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Alunos frequentam uma aula Direito Constitucional no dia do regresso às aulas na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, no âmbito das novas medidas de desconfinamento relacionadas com a pandemia da covid-19, no Campus de Campolide, em Lisboa, 19 de abril de 2021. Portugal inicia hoje a terceira fase do desconfinamento com a reabertura de mais escolas, lojas, restaurantes e cafés, um levantamento de restrições que não é acompanhado nos 10 concelhos onde a incidência da covid-19 é maior. MÁRIO CRUZ/LUSA
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MÁRIO CRUZ/LUSA

MÁRIO CRUZ/LUSA

Estudar mais ainda compensa para os jovens de hoje, mas impacto nos salários é cada vez menor

Estudo da Gulbenkian conclui que cada ano a mais de estudos sobe o salário dos jovens em 4,8%, metade do que se verificava para os nascidos nos anos 40. E alerta para "efeito cicatriz" da pandemia.

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Para os jovens de hoje continua a compensar estudar mais anos, não só em termos de empregabilidade como também de ordenados. Mas os ganhos salariais (em termos relativos) são cada vez menores se comparados com a geração dos seus pais ou mesmo dos seus avós. É que, por exemplo, quando a geração de 40 (que agora anda na casa dos 80 anos) estava no mercado de trabalho, cada ano adicional de escolaridade refletia-se num aumento salarial médio de 9,7%. Desde então, os ganhos pelo investimento na educação têm-se esbatido e para a geração de 90 (que tem agora menos de 31 anos) podem chegar a praticamente metade (4,8%), mesmo apesar de ser mais escolarizada do que as anteriores.

As conclusões constam no estudo “A Equidade Intergeracional no Mercado de Trabalho em Portugal”, da Fundação Calouste Gulbenkian, divulgado esta quarta-feira. Os resultados “indicam uma tendência pronunciada de redução do prémio salarial da educação, nomeadamente entre as gerações nascidas nos anos 50 (um prémio de 9,1%) e as gerações nascidas nos anos 90 (um prémio de pouco mais de metade, 4,8%)”, lê-se no estudo assinado por Pedro Silva Martins, economista e professor na Nova SBE e ex-secretário de estado do Emprego do governo de Pedro Passos Coelho.

Esta análise teve, porém, apenas em conta trabalhadores empregados, o que pode “subestimar o efeito da educação” no emprego. Por isso, foi feita uma outra análise mais alargada, em que são consideradas diferenças nos períodos de não-emprego. Também aí os resultados apontam no sentido de perda do “prémio salarial”, ainda que não tão pronunciada. “Nesta abordagem de rendimentos totais ao longo da carreira de cada trabalhador, a quebra do prémio salarial verifica-se quase exclusivamente para a geração nascida nos anos 90, com valores de entre 6% e 7%” (em vez de perto de 5%), refere. Ainda assim, “estes resultados confirmam a perspetiva anterior que uma das vantagens da escolaridade é aumentar a probabilidade de emprego, além de aumentar o salário entre aqueles que estão empregados“. Mas enquanto as gerações mais jovens têm níveis de escolaridade mais elevados que as gerações anteriores, “o impacto desses maiores níveis de escolaridade ao nível dos rendimentos do trabalho tem sido menor“.

O documento focou-se nos dados dos Quadros de Pessoal (uma base de dados administrativa com informação sobre trabalhadores e empresas do setor privado) entre 1986 e 2018. Não abrange, portanto, os anos da pandemia.

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Numa apresentação aos jornalistas, Pedro Silva Martins aponta possíveis causas para esta diminuição do “prémio salarial” consoante a escolaridade. Por um lado, há uma certa incompatibilidade entre a procura do lado das empresas e a oferta dos trabalhadores. “Um dos fatores que poderá explicar essa falta de acompanhamento são os perfis, os conteúdos dos cursos, com enfoque em áreas que não têm tanta procura do mercado de trabalho“, diz.

Setores mais “tecnológicos” tenderão a valorizar mais a escolaridade e, como consequência, levar a um aumento do prémio. Mas os trabalhadores em Portugal podem estar a escolher áreas “que têm retornos mais baixos”, como o turismo, a hotelaria e a restauração, onde o emprego estava a crescer antes da pandemia. “Se não houver uma recomposição da atividade económica com crescimento maior dos setores que valorizam mais a escolaridade, em termos médios, essa valorização [salarial] será mais baixa”, indica.

O economista, que foi docente do Queen Mary College, em Londres, dá o exemplo de estudos feitos no Reino Unido que apontam para uma forte disparidade do prémio salarial consoante os cursos: nalguns vão desde aumentos salariais de “15/20%”, noutros rondam “1/2%, até mais baixos do que aqueles que encontramos para Portugal”. Os dados recolhidos para o estudo da Gulbenkian não fazem, porém, esta distinção por cursos para Portugal.

Pedro Silva Martins considera que muitas das decisões dos jovens sobre o seu futuro “são tomadas no escuro ou com pouca informação“. Por isso, argumenta, as políticas públicas devem focar-se em desenvolver sistemas de informação do mercado de trabalho para os jovens, que agreguem dados sobre “as perspetivas dos diferentes cursos para, se assim o entenderem, orientarem as suas escolhas para as áreas que têm, em princípio, maior retorno” salarial.

Pedro Silva Martins foi secretário de Estado Emprego entre 2011 e 2013

Vítor Rios / Global Imagens

Questionado sobre se esta evolução decrescente do prémio salarial ao longo das gerações não pode ser explicada pelo aumento da escolaridade no país (havendo um maior peso da população mais escolarizada, não haverá tanta diferenciação entre trabalhadores), com uma maior convergência de qualificações face a outros países europeus, o economista observa que os valores registados em Portugal “são baixos mesmo em termos europeus, em que tendemos a encontrar valores da ordem dos 6/7%“.

O “efeito cicatriz” nos jovens: como a pandemia pode deixar marcas no resto da carreira

O estudo da Gulbenkian traça ainda outra consequência, particularmente relevante no momento de crise atual. Pedro Silva Martins analisou o papel do ciclo da economia na carreira das várias gerações e concluiu que há um “efeito de cicatriz” do desemprego “na altura de entrada no mercado de trabalho de cada trabalhador”, que “perdura para além do próprio ano em que se dá entrada no mercado de trabalho”. Por outras palavras: os trabalhadores que entram no mercado numa altura em que o desemprego é 5% mais elevado do que a média, vão ter salários 5% mais baixos ao longo de toda a sua carreira.

Risco de desemprego para recém-licenciados subiu em 2020: 5,3% estavam sem emprego

Há um “conjunto de fatores” que explicam esta realidade: a não acumulação de experiência profissional “numa altura crítica da vida laboral” (os primeiros anos após a conclusão dos estudos) ou o “enfraquecimento das redes sociais e profissionais” devido à falta dessas oportunidades profissionais. “Pode ainda ser relevante um efeito de ‘sinal’ negativo junto de potenciais empregadores no futuro, que considerem como menos produtivos aqueles trabalhadores que não conseguiram empregar-se anteriormente“, refere o estudo.

E embora o documento não se foque nos anos da pandemia, Pedro Silva Martins sublinha genericamente, no documento, que a contratação de novos trabalhadores, como aqueles que concluíram os estudos no ano letivo 2019/2020, assim como aqueles que tinham contratos a termo não renovados, “terá sido afetada muito negativamente”. Estes jovens “poderão conhecer dificuldades laborais acrescidas não só agora mas também ao longo dos próximos anos”. Daí que outra recomendação do economista seja que os governos procurem “suavizar o ciclo (macro-)económico, evitando oscilações grandes da taxa de desemprego”, com medidas ativas de emprego dirigidas a jovens desempregados.

É cada vez mais difícil para os jovens descolar do salário mínimo

A situação atual do mercado de trabalho é, assim, particularmente prejudicial para os jovens, que são ‘apanhados’ em diversas frentes: além do “efeito cicatriz” que podem estar a viver na atual pandemia e de menores “prémios salariais” consoante a escolarização, são mais afetados pela precariedade. Por um lado, até 2018, dois terços das pessoas nascidas nos anos 90 tinham contratos a prazo, quase o triplo dos nascidos antes da década de 80; por outro lado, demoram mais tempo a ‘saltar’ para um contrato estável.

As gerações mais jovens estão também a ser mais afetadas por uma certa estagnação salarial em torno do salário mínimo nacional. É certo que os mais jovens tendem a ser menos experientes, mas enquanto nas gerações anteriores, à medida que o tempo passava e essa experiência se acumulava, a remuneração também subia e descolava do salário mínimo, esse comportamento estagnou. “Encontrámos um fenómeno novo que é a estabilidade do peso do salário mínimo entre os trabalhadores mais jovens. A tendência de decrescimento do peso do salário mínimo já não se verifica para os trabalhadores mais jovens, nascidos na década de 90″, nota Pedro Silva Martins, aos jornalistas. Os aumentos do ordenado mínimo nos últimos anos ajudam a explicar esta tendência.

O estudo também chama a atenção para as disparidades no acesso a subsídios de desemprego, doença e parentalidade: enquanto as gerações nascidas nos anos 40 receberam, em subsídios, um valor equivalente a 69% das suas contribuições, para as que nasceram nos anos 60 e seguintes o valor ficou nos 22%. No caso dos jovens, esse é um comportamento expectável. Por exemplo, no que toca ao subsídio de desemprego, o acesso é determinado por um prazo de garantia (o número mínimo de anos de descontos necessários para ter acesso ao apoio).

O que Pedro Silva Martins quer chamar à atenção é que esta desproteção dos jovens não está a ser endereçada pelas políticas públicas, admitindo mesmo que os governos devem considerar o “alargamento” do subsídio de desemprego “junto dos trabalhadores mais jovens” e “evitar a utilização deste como uma ‘ponte’ entre o emprego e a reforma (antecipada ou não)“.

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