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Edição de 2026 do evento organizado pela junta de freguesia tem 99 expositores
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▲Edição de 2026 do evento organizado pela junta de freguesia tem 99 expositores

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

▲Edição de 2026 do evento organizado pela junta de freguesia tem 99 expositores

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Farturas, diversões para as crianças, cerâmicas, comes e bebes. Como é uma tarde de domingo na Feira da Luz, em Carnide

Das louças virais às farturas, dos expositores estreantes aos veteranos: na freguesia lisboeta de Carnide, há muito para ver, ouvir, comprar, comer e beber neste evento anual que une tribos urbanas.

Em cada esquina, farturas. Em todo o quarteirão, pessoas vindas de várias zonas da cidade — e do país. Entre os dias 29 de agosto e 27 de setembro, comerciantes antigos e estreantes tomam conta do Jardim da Luz, na freguesia lisboeta de Carnide. É esta a morada da Feira da Luz, a segunda mais antiga de Lisboa entre as que continuam a ser realizadas — a primeira é a da Ladra, no Campo de Santa Clara. Entre o fumo dos grelhados e muitos balões coloridos, pais e mães levam os filhos às diversões (e também participam em algumas delas), jovens casais compram cerâmicas e famílias passeiam o cão no passado fim de semana, quando foi aberta a edição deste ano da popular feira.

Os típicos comes e bebes portugueses lá estão como é hábito, com filas para comprar e disputa por um sítio para sentar. O comércio neste largo, que ocorre tradicionalmente há mais de 500 anos, teve início por ocasião da romaria de Nossa Senhora da Luz, no século XVI, com a venda de artigos religiosos — participaram nas festividades figuras boémias como o 13º conde de Vimioso e a fadista Severa. Mas foi em 1881 que a feira ganhou outro tipo de comércio que ajudou também a expandir o seu público. Para além de medalhas, santos e rosários, começaram a ser vendidas também louças, frutas, cestos e animais.

Ao longo dos anos, a venda de vacas, bois, ovelhas e galinhas ficou para trás, naquele tempo em que o chão em que pisamos era de terra e não estava ainda coberto por alcatrão. O cariz comercial permanece, desta feita num ambiente cujo foco não é só o consumo, mas também o convívio social e entretenimento do público — que não se limita apenas aos moradores de Carnide. Há um cartaz de concertos e atividades gratuitas para pessoas de todas as idades. No fim da tarde do passado domingo, eram vários os idosos sentados em frente ao palco a assistir às apresentações de dança e canto. Juntos, acompanhavam em coro um dos grupos folclóricos a cantar Cheira a Lisboa, de Amália Rodrigues. Em seguida, as cadeiras foram retiradas para dar lugar a uma aula de danças latinas, com famílias e casais a tentar repetir os passos da instrutora presente.

A poucos passos dali, quando o sol se começa a pôr, forma-se uma grande fila numa das zonas de restauração, cujas bifanas custam entre 4,50 euros e 6 euros. Naquela que tem o preço mais alto, enquanto uma senhora atende aos pedidos, um rapaz prepara a massa do pão que vai ao forno — a receita, refere em letras grandes o placar desta roulote, é ribatejana. Uma fila forma-se também na Roulote Do Pastel, que vende salgados brasileiros fritos. O pastel (que faz lembrar o de massa tenra), grande e bem recheado, custa 5 euros nos sabores carne, queijo ou pizza (queijo, fiambre e orégãos). Há ainda um copo com 10 pequenos salgados fritos como coxinha e bolinha de queijo por 4 euros.

▲ Grupos de música e dança apresentam-se durante a feira; Farturas estão entre os doces mais pedidos; Roulotes de grelhados têm zona com mesas e cadeiras; Crianças brincam em insufláveis.

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Entre as sobremesas, está concorrida a banca de açaí (que ajudou a refrescar aquela tarde quente) e as Panquecas do Fábio, que viralizaram nas redes sociais: um prato com vinte mini panquecas, que podem levar toppings como chocolate, biscoitos ou creme de avelã custa 5 euros. A poncha da Madeira foi a escolha de alguns para um brinde. Para comer no momento ou levar para casa, pode-se escolher ainda entre petiscos e receitas regionais como pães de Mafra, doces regionais de Viseu, queijadas de Sintra, torrão de Alicante ou enchidos fumados de Mirandela. Há mais gente a pedir comidas e bebidas que assentos nas mesas coletivas, mas aqueles que estão sentados não se importam de se apertar um pouco para para abrir espaço para quem está de pé.

A solidariedade nesta feira não está presente só entre o público: é também o que dá nome à banca de um dos expositores. Na “Livraria Solidária“, encontram-se títulos variados com preços entre 1 e 5 euros, e há também sacos de pano com alças (5 euros) e cadernos (6 euros) estampados com a temática literária. A receita das vendas é revertida para a associação cultural sem fins lucrativos Boutique da Cultura, de Carnide. Do outro lado desta “rua” da praça, há mais uma proposta de venda de artigos usados.

É o primeiro ano em que Carla Brites, que vive em Telheiras, está a expor na feira. Para tal, escolheu um setor que a encanta: o da moda em segunda mão. Em charriots, a reformada no setor da cultura selecionou do seu próprio armário e de bazares que costuma frequentar algumas peças para rapazes e raparigas, gangas e sapatos, que cá são vendidos a preços entre 3,50 euros e 5 euros. “Faço isto por gosto e pela sustentabilidade“, diz, bem disposta.

▲ Artigos em segunda mão: as roupas e sapatos de Carla Brites, estreante na feira; livros da Boutique da Cultura

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

E é mesmo preciso gostar de ali estar, do que se está a vender ou ser resistente, afinal, são 30 dias de feira: com o comércio todo a funcionar de manhã até à noite, com chaminés a soltar o fumo das grelhas e senhores com microfones a atrair os peões para os “carros dos prémios”, onde prometem que “sai sempre prémio” para os apostadores — a recompensa, a depender da sorte, pode tanto ser um pequeno peluche como também uma air fryer. Este ambiente com tantos estímulos visuais, olfativos e sonoros pode ser um desafio para a estreante Carla, especialmente devido ao peluche de cão que está na banca ao lado da sua — o brinquedo que emite o som de latidos parece ter uma bateria infinita para chamar a atenção das crianças que passam e também para possivelmente incomodar os ouvidos mais sensíveis.

Mas se depender dos “Chás da 5 Energias”, um dos expositores na mesma via em que Carla está instalada, este possível stresse e qualquer outro sintoma têm cura. Há uma variedade de ervas, vendidas em sacos transparentes com etiquetas que revelam qual é a “cura” que o conteúdo da embalagem promete. “Perder peso”, “má circulação”, “gripe, rinite e sinusite”, “falta de energia”, “hemorroidas”, “prisão de ventre” e “tensão alta” são algumas das opções. Há ainda um que promete ser “afrodisíaco”. O folheto entregue aos interessados pelos chás ostenta uma extensa agenda de feiras e mercados do país que esta loja tem por hábito percorrer.

No sentido oposto à calma de quem busca por uma cura milagrosa, folheia os livros ou espreita os cabides de roupas, há uma azáfama de gente. Os gritos do vendedor a anunciar que tudo o que ali está custa “só um euro” chamam a atenção de quem passa. São várias as pessoas a acotovelar-se para ver bijuterias numa mesa. Nas bancas ao lado, não há a mesma procura efusiva pelas bolsas e carteiras que fazem lembrar as de marcas de luxo conhecidas. Numa outra banca, destacam-se as cuecas com a inscrição “Ghain & Klean”. Pela feira, caminham agentes da Polícia de Segurança Pública, sem que se aviste alguma operação com os vendedores e os produtos que estão a comercializar.

▲ Carros dos prémios; venda de bijuterias a 1 euro; malas e carteiras

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Um dos setores que faz mesmo sucesso é o da olaria. Tal fama foi impulsionada principalmente por vídeos publicados sobre a Feira da Luz nas redes sociais nos últimos anos, atraindo jovens casais e recém-saídos da casa dos pais à procura de louças a preços económicos. Um conjunto de seis pratos, por exemplo, custa 20 euros numa das bancas. E há opções para todos os gostos: de peças minimalistas às louças tradicionais de barro e ainda as que remetem às criações de Bordallo Pinheiro, entre muitas tigelas em formato de frutas, legumes e esculturas de animais.

Entre os mais antigos vendedores de cerâmica neste evento em Carnide está Olímpio Ribeiro, de 58 anos, que participa há 45. O alentejano de Redondo que começou a vender tabuleiros, pratos e canecas de cerâmica com o seu pai é hoje acompanhado pela filha. Um dos artigos mais procurados, revela Olímpio, é o assador de chouriço. A família Ribeiro chegou a percorrer 23 feiras num ano, mas agora escolheu estar presente apenas na Feira da Luz, onde resistiu às crises financeiras do país e ao fecho por dois anos devido à pandemia de Covid-19.

▲ Olímpio Ribeiro vende louças na Feira da Luz há 45 anos

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Mesmo com o trabalho diário na venda das cerâmicas, Olímpio encontra sempre um tempo durante a feira para “dar uma voltinha” no Largo da Luz e comer uma fartura (que em algumas das roulotes é vendida a partir de 1,50 euros), o seu doce favorito neste sítio — e não parece estar sozinho nesta preferência, a considerar a quantidade de pessoas a pedir o mesmo. O segredo para continuar a vender após quase cinco décadas, admite, “é gostar de estar cá”.

Um dos seus vizinhos na feira, o oleiro Jorge Ferreira, de 72 anos, parece concordar: está cá anualmente há 25 anos. Os trabalhos que aprendeu a fazer ainda em criança com o pai (e que foram também ensinados à mulher, ao filho e à nora) até hoje chamam a atenção dos populares. “Gostam mais das peças tradicionais“, diz, ao mostrar a variedade das suas criações em barro, que vão das andorinhas para decorar as paredes aos cinzeiros, vasos para plantas, copos, pratos e tabuleiros. Ainda no setor de artigos para casa, há quem seja atraído na parte de têxtil-lar por preços como duas almofadas por cinco euros, colchas a 10 euros e edredão de casal por 25 euros.

▲ O oleiro Jorge Ferreira, de 72 anos, leva as suas criações para o evento em Carnide há 25

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Apesar do grande fluxo de pessoas e filas, o público parece seguir o conselho de um dos azulejos decorativos vendidos numa das bancas: “freguês educado / não cospe no chão / não pede fiado / não diz palavrão”.

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