Dark Mode 192kWh poupados com o Asset 1
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica. Saiba mais

Logótipo da MEO Energia
i

Getty Images

Getty Images

Fernando Santos. O português com coração grego que deixou marcas no futebol da Grécia /premium

Fernando Santos vai assistir ao jogo desta terça-feira, entre Benfica e AEK, de coração dividido. O técnico orientou os dois clubes e deixou uma marca no futebol grego que ainda não desapareceu.

Afinal, pode agradar-se a gregos e troianos — quase literalmente. Que o diga Fernando Santos. O técnico vai assistir de coração dividido ao jogo desta terça-feira entre Benfica e AEK. Passou duas épocas na formação dos encarnados, enquanto jogador, e chegou mesmo a treinar o clube, 36 anos depois. Já o emblema grego, que conduziu a dois tempos, trouxe-lhe a primeira experiência fora de Portugal e o único título que conquistou numa passagem de dez anos pelo país helénico — uma Taça da Grécia. Mas a influência do ‘engenheiro’ transcende os clubes: é assim nos dois países, onde deixou uma marca que, ainda hoje, perdura.

Feito o devido agradecimento pelo título europeu em 2016, foquemo-nos, agora, no exemplo grego. Fernando Santos aterrou pela primeira vez no país helénico em 2001 para treinar o AEK. Miguel Correia, jornalista no jornal A Bola que viveu na Grécia nos anos 60 e 70, a acompanhar o pai, o também treinador Severiano Correia, estava com o, agora, selecionador no momento em que ele colocou, pela primeira vez, os pés em solo grego. “Os primeiros tempos não foram fáceis, lembro-me disso também do meu pai. Quando foi para lá, o Fernando Santos não era muito reconhecido a nível internacional e foi recebido um pouco de pé atrás, mas depressa conseguiu fazer do AEK uma equipa estável e começou a ter resultados”, recorda ao Observador.

O pulso firme e os métodos de trabalho

O primeiro impacto — e que viria a tornar-se a sua primeira marca no futebol grego — foram os métodos de trabalho dos jogadores. “Quando cheguei à Grécia, eles tinham maus hábitos de trabalho. Tinha uma explicação… cultural. O grego janta muito tarde, nunca antes das 22h30; o grego gosta de ficar a falar até tarde e de deitar-se às duas, três da manhã… Marquei um treino para as oito da manhã e vieram dizer-me que às oito não dava, porque havia muito trânsito. Então, fui ao quadro e marquei para as sete da manhã. E eles ficaram a olhar para mim, espantados. Até um médico veio falar comigo, a dizer-me que treinar de manhã não era bom fisiologicamente”, recordou o treinador numa entrevista à Tribuna Expresso, em 2016.

"Antes de o Fernando chegar à Grécia, os gregos, por norma, treinavam só uma vez por dia e era ao fim do dia. A Grécia é muito parecida com Espanha a esse nível, as pessoas deitam-se tarde porque vão para os bares, para os cafés, conviver até à uma, duas da manhã. Mesmo os jogadores, provavelmente, deitavam-se tarde. Foi o Fernando Santos que mudou essa mentalidade e começou a implementar isso nos clubes e, mais tarde na seleção".
Miguel Correia, jornalista

Fernando Santos fazia valer, pela primeira vez, o seu pulso firme em jogadores pouco habituados a esse rigor. “Antes de o Fernando chegar à Grécia, os gregos, por norma, treinavam só uma vez por dia e era ao fim do dia”, explica Miguel Correia. “Lá há muita vida noturna devido ao próprio clima, que é muito quente. A Grécia é muito parecida com Espanha a esse nível, as pessoas deitam-se tarde porque vão para os bares, para os cafés, conviver até à uma, duas da manhã. Mesmo os jogadores, provavelmente, deitavam-se tarde. Foi o Fernando Santos que mudou essa mentalidade e começou a implementar isso nos clubes e, mais tarde na seleção”, conclui.

No AEK, os resultados não tardaram. O técnico chegou em agosto para substituir a dupla Toni Savevski / Egen Gerard e conseguiu ultrapassar os constrangimentos de um orçamento limitado. Pegou nos jogadores que já estavam no clube — juntando-lhe os pózinhos de Gamarra e do português Folha — e cozinhou a poção mágica que lhe permitiu vencer nove jogos em dez, chegando mesmo à liderança, partilhada com o Olympiakos, do campeonato grego.

O casamento acabou por não durar muito — pelo menos nestas primeiras núpcias. Em dezembro, já o treinador estava em Portugal a passar a quadra natalícia, ficou a saber que os dirigentes tinham contratado dois jogadores sem a sua autorização: o grego Giorgios Xenidis, ex-Iraklis, e o jugoslavo Ilija Ivic, ex-Aris Salonica. Fernando Santos colocou, de imediato, o seu lugar à disposição. O que provavelmente os dirigentes não esperavam era o apoio que se gerou em torno do técnico. Como Jorge Rosário, adjunto de Fernando Santos em grande parte do seu trajeto, recordou, anos mais tarde, em entrevista à FIFA, cerca de três mil pessoas juntaram-se para mostrar o apoio ao treinador — entre eles, o plantel, que se colocou de imediato ao lado do seu timoreiro.

Apesar de o timoneiro da seleção grega campeã europeia ser o alemão Otto Rehagel, há dedo de Fernando Santos nessa página vencedora. Dos 23 jogadores campeões em 2004, dez foram treinados pelo técnico português.

O clube foi ‘obrigado’ a recusar a demissão, mas o casamento estava manchado — e o divórcio aconteceria mesmo poucas semanas depois. O destino seguinte seria o Panathinaikos, também na Grécia, numa passagem-relâmpago de oito jogos, nos quais somou quatro vitórias, antes de regressar a Portugal, para conduzir o Sporting.

Quando voltou à Grécia, fê-lo no ano de maior glória no futebol helénico — o ano em que a seleção venceu o Europeu, derrotando Portugal, na final em Lisboa. E a referência à conquista não acontece em vão. É que apesar de o timoneiro dessa equipa ser o alemão Otto Rehagel, há dedo de Fernando Santos nessa página vencedora. Senão vejamos: dos 23 jogadores campeões europeus, dez foram treinados pelo técnico português: o defesa Michalis Kapsis, os médios Theo Zagorakis e Vassilis Tsiartas e o avançado Vassilis Lakis, no AEK; o guarda-redes Antonios Nikopolidis, os defesas Giourkas Seitaridis (que assinou pelo FC Porto depois do Euro 2004), Fyssas (que representou o Benfica em 2003/04) e Giannis Goumas, e os médios Angelos Basinas e Karagounis (que viria a jogar no Benfica entre 2005 e 2007, onde voltou a reencontrar Fernando Santos), no Panathinaikos. A mão que deu a Portugal a maior conquista da sua história a nível futebolístico, em 2016, seria a mesma mão que ajudou a tirar o caneco que parecia certo em 2004.

O ídolo amado por todos

Depois de mais dois anos no AEK, entre 2004 e 2006 — onde Fernando Santos não conquistou títulos, mas solidificou a sua imagem de ídolo por terras helénicas –, o treinador português rumou ao PAOK, onde permaneceu duas épocas e meia e onde se firmou como o segundo técnico da história do clube com mais jogos (150). Uma vez mais, o ‘engenheiro’ não conquistou títulos — ficou-se por um segundo e um terceiro lugares — mas a época de 2008/09, sobretudo, alimentou nos adeptos a ideia de que poderiam recuperar o título de campeão grego.

Mais do que isso, cimentou o seu lugar como ídolo na Grécia. Aquele que colocou os adeptos helénicos a comportarem-se como fanáticos das arábias. “No caso do Fernando Santos, ele cedo se tornou um rei. Era amado na Grécia, independentemente do clube”, afirmou Jorge Rosário, adjunto de Santos durante grande parte do seu trajeto, em entrevista à FIFA. Miguel Correia acredita que o técnico conquistou os gregos por duas vias: a competência e a maneira de ser. “É uma pessoa calma, metódica, muito rigorosa, sabe levar os jogadores e conversar com eles. Consegue ter o consenso de todos, até mesmo dos adversários. Ainda ele não era selecionador grego e já era reconhecido e admirado pelos adeptos de todos os clubes. Toda a gente tem admiração, respeito, e fundamentalmente, reconhecem o trabalho dele — porque, acima de tudo, é uma pessoa muito competente. Os resultados fazem uma parte, depois a maneira de ser faz o resto”, diz.

O jornalista explica ainda a forma como o povo grego valoriza a competência e dedicação. “Cheguei a escrever, no meu primeiro artigo sobre ele na Grécia, que tinha quase a certeza que, mesmo que ele não fosse campeão, se mostrasse serviço, competência e dedicação, todos os adeptos do futebol grego o iam passar a admirar”, recorda. “Um ano depois, quando Fernando Santos veio passar as primeiras férias a Portugal, fui esperá-lo ao aeroporto, para marcar uma entrevista com ele, e ele disse-me: ‘Miguel, tinhas razão’. O povo grego tem uma grande consideração pelas pessoas que mostram trabalho e desprezam aqueles que vão para lá a pensar que o futebol grego é menor. Eles não gostam de ser enganados. Então, há quase uma relação ou de amor ou de ódio. Felizmente que todos os portugueses que têm passado por lá tem tido uma relação de amor”.

"No caso do Fernando Santos, ele cedo se tornou um rei. Era amado na Grécia, independentemente do clube".
Jorge Rosário, adjunto de Fernando Santos, em entrevista à FIFA

Uma relação que se estendeu aos jogadores — com os quais, à semelhança do que acontece em Portugal, Fernando Santos sempre revelou grande cumplicidade. Prova disso é que, por três ocasiões, foi convidado por antigos atletas seus para treinar outros clubes. Aconteceu pela primeira vez com Nikolaidis, que tinha sido orientado pelo português, na sua primeira passagem pela Grécia, em 2001/02. Quatro anos depois, o antigo avançado virou presidente do clube para tentar salvá-lo da ruína financeira e, consequentemente, desportiva — agravada com o Euro 2004, que retirou ao clube os seus principais ativos. O antigo jogador não teve dúvidas na altura de escolher o líder do plantel: só podia ser Fernando Santos.

“Doía-me muito ver o meu clube de coração na ruína. Tinha que fazer alguma coisa e felizmente, com a ajuda de alguns parceiros importantes, conseguimos salvar o AEK”, explicou o presidente, na altura. “Mas eu não queria apenas salvar a instituição. Queria fazer com que os adeptos acreditassem na nossa equipa de futebol. Por isso, convidei o Fernando, que é adorado pelos adeptos. Sabia que ia dar certo. E deu”. Acabado de chegar do Sporting, onde não tinha tido bons resultados, Santos formou uma equipa de raiz, com a qual conseguiu o apuramento para a UEFA e o terceiro lugar no campeonato, a apenas três pontos do Olympiacos — que tinha os cofres cheios.

Nikolaidis foi treinado por Fernando Santos no AEK e, mais tarde, quando chegou a presidente, convidou o técnico para regressar ao clube (ARIS MESSINIS/AFP/Getty Images)

“O sucesso desportivo, com falta de recursos, diz tudo do Fernando”, disse ainda Nikolaidis. “Ele é amado pelos adeptos, e tem, também, um feitio muito especial, com capacidade para liderar talentos. O sucesso do AEK não teria sido possível sem a sua habilidade e capacidade de mobilizar pessoas e criar um sonho. Agora em vez dos sete ou oito mil espectadores que tínhamos antes da sua chegada, temos 30 mil por jogo”.

Tal como já tinha sido convidado por Nikolaidis para conduzir o AEK na sua segunda passagem pelo emblema de Atenas, também seria outro antigo jogador a lançar-lhe o repto de conduzir os destinos do PAOK. Desta feita, foi Zagorakis. O médio, capitão da equipa campeã europeia, em 2004, tinha sido pupilo de Santos em 2001/02, quando vestia a camisola do AEK. Tal como Niokolaidis, acabou por passar para o outro lado e assumir a presidência do PAOK, clube onde era ídolo. E foi Fernando Santos que o acompanhou no novo desafio — que terminaria em outubro de 2009, dando lugar a Vryzas. O técnico sairia pouco depois.

O contributo que ainda perdura na seleção

E sairia para viver o seu maior desafio, até então, em terras helénicas: substituir o treinador campeão europeu, Otto Rehhagel, no comando da seleção grega. E como à terceira é de vez, foi convidado por Fyssas, que tinha sido seu jogador no Panathinaikos, antes de assumir o cargo de diretor desportivo da seleção. “Ele estava no PAOK Salónica e, quando o convidei, ficou radiante, apesar de o seu objetivo ser o cargo de selecionador de Portugal. Assinámos logo um acordo e hoje posso dizer que a passagem dele pela seleção grega acabou por ser uma espécie de estágio para conquistar o título europeu com a seleção portuguesa”, assumiu, na altura, Fyssas, garantindo que “os adeptos de todos os clubes gregos têm um grande respeito por ele, o que é difícil, tendo em conta as rivalidades que existem no país”.

Fernando Santos assumiu o comando da seleção grega em 2010, com a difícil missão de substituir Otto Rehhagel (GETTY IMAGES)

AFP/Getty Images

Fernando Santos vivia a sua primeira experiência em seleções, depois de 22 anos a treinar clubes. E tal como tinha acontecido nos três emblemas que treinou na Grécia, também na equipa nacional foi preciso pulso — mas com adaptações. “Assinei com a Federação da Grécia e planeei a semana de trabalho. O estágio era de dez dias, não deixava os jogadores sair e percebi que, ao fim de cinco dias, já não me podiam ver. Mudei tudo, adaptei-me. Depois dei liberdade e senti que se respirava melhor no balneário. Ainda assim, não correu tão bem porque houve jogadores a irem à discoteca. Tive de estabelecer regras, mesmo não sendo tão rígido como quando lá cheguei”, assumiu, anos depois.

Com um plantel que o respeitava e os métodos de trabalho que conseguiu incutir, Fernando Santos depressa passou aos resultados. Assumiu a seleção em julho de 2010 , cumprindo logo o objetivo de a qualificar para o Euro 2012 — onde viria a chegar aos quartos de final, com um registo de 17 vitórias, cinco empates e três derrotas em jogos oficiais. Logo depois, colocou a seleção grega no Mundial de 2014, no Brasil, conseguindo a melhor prestação de sempre da formação nacional helenénica em Campeonatos do Mundo: caiu apenas nos oitavos de final, nos penáltis, frente à Costa Rica de Bryan Ruiz — no jogo onde o técnico português foi expulso, dando origem a uma suspensão de oito jogos que ainda vigorava quando Fernando Gomes o desafiou para conduzir a Seleção Nacional.

Fernando Santos levou a seleção grega aos oitavos de final do Mundial de 2014, conseguindo a melhor prestação de sempre da Grécia em Campeonatos do Mundo (GETTY IMAGES)

AFP/Getty Images

Ao leme da seleção grega, Fernando Santos começou por fazer mudanças no estilo de jogo. Assumiu que não queria uma Grécia a jogar “à Euro 2004” — ou seja, com o autocarro estacionado lá atrás à espera do melhor momento para contra-atacar. “Respeitamos todos os adversários, mas queremos impor o nosso estilo de jogo. O nosso objetivo é vencer sempre e, claro, construir uma equipa sólida na defesa e no ataque. O trabalho que foi feito pelo meu antecessor foi de sucesso e não podemos esquecer isso, mas agora quero implantar a minha filosofia”, anunciou Fernando Santos, na altura. “Vamos jogar a partir de agora num 4-4-2 losango, com o 4-3-3 que, até agora, era habitual, como alternativa. A marcação individual que havia antes é para esquecer, vamos marcar à zona, mesmo que tenhamos pela frente o Messi ou o Pelé”.

Miguel Correia também sublinha este aspeto. “Otto Rehhagel jogava um bocado mais para o resultado e acabou por ser campeão europeu assim. Mas o Fernando Santos conseguiu unir a equipa e colocá-la a jogar um bocado mais ao ataque — embora ele não seja muito aventureiro nem arrisque muito, é mais pragmático e foi assim que ganhou por Portugal”.

"Ainda hoje, a Federação está a tirar rendimentos do trabalho de base que o Fernando Santos fez. A nível da estrutura, fez uma ligação dos seniores com as camadas jovens. Criou um esquema para a própria Federação que deixou todos admirados. É que mesmo depois de a Grécia ter sido campeã europeia, nunca ninguém tinha feito um trabalho a esse nível. Ainda hoje a Federação está a tirar partido disso e a ter rendimento nas camadas jovens pelo plano que ele executou e que continua a ser seguido à risca".
Miguel Correia, jornalista

Mas, explica o jornalista, a marca de Fernando Santos foi mais funda. “Ainda hoje, a Federação está a tirar rendimentos do trabalho de base que o Fernando Santos fez”, garante. E dá exemplos: “A nível da estrutura, fez uma ligação dos seniores com as camadas jovens, os jogadores de 17, 18 anos. Criou um esquema para a própria Federação que deixou todos admirados. É que mesmo depois de a Grécia ter sido campeã europeia, nunca ninguém tinha feito um trabalho a esse nível. Ainda hoje a Federação está a tirar partido disso e a ter rendimento nas camadas jovens pelo plano que ele executou e que continua a ser seguido à risca, mesmo não estando lá”.

Fernando Santos, que foi ainda considerado o treinador da década na Grécia, acaba por, inconscientemente, concordar. “Quando aceitei ser o selecionador grego tinha dois objetivos: um era continuar a trajetória da Grécia nos últimos anos, desde 2004, mantendo a equipa sempre nas fases finais, e havia um objetivo paralelo que era deixar uma marca minha no futebol grego“, disse, em jeito de balanço, em maio de 2014, quando abandonou o comando da seleção grega. “Hoje posso dizer que essa marca está lá e que ninguém a pode tirar. O futebol grego a nível da Federação está muito diferente, tem uma seleção de sub-15 pela primeira vez, por exemplo. Espero que aproveitem este trabalho e que o melhorem no futuro”. Assim tem sido até hoje.

Recomendamos

A página está a demorar muito tempo.