“Vocês são uns convencidos que não respeitam nada nem ninguém”. Excerto de uma mensagem enviada por Bruno de Carvalho aos capitães do Sporting, a 19 de Março, irritado por os jogadores não terem respeitado uma ação de solidariedade que teria sido acordada.

É um dos muitos episódios relatados nas 34 páginas da rescisão de Rui Patrício, que pode ler clicando no link:

rui-patricio

Na carta de Podence, quase em tudo idêntica à de Patrício, à exceção dos nomes, só muda mesmo alguma coisa na descrição dos relatos da violência da Academia.

“De seguida, o agressor veio na minha direção, a mesma onde estava o André Pinto e o Ruben Ribeiro sentados, que me empurrou e seguiu para o Acuña (…) à medida que o tempo passava chegavam mais. Mas olhavam para mim e pareciam que viam quem era e não faziam nada mais”

Pode ler a carta de Podence na íntegra clicando no link:

CARTA_PODENCE

Leia a carta de rescisão do guarda-redes do Sporting na íntegra (que é, como se já se escreveu, praticamente igual à de Podence):

Ao

Conselho de Administração da

SPORTING CLUBE DE PORTUGAL – FUTEBOL, SAD

Estádio José Alvalade

Rua Prof. Fernando da Fonseca

Apartado 42099

1601-801 Lisboa

Lisboa, 31 de Maio de 2018

Assunto: Rescisão com justa causa do contrato de trabalho desportivo.

Exmos. Senhores,

Considero que uma sucessão de factos imputáveis à Sporting Clube de Portugal, Futebol SAD são violadores das obrigações legais e contratuais que impendem sobre esta SAD, na qualidade de minha entidade empregadora, sendo os mesmos atentatórios da minha dignidade profissional e pessoal, tendo, além disso, colocado em causa a minha segurança e integridade física, fazendo-me temer pela vida e, sobretudo, inviabilizado as condições mínimas para exercer a minha atividade de jogador profissional de futebol ao serviço da Sporting Clube de Portugal, Futebol SAD.

A) ENQUADRAMENTO LEGAL:

Importa, desde já, reter o seguinte quadro legal e convencional, no que ao caso interessa:

  1. Nos termos da Lei n.° 54/2017 de 14 de julho, que disciplina o regime jurídico do contrato de trabalho desportivo (RJCTD), constituem, nos termos do disposto no artigo 11.°, deveres da entidade empregadora desportiva:

“Para além dos previstos em instrumento de regulamentação coletiva, são deveres da entidade empregadora desportiva, em especial:

b) Proporcionar aos praticantes desportivos as condições necessárias à participação desportiva, bem como a participação efetiva nos treinos e outras atividades preparatórias ou instrumentais da competição desportiva;

f) Promover o respeito pelas regras da ética desportiva no desenvolvimento da atividade desportiva. ”

Acresce que, no artigo 12.° do mesmo diploma legal, a propósito da defesa dos direitos de personalidade, se estatui o seguinte:

“1 – A entidade empregadora deve respeitar os direitos de personalidade do praticante desportivo, sem prejuízo das limitações justificadas pela especificidade da atividade desportiva.

2 – É proibido o assédio no âmbito da relação laboral desportiva, nos termos previstos na lei geral do trabalho. ”

2. Por outro lado, o CCT entre a Liga Portuguesa de Futebol Profissional e o Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol. (re)publicado no BTE n.º 8. 1.ª Série, de 28.02.2017, estatui, no seu artigo 12.°, como deveres dos clubes e sociedades desportivas:

“a) Tratar e respeitar o jogador como seu colaborador;

c) Proporcionar-lhe boas condições de trabalho, assegurando os meios técnicos e Humanos necessários ao bom desempenho das suas funções;

f) Cumprir todas as demais obrigações decorrentes do contrato de trabalho desportivo e das normas que o regem, bem como das regras de disciplina e ética desportiva. ”

Por seu turno, o Código do Trabalho, no seu artigo 29.°, proíbe o assédio, definindo o mesmo nos seguintes termos:

“1 – Entende-se por assédio o comportamento indesejado, nomeadamente o baseado em factor de discriminação, praticado aquando do acesso ao emprego ou no próprio emprego, trabalho ou formação profissional, com o objetivo ou o efeito de perturbar ou constranger a pessoa, afetar a sua dignidade, ou de lhe criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador. ”

Além disso, consagram-se no artigo 126.° os seguintes deveres gerais das partes:

“1 – O empregador e o trabalhador devem proceder de boa fé no exercício dos seus direitos e no cumprimento das respetivas obrigações.

2 – Na execução do contrato de trabalho, as partes devem colaborar na obtenção da maior produtividade, bem como na promoção humana, profissional e social do trabalhador. ”

Constituindo, nos termos do disposto no artigo artigo 127.° do mesmo diploma legal, deveres do empregador, nomeadamente:

a) Respeitar e tratar o trabalhador com urbanidade e probidade;

c) Proporcionar boas condições de trabalho, do ponto de vista físico e moral;

d) Contribuir para a elevação da produtividade e empregabilidade do trabalhador, nomeadamente proporcionando-lhe formação profissional adequada a desenvolver a sua qualificação;

g) Prevenir riscos e doenças profissionais, tendo em conta a proteção da segurança e saúde do trabalhador, devendo indemnizá-lo dos prejuízos resultantes de acidentes de trabalho.”

Em consequência, nos termos do disposto no n.° 3 do artigo 23.° do RJCTD constitui justa causa da resolução do contrato de trabalho desportivo pelo praticante o incumprimento contratual grave e culposo.

E, nos termos do estatuído no artigo 394.° do Código do Trabalho, constituem justa causa de resolução do contrato pelo trabalhador, nomeadamente, os seguintes comportamentos do empregador:

“b) Violação culposa de garantias legais ou convencionais do trabalhador;

c) Aplicação de sanção abusiva;

d) Falta culposa de condições de segurança e saúde no trabalho;

e) Lesão culposa de interesses patrimoniais sérios do trabalhador;

f) Ofensa à integridade física ou moral, liberdade, honra ou dignidade do trabalhador, punível por lei, praticada pelo empregador ou seu representante. ”

Ora, feito o enquadramento legal, importa atentar nos factos que imputo à Sporting Clube de Portugal, Futebol SAD, para se verificar que, de forma grave, culposa e reiterada foram violados os meus direitos e posta em causa a minha dignidade, pessoal e profissional, quer de forma direta quer indireta, através do condicionamento do grupo de trabalho, tornando-se inexigível a manutenção do vínculo contratual.

Se não vejamos,

B) OS FACTOS:

1. A partir de Janeiro do corrente ano o Presidente da Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD começou a colocar uma pressão inaceitável em todos os jogadores e na equipa, insinuando que os maus resultados seriam responsabilidade de falta de profissionalismo dos jogadores.

Assim, e por exemplo, na sequência do empate da equipa com a equipa do Vitória de Setúbal enviou-me, na qualidade de Capitão de Equipa, a seguinte mensagem:

Esta atitude de crítica e ataque permanente, por isto ou por aquilo, foi-se sucedendo, como se pode comprovar, também pela mensagem enviada aos capitães de equipa no dia 19 de Março na sequência do jogo no dia anterior com o Rio Ave que a equipa ganhara por 2-0, com o seguinte teor:

Tudo isto, apenas e só porque tinha sido decidido que os jogadores fariam um coração com as mãos aquando da fotografia de grupo antes do jogo, o que não aconteceu por uma mera distração.

No entanto, o Presidente da SCP — Futebol SAD nem sequer inquiriu os jogadores sobre o sucedido, preferindo agredi-los e até, mais tarde, mover-lhes um processo disciplinar por causa do sucedido.

Repare-se que este era o ambiente numa altura em que o Sporting Clube de Portugal tinha vencido a Taça da Liga, e se encontrava a disputar a vitória na Liga NOS, na Taça de Portugal e na Liga Europa.

Ou seja, quando se esperava todo o apoio e incentivo dos responsáveis da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD aos jogadores, o Presidente invetivava os jogadores, tanto nas derrotas como nas vitórias!!!

Entretanto, no dia 5 de Abril a equipa disputou o jogo da primeira mão dos quartos de final com o Atlético de Madrid (em Madrid), jogo que terminou com o resultado negativo de 2-0.

Não obstante a importância do jogo e o seu significado para o clube, o Presidente não acompanhou a equipa.

E, surpreendentemente (ou talvez não), nessa mesma noite, pouco tempo depois do jogo acabar, o Presidente da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD entendeu publicar um post na sua página de Facebook atacando o profissionalismo dos jogadores em geral e de alguns em particular, com o seguinte teor:

“LIGA EUROPA: QUE FUTURO? TEMOS DE ENCHER ALVALADE!!!

O que queria ter visto:

Uma equipa concentrada, com atitude e compromisso, defensivamente impreensível e com faro de golo. De 11 superarem-se e tornarem-se 22.

O que vi:

Uma equipa com atitude mas com uma defesa que não esteve concentrada. Coates e Mathieu a fazerem o que os avançados do Atlético não conseguiam. E o 2-0 a surgir sem nada terem feito para isso, a não ser (e não é pouco) marcarem.

Gelson, aos 32 minutos, isolado frente a Oblak, em vez de “fuzilar” para a esquerda, tenta colocar em jeito, mas sem força, para o lado direito perdendo um golo que já quase se gritava.

De 11, em vez de 22 como queria, fomos 9, muitas vezes, e isso paga-se caro…

Fábio e Bas Dost “não quiseram jogar” em Alvalade, com faltas para amarelo que nunca poderiam ter feito.

Diego Costa a ser “intocável”, sendo que “pediu” amarelo várias vezes mas não conseguiu, apesar de o merecer pelo esforço constante.

Um livre não assinalado encostado à grande área por falta devido a corte com a mão do jogador do Atlético aos 83 minutos. As mãos e a cara continuam a confundir os russos.

Uma falta aos 87 minutos pelas costas que devia ter dado cartão amarelo ao jogador do Atlético, sendo que isso evidenciou critérios disciplinares diferentes.

Coates fica isolado e, sem foco e não estando concentrado, em vez de rematar faz um passe para Oblak.

E, para terminar, Montero, aos 92 minutos, desperdiçou um golo feito com um remate para o céu quando só se pedia um simples encosto.

OAtlético não dominou mas venceu por 2-0.

O Sporting CP demonstrou que tem equipa para fazer mais, mas não o fez.

Agora, em vez de podemos resolver mais fácil em Alvalade, resta-nos sonhar com a reviravolta. E possível? É! Era necessário este resultado de hoje? Não!

Viver um jogo de longe custa muito mais, mas ver erros grosseiros de jogadores internacionais e experientes ainda acrescenta mais ao sofrimento.

Obrigado aos cerca de 4.000 Sportinguistas que se deslocaram a Madrid! Vocês são únicos!”

Ou seja, quando se esperava que todos os dirigentes da Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD incentivassem a equipa e lhe dessem força e ânimo para na segunda volta, em casa, poder levar de vencida o Atlético de Madrid, o que o Presidente entendeu fazer foi mais um ataque à equipa, transmitindo para os adeptos e simpatizantes a imagem de uma equipa desconcentrada e pouco profissional.

Estupefactos, e profundamente magoados com esta atitude que, como acima se descreveu, se somava a tantas outras, os jogadores solicitaram de imediato uma reunião com o Presidente, a realizar logo que chegassem a Portugal.

Com efeito, o plantel, no pós-jogo, tendo tornado conhecimento do citado post reuniu no quarto de hotel e pediu ao Team Manager, André Geraldes, uma reunião com o Presidente mal aterrassem em Lisboa no dia seguinte.

Nessa altura, obtiveram de André Geraldes a resposta de que iria falar com o Presidente e que informaria o grupo de trabalho da decisão daquele.

Quando aterraram em Portugal, no dia 6 de Abril, André Geraldes informou a equipa que o Presidente não podia reunir com os jogadores naquele dia e que tinha informado que a reunião se realizaria depois do jogo de domingo (dia 8 de abril, com o Paços de Ferreira).

Os jogadores ficaram incrédulos e fizeram ver a André Geraldes que consideravam a situação muito grave, porque entendiam que o Presidente tinha, publicamente, humilhado a equipa, entendendo que não estavam verificadas condições para que a equipa pudesse desempenhar a sua missão em condições minimamente aceitáveis.

No entanto, não houve qualquer intenção do Presidente em alterar a sua posição e recusou-se a reunir com os jogadores.

Assim, os jogadores, dirigiram-se diretamente a Alvalade e, nesse mesmo dia, 6 de abril, no estádio, tiveram uma reunião para definir o que iriam fazer. Dadas as circunstâncias, entenderam que não podiam deixar de reagir publicamente para defender o grupo, pela falta de apoio do Presidente, especialmente nos momentos maus da época, uma vez que se sentiam traídos.

Decidiram, então, que fariam um comunicado e que, à semelhança do Presidente, o divulgariam através das suas redes sociais.

No entanto, ainda antes dessa divulgação, por volta das 16 horas do dia 06/04, os capitães William Carvalho e eu próprio, receberam uma mensagem do presidente com o seguinte teor:

Os jogadores começaram a divulgar o seu comunicado, no dia 6 de Abril, por volta 17h30, o qual tinha o seguinte teor:

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Somos Sporting Clube de Portugal, em nome do plantel, somos a informar o seguinte… Suamos, lutamos e honramos sempre a camisola que vestimos. Não somos perfeitos e não acreditamos em jogadores perfeitos, porque queremos sempre evoluir! Não existem jogadores nem equipas perfeitas, mas quando as coisas não correm como queremos, sabemos assumir as nossas responsabilidades. Todos nós temos de o fazer! Quando vencemos, empatamos ou perdemos… sim… porque no Futebol estes são os resultados possíveis, a responsabilidade é sempre de todos! Somos uma equipa! Somos um grupo unido de um Grande Clube onde o respeito é uma das bases necessárias a essa união. Não podemos pensar apenas no “Eu”, mas sim “Nós” e sempre na equipa, porque só assim poderemos vencer. No nosso Clube, nas seleções nacionais que representamos, sempre damos e continuaremos a dar o nosso melhor, porque o querer é uma constante. Somos profissionais, somos humanos! A nossa integridade e o nosso compromisso são sagrados! Esforço, dedicação, devoção e glória sempre! Damos o máximo pelo Sporting Clube de Portugal, damos o máximo por nós próprios enquanto equipa, individualmente enquanto atletas. Lutamos pelo nosso Clube, pelos nossos adeptos e por nós, sempre! Não há outra forma séria de estar no Futebol Profissional que não seja esta… Por esta razão, em nome de todo o plantel do SCP, espelhamos neste texto o nosso desagrado, por vir a publico as declarações do nosso Presidente, após o jogo de ontem, no qual obtivemos um resultado que não queríamos… a ausência de apoio, neste momento…, daquele que deveria ser o nosso líder. Apontar o dedo para culpabilizar o desempenho dos atletas publicamente, quando a união de um grupo se rege pelo esforço conjunto, seja qual for a situação que estejamos a passar, todos os assuntos resolvem-se dentro do grupo. Saibamos ver que, por maiores que sejam as dificuldades, ainda há muito para disputar. Temos uma recta final em várias competições e vamos, haja o que houver, unidos e coesos, dar o máximo pelo Sporting Clube de Portugal. Somos Sporting Clube de Portugal.

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Ou seja, os jogadores limitaram-se a manifestar a sua dedicação ao clube, o seu empenho em obter as vitórias desejadas, a pedir apoio a equipa, e a manifestar o seu desagrado pelas críticas públicas daquele que devia ser o líder e o maior empenhado na agregação do grupo.

Como se pode constatar, tratou-se do mais elementar exercício da liberdade de expressão, feita com toda a correção e sem qualquer tipo de ofensa, fosse a quem fosse.

Todavia, a resposta que veio do Presidente não podia ser mais ofensiva da dignidade dos jogadores, completamente destituída de sentido e inaceitável.

Com efeito, imediatamente a seguir à divulgação do comunicado dos jogadores, o Presidente da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD divulgou na sua página de Facebook, uma mensagem com o seguinte teor:

Ou seja, para além dos insultos aos jogadores, é anunciada uma medida disciplinar, comunicada aos jogadores através de uma rede social!!!

Aliás, tendo, porventura, percebido a gravidade da ilegalidade da comunicação de uma medida disciplinar por semelhante via, o Presidente da Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD acabou por retirar da sua página de Facebook a referida mensagem.

Sem embargo, nesse mesmo dia, por volta das 23 horas, os jogadores receberam, por e-mail, uma nota de culpa de abertura de procedimento disciplinar, em que, no essencial, são imputadas aos jogadores as seguintes infrações:

– Não terem feito o gesto de coração com as mãos na fotografia de grupo no jogo do dia 18 de Março;

– Terem feito um post no Facebook (o comunicado acima referido) que foi considerado uma: “clara afronta e desrespeito dirigidos à mais alta figura da Sporting SAD, o seu Presidente, que foi publicamente criticado (…)”

Acresce que, com a nota de culpa os jogadores foram, também, suspensos da sua atividade.

Ou seja, como resposta a uma mensagem em que os jogadores, a par da manifestação de entrega ao clube, se limitaram a expressar “desagrado, por vir a público as declarações do nosso Presidente, após o jogo de ontem, no qual obtivemos um resultado que não queríamos… a ausência de apoio, neste momento…, daquele que deveria ser o nosso líder. Apontar o dedo para culpabilizar o desempenho dos atletas publicamente, quando a união de um grupo se rege pelo esforço conjunto, seja qual for a situação que estejamos a passar, todos os assuntos resolvem-se dentro do grupo”, os jogadores foram brindados com um processo disciplinar, com suspensão da atividade, numa atitude que não pode deixar de se entender como uma pura manifestação de prepotência e de absoluto desprezo pelos direitos e dignidade dos jogadores.

Claro está, que alguém terá percebido que a suspensão dos jogadores seria um desastre para a Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD, pelo que no dia seguinte, 7 de Abril, véspera do jogo com o Paços de Ferreira, os jogadores foram notificados do levantamento da suspensão que, assim, durou apenas algumas horas!!!

Acresce que, durante a manhã, alguns jogadores foram contactados por elementos da Direção a pedir para retirarem o post, e o Presidente da Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD ligou a alguns jogadores, a questionar porque meteram o post e a pressionar para que o removessem imediatamente.

Entretanto, para esse dia, à tarde, foi marcada uma reunião no estádio, na qual esteve o plantel, o treinador, o Team Manager André Geraldes e o Presidente da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD, que estava visivelmente exaltado com “ar de ditador”, alucinado e visivelmente tresloucado, tendo-me acusado e ao William de sermos os organizadores do protesto, por querermos sair do clube há muito tempo.

Aliás, a postura física do Presidente, principalmente em relação a mim foi sempre de enorme agressividade reiterando, várias vezes, que eu e o William Carvalho é que organizávamos a revolta dos outros, para podermos sair do clube.

Inúmeras vezes, dirigindo-se a mim aos berros afirmou: “Pensas que estás a falar com quem?”

E sempre que eu tentava referir que o que se devia discutir era o ataque do Presidente ao grupo de trabalho, este reafirmava que os seus posts não tinham nada de mal.

Chegando mesmo a afirmar: “Vocês são uns meninos mimados, eu sou o Presidente, eu faço o que quiser e escrevo o que quiser, onde quiser”!

E, depois de uma troca de palavras com William de Carvalho, em que discutiram o facto de o Presidente estar a incentivar reações agressivas contra os jogadores, este afirmou que se lhe quisesse bater não precisava de chamar ninguém!

Ou seja, toda a reunião decorreu num ambiente ameaçador!

Entretanto, com a saída do Presidente da reunião, o treinador ficou sozinho com a equipa e tomou a decisão de que até à notificação formal da nota de culpa, iam cumprir o seu papel, por isso iam à Academia treinar e preparar o jogo e só saíam se a polícia os tirasse do campo.

Muitos jogadores neste momento já não queriam jogar, nem treinar, sentiam-se ameaçados, desprotegidos, a temer piores consequências… mas, ainda assim, o grupo seguiu todo para a Academia de Alcochete.

Depois do treino, os jogadores receberam uma mensagem do Secretário Técnico, Vasco Fernandes, convocando-os para irem ao auditório, às 19h45.

Chegaram ao auditório, e encontraram o Presidente mais calmo. No entanto, enquanto que o plantel esperava um pedido de desculpas do Presidente pela forma como tinha decorrido a reunião anterior e em especial pelos posts que o Presidente tinha feito, este apenas queria saber porque é que os jogadores tinham colocado o post deles. E quando o William Carvalho tentou, em nome do grupo, transmitir ao Presidente que não podia publicamente colocar em causa o profissionalismo da equipa e que era por esse motivo que os jogadores estavam magoados, este recusou-se a aceitar que os jogadores tivessem qualquer razão.

E mesmo quando o treinador, Jorge Jesus, lhe disse: “Você disse que vinha aqui para pedir desculpas…”, o Presidente o que respondeu foi que: “pedir desculpas, eu não fiz nada de mal…” vitimizando-se, dizendo que “no final da época eu vou-me embora, vou para junto da minha família, nada mais importa, está aqui o REI — referindo-se a Jorge Jesus – e eu vou-me embora, para junto da minha família que é o mais importante, que gosta de mim…”

E antes de se ir embora terminou dizendo: “Vou tirar a suspensão, o mister pode convocar quem quiser, é o Rei do Clube, mas os processos vão continuar!”

Ou seja, em todos estes episódios se manteve a humilhação e o desrespeito pela dignidade profissional e pessoal dos jogadores, a par de uma conduta de condicionamento da sua atuação e da sua liberdade, através da manutenção de procedimentos disciplinares sem qualquer fundamento.

Surpreendentemente, no dia seguinte, 8 de Abril, quando o plantel estava já no autocarro para se dirigir para Alvalade para o Jogo com o Paços de Ferreira, o Presidente da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD colocou um novo post, que consiste em mais um ataque público aos jogadores, relatando publicamente o alegado conteúdo das reuniões que tivera com os jogadores na véspera, tentando provocar divisões no grupo de trabalho, desestabilizando-o, e gerando um ambiente totalmente adverso para a disputa do jogo que iria ocorrer dali a pouco tempo, numa atitude de total irresponsabilidade e desrespeito pela atividade profissional dos jogadores.

Trata-se de um ataque violento no seu conteúdo, que põem em causa a honorabilidade e profissionalismo dos jogadores, mas também na sua oportunidade, a poucos minutos de ser disputado, em Alvalade, um jogo de enorme importância, numa altura em que a equipa disputava, ainda, a possibilidade de vitória na Liga NOS, na Taça de Portugal e na Liga Europa!!!

Para que não fiquem dúvidas, e para que não se diga que desta carta não constam os factos concretos que motivam a rescisão com justa causa, transcreve-se, apesar da sua extensão e do conteúdo lamentável, a referida mensagem, intitulada “Comunicado”, do Presidente da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD, “que age como quer e onde quer(!)”:

É, de facto, impressionante, mas, sobretudo, muito elucidativo do relacionamento e respeito com que o Presidente da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD passou a tratar, a partir de certa altura, os jogadores da equipa principal de futebol, sem exceção!

Terminado o jogo, com a vitória do Sporting Clube de Portugal, e mantendo-se as aspirações de vitória em variadas frentes, o Presidente da Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD não hesitou, no entanto, em reiterar, em conferência de imprensa, tudo quanto tinha dito no comunicado transmitido através da sua página do Facebook, mantendo, portanto, viva a dissensão com os jogadores e o clima de acicatamento dos adeptos contra a equipa.

Aliás, nessa conferência, o Presidente da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD disparou em todas as direções, criando um clima intolerável para o funcionamento da equipa.

Fica aqui um resumo, saído na comunicação social, dessa conferência, no fim de um jogo que a equipa tinha ganho e numa altura em que se encontrava a disputar as três competições em aberto, tendo, aliás, ganho a única que já tinha terminado:

OS ASSOBIOS

“Já estou vacinado para assobios desde o Marco Silva, faz parte. Agora, quando me adjetivam… Se querem a demissão, há um lugar próprio para estas coisas. Chamarem-me nomes? Vão chamar nomes à família deles, porque não andei com eles na escola, não comi do mesmo prato. Quando atingimos os limites que atingimos hoje… Em primeiro lugar, interessa-me a minha relação com a minha mulher: vamos ser pais amanhã. O resto, se viram as costas, se não viram as costas… Agora, dentro do Sporting ninguém me falta ao respeito. 0 que me fez vir aqui, repito: os adeptos têm o direito a assobiar, a ingratidão faz parte da cultura do Sporting. As pessoas de certeza não leram o último post, porque foram para as roulotes antes… Deviam ler para perceber realmente o que se passa no clube. Já estou habituado a que as bancadas centrais tenham esta atitude. O que podem ter a certeza é que eu só representarei o Sporting.”

A DEMISSÃO

”A sua pergunta e tão despropositada que eu pergunto: você tem condições para continuar a ser jornalista da RTP? Eu digo-lhe que não. Nunca representarei mais ninguém na vida a não ser o Sporting, agora retirem as vossas conclusões”.

O POST

“Nós somos isto, isto é o Sporting. 0 post não diz nada de mal. Não vou passar novamente aquilo que passei durante um ano. Agora, enquanto achar, como presidente, que as pessoas devem estar informadas, eu continuarei a informar. O post não tem interesse nenhum, não tem relevância. Só teve relevância porque alguém se lembrou na conferência de imprensa de Madrid de fazer a pergunta. Fico muito mais chateado e indignado com o que li no AS do que com o que eu escrevi. Os processes existem. Sou presidente e não abdicarei de ser presidente. Não há suspensão, apenas processo disciplinar. Não vou dizer que é a, b, c ou d.”

E BDC FALTOU AO RESPEITO?

“Você confundir meninos mimados com Abraão [ironia, os adeptos chamaram c….. a Bruno de Carvalho]. Gostava que me provassem se eu disse alguma mentira. Eu durmo de consciência tranquila. Tenho estado a combater várias doenças, tenho estado ao lado da minha mulher. Têm sido tempos muito complicados e tenho pena que um fim de semana destes tenha ficado completamente estragado de forma despropositada e numa tentativa conseguida de porem os sportinguistas contra mim”.

NOVA REUNIÃO?

“Os jogadores têm de ser pagos para fazer o que fazem, tal como eu sou pago para gerir o clube. O assunto, para mim, morreu. Eu não vim aqui para falar dos jogadores, apenas para dizer que não aceito insultos”.

BDC TEM CULPAS?

“A única coisa que eu quero dizer é isto: enquanto for presidente do Sporting, o único culpado serei eu. Pelo menos, não sou hipócrita. Nunca direi bem à frente e mal nas costas”.

A seguir a este “episódio”, o Presidente da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD deixou de fazer comentários na sua página de Facebook, sucedendo-se, no entanto, as entrevistas a denegrir o plantel, criticar… e manipular a opinião pública.

Este é o sentimento comum aos jogadores.

A verdade é que, desde então, nunca mais houve qualquer diálogo entre os jogadores e o Presidente da Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD.

Entretanto, no dia 12 de Abril, os jogadores foram notificados do encerramento do procedimento disciplinar quanto aos factos respeitantes ao comunicado que tinham divulgado nas suas redes sociais, mantendo-se, no entanto, aberto o procedimento disciplinar no que respeita aos factos relacionados com a questão de não terem feito o gesto do coração aquando da fotografia de grupo no dia 18 de Marco (!!).

Facto bem revelador, por um lado, da noção de que a matéria não tinha qualquer relevância disciplinar e de que este instrumento servirá apenas, e só, para tentar “domesticar” os jogadores e, por outro, da vontade de manter o condicionamento dos jogadores através da manutenção de um procedimento disciplinar sem qualquer fundamento. Procedimento disciplinar este que, aliás, nunca foi encerrado!!!

Seguiram-se os jogos com o Atlético de Madrid (12 de Abril – vitória 1-0), com o Futebol Clube do Porto (18 de Abril – Taça de Portugal vitória 1-0), com o Boavista (22 de Abril – vitória 1-0) e com o Portimonense (28 de Abril – vitória 2-1).

O ambiente foi sempre mau, mas sem a agressividade anterior.

Entretanto, no dia 5 de Maio a equipa disputou o jogo com o Benfica, estando ainda na corrida para o 2.° lugar, o qual daria acesso à Champions.

Na altura do jogo, como foi publicamente relatado, o Presidente da Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD foi falar com membros da claque Juve Leo.

Acontece que, nesse jogo, em Alvalade, foram atiradas tochas provenientes da bancada onde se encontrava a Juve Leo para a baliza do guarda redes da equipa, eu próprio, que, por pouco, não me atingiram.

Aqui chegados, e já com o Futebol Clube do Porto como vencedor da Liga NOS, o Sporting Clube de Portugal dependia apenas de si para alcançar o 2.° lugar na Liga NOS e, assim, ter acesso à Champions, bastando-lhe, para tanto, ganhar o jogo ao Marítimo da Madeira a disputar no Estádio dos Barreiros no dia 13 de Maio.

Era um jogo de grande tensão, contra uma equipa difícil e no terreno desta, para mais, disputado pelo Sporting Clube de Portugal numa situação de grande conflitualidade interna.

Esperava-se, ou era mesmo exigido, que todos contribuíssem para incentivar a equipa e conferir-lhe a maior confiança e tranquilidade possível.

No entanto, o Presidente da Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD entendeu por bem dar uma entrevista ao jornal Expresso, publicada no dia 12 de Maio, na qual, não só não profere uma única palavra de incentivo aos jogadores do Sporting Clube de Portugal, como entendeu, mais uma vez, utilizar expressões desabonatórias dos jogadores, como, por exemplo:

“Há uma superproteção dos jogadores e eles com muita facilidade vão para um patamar de total incoerência.”

“Eu não procuro o amor dos jogadores, porque o meu dever é defender por um lado, os interesses do clube e, por outro, as emoções dos futebolistas, que querem melhores contratos, mais dinheiro, sair para o estrangeiro, etc.”

Quando inquirido sobre o facto de ter reagido ao post dos jogadores com processos disciplinares e suspensões, respondeu: “Ação-reação. 0 sentimento de traição e de deslealdade é o pior (…)”.

De seguida criticou o treinador, para depois acrescentar, a propósito de o treinador ter dito que o que importa num clube são os jogadores: “Acho que o Jorge teve uma boa tirada contabilística, porque os ativos mais fortes são os futebolistas. Mas o maior património do Sporting Clube de Portugal são os sócios e os adeptos, ponto.”

Ou seja, na véspera de um jogo importantíssimo para os interesses, desportivos, económicos e financeiros do clube, o seu presidente não só não tem uma palavra de incentivo para os seus jogadores, como desvaloriza o seu papel e revela publicamente o seu entendimento de que os jogadores apenas pensam em melhores contratos, no dinheiro, etc… não na camisola que vestem, não cumprindo, abnegada e profissionalmente, as suas responsabilidades.

O Presidente da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD não podia deixar de ter a consciência de que as suas palavras não só eram altamente perniciosas para a equipa, comprometendo o seu estado anímico e a sua concentração, como despertavam, necessariamente, a ira dos adeptos mais primários e acalorados, sobretudo se o resultado não fosse o de vitória.

Depois, foi o que se sabe. A equipa jogou nervosa e acabou por perder o jogo.

E o que se seguiu foi o previsível resultado das palavras e atitude do Presidente da Sporting clube de Portugal — Futebol SAD nos últimos meses: insultos e demonstrações de agressividade contra os jogadores por parte das claques e dos adeptos.

Assim, no final do jogo com o Marítimo, a claque colocou um cartaz que dizia “Aqui, aqui, aqui há atitude!” lançando o mote contra os jogadores e em estrita consonância com o pensamento expresso publicamente pelo Presidente da Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD.

Seguiu-se, logo na Madeira, à chegada ao aeroporto, a reação de alguns adeptos (Fernando Mendes – ex-chefe da claque da Juve Leo e de mais dois) que vieram perguntar pelo jogador Marcus Acuña, nestes termos: “onde está esse filho da puta? Queremos falar com ele…”.

Nessa altura o jogador Rodrigo Battaglia pediu calma, alegando que o jogo já acabara, e ao inquirir porque é que a claque tinha colocado aquelas mensagens no final do jogo e não mensagens de apoio desde o início… gerou-se uma troca de argumentos, com os membros da claque a dizerem que faziam o que queriam! Que os jogadores tinham era de jogar!

Foi um momento de grande tensão e de provocação. Eu e o William, como capitães, tentamos acalmar a situação, mas houve mesmo quem afirmasse: “na próxima semana fazemo-vos uma visita”.

 Tudo isto foi presenciado por dirigentes da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD.

E não foi presenciado pelo Presidente da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD, porque este entendeu que não se justificava a sua presença na Madeira para apoiar a equipa!!!

Acresce que, já em Lisboa, após a viagem da Madeira, os jogadores tinham adeptos à espera no aeroporto, que gritavam palavras de apoio a Bruno de Carvalho (o Bruno é que é, o Bruno é o maior…!). Seguiu-se, já na garagem do estádio reservada aos jogadores, a perseguição de adeptos e vários insultos, especialmente dirigidos aos capitães, e aos jogadores Battaglia e Acuña com quem se tinham pegado no aeroporto na Madeira.

Não deixa, aliás, de ser curiosa a entrada de adeptos na garagem dos jogadores, uma vez que se trata de um espaço fechado ao público e protegido!

Certo é que, nunca, em momento algum, a Direção do Sporting Clube de Portugal condenou a atuação das claques e adeptos, quer publicamente, quer em privado, junto dos jogadores, que foram vítimas desses atos.

Vivia-se, pois, nesta altura, um ambiente de grande crispação em relação à equipa, com incidentes graves de agressividade ocorridos em Alvalade (petardos atirados para a baliza onde me encontrava), na Madeira (insultos aos jogadores e ameaças de visita à equipa na semana seguinte por elementos da claque Juve Leo) e em Lisboa (insultos no aeroporto e no estacionamento privado dos jogadores).

Entretanto, na chegada a Lisboa foi marcada uma reunião para segunda-feira, 14 de maio, às 18h00.

Antes da reunião com os jogadores o Presidente da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD reuniu com a equipa técnica e informou-os que o Sporting não contaria mais com eles.

Ou seja, a 6 dias de o Sporting Clube de Portugal disputar a final da Taça de Portugal, o Presidente da Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD entendeu que a melhor maneira de dar estabilidade ao grupo de trabalho para poder disputar esse jogo, de enorme importância para o Sporting Clube de Portugal, até porque a vitória nesse troféu seria a única maneira de garantir o acesso direto à fase de Grupos da Liga Europa, foi despedir a equipa técnica!

Pelas 18 horas, realizou-se, então, a reunião do plantel com o Presidente da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD, que se encontrava acompanhado por 3 membros da Direção e pelo Team Manager, André Geraldes, tendo comparecido, igualmente, todos os jogadores.

O Presidente da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD não informou os jogadores da conversa que tinha tido com a equipa técnica e teve com os jogadores uma conversa, toda ela, de teor estranho.

O Presidente da Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD começou por perguntar se estavam todos bem, acrescentando: “Aconteça o que acontecer estão preparados para jogar no fim de semana?” (final da taça)

Depois, virou-se para o jogador Acuña e disse-lhe: “Acuña, porque fizeste aquilo ao chefe da claque? Logo a ele, tenho um problema tremendo, estiveram a ligar-me a noite toda, os gajos da claque, a dizer que te queriam apanhar, que queriam a tua morada…”

Acuña respondeu dizendo que se podiam resolver as coisas falando, mas o Presidente da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD respondeu-lhe em tom evasivo: “Tenho um problema tremendo, vou tentar resolver a situação…”.

De seguida perguntou de novo aos jogadores: “Esta semana, aconteça o que acontecer, vocês estão preparados para ir a jogo?” E acrescentou: “Se houver algum problema liguem-me, para mim ou para o Geraldes, se houver algum problema estou aqui para resolver, eu estou aqui sempre para vocês”.

Os jogadores consideraram o teor da conversa e a calma do Presidente da Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD, contrastando com o habitual nos últimos meses, muito estranha!

Acresce que, nessa reunião, os jogadores foram surpreendidos com a antecipação do treino de quarta-feira para terça-feira.

O Presidente da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD terminou a reunião dizendo que estava tudo tranquilo: “amanhã vão treinar à Academia e preparar bem o jogo para ganhar a Taça”. E disse ainda que nessa semana iria a Academia, mas ainda não sabia quando.

Na terça-feira, 15 de Maio de 2018, Jorge Jesus informou alguns jogadores que tinha sido suspenso na reunião do dia anterior e que ia dizer isso a todos jogadores no treino, mas como não havia nota de culpa, manter-se-ia no exercício das suas funções.

Quando chegaram à Academia, os jogadores ainda acharam anormal que o Team Manager André Geraldes, que estava sempre na Academia em dias de treino, não estivesse presente.

Estando o treino de campo marcado para as 18 horas, enquanto o técnico se encontrava no campo a preparar “as coisas” para o treino, pelas 17h00 os jogadores foram ao ginásio. Quando acabaram o trabalho de ginásio, foram para o balneário para se equiparem e foi nessa altura que, de repente, começaram a entrar homens encapuzados para dentro do balneário, agredindo os jogadores, elementos da equipa técnica, médica, funcionários e gritando expressões atemorizantes como:

VOCÊS SÃO UNS FILHOS DA PUTA, FILHOS DA PUTA, CABRÕES!!! VOCÊS SÃO UM MONTE DE MERDA. VAMO-VOS MATAR! VOCÊS ESTAO FODIDOS! VAMO-VOS ARREBENTAR A BOCA TODA! NÃO GANHEM NO DOMINGO QUE VOCÊS VÃO VER.

Os encapuzados eram cerca de 40 indivíduos que barricaram os jogadores no balneário, impedindo-os de saírem e lançando tochas de fumo que dificultavam a visão.

Entraram a perguntar por determinados jogadores em concreto: Acuña, Battaglia, William e por mim…

Alguns agressores agarraram o William, bateram-lhe e pediram-lhe para tirar a camisola, porque não era digno dela!

Gerou-se uma enorme confusão, os agressores atiraram petardos, agrediram os jogadores a soco, pontapé, com cintos e bastões, arremessaram objetos (a máquina de água foi arrancada e mandada contra o jogador Battaglia).

Pelo jogador Bas Dost passaram quatro indivíduos sem lhe tocar e até a fazer um sinal de “fixe” com o dedo, mas um quinto partiu para a agressão: batendo-lhe com um cinto na cabeça que lhe causou ferimentos, que tiveram de ser cosidos com vários pontos.

Entretanto, o treinador principal que acorreu aos balneários foi também agredido.

Por outro lado, foram também lançadas tochas contra os carros dos jogadores e equipa técnica.

Enfim, o terror que as televisões puderam mostrar a todo o país…

Instalou-se um verdadeiro clima de terror e de caos no balneário: Jorge Jesus sangrava, Bas Dost na Marquesa também a sangrar, jogadores em pânico, vários funcionários e Manuel Fernandes desorientados …

A memória que tenho mais nítida é a de que estava no balneário, e ouvi um barulho no corredor, quando de repente aparecem pessoas a gritar, com a cara tapada. Primeiro mandaram tochas para dentro do balneário, depois entraram e começaram a agredir os jogadores e a ameaçar. Eu estava perto do William, quando uma pessoa agride o William, eu meto-me à frente para o separar do William, e ele agarra-me o braço e tenta torcê-lo e meter atrás das costas e a empurrar-me . Consegui tirar o braço, depois veio outro e pára à minha frente, quando diz “queres ir-te embora filho da puta”, “partimos-te a boca toda” e faz o gesto como me fosse agredir. Depois aparece o Salin e afasta-o. A verdade, é que tememos todos pela nossa vida. A partir de determinada altura, o descontrolo era tal que senti que podia não sair dali com vida!

Ainda hoje, acordo de noite, em sobressalto, com as imagens de horror que retive e que revejo e não consigo pensar em voltar àquele local.

Tanto mais que existem responsáveis do ataque de Alcochete que fugiram, e podem voltar a atacar-nos, até para nos intimidar nos nossos depoimentos.

Vale a pena deixar aqui, para memória futura, a nota retirada pelo Expresso do depoimento prestado pelos jogadores naquela noite na GNR de Alcochete:

“A Tribuna Expresso teve acesso a mais de 20 testemunhos de elementos do Sporting prestados no Comando Territorial de Setúbal na noite de 15 maio, horas depois do ataque do grupo de encapuzados a Alcochete. Jogadores, fisioterapeutas, um scout e um preparador físico traçam um cenário de terror que começou pouco antes das 17h e terminou minutos depois – mas que deixou um rasto de violência física e de abusos verbais que levaram os “depoentes” a estados de “choque” e a “temer pela vida”.

Este é um relato de socos, pontapés, estaladas, um garrafao de 25 litros de água, cintos, empurrões, tochas, queimaduras, ameaças, cacifos, caras tapadas e descobertas, algum sangue, alvos definidos – e de uma ideia comum: a de que aquele grupo sabia por onde entrar e aonde se dirigir e atuou “em bloco”, “com alguma organização”, agiu “premeditadamente” e bloqueou a saída enquanto espalhou o medo.

BAS DOST (JOGADOR)

O holandês refere que primeiro passaram dois grupos de homens por ele (um composto por dois, outro por seis indivíduos) sem que nada acontecesse. Posteriormente, um homem encapuzado do deu-lhe com um cinto na cabeça que ”o fez cair no chão “, onde continuou a ser agredido pelo mesmo agressor e por outro que lhe fez companhia. Bas Dost confessou ter “ficado em estado de choque”.

ACUÑA (JOGADOR)

O argentino refere que o grupo tentou fechar a porta do balneário aos invasores, mas que tal não foi possível dado o nímero destes íltimos, “cerca de 50 elementos que trajavam roupas escuras e alusivas ao Sporting Clube de Portugal, todos de cara tapada, que rapidamente forçaram a entrada no balneário”. Acuña confessou que “sobre ele caíram cerca de 5/6 meliantes que o agrediram fisicamente com murros na zona da cabeça e corpo”. O sul-americano disse também que os “meliantes o ameaçaram”, dizendo que sabiam onde morava e que devia ter cuidado.

WILLIAM (JOGADOR)

O médio, tal como todos os outros futebolistas, encontrava-se no balneário a trocar de equipamento para o treino no relvado quando os invasores irromperam nas instalações. “Foram lançadas várias tochas de fumo, ouviu gritos.” William garante ter sido “agredido por três indivíduos com socos na zona do peito”. No final do testemunho, William afirma que “teve conhecimento pelo seu colega de nome Rui Patrício que já existiram situações passadas de ameaças de adeptos aos jogadores da equipa”.

BATTAGLIA (JOGADOR)

O argentino declarou ter visto os “indivíduos irromperem pelo balneário […] a perguntar onde estava o Battaglia”. “Quando o visualizaram, dirigiram-se à sua pessoa cerca de cinco a seis indivíduos que o ofenderam verbalmente, ameaçaram-no de morte”. Enquanto era insultado, Battaglia foi agredido com “murros na face, ombro direito e tronco e ainda, enquanto estava a tentar proteger-se, foi atingido na cintura e costas com um garrafão de 25 litros de água que lhe provocou fortes dores”.

MISIC (JOGADOR)

O médio foi agredido com um cinto na cabeça por um indivíduo corpulento de 1,80 metros.

BRUNO CÉSAR (JOGADOR)

O brasileiro subiu a uma maqueira e, ao espreitar pela janela do balneário, viu um grupo de indivíduos de cara tapada e com cores do Sporting. Não foi agredido, mas viu William e Battaglia a serem agredidos com socos e bofetadas; quando tentou socorrer os colegas, foi ameaçado de morte. Segundo Bruno César, “o grupo atuou sempre em bloco, com alguma organização, presumindo que tais atos foram premeditados, barrando claramente a tentativa de fuga dos atletas para o exterior”.

FREDDY MONTERO (JOGADOR)

O colombiano diz que ”os indivlduos forçaram a entrada no balneário ao mesmo tempo, dispersaram-se do mesmo, arremessaram vários artigos pirotécnicos, entre os quais bombas de fumo e tochas”. Montero recorda-se de ouvir “onde estã o Acuña e o Battaglia”, entre insultos. Depois, Montero foi agredido com duas estaladas e garantiu que teria sido “mais agredido” se Palhinha não se tivesse agarrado a ele, para o proteger.

FÁBIO COENTRÃO (JOGADOR)

0 defesa garantiu que não foi agredido mas viu os seus colegas serem alvo de agressões. Temeu pela vida perante o grupo de agressores, que atuou sempre “em bloco, com uma certa orientação e organização, presumindo que tais atos foram premeditados”. Fábio diz ainda temer “pela continuação de tais atos ou até de maior grau de violência”.

PALHINHA (JOGADOR)

O jovem médio descreve os acontecimentos de forma semelhante aos seus colegas: espreitou pela janela e “viu um grupo de cerca de 20 a 30 indivíduos invasores entrarem a atirar tochas a arder; a revoltar o balneário, a ameaçar e a agredir alguns colegas. nomeadamente Battaglia, William, Acuña e Montero”.

RISTOVSKI (JOGADOR)

O defesa viu Acuña e outros colegas a serem agredidos violentamente e sentiu-se aterrorizado e impotente para reagir perante o que se estava a passar. Ristovski disse ainda “sentir receio que esta situação se volte a repetir, quer no seu local de trabalho quer na sua vida particular, sentindo-se assim condicionado na sua vida por este medo”.

RÚBEN RIBEIRO (JOGADOR)

O medio contratado em Janeiro ao Rio Ave disse ter sido avisado por André Pinto que vinham ali “uns mascarilhas”. Rúben “viu então o segurança da Academia de nome Ricardo tentar fechar a porta, tentando ainda opor-se à entrada dos suspeitos, não conseguindo em virtude de ser empurrado”. O português assistiu às agressões a Acuña e ouviu ameaças come esta: “Se não ganham a Taça estão fodidos”. Disse também ter ouvido alguém a dizer no exterior “vamos embora, vamos embora”, tendo os agressores saído do local, não sem antes alguém arremessar uma tocha para dentro do balneário.

PICCINI (JOGADOR)

O defesa estava em tratamento no departamento médico quando ouviu “bastante barulho” junto ao balneário. Viu as agressões a Battaglia e a William Carvalho, sentiu medo e pânico, mas não foi agredido.

SALIN (JOGADOR)

O guarda-redes diz que o grupo de invasores entrou agressivamente no balneário (vestiam de preto, cara tapada) lançando tochas de fumo, gritando e ameaçando William e Rui Patrício: “Tira essa camisola, vamos foder-te! Há tempo que queres ir embora, tira essa camisola, não te queremos mais aqui”. Salin não foi agredido e tentou evitar “agressões a William e a Rui Patrício”. Salin temeu “pela sua própria vida”.

DOUMBIA (JOGADOR)

O avançado da Costa do Marfim garante que os invasores procuravam William Carvalho e Rodrigo Battaglia, que o ameaçaram e que lançaram vários engenhos pirotécnicos, “provocando um intenso cheiro a queimado e uma insuportável nuvem de fumo no edifício, deflagrando o alarme de incêndio no balneário, provocando o pânico entre os presentes”. Sentiu-se aterrorizado e impotente.

GELSON (JOGADOR)

0 extremo português estava a conversar com Acuña quando ouviu gritos vindos do exterior. Pouco depois, os invasores entraram e agrediram Acuña “com as palmas das mãos abertas”. “Foi perceptível verificar um indivíduo com um cinto na mão direita, sendo que a parte da fivela se encontrava em efeito de pêndulo, para aquando de um movimento brusco a mesma efetuar um efeito de chicote”. Gelson temeu pela vida e diz que os agressores estavam ”direcionados para os atletas Acuña, Rui Patrício, William e Battaglia.

BRUNO FERNANDES (JOGADOR)

O médio ofensivo estava ao lado de William e foi empurrado pelos invasores, tendo sido “cercado por vários indivíduos” e depois “agredido com chapadas”. Seguidamente, viu Battaglia, Acuña e Rui Patrício a serem também cercados e agredidos por vários indivíduos.

PETROVIC (JOGADOR)

O sérvio foi agredido com um ”murro nas costelas”.

PODENCE (JOGADOR)

O português descreve que o segurança da Academia tentou suster o avanço dos invasores com outros elementos do Sporting. Depois, uma vez lá dentro, os agressores começaram a agredir quem apareceu pela frente, sendo que William se levantou para tentar acalmar os ânimos. “Nesse mesmo instante, William foi rodeado por três ou quatro indivíduos. Viu ainda Misic ser agredido com um cinto na face.” Podence garante que Acuña e Battaglia estavam sinalizados pelo grupo que invadiu Alcochete – foram socados e pontapeados.

LUMOR (JOGADOR)

O futebolista ouviu gritos vindos do exterior e “apercebeu-se que começaram a entrar vários indivíduos com o rosto coberto por máscaras e camisolas impedindo assim que fossem reconhecidos”. Lumor não foi agredido, viu “alguns dos seus companheiros a serem agredidos pelos indivíduos que se encontravam no interior do balneário, tendo inclusivé implorado para que os mesmos parassem, mas sem sucesso”.

MANUEL FERNANDES (FUNCIONÁRIO DO SPORTING, EX-JOGADOR)

Manuel Fernandes, um dos símbolos do Sporting, refere ter visto ”30 indivíduos a dirigirem-se em corrida em direção ao balneário onde se encontrava a equipa de futebol do Sporting”. Viu ”vidros e portas partidas”, objetos nas mãos dos invasores e no “interior do balneário” olhou para Bas Dost ”a sangrar da cabeça, ostentando diversas marcas”.

JOSÉ ANTÓNIO LARANJEIRA (SCOUT)

O scout do Sporting viu ”cintos” e “um objeto cilíndrico” nas mãos dos invasores, que traziam máscaras de esqui, cachecóis e refere que Jorge Jesus foi agredido por trás com um “murro na cara”. Mais tarde, Laranjeira assistiu a uma conversa entre Jorge Jesus e William Carvalho com cinco dos invasores de cara descoberta, que terão dito: “Não era isto que pretendíamos, o nosso objetivo era falar com os atletas”. O scout avança a hipótese de William conhecer os indivíduos “membros da claque Juve Leo”. Além disso, os invasores “conheciam as instalações, bem como do interior do edifício que invadiram, pois estes dirigiram-se diretamente ao balneário”.

GONÇALO JOSÉ FONTES AVEIRO (FISIOTERAPEUTA)

O fisioterapeuta viu um “indivíduo a atirar uma tocha acesa para o interior do balneário”, embora não o tenha conseguido “reconhecer por estar de costas”. Gonçalo diz ter “conhecimento de que vários jogadores sofreram lesões provenientes dos ataques de que foram vítimas”.

LUDOVICO MARQUES (MASSAGISTA)

O massagista Ludovico Marques, que serviria também de tradutor para Doumbia, ouviu rumores de que havia “adeptos encapuzados” na Academia, tendo ouvido depois insultos como “filhos da puta, joguem à bola”. Segundo Ludovico, ”20 ou 30 indivíduos de cara tapada” entraram no balneário, quatro deles a “dirigirem-se a Acuña, agredindo-o com socos e pontapés”. Mais: disse que viu Acuña “encolher-se em posição de defesa, encostado ao cacifo”. William Carvalho também foi “cercado no meio do balneário por cerca de cinco indivíduos que o agrediram com vários socos, pontapés e a ser agarrado na cabeça e nos braços”. O “enfermeiro Carlos Mota [foi] agredido por um indivíduo com um murro nas costas”. Por outro lado, Ludovico viu “dois indivíduos a arremessarem duas tochas acesas, tendo uma delas sido enviada contra os jogadores e outra foi colocada no caixote do lixo”. Por fim, o massagista também alude aos insultos e às ameaças: “Vocês são uns filhos da puta. Cabrões. Montes de merda. Estão fodidos! Vamos rebentar-vos a boca toda”.

MÁRIO MONTEIRO (PREPARADOR FÍSICO)

O preparador físico levou com uma tocha que lhe queimou o braço e a barriga. Depois, em conversa com Fernando Mendes, líder da Juve Leo que lhe confessou não se rever no que se tinha passado, mostrou-lhe as queimaduras. ”

De notar, ainda, que o Gelson reparou, já depois de terminado o “ataque”, que tinha recebido uma mensagem de um adepto, seu conhecido e da claque, a avisar que os agressores estavam a chegar para fazer merda!!!

Não existiram quaisquer dúvidas, muito menos para os jogadores, que os agressores eram elementos da claque Juve Leo.

E, por outro lado, é manifesto que o referido ataque na Academia não foi uma conduta isolada e imprevisível que pudesse escapar à capacidade de previsão dos dirigentes da Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD, mas antes um acontecimento não só perfeitamente previsível de se verificar, como até sucessivamente provocado, tornando por isso mesmo ainda mais inaceitável a ausência de qualquer dispositivo de segurança.

Com efeito, estamos perante factos que de forma muito clara apontam para que se tratou de uma ação concertada, preparada, e que era previsível, não tendo a Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD agido da forma que lhe era exigida para evitar o sucedido e para garantir as condições de segurança dos jogadores.

Com efeito, nesta altura, tinham já ocorrido demasiados episódios de agressividade e ameaças contra os jogadores para que fosse imperioso prever e prevenir a sua continuação, no mínimo, reforçando as condições de segurança. O que, pura e simplesmente, não aconteceu. Parecendo, até, que estas foram, pelo menos, aligeiradas.

Acresce que, além do mais, as condutas acima descritas do Presidente da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD foram adequadas a criar nos adeptos e em particular nas claques sentimentos exacerbados contra os jogadores, que já tinham tido afloramentos em momentos próximos.

A verdade é que, fatores “estranhos” concorrem para criar, ainda, uma sensação de desconfiança relativamente ao sucedido e a atuação da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD em todo o acontecimento.

Com efeito, desde logo, é estranho que o treino tenha sido antecipado, e mais estranho, ainda, que o “assalto” se tenha dado no exato momento em que os jogadores se encontravam no balneário, evitando, assim, a dispersão que aconteceria se estivessem no campo.

Estranho, também, é que os assaltantes soubessem dirigir-se sem hesitações para os balneários da equipa principal, que muito pouca gente sabe onde ficam.

Estranho, ainda, que os “assaltantes” conseguissem percorrer uma distância tão grande sem que tivesse havido qualquer aviso a prevenir os jogadores do “ataque”.

Inusitado, também, que o treinador Jorge Jesus, ao correr para os balneários para ajudar os jogadores tenha deparado com o antigo presidente da claque Juve Leo, Fernando Mendes, que ali se encontrava, sem qualquer justificação, de cara destapada e que perante o pedido de ajuda de Jorge Jesus tenha respondido que aquilo não era para ser assim, que era só para assustarem os jogadores, mas que tudo se tinha descontrolado e que não podia fazer nada.

Por outro lado, não se podem ignorar as declarações e observações de José Diogo Salema, antigo diretor de instalações da Academia do Sporting em Alcochete.

O antigo responsável contou que, no tempo em que esteve no centro de treinos, havia uma regra básica: “Quando havia treinos da equipa principal, o portão estava fechado”. “E havia sempre alguém na sala do controlo, com as imagens das várias câmaras que cobriam todo o recinto”.

Este antigo responsável pela segurança da Academia, acrescenta, ainda, que existia uma câmara virada para o exterior que permitiria detetar imediatamente a aproximação de um grupo como os 40 a 50 adeptos que entraram no recinto para bater em jogadores e treinadores do Sporting. “Haveria tempo para fechar as portas e proteger as pessoas”.

Este antigo diretor de instalações da Academia do Sporting durante oito anos diz ainda que o momento que se vivia no clube obrigaria a um “alerta vermelho” que ativaria as medidas máximas de segurança na Academia. Acrescentando que “No meu tempo, fazíamos reuniões semanais de segurança para avaliar o grau de risco”.

Estamos, pois, perante uma conduta de negligência grosseira (se é que não se vem a averiguar que foi até mais do que isso) que confere justa causa de resolução do contrato de trabalho, atento o estabelecido no artigo 394.°, n.°2, alíneas b) e d) do Código do Trabalho.

Por outro lado, não pode deixar de se referir que a conduta do Presidente da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD e da direção da SAD, subsequente ao acontecido, foi inaceitável e absolutamente reveladora da mais profunda falta de respeito e consideração pelos jogadores.

Com efeito, não obstante as notícias aterradoras que começaram de imediato a ser transmitidas pelas televisões, o Presidente da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD só chegou à Academia quase duas horas após o início dos acontecimentos!!

A que acresce que, as suas primeiras declarações foram absolutamente chocantes para os jogadores que as consideraram aviltantes e, até, ofensivas, parecendo que o Presidente da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD estava a “gozar” com o sucedido.

Com efeito, nessa noite, o Presidente da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD em entrevista à Sporting TV resolveu descrever o sucedido como tendo sido “chato, mas que o crime fazia parte do dia a dia, e as coisas estavam já a correr dentro da normalidade e amanhã seria outro dia”, o que mereceu destaque de vários órgãos de comunicação social, pelo seu teor manifestamente desadequado e inusitado!!!

Acresce, ainda, que os jogadores estiveram, depois, durante horas a prestar declarações no posto da GNR de Alcochete sem que tivessem sido acompanhados por qualquer elemento da Direção da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD ou representante desta, numa atitude de perfeito desprezo pela sua situação.

Aliás, nenhum outro elemento da Direção da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD sequer se deslocou a Alvalade!

Para cúmulo, na véspera da final da Taça de Portugal, que os jogadores decidiram disputar nas condições anímicas e físicas em que se pode imaginar que estavam, depois do “filme de terror” que passaram, o Presidente da Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD, como já vinha sendo seu hábito, resolveu dar uma conferência de imprensa, em que, em lugar de procurar acarinhar e dar ânimo aos seus jogadores, resolveu vitimizar-se, falar de si e acabar a culpar os jogadores pelo que tinha acontecido na Academia!!!

Se não, atentemos nas suas palavras:

“Foi um acto de vandalismo e conseguiram aproveitar-se de um homem que estava em estado de choque… mas tentaram colar na opinião pública foi que eu disse que era chato. Conseguiram manipular as palavras e desonrar um homem honrado, digno e merecedor de respeito enquanto presidente do Sporting Clube de Portugal. É um acto bediondo mas que tern o seu início. Fala-se num jornal que eu teria dado aval a agressões no dia 6 de abril. Na Madeira, houve jogadores que não aguentaram os assobios, por terem o sangue quente. Foi dito por um líder da ]uve Leo que disse que queria ter uma reunião na terça-feira com os jogadores. Isto teve início na Madeira porque gosto de acompanhar as modalidades. Era fortíssima convicção que, depois do resultado com o Benfica, que iriamos à Madeira ganhar. Não ganhámos, não era minimamente expectável não ganhar. Fizeram uma parangona com o dono do BMW a dizer que o responsável é o ‘Bruno de Carvalho porque está sempre a dizer que vamos ser campeões’. Aquela resposta foi encomendada, mas a verdade é que me atinge na minha dignidade. Éramos o clube que tínhamos uma folha limpa nos últimos cinco anos – ao contrário, morreram adeptos nossos. Há uma campanha montada pela teia cartilheira do Benfica a dizer que era o autor direto, depois moral depois direto e outra vez moral. Havia testemunhas fidedignas… Eu sou pai. Os meus atletas são como família. Jamais em tempo algum deixava que fizessem mal à minha família.”

“Há muita coisa para fazer na luta contra a violência no desporto. Mas não quero acreditar que haja uma rescisão de contrato por culpa de um ato que começou involuntariamente nos jogadores. Eles não merecem. Isto é uma família. Ainda por cima, eu pus-me à frente de centenas de pessoas para evitar coisas piores e este silêncio dos jogadores é ensurdecedor”.

Estamos perante declarações reveladoras de uma enorme hipocrisia e de um enorme desrespeito por quem sofreu o que nós sofremos.

Aqui chegado, é inequívoco que foram violados os meus mais elementares direitos, legais e contratuais, e que não fui tratado pela Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD com o respeito devido a um colaborador, que não me foram dadas, por esta, as condições necessárias para o exercício da minha profissão, que fui alvo, por esta, de uma conduta de assédio, que visou condicionar-me, hostilizar-me e limitar-me na minha liberdade, nomeadamente de expressão, que não me foram asseguradas as condições de segurança para exercer a minha atividade…

Acresce que, o tratamento e condições acima descritos são aptos a provocar-me enormes danos, porquanto o valor de um jogador profissional de futebol depende do seu desempenho e, nas condições supra-expostas, que, ainda por cima, tudo aponta para que continuem a verificar-se, é impossível exercer cabalmente a atividade de jogador profissional de futebol e, muito menos, ter um grupo de trabalho a quem sejam proporcionadas as condições para o sucesso desportivo, de que depende, e muito o reconhecimento individual.

Estou de consciência tranquila. Considero-me um profissional irrepreensível, sei que dei o máximo ao Sporting Clube de Portugal, sempre e em cada momento, no sentido de contribuir para o sucesso nas diversas competições em que a nossa equipa esteve envolvida. Sei da grandeza do clube e do desejo de vitória que une todos os seus adeptos. Fiquei feliz nas vitórias e frustrado na hora das derrotas. Se mais não fiz, foi porque não consegui.

Entretanto, o representante máximo da SAD criticou-me publicamente, ofendeu-me, suspendeu-me, acusou-me, processou-me. Atiçou, diversas vezes, a ira dos adeptos contra mim e contra os meus colegas de equipa, bem sabendo que alguns dos adeptos, em particular nas claques, reagem de forma primária e irracional a quaisquer declarações proferidas pelo Presidente. E, no ponto máximo da crise, em pleno local de trabalho e numa sessão de treino, vivi momentos de puro terror, sem que a Sporting SAD tenha revelado qualquer preocupação – que, naquelas circunstâncias, lhe era manifesta e especialmente exigível — com a segurança dos seus atletas profissionais de futebol, deixados à mercê de um grupo violento de membros da claque.

Face a todos os factos supra relatados, que consubstanciam, por um lado, uma conduta continuada de violência psicológica, que colocam em causa a minha dignidade pessoal e profissional e que contribuíram para a degradação, por facto imputável ao empregador, das minhas condições de trabalho; e, por outro lado, perante os factos ocorridos na Academia de Alcochete, que colocaram em risco a minha integridade física (e mesmo a vida), nada tendo sido feito pelo empregador para o evitar, não tendo sido asseguradas as condições de segurança que se impunham face ao momento que se vivia a data, revela-se totalmente insustentável a subsistência da relação de trabalho.

Com efeito, não se pode exigir a uma pessoa que, durante meses, e de forma continuada, foi desrespeitada pelo Presidente da Sporting Clube de Portugal, Futebol SAD, tendo visto variadíssimas vezes questionado o seu profissionalismo, cuja reputação foi colocada em causa na praça pública, que foi alvo de agressões no seu local de trabalho, que após este facto não teve qualquer apoio da sua entidade empregadora e que ainda viu insinuado pelo responsável máximo da mesma que os factos foram despoletados pelos próprios jogadores (entre os quais me incluo), mantenha o seu vínculo contratual, porquanto é óbvio que tal manutenção se revela insustentável.

Na verdade, tais factos, que traduzem um incumprimento contratual grave e culposo do empregador, tornaram impossível a manutenção da relação de trabalho.

Dizem-me que sou um ativo, mas, antes de o ser, sou um profissional consciencioso, um trabalhador que faz do desporto meio de vida, um cidadão cumpridor e uma pessoa, igual a todas as outras. Consciente dos seus deveres, mas também dos seus direitos e que procura preservar a sua honra e a sua dignidade, além da sua integridade física e da sua vida.

Não é, naturalmente, indiferente, também, o facto de responsáveis pelo ataque de Alcochete terem fugido e poderem voltar a atacar-me.

Atento o exposto e com todo o respeito pelos meus Colegas que entendam ter condições para continuar a representar o Sporting Clube de Portugal, seja por que razão for, entendo que não as tenho e que não me pode ser exigido que mantenha o vínculo contratual, depois de tudo quanto acima ficou descrito. Fui alvo de violência psicológica e de violência física. Isto não pode deixar de constituir justa causa, para que eu, preservando a minha dignidade pessoal e profissional, me liberte do contrato que me liga ao Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD.

Em conformidade, e pese embora todo o respeito que me merecem a maioria dos Sportinguistas, comunico que, com efeitos imediatos, e com invocação de justa causa, resolvo o contrato de trabalho desportivo que celebrei com Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD, nos termos do disposto no artigo 23.°, n.°1, alinea d) e n.°3 do RJCTD.

Em consequência, aguardo que me sejam liquidados todos os créditos laborais a que tenho direito, assim como a indemnização a que alude o disposto no artigo 24.° do RJCTD, reservando-me o direito de peticionar o ressarcimento dos danos de natureza não patrimonial que indubitavelmente sofri.

Sem mais, com os melhores cumprimentos, subscrevo-me,

Rui Pedro dos Santos Patrício