Era uma vez no Castelinho. Quem tem medo dos fantasmas do Estoril?

21 Maio 20161.405

Diz-se que há fantasmas em várias casas ao longo da linha de Cascais. Mas nenhuma será tão charmosa como o Castelinho. E estas paredes contam muito mais do que histórias de terror...

— Epá, pareceu-me que a janela ainda agora estava aberta.

— Não estava nada. Estás a ver coisas.

Não é preciso grandes teimas. Uma olhadela rápida à máquina fotográfica e esclarecemos já o assunto. Nada. Janelas bem fechadas. Nem sinal de movimento.

— Mas agora está aberta, não há dúvida!

Pois é, agora não há volta a dar: a janela está escancarada. Mas logo se fecha abruptamente. Temos fotografias para comprovar o fenómeno. Fazemos zoom e nada. Na janela aberta, não se vê vivalma, só negrume. Abre-se de novo a caixilharia de alumínio, fecha de repente e vem de lá a correr um gato cinzento a toda a velocidade. Nós não acreditamos em bruxas, pero que las hay…

Pensar em fantasmagorias junto ao mar azul de São Pedro do Estoril parece quase criminoso. A vista para o Atlântico, para a baía de Cascais e para a Outra Banda não trazem assombrações à memória, só o sonho de dias mais quentes e felizes. Ainda assim, nesta moradia semelhante a um castelo que se debruça sobre os penhascos, consta que há fantasmas. E aquela janela… Tocamos à campainha, ninguém responde. Deve ter sido só o vento…

casa assombrada,

Ei-lo! Este gato saiu a correr de cima das ameias do Castelinho… (Fotografia: HUGO AMARAL/OBSERVADOR)

Esta casa chama-se Castelinho Nossa Senhora de Fátima e presta-se a histórias de fantasmas, tal é a arquitetura do local. Foi vendida esta semana por cerca de três milhões de euros. E, a acreditar nas histórias que correm entre os moradores da linha de Cascais, vem com o extra de uma assombração. Mas há várias versões. Ricardo, 32 anos passados no Estoril, sempre ouviu que, um dia, “uma miúda dançava na berma da casa e caiu ao mar”. Desde então, “dizem que por vezes se vê a miúda a dançar” à beira da falésia, explicou ao Observador.

Ricardo nunca viu nada, mas José Castelo Branco diz que sim. O socialite já revelou em várias entrevistas que esteve quase a comprar o Castelinho em 1983, mas bastou-lhe uma visita ao local para desistir da propriedade. Ao chegar, Castelo Branco terá visto uma menina a brincar com outras crianças junto à falésia e sentiu-se impelido a atirar-se ao mar. Não se atirou nem comprou a casa, que esteve abandonada durante muitos anos.

Junto ao Castelinho, ainda antes de vermos janelas a mexer-se misteriosamente, um homem estaciona, sai do carro e põe-se a olhar para o mar. Felizmente, parece não ter qualquer vontade de se atirar por ali abaixo. Explica-nos que costuma fazer pesca submarina naquelas bandas e nunca ali viu fantasmas, só o o entra e sai normal da vida dos vivos. Histórias de terror, aqui? “Isso é mito”, atira, sem sombra de dúvida na voz.

Eis mais uma versão da história, também corrente entre estorilenses e cascalenses: a menina que caiu ao mar era cega e não morava no Castelinho, mas numa outra casa mais afastada. Ainda segundo a lenda, os pais, em homenagem à filha desaparecida, teriam dado o imóvel a um instituto de apoio a cegos.

A casa do tiflólogo

Lá está a realidade a estragar uma boa história. A pouco mais de meia centena de passos do Castelinho existe uma casa bastante mais simples, sem ameias nem janelas neogóticas. Ali funcionou, de facto, um centro de apoio a pessoas cegas, mas a lenda descarrila na parte sobre terem sido os pais da menina a deixar a casa para esse fim. Não é verdade. O terreno esteve vazio até 1913, altura em que se construiu, propositadamente, um edifício para albergar o Instituto de Cegos Branco Rodrigues. O Castelinho só viria a existir 14 anos depois.

As pessoas invisuais entram nas histórias de terror associadas a esta zona por via do Instituto Branco Rodrigues, que funcionou naquele prédio junto ao mar até aos anos 70. O terreno era de Florinda Leal, pessoa importante de São João do Estoril, que decidiu ceder o espaço a José Cândido Branco Rodrigues, tiflólogo. A tiflologia é um palavrão complicado para definir o estudo das formas de ensino de pessoas cegas. Trocado por miúdos: Branco Rodrigues dedicou toda a vida a invisuais. Começou por fundar o instituto em Lisboa e depois levou-o para o Estoril. Foi ainda responsável por um jornal para cegos, uma escola especializada no Porto e pela introdução da escrita braille em Portugal.

IBR

D.R.

Um ano antes da construção do Castelinho (já lá vamos), Branco Rodrigues morreu. Foi em 1926. No testamento, o tiflólogo deixou o instituto à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que ficou com a responsabilidade de manter as portas abertas. Para que não restassem dúvidas, aliás, isso mesmo foi escrito num Diário do Governo da época. A Santa Casa manteve ali o instituto até aos anos 70 e depois mudou-o para a Parede, outra freguesia do concelho de Cascais, onde ainda hoje funciona o Lar Branco Rodrigues. O prédio junto ao mar ficou anos ao abandono e até chegou a arder parcialmente. Atualmente, está em obras. Vai ser um edifício de apartamentos.

casa assombrada,

O antigo edifício do Instituto Branco Rodrigues está a ser transformado num prédio de habitação. (Fotografia: HUGO AMARAL/OBSERVADOR)

I ain’t afraid of no ghosts

Quem se afasta de Lisboa pela Marginal, em direção a Cascais, é brindado por um conjunto de palacetes, chalets e mansões, que são testemunhas de uma época em que a realeza e a alta burguesia iam a banhos nas praias da linha e por lá ficavam. O Castelinho é um desses exemplos e não é o único sobre o qual pairam histórias de assombrações.

Quando esta moradia foi construída, em 1927, o estilo neogótico já estava a passar de moda. Ainda assim, o arquiteto original — cujo nome se desconhece –, talvez inspirado pela paisagem, decidiu apostar nas ameias de estilo medieval, nas janelas com arco em ogiva, nos varandins sobre o mar, nas guaritas, nas torres pontiagudas e arredondadas. Diz-nos a Câmara Municipal de Cascais que o projeto não caiu bem junto dos serviços e por isso houve um projeto de alterações, “mas que praticamente não alterou a fisionomia do conjunto”. Esse projeto vinha com uma assinatura então desconhecida, mas que mais tarde seria valiosa: Jorge Segurado.

Filho de engenheiro e irmão e pai de arquitetos, Jorge Segurado foi uma das mais importantes figuras do modernismo português, a par de Cassiano Branco, Cristino da Silva, Pardal Monteiro e Carlos Ramos. Escreve o arquiteto José Manuel Fernandes que Segurado “esteve ligado, desde cedo, à atividade cultural da sua geração, inovadora e de rutura”, mas nem sempre foi assim. Em 1927, estava no início da carreira e provavelmente devido à admiração por Raul Lino — autor de muita literatura sobre as casas tradicionais portuguesas e da famosa Casa dos Patudos, em Alpiarça — pouco terá mexido nos desenhos do Castelinho.

O nome de Jorge Segurado ficou ligado ao primeiro projeto do Estádio Nacional (nunca concretizado), a vários pavilhões de Portugal em exposições internacionais, aos projetos do Liceu Filipa de Lencastre, da Casa da Moeda e do Colégio de Santa Doroteia, em Lisboa, e a vários projetos na Covilhã, Viseu, Vendas Novas, Caldas da Rainha e outros locais do país.

A casa Cebola

Se há fantasmas no Castelinho, fica à consideração de cada um. Inegável é o facto de o primeiro dono da casa ser uma figura quase fantasmagórica na História de Portugal. Já ouviu falar de Luís Cebola? Foi ele que mandou construir esta moradia que beija o mar. Mas mais do que isso: republicano convicto, foi um importante psiquiatra que conviveu grande parte da vida com padres.

Nos últimos meses de 1910, quando a República ainda era uma menina que estava a aprender a andar (e que talvez fosse um pouco cega), o ministro da Justiça Afonso Costa estava empenhado em reduzir a presença e influência das instituições religiosas em Portugal. Os frades da Casa de Saúde do Telhal, instalada pela Ordem Hospitaleira de São João de Deus, em Sintra, no final do século XIX, temiam que o encerramento da casa e a expulsão fossem um destino inevitável. Nessa altura, estavam longe de imaginar que seriam chefiados por um homem que, uns anos antes, convivera de perto com Miguel Bombarda, uma das figuras mais icónicas do movimento republicano. Além de partilharem os ideais da República, Luís Cebola e Miguel Bombarda trabalharam juntos no primeiro hospital psiquiátrico do país, onde Cebola investigou A mentalidade dos epilépticos, a tese que o lançou na carreira médica.

Segundo as informações prestadas pela Ordem de São João de Deus, Afonso Costa foi ao Telhal visitar um amigo que ali estava internado e, se tinha intenção de mandar fechar a instituição, logo mudou de ideias. No segundo dia de 1911, o ministro nomeou o amigo Cebola como diretor clínico da Casa do Telhal. Na sua autobiografia, Memórias de Este e do Outro Mundo, Luís Cebola admite que aceitou o convite porque acreditava na República e considerou que esta era uma boa forma de a servir. “Apesar de ter sido enviado para esta casa de saúde pelo regime republicano, sempre teve uma relação de respeito e amizade com os irmãos de S. João de Deus, comprovada pelos 37 anos” que passou no Telhal, esclarece a responsável pelo Museu São João de Deus, anexo à instituição.

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Luís Cebola esteve até 1949 na Casa do Telhal (Fotografia: D.R.)

Pela quantidade de anos que passou no Telhal, mas sobretudo pela investigação médica e pelo desenvolvimento da própria casa de saúde, Luís Cebola deixou marca na Ordem de São João de Deus, mas continua a ser uma figura “largamente ignorada” e “raramente mencionada nos estudos históricos” sobre psiquiatria, escreve Denise Pereira, investigadora da Universidade Nova de Lisboa. O médico psiquiatra abandonou o Telhal em 1949, com 72 anos, e morreu em 1967.

O Castelinho, casa que Cebola habitou durante décadas — e que está registada nos arquivos da câmara de Cascais precisamente como “chalet do dr. Cebola” — é mais famoso do que o homem que a mandou erguer. E a culpa não é só dos fantasmas. As sete assoalhadas, os 1.600 m2 de terreno, a piscina, o jardim verde, o grande terraço junto à torre, a vista para o mar, aquele encanto fin de siècle têm o condão de fazer esquecer qualquer biografia.

E há ainda uma última personagem improvável ligada ao Castelinho que vale a pena referir: uma estrela da televisão russa. Nana Hernandez Getashvili é designer, arquiteta, decoradora e apresentadora de um programa semelhante ao “Querido, mudei a casa” na Rússia. Foi a ela que coube, em 2006, remodelar e redecorar o Castelinho, por iniciativa dos proprietários de então.

Se ficou com o bichinho de ter o Castelinho, desta vez já não vai a tempo — foi vendido. Se ficou com o bichinho de uma casa idêntica mas não quer ter nada a ver com fantasmas e assombrações, há outro chalet à venda, não muito longe do Castelinho, no Monte Estoril. É a Casa da rainha D. Maria Pia, uma charmosa propriedade com frescos nos tetos e nas paredes e uma varanda com vista para a famosa Praia da Rata. Basta ter 14 milhões de euros para gastar.

Texto de João Pedro Pincha, fotografia de Hugo Amaral, ilustração de Andreia Reisinho Costa.
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