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Nos últimos dez anos, o Paquistão sofreu três dos maiores apagões da História. O Brasil ainda lembra o apagão de 1999 que, à data, foi o maior de sempre. Agora, a Península Ibérica também entrou para a lista de apagões em massa: o desta segunda-feira bateu os recordes na Europa e foi considerado mesmo o incidente mais grave dos últimos vinte anos.
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A lista de países que já viveram apagões é longa, mas há alguns casos que se destacam, por diferentes motivos e pelas reações que desencadearam. Em alguns houve caos, pânico e foi declarado o estado de emergência. Noutros, houve prevenção, apelos à calma e uma rápida reposição da ordem.
Ainda assim, parece haver um fio em comum nos vários apagões que pontuam a História. Os eventos desta dimensão levaram — na maior parte — a uma reflexão sobre as causas, as consequências e as mudanças necessárias para evitar que o cenário se repetisse.
O mais recente: Chile, 2025
Não é preciso recuar muito no tempo para encontrar um apagão muito semelhante ao que a Península Ibérica teve esta semana. Às 15h16 locais do dia 25 de fevereiro de 2025, catorze das dezasseis regiões do Chile ficaram sem eletricidade, afetando mais de 90% da população chilena. Os motivos foram mais tarde identificados numa avaria eletrónica que causou uma desconexão numa linha de alta-tensão.
A eletricidade só foi restabelecida — na maior parte do país — no dia seguinte. Para enfrentar uma noite sem energia, o Presidente Gabriel Boric declarou o estado de emergência e um recolher obrigatório que esteve em vigor das dez da noite às seis da manhã do dia 26 de fevereiro. Tal como em Portugal, várias pessoas tiveram de ser retiradas do metro e de elevadores e as redes móveis estiveram desligadas. Na capital, Santiago, uma montanha-russa teve de ser evacuada: a carruagem tinha parado no topo da diversão.
▲ Polícia regula trânsito depois de apagão no Chile
ELVIS GONZALEZ/EPA
O maior de sempre: Índia, 2012
O “tamanho” de um apagão é medido pela quantidade de pessoas afetadas. Neste sentido, o maior apagão é o do verão de 2012 na Índia, em que mais de 700 milhões de pessoas ficaram sem eletricidade nos dias 30 e 31 de julho. As redes elétricas indianas (são cinco ao todo, quatro delas interconectadas) tinham tido quebras várias vezes ao longo desse mês. Aliás, os apagões são relativamente comuns na Índia, Paquistão e Bangladesh — fenómeno atribuído à rede insuficiente para a dimensão da população e ao facto de estar muito envelhecida. Em julho de 2012, o calor extremo e o aumento do consumo de energia para lhe fazer frente sobrecarregou a rede levando ao corte de energia.
O calor extremo também ajuda a explicar o clima de instabilidade social que os sucessivos apagões geraram: protestos, vandalismo e até ataques e sequestros de membros da empresa de energia nacional. À data, chegou a temer-se que o apagão geral causasse motins, mas a agitação não chegou a esse ponto. Ainda assim, os efeitos fizeram-se sentir: centenas de mineiros ficaram presos durante horas, uma vez que os elevadores não funcionavam e num hospital nos arredores de Nova Deli, os geradores falharam e obrigaram os profissionais de saúde a prosseguir com operações em pelo menos 15 doentes — todos sobreviveram.
Um dos mais mortíferos: nordeste americano, 2003
Os Estados Unidos e o Canadá estão familiarizados com apagões: as quebras na rede elétrica são frequentes devido aos furacões e incêndios florestais. Contudo, o maior foi a 14 de agosto de 2003, em que mais de 50 milhões de norte-americanos ficaram sem eletricidade durante mais de 24 horas — em algumas zonas, a eletricidade só foi restaurada ao fim de quatro dias.
O apagão teve origem numa acumulação de fatores numa central elétrica no Ohio, Estados Unidos. Um incêndio fez com que algumas árvores caíssem sobre cabos de alta tensão, ao mesmo tempo que um erro informático foi detetado tarde demais o que causou uma quebra de energia nesta central. Isso gerou um efeito cascata que afetou dezenas de centrais numa das zonas mais populosas da América do Norte — que se estende de Nova Iorque a Ontário no Canadá.
Para além da extensão — que à data o tornou no segundo maior apagão de sempre –, este exemplo destaca-se pelas mudanças que gerou. Por um lado, um estudo posterior revelou que quase 100 pessoas morreram devido ao apagão. Algumas mortes foram consequências diretas, como atropelamentos (devido à ausência de semáforos), incêndios (causados por velas que pegaram fogo a casas) e inalação de monóxido de carbono. Mas o estudo também registou um aumento de doenças cardiovasculares e respiratórias crónicas causadas por inalação de fumo e, em alguns casos, pela ansiedade de pessoas que ficaram presas em elevadores e no metro. Por outro lado, assistiu-se a uma reconfiguração da rede elétrica e a mudanças na infraestrutura energética para evitar que o efeito dominó se repetisse.
▲ A famosa torre de Tóquio apagada na sequência do apagão
Getty Images
Um caso na Europa: Itália e Suíça, 2003
Um mês depois de o nordeste americano ter ficado mergulhado na escuridão, o cenário repetiu-se deste lado do Atlântico. No dia 28 de setembro de 2003, mais de 55 milhões de pessoas ficaram sem energia em Itália e em partes da Suíça — até ao apagão ibérico desta segunda-feira, este era o pior da Europa. O apagão deu-se de madrugada e apanhou milhares de pessoas, que celebravam a Noite Branca nas ruas de Roma, desprevenidas e sem forma de regressar a casa. Também na capital, o Vaticano foi obrigado a recorrer a um gerador para que o Papa João Paulo II pudesse proclamar novos cardeais.
Ao longo do dia, a eletricidade foi sendo reposta: primeiro na Suíça, depois no norte de Itália, seguindo-se a capital e só ao cair do dia no sul do país. A causa viria a ser identificada numa tempestade que fez cair uma árvore em cima de uma linha de tensão na Suíça, que abastecia Itália. O país procurou recorrer a outra ligação, mas esta acabou sobrecarregada e também falhou. Contudo, esta segunda linha também alimentava a Áustria, a Eslovénia e a Croácia e os países não sofreram apagões semelhantes. O incidente pôs a nu a dependência italiana da eletricidade estrangeira e levou a um debate sobre o aumento da independência energética — semelhante ao que Portugal vive agora.
Um apagão curto e a prevenção: Japão, 2022
Se os restantes casos têm em comum o caos que se instalou na sequência do apagão, o do Japão distingue-se pelos motivos opostos. No dia 16 de março de 2022, a costa nordeste do Japão foi sacudida por um sismo com magnitude de 7,4 na escala de Richter, que obrigou várias centrais energéticas a cessar atividade. Na sequência disso, uma grande parte da região de Tóquio ficou sem luz. O apagão foi curto: na manhã seguinte, a eletricidade já tinha regressado.
À diminuição da produção energética causada pelo sismo, somou-se um aumento do consumo provocado pelo frio que se fazia sentir. A situação ameaçava gerar novos apagões, mas esses nunca se verificaram, devido à ação do governo. O ministro da Economia apelou às pessoas e às empresas que cortassem os consumos. As lojas desligaram as montras, a televisão pública desligou as luzes nos estúdios, a torre de Tóquio permaneceu às escuras e a temperatura dentro dos edifícios públicos foi reduzida. O consumo baixou e novos cortes de energia foram prevenidos.