Crítica de Livros

Severa e a constante roda viva entre “o selim e a mulher” de um marialva

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Romance histórico sobre uma mulher, “O Fado da Severa” dá-nos também um belo retrato do tempo e do modo da sociedade lisboeta dos finais da primeira metade do século XIX e do Portugal do liberalismo.

“O Fado”, pintura de José Malhoa datada de 1910, é porventura o quadro mais icónico de sempre da canção de Lisboa

Autor
  • Jaime Nogueira Pinto

Título: “O Fado da Severa”
Autor: Maria João Lopo de Carvalho
Editora: Oficina do Livro
Páginas: 392
Preço: 16,90€

Júlio Dantas foi o responsável pela imagem icónica da popular cantadeira de fado ao publicar, em 1901, a peça de teatro A Severa. É uma história trágico-romântica inspirada nos poucos factos disponíveis, uma história de amores desencontrados e trágicos, que lembra passos da Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, um drama famoso em que uma cortesã parisiense, Marguerite Gautier, se apaixona por um jovem de boas famílias, Armand ­ Duval; Marguerite renuncia a Armand em nome da moral e dos bons costumes, mostrando-se deste modo integrada na ordem política e social do tempo. Tudo isto em Paris, em 1848, ano, na Europa, da “revolta das nações”. Verdi compôs depois La Traviata, glosando a história. Era muito assim, nesse oligárquico e burguês século XIX: fosse em Flaubert (Madame Bovary), em Tolstoi (Anna Karenina), em Eça de Queiroz (O Primo Basílio) ou em Fontane (Effie Briest), as mulheres adúlteras acabavam mal: Emma Bovary e Ana Karenina suicidam-se, Luísa morre de culpa e doença, e Effie morre também, marginalizada pela família, pela sociedade e pela própria filha.

Eça inspirou-se em Flaubert, como Dantas em Dumas Filho. A França era ainda o viveiro de todas as ideias e de todas as histórias.

Por aqui, as conveniências sociais também chegaram à Severa de Dantas mas diferentemente, porque a heroína já era desgraçada de nascença. A peça conta a história dos amores marginais entre uma cantadeira de fado, Maria Severa Onofriana, e um aristocrata, o conde de Marialva, D. João de Menezes.

E é aqui que entram as conveniências sociais: os Marialva, qualquer dos marqueses de Marialva, do primeiro ao último, foram militares, diplomatas, académicos, cavaleiros e muito pouco de Severas, de copos, de noitadas, de fados e guitarradas – do grande vencedor das linhas de Elvas e de Montes Claros nas guerras da Restauração a D. Pedro José Joaquim Vito de Menezes Coutinho, o 6º Marquês de Marialva e 8º Conde de Cantanhede que morreu em 1823 solteiro e sem descendência, teria a Severa três anos. Na vida real, o amante da Severa foi o 13º Conde de Vimioso, D. Francisco de Paula de Portugal e Castro, cavaleiro, como Marialva, e cavaleiro tauromáquico, que triunfou na arena do Campo de Santana. Só que, ao contrário do Marialva, o Vimioso tinha descendentes, naturalmente incomodados com a devassa em quatro actos da devassidão fadista e femeeira do seu antepassado próximo. Assim, em nome das conveniências e normas de respeitabilidade, o chefe do Governo, Ernesto Hintze Ribeiro, e os familiares de Vimioso pediram a Júlio Dantas que retirasse da história o nome do avô que, além do mais, ainda não estava “suficientemente morto” para tanta ribalta.

Se tivermos presente que ao sucesso da peça se seguiu uma opereta de Filipe Duarte e André Brun (tal como, com a devida distância, Verdi tinha criado La Traviata a partir da Dama das Camélias de Dumas) e que em 1931 Leitão de Barros realizou A Severa, o primeiro filme sonoro português, dar-nos-emos conta dos equívocos que daqui vieram.

Assim, se neste caso relativamente inconsequente seguíssemos a nova moda da “justiça restaurativa”, teríamos de começar por expurgar os dicionários de Português. “Marialva” continuaria a referir-se às “regras de cavalgar ao modo de D. Pedro de Alcântara Menezes”, mas deixaria de significar “indivíduo de vida ociosa e dissoluta que se ocupa de cavalos e touros”, “indivíduo farrista e conquistador”, “homem conquistador de mulheres”. E a linhagem de grandes capitães, cavaleiros, diplomatas e académicos dos Menezes, nobre minoria extinta e injustiçada pela História, não mais seria confundida ou dada como sinónimo e patrónimo de fidalgos estarolas e beberrões. Tão pouco José Cardozo Pires poderia ter escrito “A cartilha do Marialva”, esse panfleto anti-tradicionalista onde, com o paroquial farisaísmo do costume, se constrói um arquétipo de senhor rústico, bruto, reaccionário e mulherengo. Teríamos assim “A Cartilha do Vimioso” e “vimioso” seria o epíteto e o arquétipo.

De qualquer forma, o erro, grosseiro ou subtil, inocente ou interessado, é parte integrante das histórias e da História desde que há histórias e História, sempre contadas a partir do presente e do “espírito do tempo” e também sempre dependentes do grau de seriedade ou de cedência ao poder e às cartilhas vigentes de quem as conta ou reconta.

Talvez para sublinhar a impossibilidade de reescrever a verdade do que foi mas também para afirmar a paixão e a seriedade com que se propôs fazê-lo Maria João Lopo de Carvalho tenha escolhido como epígrafe para o seu Fado da Severa este passo da “Canção Amarga”, de David Mourão Ferreira:

Que importa o gesto não ser bem
o gesto grácil que terias?
— Importa amar, sem ver a quem…
Ser mau ou bom, conforme os dias.

Além de um largo conjunto de obras de literatura infantil – como as séries 7 Irmãos e As Cinco Quinas e de romances como Virada do Avesso e Acidentes de Percurso, ainda da era do luso boom de uma por aqui nova escrita feminina a que chamaram light, Maria João Lopo de Carvalho tem vindo a dedicar-se com sucesso ao romance histórico, ficcionando personagens femininas da história literária e política portuguesa.

À Marquesa de Alorna (2011), à Padeira de Aljubarrota (2013) e às mulheres de Camões (Até que o Amor me Mate – As mulheres de Camões, 2016) vem agora juntar-se O Fado da Severa.

São livros despretensiosos, imaginativos, escritos com graça, verdadeiros page-turners que, no entanto, têm por trás uma investigação histórica exaustiva e meticulosa.

A Severa histórica, Maria Severa Onofriana, foi baptizada na paróquia dos Anjos, em Lisboa, a 12 de Setembro de 1820. Era filha de Severo Manuel de Santarém, “de etnia cigana” (na peça e na época de Dantas onde vigoravam outros, mas não estes, tabus linguísticos, são muitos os que se referem à cantadeira como “a cigana”), e de Ana Gertrudes, de Portalegre, mais conhecida por “Barbuda”. A Barbuda vivia na Mouraria, levava a vida difícil das mulheres de “vida fácil” e iniciou a filha no seu ramo de actividade. Só que, a crer nas memórias de contemporâneos como Bulhão Pato e Luís Augusto Palmeirim, a filha, ao contrário da mãe, era linda, do tipo morena exótica, e cantava o fado como ninguém. Além disso fumava, bebia e, claro, partilhava amiúde o leito – a Maria João Lopo de Carvalho usa expressões mais livres e vernáculas para qualificar a actividade a que a cantadeira e as suas companheiras se dedicavam, bem como para descrever os  seus constantes encontros carnais e amorosos. De resto, um confronto dos diálogos de Dantas com os de Maria João (“Ah! Meu grosseirão! Como eu te quero!”, diz a Severa de Dantas para o Marialva, estando os dois, “muito juntos, coração com coração”) diz-nos muito sobre o tempo de Dantas – e sobre o nosso tempo.

Enfim, o jovem Vimioso, casado com uma fidalga e vivendo na casa do Campo Grande com setenta criados e criadas, não terá resistido ao canto e ao encanto da fadista, o que não era novo nem invulgar. O que era novo e invulgar era tentar pô-la por conta em pleno palácio, alheio à promiscuidade entre os dois mundos, e, sobretudo, o facto de a cantadeira se ter recusado a ali ficar.

Jovem, rico, bem-parecido, grande cavaleiro, destemido com os toiros, o Vimioso apaixonou-se perdidamente pela Severa – ou talvez tudo não tivesse passado de um devaneio mais sério, parte integrante dos prazeres de um marialva (ou de um vimioso), na constante roda viva entre “o selim e a mulher” em que, aparentemente, gastava os seus dias.

Na peça de Dantas, o Marialva, além da legítima, ama a Severa e uma outra senhora da sua condição, uma marquesa de Seide, também ficcionada. A versão romanceada de Maria João Lopo de Carvalho, que tem muito “trabalho de casa”, é mais rigorosa do ponto de vista histórico. O Fado da Severa tem, no final, uma bibliografia e a ficção novelesca é entremeada de quadros da época, acompanhados por uma cronologia e por uma curta biografia dos personagens referidos.

As duas partes em que se divide o livro (Parte I – 1836-1842 – Pelas Ruas da Mouraria; Parte II – 1842-1843 – Pelos salões dos titulares), realçam o contraste pretendido entre a Lisboa popular dos bairros imundos, das tabernas, dos bordéis mais chiques e higiénicos que então começavam a aparecer, dos marujos, dos fadistas, das pegas, e a Lisboa dos palácios e palacetes, quase todos periféricos, pois o terramoto encarregara-se, cem anos antes, de destruir os que eram dentro de portas. E depois um terceiro mundo, o das touradas, onde se misturavam em terreno neutro.

A linguagem do romance é bastante explícita. Eu ainda sou de uma geração que começou a ler às escondidas a literatura mais livre: lembro-me da Nana, do Zola, do Primo Basílio e de algumas leituras mais ousadas, como Lady Chatterley’s Lover, de D. H. Lawrence. Mais tarde, fui lendo coisas mais audaciosas – os Trópicos, de Henry Miller, e o Sade quase todo, que fui comprando nas idas a Paris. Pelas boas e más razões não vou comparar a linguagem do Fado da Severa ao Miller ou ao Sade, mas as cenas de alcova e a carnalidade de tudo, o naturalismo rabelaisiano das tabernas e dos bordéis, reflectem o que seria uma boémia à portuguesa, numa espécie de identidade nacional taurino-fadista que sempre se quis identificar com a cultura reaccionária, embora fosse comum às direitas e às esquerdas vadias e tradicionais.

De qualquer modo, com mais ou com menos sexo explícito, a história da Severa está bem contada, o livro lê-se num voltar de páginas acelerado, a reconstituição do tempo, dos lugares e das figuras típicas de uma certa Lisboa é viva e fiel, as possíveis origens africanas do fado, que então “se batia”, e a sua passagem das tabernas para os salões é interessante e a ficcionista seguiu as regras essenciais do romance histórico, retratando os alvores do Estado constitucional liberal, a oligarquia aristocrática do tempo, os costumes e as classes sociais.

É mais um romance histórico sobre uma mulher – e sobre Lisboa, e sobre Portugal –, bem escrito, bem fundamentado, bem estruturado, que, além de entreter, dá um excelente retrato do tempo e do modo da sociedade lisboeta dos finais da primeira metade do século XIX, do Portugal do liberalismo convulso nas vésperas da Regeneração.

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