Se tivéssemos que resumir Filho da Mãe a um princípio teórico, poderíamos dizer que ele é um universo em permanente expansão, que evolui a partir dos modelos da constância e da obsessão técnico-criativa. De disco para disco a matriz não se altera. É ela que nos providencia o conforto de reconhecer uma obra sua logo aos primeiros cinco segundos de audição. Porém, todos os elementos que gravitam à volta dessa matriz são irrequietos, formam elos entre si cada vez mais complexos que nos sugerem múltiplos pontos de fuga cuja finitude parece inalcançável.
“Uma vez, um amigo disse-me que eu de disco para disco estava a tentar aprumar alguma coisa, a chegar a algum sítio”, partilha Rui Carvalho, nome próprio deste alter-ego nascido em 2011 com Palácio” e, que de lá para cá, já editou cinco álbuns. Terra Dormente é o sexto capítulo de uma “história em contínuo” e que tem sido escrita de dorso curvado sobre um braço de madeira e seis cordas, mãos, cabeça, tronco, membros e coração todos depositados naquela boca de ressonância como se o mundo se fosse desintegrar no acorde seguinte. “É uma música ligada ao corpo, ao movimento das coisas e a uma explosão qualquer que está prestes a acontecer.”
Tocar, para ele, é um ato catártico. Já o era quando andava a partir tudo e a estardalhar guitarras elétricas com os If Lucy Fell e continua-o a ser agora que é um homem solitário em palco. “Em Filho da Mãe talvez as coisas implodam um bocadinho mais do que explodam de facto”, diz, referindo que a carga emocional neste projeto é muito maior. “Às vezes até é um bocado pesado”. Tocar com outras pessoas ainda lhe é mais natural do que fazê-lo sozinho, mas à medida que os anos foram passando, o desafio “acabou por viciar”: “Só me apetece fazer mais e melhor. Acho que me fui habituando cada vez mais a ser Filho da Mãe”.
[“A Um Osso”, o primeiro single do novo álbum de Filho da Mãe, “Terra Dormente”:]
Entre o sonho e a realidade
Filho da Mãe é o tipo que toca guitarra clássica fazendo-nos lembrar a espaços Paredes. “Ouve-se Carlos Paredes com alguma frequência ao longo dos discos porque eu ouvia-o mesmo muito”. Mas nele há também as “Asturias” de Albeniz, os estudos de Leo Brouwer, o “Prelúdio em lá menor” de Baden Powell ou o flamenco de Paco de Lucía. No seu jeito de tocar há jazz, rock, bossa nova, blues do Mali, tem tudo o que aprendeu com a “Guitarra Mágica” de Eurico Cebolo ou com o pai, também ele guitarrista e músico de saber ler e escrever pautas, ao contrário de Rui, que foi explorando o instrumento de uma forma algo furtuita, admite.
“É provável que apareça alguma coisa nos dedos que sugira isso”, anui sem, contudo, se colar a nenhum nome ou estilo. “Os nossos ouvidos são muito permeáveis e na nossa música acabam sempre por aparecer uma data de outras coisas”. Tudo se mistura e, no final, o que encontramos é uma linguagem única, inimitável. “Comecei a ganhar o meu espaço e as pessoas aperceberam-se de que a minha maneira de tocar é mesmo minha”.
Essa maneira manifesta-se como se ele tivesse uma ânsia permanente e inata de explicar qualquer coisa ao mundo. As suas ideias, ao invés de se materializarem em palavras, fluem pelos trastes. Por isso os seus discos são como livros, narrativas que se constroem entrelaçando várias músicas.
Há sempre um lado pessoal em cada obra, “uma pessoa pode bem tentar fugir de si própria quando faz as coisas, mas acabamos sempre por falar de nós”, embora o abstracionismo da música instrumental dê aso a que cada pessoa tome para si o que ele compôs. “Toda essa liberdade é uma coisa que muitas vezes não se encontra numa banda e, nesse sentido, Filho da Mãe é muito especial”.
Neste Terra Dormente, a tensão dramática move-se entre o sonho e a realidade. “Queria falar dessa sensação de estar entre dois mundos e não percebermos muito bem onde é que está a realidade. Há um momento em que não sabemos muito bem se estamos acordados ou se estamos a sonhar”, explica, puxando para a conversa a imagem dos dois últimos anos, em que a pandemia fez das nossas vidas uma tela surrealista de Dali: “Daí o ‘Terra Dormente’. O chão em que estamos a pôr os pés parece ele próprio dormente. Não sabemos exatamente onde é que estamos a pisar e temos que caminhar por uma faixazinha muito pequenina, fechada entre dois mundos, que, de vez em quando, se confundem”.
A capa, com composição gráfica do estúdio lisboeta DESISTO e ilustração de Cláudia Guerreiro, baixista dos Linda Martini e mulher de Rui Carvalho, reflete na perfeição essa ideia. “Ela tem estado sempre muito diretamente envolvida nos álbuns e é a pessoa com quem mais vou falando à medida que vou desesperando no processo criativo”, conta. Os dois, aliás, têm o projeto A Azenha, onde exploram a ligação entre a música e a imagem. “Fundimos muitas vezes as duas coisas” e Terra Dormente, como já tinha acontecido com Água-Má (2018) e Mergulho (2016), de forma mais evidente, e com os restantes discos, com ilustrações no interior ou fotografias a partir de trabalhos de Cláudia, não é exceção.
▲ “Há quem me chame Filho da Mãe na rua e parece que há uma entidade que toma conta de mim, mas também sinto falta do Rui. Estas duas pessoas existem, às vezes de uma maneira diferente”
O disco começa com “Sonho”, dedilhado que se repete como sino frenético de igreja, ora estrondoso e decidido, ora calmo, até se esfumar levemente no ar, entreabrindo as portas para a trilha que se segue. Ao longo das 14 faixas, instala-se a dúvida permanente, entramos na confusão que Filho da Mãe quis propositadamente provocar, até que somos levados pela “Corrente”, faixa final que nos liberta de todas as inquietações. Ou talvez não. “Há aqui outra ideia da duplicidade das coisas, porque a corrente tanto é uma coisa que leva e flui livremente, como te prende.”
Entre Rui e Filho da Mãe: existir ou não existir, eis a questão
Não há forma de escaparmos a estas ambiguidades com que Filho da Mãe tão subtilmente tricotou o álbum. A reflexão e o autoquestionamento são, portanto, uma constante neste disco e isso percebe-se melhor quando Rui nos explica como é que chegou até aqui. “A ideia original vem de uma pessoa que me era muito próxima e que estava num estado de confusão mental muito grande e que não me reconhecia. Lembro-me perfeitamente de tentar convencer essa pessoa de que eu era eu e de não conseguir. Faltaram-me argumentos e naquele momento, de um determinado ponto de vista, parecia que tinha deixado de existir.”
▲ A capa de "Terra Dormente", o novo álbum de Filho da Mãe, a editar a 8 de abril (pré-apresentação ao vivo esta quarta-feira, dia 16 de março, na Culturgest Lisboa)
Essa “sensação esquisita” nunca mais lhe saiu da cabeça e acompanhou-o durante todo o processo de composição, entre Estremoz, Gafanha da Nazaré, em Ílhavo, e Lisboa, onde gravou no Musicbox e na Fábrica do Pão. Foram dois anos em que procrastinou e desesperou à vontade, brinca, ao ponto de muitas vezes se questionar se estaria de facto a compor o mesmo disco ou a fazer um completamente novo a cada nova residência. “Mas no final percebi que estive sempre a fazer o mesmo disco. Do início até ao fim a ideia mantém-se coerente e isso foi uma descoberta muito interessante e um alívio”, desabafa.
Desta amálgama de momentos deu-se um encontro muito peculiar, entre Filho da Mãe e Rui Carvalho. “Eu sei que parece que preciso de uma ida ao psiquiatra”, ri-se como se riria certamente Fernando Pessoa nos intervalos dos seus tormentos, com as vozes dos seus heterónimos sempre ecoarem na cabeça. “Há quem me chame Filho da Mãe na rua e parece que há uma entidade que toma conta de mim, mas também sinto falta do Rui. Estas duas pessoas existem, às vezes de uma maneira diferente”.
A forma como Filho da Mãe trouxe a persona do Rui para este disco – “o tipo que agarra na guitarra e toca com outras pessoas” – foi através da guitarra elétrica. Ela é uma presença constante em Terra Dormente, às vezes velada, outras descarada, como em “Supernova” ou “Zeca Eléctrico”, que, nas suas deambulações ao jeito de Dead Combo, tem em si uma pequena melodia singela que poderíamos jurar ser José Afonso a fazer-se ouvir pelos dedos de Rui.
Através de efeitos de reverberação, melodias cantadas ou muita distorção, como acontece em “Noise”, o derradeiro mergulho ao inconsciente ou voo celeste, como lhe queiram chamar, antes de “Corrente”, a guitarra elétrica é o elemento que mais nos atira para o imaginário onírico do disco. Paralelamente, há outras cordas que despontam e nos surpreendem com agrado, como o grave e subtil violoncelo tocado por Cláudia Guerreiro (outra vez ela) em “Entre cá e lá”. “Ela não aprendeu a tocar violoncelo, mas gosta muito de tocar e já fez algumas coisas também em filmes-concerto”.
Talvez por isso esteja muito presente um lado cinematográfico nesta faixa, extensível a todo o disco. Basta ver o vídeo-clip do primeiro single já apresentado, “A Um Osso”, realizado por Ana Viotti, para se perceber isso. A trama completa só conhecerá a luz do dia a 8 de abril, data de lançamento de “Terra Dormente”. Antes disso, porém, a Culturgest, em Lisboa, recebe Filho da Mãe para um concerto de pré-apresentação do álbum. Acontece já esta quarta-feira, dia 16, às 21h (€14). Há também o GNRation, em Braga, agendado para dia 9 de abril. Mais datas só serão reveladas mais lá para a frente.
Por ora, é tempo de enfiarmos os pés e a cabeça em “Terra Dormente”. Talvez possamos sair desta escuta mais elucidados sobre o nosso propósito existencialista, ou então continuaremos como Filho da Mãe, nessa procura obsessiva do sentido da vida e do nosso lugar do mundo. Arriscamo-nos a dizer que o lugar dele é, tal como o de João Bosco, dentro da casca do seu violão. Enquanto ele lá viver, tem-nos a todos nós com ele.