancos. Mas sai não a custo zero nem a mal, como podia acontecer quase há um ano, mas como capitão e símbolo do Sporting. Um ano depois, a vida de Bruno Fernandes mudou. Tal como a do Sporting. Da presidência às contratações, dos treinadores à segurança e à relação com as claques.

13 caras novas, nove rescisões, três regressos e 52,5 milhões por três jogadores

A 1 de junho, Rui Patrício e Daniel Podence apresentaram as suas cartas de rescisão unilateral com o clube. E logo nesse dia falou-se numa saída geral, até porque todos os jogadores tinham na sua posse uma espécie de minuta para avançarem para a saída com ligeiras nuances nas cerca de 30 páginas recebidas. A debandada acabou por não confirmar-se mas, a poucos dias de se cumprir um mês depois dos ataques, a razia ganhou outra expressão: William Carvalho, Bruno Fernandes e Gelson Martins avançaram com a desvinculação quando já estavam na Rússia integrados na Seleção Nacional que se preparava para o Campeonato do Mundo (dia 11); Battaglia, Bas Dost, Rúben Ribeiro e Rafael Leão fizeram o mesmo dias depois; Acuña, entre outros, acabou por deixar cair a ideia tendo em vista uma possível venda. O Sporting ficava sem alguns dos seus melhores ativos e sem compensação financeira, numa guerra que prometia ser longa nos tribunais entre as partes mas que, em vários casos, acabou por cair: William Carvalho saiu para o Betis por 16 milhões de euros mais quatro de variáveis com 25% do passe a ficar nos leões (havendo a hipótese de compra de 20% por dez milhões); Bruno Fernandes, Battaglia e Dost voltaram atrás e assinaram novos contratos; houve acordo com o Wolverhampton por Rui Patrício, com 18 milhões dos quais quatro foram para a Gestifute (que dizia ter nove em dívida); e o Atl. Madrid pagou 22,5 milhões por Gelson Martins esta semana. Assim, ficam apenas três casos pendentes que continuarão em tribunal e um total já garantido de 52,5 milhões de euros que pode crescer por objetivos.

Olhando para o plantel, que já tinha quatro contratações feitas (Raphinha, Bruno Gaspar, Marcelo e Viviano), chegaram ainda mais nove atletas para o plantel principal: Nani, Renan Ribeiro, Sturaro, Gudelj, Diaby, Idrissa Doumbia, Borja, Tiago Ilori e Luiz Phellype, dos quais dois saíram entretanto – Nani por uma questão de equilíbrio salarial do plantel (a mesma lógica da saída de Fredy Montero), Sturaro por razões físicas. Subiram ainda de forma permanente e esporádica quatro jogadores da formação verde e branca: Jovane Cabral, Miguel Luís, Thierry Correia e Pedro Marques. Para a próxima temporada, estão já garantidos o central Luís Neto (a custo zero, por acabar contrato com o Zenit) e o avançado Vietto (7,5 milhões por metade do passe, vindo do Fulham por cedência do Atl. Madrid), havendo ainda dúvidas sobre a equipa onde estará o jovem Gonzalo Plata.

Do onze que defrontou o Atl. Madrid, seis rescindiram, três voltaram, um foi vendido, dois ficaram e outros dois foram dispensados

Uma destituição, uma Comissão, um presidente e menos quatro sócios

As declarações de Jaime Marta Soares à porta da Academia na noite do ataque deixavam antever uma guerra aberta entre a Mesa da Assembleia Geral e a da Direção – aquilo que seria difícil de imaginar era o alcance da mesma, com ameaças, tribunais, “novos órgãos” e providências cautelares, entre outros episódios. Entre muitos pedidos de demissão que foram surgindo, a 23 de junho, dia da reunião magna que votou a destituição de Bruno de Carvalho e restantes membros do Conselho Diretivo, já existia uma Comissão de Fiscalização, já tinha sido “anulada” pelos tribunais uma Comissão Transitória da Mesa da Assembleia Geral e ainda uma outra Comissão de Fiscalização. O então presidente, que estava suspenso, foi destituído por 71,36% dos votos, não conseguiu anular a decisão e, mais tarde, viu o Conselho Fiscal e Disciplinar votar a favor da sua expulsão de sócio, bem como no caso do antigo vogal Alexandre Godinho – decisão que pode ainda ser anulada em Assembleia Geral, ao contrário do que se passou com Elsa Judas e Trindade Barros, membros da tal Comissão Transitória da Mesa, que perderam já os seu recursos.

Durante cerca de três meses, os destinos do clube foram liderados por uma Comissão de Gestão liderada por Artur Torres Pereira e com Sousa Cintra a liderar a SAD; nas eleições de 8 de setembro (as mais concorridas do clube com sete candidatos), apesar de ter menos votantes do que João Benedito (8.717-9.735), Frederico Varandas, ex-responsável do departamento médico, ganhou com 42,32% (contra 36,54% do maior rival) mas ainda recentemente se percebeu que está longe de apaziguar por completo o cenário “político” do conjunto verde e branco: no seguimento da fuga de informação que colocou a auditoria no domínio publico, chegaram vários pedidos a Rogério Alves e Bernardo Ayala, presidentes da Assembleia Geral de clube e SAD, para uma reunião magna extraordinária de esclarecimento não só dessa questão mas de outros atos de gestão dos últimos meses.

Assembleia Geral destituiu Bruno de Carvalho, Comissão de Gestão fez quase três meses e entrou Frederico Varandas

Quatro treinadores, um troféu, outra final e um pedido de indemnização

Depois do ataque à Academia, Jorge Jesus deu apenas mais um treino conjunto na véspera da final da Taça de Portugal, em pleno Jamor (e com garantia por parte de algumas pessoas ligadas aos jogadores de que só iria realizar-se caso Bruno de Carvalho não marcasse presença no local a essa hora…), orientou a equipa na derrota frente ao Desp. Aves por 2-1, passou pela conferência de imprensa para curtas palavras, despediu-se dos jogadores um a um quando saíam do autocarro numa unidade hoteleira em Cascais onde se concentraram na manhã do jogo e mostrou logo ali que aquele tinha sido o ponto final da relação de três anos com o Sporting. Duas semanas depois, a 5 de junho, os leões anunciaram a rescisão com o técnico que entretanto se mudou para o Al Hilal, pagando 380 mil euros nessa fase (entre prémios e o último mês de vencimento).

Enquanto ainda era presidente, Bruno de Carvalho contratou e anunciou Sinisa Mihajlovic como treinador mas a sua destituição acabou por levar à saída do sérvio sem ter orientado qualquer jogo ou treino por decisão da Comissão de Gestão – e por isso pediu uma indemnização de dez milhões de euros, ainda sem uma decisão. Sousa Cintra tentou recuperar Jesus, esteve com técnicos estrangeiros mas acabou por assinar com José Peseiro, que regressou a Alvalade quase 13 anos depois. Mais tarde, já com Frederico Varandas na liderança, a opção recaiu em Marcel Keizer, holandês que estava a comandar o Al Jazira, dos Emirados Árabes Unidos. Ou seja: entre maio de 2013 e maio de 2018, o Sporting teve quatro treinadores (Jesualdo Ferreira, Leonardo Jardim, Marco Silva e Jorge Jesus) e ganhou três troféus (duas Taças e Supertaça, além de três idas à Champions); entre maio de 2018 e maio de 2019, o Sporting teve… quatro treinadores – um sem qualquer jogo ou treino realizados –, ganhou um troféu (Taça da Liga), está na final da Taça de Portugal e voltou a falhar a entrada na Liga dos Campeões.

Mihajlovic assinou pelo Sporting com Bruno de Carvalho, viu contrato rescindido por Sousa Cintra e pediu dez milhões

A segurança não é problema, relação com claques sem solução

Na antecâmara do encontro em Londres frente ao Arsenal, quando os jogadores davam o habitual passeio à volta do hotel por mera descompressão, alguns adeptos fizeram ofensas verbais (a relativa distância) a jogadores e presidente. O desagrado, de atletas e dos próprios responsáveis, foi notório – assim como a incompreensão, porque a equipa podia ainda lutar pelo primeiro lugar do grupo da Liga Europa frente aos gunners. A polícia inglesa foi chamada de pronta, as imagens das câmaras nas ruas circundantes foram observadas pelas autoridades mas apenas o gesto em si mostrou que nem tudo “normalizou” em Alvalade, algo repetido nas alturas com resultados menos conseguidos no futebol. A segurança na Academia, segundo explicaram ao Observador, é agora um “não assunto”: foram revistas as medidas, adotados outros procedimentos internos, tudo voltou à normalidade e nem nas sondagens dos jogadores a questão da invasão em Alcochete surgiu como possível entrave, como chegou a acontecer no mercado de verão dois meses depois do sucedido. Ao invés, continuam a existir relações tensas com as claques.

No passado domingo, no seguimento de uma histórica conquista do hóquei em patins do Sporting que voltou a ser campeão da Liga Europeia mais de quatro décadas depois, Frederico Varandas voltou a ser assobiado pelo setor onde estavam concentradas as claques verde e branca na antecâmara do levantar do troféu. Nos primeiros meses da época e do seu mandato, o número 1 leonino teve uma reunião com as claques onde comunicou o final de algumas regalias que transitaram do anterior elenco, como as idas nos voos charters da equipa, o prazo de 72 horas para pagamento de bilhetes e o fim dos preços reduzidos. Em paralelo, deixou um alerta: depois do ataque à Academia, era um ano de tolerância zero. No entanto, e no final de fevereiro, entre os dados iniciais da auditoria onde referiu que as claques recebiam 50% do valor das quotas dos seus sócios inscritos e que a dívida tinha subido de 115 mil euros para 746 mil euros desde 2013 (sendo quase na totalidade da Juventude Leonina), o próprio líder verde e branco assumiu que alguns comportamentos não tinham mudado. “É legítimo criticarem a exibição da equipa? É. Mas também é legítimo eu criticar a claque. Não gostei da atitude nos dois últimos jogos em casa. Querem um grupo com maior talento da formação? Nós também. Mas sabem a principal razão de não termos um grupo assim? Eu lembro: 15 de maio de 2018. Hoje, quando o clube se está a reerguer, voltámos a receber ameaças intimidatórias. Vejo exigências, elementos de claques a protestarem com sócios anónimos”, assumiu no auditório Artur Agostinho.

Juventude Leonina não marcou presença em Alvalade no Sporting-Desp. Chaves, no dia em que o seu líder Nuno Mendes (Musta) foi detido

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