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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Do bairro e do hip hop, Plutonio chegou ao mundo: "Há gente que não se sabe defender, tenho de falar por essas pessoas"

É um dos fenómenos do hip-hop nacional e tem um novo álbum: "Sacrifício". Ouvimos o disco e estivemos com ele no Bairro da Cruz Vermelha, onde cresceu e onde toda a gente o trata por "Dudu".

A primeira paragem foi numa barbearia de Alcabideche. À entrada do Carlinhos Vela Barbeiros, um “barber pole”, que para português poderá traduzir-se como “poste de barbearia” — símbolo internacional destas casas, objeto vertical branco com riscas diagonais luminosas, azuis e vermelhas — denunciava que era ali o ponto de encontro combinado.

Dentro da barbearia estava o rapper e cantor Plutonio, nascido e crescido a poucos quilómetros dali, no bairro da Cruz Vermelha, pertencente ainda à freguesia de Alcabideche e ao concelho de Cascais, que tem uma forte comunidade de imigrantes e descendentes de imigrantes vindos das ex-colónias, que ali começaram a chegar há cerca de 40 anos. É o caso do rapper e cantor, que tem ascendência moçambicana e que também já é ouvido em Moçambique mas sobretudo em Angola, onde a música hip-hop tem muitos aficionados.

Na barbearia, as três cadeiras de cliente estavam ainda vazias, envoltas numa capa protetora em que se lia a inscrição “barber shop”. Também ainda não estava ninguém sentado à espera de vez, no cadeirão-sofá ao fundo da sala ou nos dois bancos pequenos colocados logo à entrada, à esquerda de quem entra. Plutonio estava numa espécie de divisão interior, uma pequena sala ao fundo com casa de banho e com uma televisão que ia exibindo um jogo de futebol. Só passados uns minutos é que se sentou ao espelho, manto de “barber shop” colocado para evitar que os cabelos cortados por “Carlinhos” se entranhassem na roupa e viajassem depois com ele. “Venho cortar aqui o cabelo pelo menos uma vez por semana”, começou por contar o rapper e cantor ao Observador, antes de explicar a escolha: “O Carlinhos é do mesmo bairro do que eu, ele e os irmãos cresceram comigo. Crescemos todos juntos”. A periodicidade dos cortes de cabelo ainda nos intrigava, rapidamente a curiosidade teve resposta: “Faz parte da cultura da rua, estás a ver?”

A tarde em que o encontrámos previa-se preenchida: Plutonio tinha agendado para umas horas depois a gravação de um videoclip no bairro em que hoje, muitos êxitos depois, singles de ouro depois, tantos concertos volvidos e três álbuns entretanto gravados e editados, ainda vive.

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Foi fácil arranjar figurantes para o videoclip: através da sua conta de Instagram, o rapper partilhou com amigos chegados a intenção. Naquele dia ia haver um churrasco no principal ponto de encontro do Bairro da Cruz Vermelha, junto à rua do Canadá, onde vão resistindo — mas com fim anunciado e para breve — os moradores dos prédios mais antigos e degradados do bairro. Bastou o aviso para umas horas depois ter ali mais de uma dezena de pessoas à sua espera. Estavam lá pelo churrasco mas também por ele, que vai colocando o indicativo do código postal daquela zona, dois-sete-seis-cinco, nas rimas e nos ouvidos de quem o segue.

Ali, Plutonio não é Plutonio, é “Dudu”, nome pelo qual todos os moradores do Bairro da Cruz Vermelha o tratam. “Curiosamente, até há pouco tempo vivi fora do bairro. Tinha uma casa em Paço de Arcos e não sei onde, dormia lá mas vinha aqui à noite, depois ia para casa às 2h, 3h. Mesmo os meus amigos que estão a viver fora do bairro vêm cá todos os dias, é um hábito muito grande”. Vão conviver com aqueles com quem cresceram, porque aquela zona  “à noite parece o Bairro Alto”.

Quase paradoxalmente, à medida que a sua carreira musical se consolidou e à medida que ganhou poder financeiro, “Dudu” foi voltando cada vez mais a ter como morada principal o bairro onde cresceu: “Como agora passo tanto tempo fora, para concertos, quando venho [a Portugal] tento vir para aqui, ficar cá”. Isso até pode vir a mudar em breve, “já esteve bem mais longe”, mas a isso voltaremos mais à frente. Agora é tempo de falar de Sacríficio – Sangue Lágrimas e Suor, uma espécie de “disco de consagração” no percurso de um homem que prefere esconder o nome verdadeiro e a idade (já vamos ao porquê), que começou a fazer rimas de rap com os amigos no início dos anos 2000 e que em fevereiro vai apresentar ao vivo este novo álbum, o terceiro da sua discografia, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e no Hard Club, do Porto, respetivamente dias 14 e 21.

[A capa do novo disco de Plutonio:]

Um álbum entre o rap e o R&B, entre dança e vida de rua

Falar de Sacrífico – Sangue, Lágrimas e Suor sem falar do percurso de Plutonio seria um exercício condenado ao fracasso. O álbum é muitas coisas. É um exercício de descrição crua da vida nos bairros sociais e periféricos de Lisboa e é um exercício de descrição de conquistas (financeiras, românticas…), sucessos e superações. É a dados momentos um manancial de rimas ácidas minuciosamente trabalhadas e disparadas com verve provocadora e é novo R&B cantado com açúcar na voz, ritmo melódico para emocionar corações e efeitos técnicos (como o auto-tune) cuidadosamente usados como ferramentas musicais. É rap e são batidas afro-dançantes, é R&B e canções baladeiras. É “gangsta rap” de quem cresceu com o crime como vizinho e são confissões do pai que cresceu “filhos dos meus irmãos” porque “o meu pai só deixou retrato”. É também, embora não apenas, uma revisão de um percurso longo e com as suas contradições: de um lado está o homem misterioso, do outro a figura pública que gravou por exemplo “Cafeína”, tema com batida de DJ Dadda que soma já 17 milhões de cliques no Youtube, “Meu Deus” (12 milhões de visualizações) e “1 de abril” (8,4 milhões).

Sacrifício é um disco longo, composto por 18 temas, e foi editado já esta sexta-feira, 22 de novembro. Metade dos temas já eram conhecidos, porque foram lançados anteriormente por Plutonio como singles com direito a videoclips — uma forma que encontrou para contornar a “pouca atenção” que teriam as quase duas dezenas de canções se fossem reveladas todas de rajada. São esses mesmos vídeos que estavam a ser exibidos numa televisão instalada na barbearia em que encontrámos Plutonio, no canto superior direito de quem estiver, como ele estava enquanto respondia ao Observador, sentado a cortar o cabelo.

O álbum não poderia começar com uma canção mais “emocional” e, como tantas outras que Plutonio escreve e grava, autobiográfica. “Meu Deus” é a evidência perfeita daquela que tem sido uma das grandes preocupações de Plutonio, antigo rapper inspirado pelo hip-hop old-school e cru que vai tentando contar a sua história “com maior abrangência”. Enquanto “Carlinhos” lhe cortava o cabelo, ele explicava-nos o que significa isto: “A fórmula utilizada na ‘Meu Deus’ mete logo a música numa posição mais universal. Por ser mais acústica e mais melódica, a mensagem já consegue ser entregue de uma maneira mais fácil. Ter também aquele refrão, com a pergunta ‘porquê meu deus?’ que acho que toda a gente faz volta e meia, facilita que as pessoas a oiçam sem pensar que estão a ouvir a descrição de uma realidade diferente da deles”. Em suma, é um equilíbrio: as rimas não perdem a essência, o “embrulho” é que é aqui e ali adocicado.

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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A abrangência era um dos pontos que Plutonio pretendia atingir neste novo disco e é o segredo que encontra para a popularização da sua música, que toca hoje nas principais rádios do país e é ouvida ao vivo em grandes palcos, de concertos e festivais. “Onde sentia que tinha de trabalhar mais era na forma como me explicava”, referia, acrescentando que nos discos anteriores, Histórias da Minha Life (2013) e Preto & Vermelho (2016), havia temas que eram mais facilmente rejeitados à partida por quem tem alergia a rap que fala de crime, drogas, violência e pobreza — rap que narra, enfim, o dia-a-dia de moradores de bairros como o da Cruz Vermelha, em Cascais.

É difícil definir a música de Plutonio porque esta é, como já antes se referiu aqui, muitas coisas. O canto coexiste com o rap, a rima coexiste com as melodias. Em “Meu Deus”, ouvimo-lo cantar em camada R&B que o seu texto “incomoda porque tem verdade” e que cresceu numa zona” onde “a paciência muitas vezes não funciona”, “desde cedo a ter confrontos com a autoridade”, onde “falta comida no prato / sobram problemas em casa / muitas vezes a solução é a criminalidade”.

Por favor diz-me porquê,
às vezes queria entender.
Acredito num futuro mais bonito
mas o barulho dos tiros faz-me contradizer
(…)
Só queria poder saber
se ainda existe uma outra vida
para além desta minha vida
ou se o propósito é nascer para morrer”

(“Meu Deus”)

Pode parecer estranho ouvi-lo cantar assim e logo na faixa seguinte, a segunda, “3AM”, ouvirmos a voz de uma pivô de telejornal dizer que “é conhecido no bairro da Cruz Vermelha como o rapper Plutonio” e que “ficou ferido no membro inferior esquerdo e teve de ser assistido no hospital de Cascais”. Pode parecer estranho sobretudo ouvi-lo depois a disparar rimas atrás de rimas, a dizer que “bófias estão confusos” e que tem “três moradas”, que “negócio” faz “longe do cubículo porque a zona está espigada”, que levou “uns quantos tiros” mas está vivo “porque não se passa nada”.

A mudança de registo pode chocar alguns puristas ou adeptos de um só estilo de música, ou rap mais cru ou canções de coração aberto, confessionais e emotivas (“meu deus porquê? / um homem chora só que ninguém vê”, canta na anterior). Para quem quiser ouvir o álbum é melhor habituar-se: os registos vão-se intercalando constantemente ao longo do disco, do swag afro-cool de “Panorama” ao rap farpado e agressivo de “Prada”, do flow rap-cantado de “Lucy Lucy” e “Mesmo Sítio” aos disparos de “Badman” (não queríamos ser o alvo destas caneladas), passando por canções inspiradas por amor, sexo, traições, encontros e desencontros nas relações, como “1 de abril”, “Não tou nem aí” e uma “Conversas” que até tem uma mensagem áudio de uma voz feminina  que autorizou a sua utilização no disco. E ainda há mais emoção em “Estrelas”, “Dramas & Dilemas” e numa canção — “Francisca” — que parece inspirada pela filha, além do ritmo acelerado de festa de “Vergonha na Cara” e “Sr. Guarda”.

Depois de tantos problemas,
dramas e dilemas,
a vida sorriu para mim,
ela sorriu para mim.
Estou quase a largar os esquemas,
entrar no sistema,
porque a vida sorriu para mim
(…)
Hoje eu só quero abraçar a minha mãe,
dizer à Francisca que está tudo bem,
os meus irmãos sabem o quanto eu passei
os meus amigos sabem o quanto eu procurei
(…)
Só Deus sabe os tempos que andei foragido,
longe da zona, perto do perigo.
Problemas entre polícias e bandidos,
mas hoje estou longe dos meus inimigos

(“Dramas & Dilemas”)

As roupagens das canções vão mudando e isso não é uma tentativa de disparar para todo o lado ou “agradar a gregos e troianos”, como nos disse Plutonio. “Tenho uma identidade que é aquele rap mais street rap, mais gangsta, é o que mais gosto de fazer e é por aí que comecei a fazer música. Mas depois fui desenvolvendo outros géneros e se uma batida me inspirar não vou dizer: ‘não sou deste estilo de música’ ou ‘o meu estilo de música é mais assim, não posso fazer isto’”, explicou.

Enquanto ia falando e “Carlinhos” lhe ia aparando o cabelo, mais rapado atrás (na nuca) e de lado, Plutonio explicava entre um corropio de cumprimentos (quase todos os que entravam na barbearia cumprimentavam-no e cumprimentavam também quem estava com ele, apresentando-se) que lhe acontece “às vezes estar a ouvir um artista um dia ou dois seguidos” e pensar: “Se calhar vou ter de mudar de artista, gosto daquele gajo mas já ouvi o álbum todo e é sempre a mesma vibe, apetece-me ouvir uma coisa diferente”. Talvez por isso, tentou agora fazer um álbum em que se “consegue consumir vários estilos de música sem que as pessoas se cansem de um só, porque acho que mesmo o público que gosta mais de rap não gosta só de rap e o público que gosta mais de R&B não gosta só de R&B”.

Acabou o tempo em que as tribos eram muito delimitadas: quem rimava, rimava; quem cantava, cantava; quem fazia músicas de amor, fazia músicas de amor e quem narrava os “submundos” estava condenado ao “underground”. Aqui tudo se mistura. “A minha cena neste álbum é: dentro dos estilos que gosto de ouvir, tentar ter um álbum em que as pessoas possam passar por vários estilos que gostam, sempre explorados pelo mesmo artista”.

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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O disco novo serve também como uma espécie de homenagem a Chullage, o “rapper preferido” de Plutonio a rimar em português. A homenagem é notória logo no título, já que Sacrifício – Sangue, Lágrimas e Suor tem uma referência óbvia a Rapresálias… Sangue, Lágrimas, Suor, o segundo álbum do autor de “Rhymeshit Que Abala”, de 2004, sucessor de Rapresálias… (2001) e considerado um dos grandes álbuns da história do hip-hop nacional.

Plutonio foi um dos artistas que abriram o concerto de apresentação do terceiro álbum de Chullage, Rapressão (editado em 2012), no Teatro do Bairro, em Lisboa, mas a ligação entre os dois é mais antiga. Durante muitos anos, o DJ oficial de Chullage era DJ Extreme, que Plutonio conhecia bem. Através deste, conheceu pessoalmente uma das suas maiores referências e esteve com Chullage “várias vezes na Arrentela, onde havia uma associação na qual ele colaborava”. Foi desse convívio que resultou o convite do “mestre” ao “aprendiz” para a participação do mais novo no concerto. Foi também esse convívio que fez crescer ainda mais a admiração do autor deste novo álbum Sacrífico pelo rapper de língua afiada que narrava ao país o racismo, a discriminação e as consequências das desigualdades sociais e que ainda o hoje o faz, mais intermitentemente. “Não é bem homenagem, é uma coisa do rap: mostrar respeito pelas pessoas que começaram isto antes de ti”.

Curiosamente, foi o antigo DJ oficial de Chullage que Plutonio convidou para fazer scratch (técnica de fazer sons de percussão com discos de vinil, muito usada sobretudo no hip-hop mais “clássico”) num dos temas mais importantes deste disco, tanto que lhe acabou por dar título. Trata-se de “Sacrifício”, em que Plutonio rima num beat (batida instrumental) de Sam the Kid. “Era uma coisa que já queria há muito, mas que não queria que acontecesse de uma forma forçada, não natural”, começou por contar Plutonio.

A relação pessoal do rapper-cantor com o autor de Pratica(mente) foi-se fortalecendo nos últimos anos e isso contribuiu para que a parceria surgisse agora. “Quando falei com ele, disse-lhe que queria um beat daqueles à Sam the Kid, com um sample [excerto de um tema alheio, que é transformado e reutilizado para a composição da batida de um novo tema] deep, mas não sabia exatamente o quê. Sabia que essa batida iria ser usada num som que iria dar nome ao álbum, era a única certeza que tinha”. Assim aconteceu e ficou cumprido “um objetivo” que Plutonio tinha “há muito tempo”.

O produto final que é “Sacrifício”, a canção, satisfez Plutonio por completo, “graças a Deus correu muito bem”. É compreensível: há um intro com uma mensagem de Chullage a dizer que o “rap, the real shit”, ouve-se “nas zonas”, nas ruas, e ouve-se depois o artista do Bairro da Cruz Vermelha a disparar rimas onde resume o passado de gente como ele e sobretudo as lições que dele tirou. A essência do rap “está nas ruas”, considera Plutonio, como “a essência do samba está no Brasil”, o que não significa que as duas coisas não possam ser feitas respetivamente fora dos bairros e do Brasil. “Há rappers que vêm de outra realidade, são tão bons rappers quanto eu ou melhores e não cresceram num bairro, portanto não têm de falar disso”, insistiu ainda.

Bem-vindo ao ‘Sacrifício – Sangue, Lágrimas e Suor’.
Bem-vindo à zona o onde a tendência
é ir de mal a pior,
onde quem sai da penitência
nunca volta melhor,
onde há quem chore e ore em casa
p’ra que Deus não demore.
E a vida aqui não é um mar de rosas,
droga não é assim tão doce.
Quando era puto fumava ganzas

antes do pequeno almoço.
Queria pintar um mundo novo
mas fiquei pelo esboço.
Meu tropa que antes só rossava
em dar conta agarrou-se.

(“Sacrifício”)

Sacrifício, considera também, era um título apropriado para o disco: “Houve um ano em que fiquei parado. Estava com a minha perna… [n. d. r.: Plutonio andou durante alguns meses de muletas, depois de lesões na perna] bom, durante esse ano aproveitei para ir trabalhar, fazendo o tal sacrifício que é este álbum, com o objetivo de firmar o meu nome quando voltasse. À medida que vou vivendo as coisas vou falando delas nas minhas músicas e este momento pareceu-me apropriado para falar desse sacrifício e do sacrifício que tive de fazer nos outros anos passados. Felizmente tem corrido bem.”.

Tem corrido tão bem que é melhor manter algumas outras coisas ocultas. Ainda na barbearia de “Carlinhos” em Alcabideche, primeira e única paragem antes de uma visita ao bairro da Cruz Vermelha, perguntámos a Plutonio porque tenta manter os seus dados biográficos (desde logo nome e idade) fora do conhecimento geral. Eis a resposta: “Por causa da dimensão que as coisas ganharam com a música… há coisas que quero manter privadas, tenho a minha vida pessoal, a minha família, as minhas coisas”. Foi aqui que houve uma pausa e que o rapper-cantor sorriu ligeiramente, com dois dentes de ouro a intrometerem-se  no sorriso: “… E tenho outras coisas que preferia manter fora daquilo que quero promover”. Mais do que isso, não lhe arrancam.

As ruas do Bairro da Cruz Vermelha, os sonhos e os “problemas”

É como se o bairro da Cruz Vermelha tivesse dois pulmões, um mais gasto do que o outro. Num dos pontos nevrálgicos do bairro, mais ao cimo, está um amontoado de prédios onde vive a maioria dos moradores. Mais abaixo, perto da rua do Canadá — “nem sabia o nome, isto é tudo ruas com nomes de países, é Moçambique, Holanda, praceta da Índia, um tipo já nem sabe…”, dizia-nos Plutonio —, estava o “Bairro Alto” da Cruz Vermelha. É a zona onde quem ali cresceu passou mais tempo, o sítio onde “se às duas da manhã chegares ao bairro e não estiver ninguém, é porque não está em mais lado nenhum. Todos os dias venho aqui para baixo, eu e os meus irmãos todos. Tenho duas irmãs a morar aqui”.

Não é por mera coincidência que no “Bairro Alto” da Cruz Vermelha ficam o Café Central e o Café Real. Este último é “o mais emblemático do bairro, existe há mais de 40 anos e ainda com os mesmos donos”, explicava Plutonio. Era ali que, àquela hora, um homem de calças com padrão militar, casaco de ganga e boné na cabeça trocava passes com uma criança, com recurso a uma bola de futebol que parecia ter já muitos anos de uso. “Este bairro viveu sempre desta rua. Era aquela que o pessoal de fora usava como referência: paravam aqui os carros, quer viessem à procura de alguém quer viessem para comprar alguma coisa…. era aqui”, contava-nos Plutonio.

É também “cá em baixo”, junto a essa mesma rua do Canadá, que ficam os prédios mais degradados, com paredes danificadas que não veem tinta há muitos anos e com tijolos no lugar das janelas sem vidros. “Ainda moram pessoas nestas casas”, contava Plutonio, acrescentando: “No final dos anos 1990 construíram prédios lá atrás [aponta para o pulmão novo do bairro, que é na verdade um bairro social construído para alojar pessoas], onde antigamente estavam só barracas. Há muitos prédios novos que foram construídos para o pessoal que estava aqui em baixo, mas também houve gente realojada noutros bairros. Há pessoas que não querem sair daqui, a câmara está a forçar o pessoal mas as pessoas têm direitos, há quem more aqui há muitos anos — e depois as recompensas não são o que eles dizem”, ouvimos.

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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Por esta altura junto ao mini-parque (improvisado) de estacionamento que fica no final da reta da rua do Canadá (para quem se vem afastando gradualmente dos cafés) estava já um amontoado de gente, preparada para o churrasco e para a gravação do videoclip que aconteceriam dali a poucas horas. Percebendo ou não que quem acabara de chegar estava com Plutonio, cumprimentavam simpaticamente os novos visitantes, que mal saíram do carro tinham um cigarro especial prontamente estendido: “Querem?”

Nas paredes antigas das casas e prédios, muitas inscrições aludiam à figura pública do bairro e à sua agência: liam-se tags com “PU94” (a sigla pela qual Plutonio também chegou a ser conhecido), “Bridgetown” e a expressão de Plutonio “sem fazer nada das 9h-17h [cinco] até que eu faça os 35”, ao lado de outras inscrições como “Gang Gang”, “Fuck GNR”, “Morte aos Xibos” ou “Tudo nosso, nada deles”. A uns metros dali fica um descampado e um jardim, onde o rapper festeja os seus aniversários anualmente, convidando quem quiser aparecer para um churrasco com cachupa e concertos que em 2019 teve mais de 1500 presentes. O aviso é feito poucos dias antes, porque o espaço é limitado. “Queríamos receber mais gente mas para isso teríamos de sair do bairro e deixava de fazer sentido…”

Mesmo ao lado ficava um antigo campo de futebol, onde “já não se joga mas antigamente jogava-se, a malta ficava à volta e quem tinha dinheiro apostava”. Pelo caminho, iam-se encontrando pedras decalcadas, tijolos solitários, peças de fruta ou uma luta de Sumol. O rapper-cantor ia-se divindindo entre cumprimentar quem encontrava — “júnior, como é que é?” — e falar com o Observador. Contava, por exemplo, que começou por estudar “na escola aqui do bairro”, só tendo ido depois para Alcabideche. Explicava, por exemplo, que é junto ao Café Real que as pessoas se juntam no Bairro da Cruz Vermelha “até às tantas da manhã, muitas vezes a jogar póquer”, e que se a noite estiver chuvosa é provável que o estejam a fazer dentro de uma carrinha grande, branca e “com caixa” para abrigar os notívagos das intempéries.

A escolha daquela zona em específico do bairro, muito movimentada durante o fim de tarde e a noite, para a gravação do videoclip, não foi casual: a câmara local vai mesmo avançar em breve com a demolição dos prédios mais danificados que estão perto da Rua do Canadá para requalificação (não será usada como zona residencial) e esta será a última oportunidade de registar gravações num sítio onde as memórias de Plutonio são muitas e onde nas paredes há inscrições feitas em sua homenagem, por amigos e outros moradores. O rapper-cantor lembra-se até de uma altura “em que as leis eram menos rigorosas e havia malta cigana a vir aqui pintar umas coisas no chão, vender fruta, vender roupa. Isto enchia completamente ao sábado”.

[O videoclip do tema “Mesmo Sítio” foi gravado no dia em que o Observador esteve com Plutonio na zona mais movimentada e antiga do Bairro da Cruz Vermelha, que será demolida e requalificada em breve:]

O bairro mudou muito desde a infância e juventude do rapper e cantor. Crescer ali fê-lo “abrir o olho para a vida mais cedo, para o melhor e para o pior”, explicava Plutonio, acrescentando: “Em miúdo, há menos controlo em casa, é habitual passar-se mais tempo com os mais velhos, ver o que eles fazem, ouvir o que eles nos dizem para não fazermos mas às vezes fazemos na mesma… obriga a encarar a vida como ela é”.

Os anos 1990 foram os piores: “Enquanto havia drogas pesadas na rua apareciam mais coisas roubadas, aparecia mais gente de fora com problemas, vendiam-se mais drogas, havia mais polícia. Isso mudou por volta de 2010, as coisas começaram a compor-se”. Até aí, havia confrontos de tempos a tempos e o crime era algo que lhe não era uma realidade distante: “Aconteceu de tudo, com pessoas de fora, com pessoas daqui… até aconteceu uma vez ter sido morto aqui um rapaz que não era daqui, mas parava por cá, por gente que também não era de cá. Mas isso já aconteceu mais, agora as pessoas cresceram, estão a querer aproveitar mais as oportunidades. Mesmo assim, se pensar aqui num instante tenho à vontade uns 40 amigos presos. Isso mostra a quantidade de coisas que se passaram para poder dizer o que digo nas músicas”.

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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Foi na Cruz Vermelha que Plutonio, que é hoje o mais antigo rapper da Cruz Vermelha ainda em atividade, deu os primeiros passos nas rimas, no início dos anos 2000. Começou com o grupo Atoxicos, por volta do ano 2001, que já existia e que teve vários elementos — incluindo uma das irmãs do cantor-rapper, Grace.  “Era uma espécie de Atoxico não tóxico, queríamos trazer uma cena mais positiva para dentro do bairro, porque víamos aqueles problemas que as pessoas vivem nos bairros e queríamos ter uma atitude positiva. Infelizmente não é assim tão simples, tanto que o próprio grupo não aguentou uma onda positiva, o mundo não vive só disso”. Plutonio passou ainda por uma espécie de mini-editora e coletivo formado por elementos do bairro e outros que o visitavam regularmente, Ghettosuperstars, entre 2013, ano em que saiu o seu primeiro álbum, e 2016, em que editou o segundo.

Foi também ali que deu os primeiros concertos: “Era muito novo, cantava mesmo ali na rua, metíamos as colunas com som a tocar e droppávamos ali a coisa. Comecei a ter alguns concertos, andei em eventos de hip-hop que eram organizados com as condições que as pessoas tinham, que não eram muitas”. A dada altura, Plutonio, que já tinha experimentado cantar além de rappar e que ficou satisfeito com o resultado, parou com os concertos e focou-se na edição de músicas. Mesmo o lançamento de temas, contudo, só aconteceu quando se sentiu preparado, o que justifica o tempo passado entre as primeiras rimas, em 2001, e o primeiro álbum, em 2013. “Ter sido paciente foi uma mais-valia para mim. Se não fosse por amor já tinha parado de cantar há muitos anos. O que me deu motivação, vontade de me dedicar mais a isto e capacidade de evoluir foi a persistência e o amor à música”.

No bairro em que cresceu, Plutonio sente que também tem “uma missão” para com os outros, porque “há muita gente num canto, que não se sabe explicar, que não se sabe defender. Sei que há pessoas do meu bairro que contam comigo para fazer esse trabalho — quando tiver esse espaço, porque não deixo de ser músico”. É possível que deixe de passar tanto tempo na Cruz Vermelha futuramente. Sair, explicava-nos, “já esteve bem mais longe de acontecer” por um motivo: “Hoje em dia tenho uma filha e preocupo-me com a forma como ela vai crescer. Quero também futuramente conhecer outras maneiras de viver que não esta”. Quando hoje vai de viagem, tem o hábito de voltar para o bairro mal regressa, vindo de outros pontos de Portugal mas também de outros países onde já deu concertos, como Angola ou Brasil. O que nunca deixará é de “ir passando por ali”, ir vendo “como as pessoas estão”. Até pode sair do bairro, concluía, mas o bairro não sairá dele.

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