Fogos. As semelhanças entre a Grécia e Portugal /premium

Algumas imagens que chegam da Grécia fazem lembrar o fogo que há um ano provocou 64 mortes em Pedrógão. Há, pelo menos, sete pontos em comum entre os dois incêndios.

As primeiras imagens dos incêndios na Grécia e “o drama das pessoas a quererem fugir do fogo” transportaram-no imediatamente para Pedrógão. “Vejo nas imagens da Grécia as pessoas a meterem-se nos seus carros para tentarem fugir e a começarem a chocar uns com os outros por causa da falta de visibilidade que o fumo provoca. E isso foi o que aconteceu com aquela que ficou conhecida como a estrada da morte”, lembra João Guerreiro ao Observador. O professor presidiu à Comissão Técnica Independente responsável por descobrir os detalhes de como nasceu, cresceu e morreu o fogo que durante quatro dias correu Pedrógão e os concelhos mais próximos, matando 64 pessoas e destruindo 50 mil hectares de floresta.

Além da forma como cada um tentou escapar e das imagens que mostram carcaças de carros carbonizados, há mais semelhanças entre ambos os incêndios: o calor que em junho de 2017 se fazia sentir no interior de Portugal e os 40 graus que agora marcam os termómetros na Grécia e que não dão tréguas aos bombeiros; os pedidos de ajuda internacional; e os relatos de cada testemunha.

Este é o pior Verão de incêndios na Grécia desde 2007, quando mais de 80 pessoas morreram na sequência de vários fogos registados entre finais de junho e inícios de setembro e arderam 250 mil hectares de floresta e de zonas agrícolas. Em Portugal, foi o Verão de 2017 que mais vítimas fez nos fogos que deflagraram neste período: mais de 100 mortes e 500 mil hectares ardidos. Em Portugal, o número de fogos registado é 19 vezes superior ao da Grécia, segundo nota o relatório final da Comissão presidida por João Guerreiro.

As chamas que cresceram e se tornaram incontroláveis

17 de junho de 2017. Os moradores da aldeia de Escalos Fundeiros, no concelho de Pedrógão Grande, avistaram fumo e percebem que havia um fogo. O primeiro aviso para o 112 foi feito às 14h39. Menos de três horas depois, já havia quatro frentes distintas e 60% do fogo ardia livremente e sem qualquer controlo. Por esta altura foram pedidos reforços no combate que começou com 23 bombeiros e sete carros. As chamas atingiram uma proporção incontrolável e o fogo acabou por chegar aos concelhos mais próximos: Castanheira de Pêra, Figueiró dos Vinhos, Alvaiázere, Ansião, Penela e Sertã. O combate só terminou quatro dias depois, a 21 de junho, deixando um rasto de destruição. E de vítimas.

23 de julho de 2018. As autoridades gregas falam em diversos focos de incêndio a cerca de 50 quilómetros da capital, Atenas — desde a zona de Kineta até Rafina — três deles de grandes dimensões. Deflagraram pelas 17h00 de segunda-feira e mobilizaram 600 bombeiros para as três frentes de fogo, mas já perto da noite dois dos fogos continuavam a progredir. A imprensa internacional revelou que na zona de Mati, perto de Kineta, a estância balnear ficou cercada. E que as chamas continuaram ativas nas bermas da auto-estrada até ao Canal de Corinto. Levando consigo casas, florestas e muitas vidas.

2 fotos

As vítimas durante a fuga

O fogo de Pedrógão Grande provocou 64 mortes, entre eles um bombeiro. O relatório da Comissão Técnica Independente, criada para analisar o combate aquele fogo, refere que a maioria das vítimas tinha entre 20 e 59 anos. Mas também houve crianças e jovens: nove vítimas tinham menos de 20 anos. A maior parte ficou presa na EN236, aquela que liga Figueiró dos Vinhos a Castanheira de Pêra, quando tentavam escapar à força do fogo. Alguns corpos foram encontrados dentro dos carros, outros na estrada cujo alcatrão derreteu com as altas temperaturas. E que ganhou o nome de “estrada da morte”.

O mesmo relatório dá conta de que metade do total de mortos viviam naquela zona, enquanto os restantes estavam de visita — embora alguns mantivessem ali ligações familiares. E não se perderam só vidas. A violência das chamas levou 490 casas, mas apenas um terço eram habitações principais (as restantes eram segundas habitações ou casas devolutas), e muitos postos de trabalho. Meia centena de unidades industriais sofreu ou desapareceu com as chamas.”Apenas a violência do fogo, o brutal ruído gerado pelo vento e as perigosas e assassinas projeções fizeram com que as pessoas optassem por sair de suas casas e procurar abrigo nas sedes de concelho. Note-se que 70% das vítimas mortais estava em fuga a partir das respetivas casas, que acabariam por não arder. Cerca de três quartos das vítimas faleceram no interior das respetivas viaturas ou na proximidade delas”, lê-se.

As autoridades chegaram a concluir que, se a maior parte das pessoas não tivesse fugido, podia ter escapado com vida. E foi o que aconteceu na aldeia do Nodeirinho, por exemplo, em que 12 pessoas conseguiram refugiar-se num tanque com água, onde passaram horas até o fogo passar.

Na Grécia também se registou uma grande número de vítimas que tentaram escapar às chamas, alguns em direção ao mar. Há testemunhos de quem se salvou. Mas também de quem perdeu a vida ainda antes de chegar à água, como as 26 pessoas encontradas já esta terça-feira a 30 metros da praia. Segundo a Cruz Vermelha, as vítimas estavam agarradas uma à outra, na última tentativa de sobreviver. A guarda costeira grega recuperou ainda quatro corpos no mar, a uma curta distância dos incêndios. E as buscas continuam. À procura de desaparecidos.

Para já, os números oficiais gregos apontam para 74 mortes e 156 feridos, alguns dos quais em estado crítico e pelo menos 16 dos quais crianças. À semelhança de Pedrógão, muitas das vítimas mortais ficaram encurraladas na estância balnear de Mati, a 40 quilómetros da capital, e foram apanhadas pelas chamas nas suas casas ou nos seus carros.

Temperaturas acima dos 40 graus

Há pouco mais de um ano, o Comando Nacional de Operações de Socorro lançou o alerta em comunicado: entre 16 e 18 de junho eram previstas “condições meteorológicas adversas”, o que aumentava o “perigo de incêndio florestal”, com temperaturas entre os 40 e os 43 graus nas regiões do interior. O IPMA confirmou as previsões já no dia em que deflagrou o fogo que engoliu 50 mil hectares de floresta em Pedrógão e nos concelhos ali colados.  O vento também mal se sentia, embora a meio da tarde (já depois do alerta de incêndio) se tenham registado rajadas bastante fortes (50-85 km/h). “A combinação com o pronunciado aquecimento à superfície originou no dia 17 elevada instabilidade atmosférica e condições propícias à ocorrência de trovoadas”, concluiu a Comissão que analisou o combate ao fogo, e que considera que o fogo foi provocado por um raio e que o rastilho foi uma árvore em Escalos Fundeiros.

Por enquanto as informações que chegam da Grécia não são tão específicas, mas as notícias que chegam através de vários meios de comunicação internacionais são unânimes: neste momento o país atravessa uma vaga de calor, com temperaturas que atingem os 40 graus e que se deverão manter, pelo menos, durante esta terça-feira. Os bombeiros estão a sentir dificuldades no combate por causa das fortes rajadas de vento, que sopram a 100 quilómetros por hora, e porque o vento está sempre a mudar de direção. “É uma situação extrema”, notou já o secretário-geral da Proteção Civil grega, Yannis Kapakis.

O estado de emergência e o pedido de ajuda internacional

Quando as autoridades portuguesas perceberam que o fogo ativo em Pedrógão não dava tréguas, e que já havia registo de cerca de 20 vítimas mortais, pediram ajuda internacional. O mecanismo europeu de Proteção Civil foi ativado já na madrugada de 18 de junho e a resposta foi rápida: França e Espanha disponibilizaram-se logo para ajudar. Foram também ativados os acordos bilaterais com Espanha e Marrocos. A ajuda veio em forma de nove aviões anfíbios tipo Canadair e dois aviões anfíbios tipo Air Tractor, reforçando assim os meios de combate. E, pela primeira vez, registou-se também um pedido de ajuda de meios terrestres, com Espanha a mobilizar os módulos terrestres de Madrid, Galiza, Andaluzia, Extremadura e ainda um módulo da UME (Unidade Militar de Emergências).

O pedido de ajuda à União Europeia por parte da Grécia chegou ao início da noite de segunda-feira, pouco depois de os incêndios lavrarem em locais diferentes,  a cerca de 50 quilómetros de Atenas. O anúncio foi feito pela Agência de Proteção Civil da Grécia e na altura ainda não havia registo de vítimas mortais, mas as chamas já tinham feito seis feridos, que foram hospitalizados com queimaduras. Itália, Alemanha, Polónia e França já enviaram meios aéreos, terrestres e humanos. Chipre e Espanha também ofereceram ajuda. E Portugal anunciou ter disponíveis 50 homens da Força Especial de Bombeiros. Três hospitais em Atenas ficaram logo em estado de alerta para receber possíveis utentes. Esta manhã de terça-feira, as autoridades acabaram por declarar o estado de emergência.

Os vídeos que mostram a tragédia

Um vídeo de um condutor dentro de um carro numa auto-estrada grega surgiu nas redes sociais e foi exemplo do pânico dos automobilistas que se viram cercados pelas chamas. Em Portugal — não em Pedrógão Grande mas em outubro, aquando dos incêndios que provocaram 50 vítimas mortais –, um automobilista também gravou um vídeo na A17, perto de Vagos, com chamas dos dois lados da estrada.

Nos dois vídeos, é possível ver as fagulhas que atravessavam a via e a velocidade excessiva a que os carros circulavam para fugir às chamas.

As reações políticas. De cá e lá

Os números davam conta de 19 vítimas mortais, mas o presidente da câmara de Pedrógão, Valdemar Alves, acreditava serem mais. “Estou chocadíssimo com o número de mortos, estou com a ideia que são mais do dobro”, disse o autarca na primeira noite dos fogos de Pedrógão, explicando que havia famílias que tinham perdido três pessoas e que havia aldeias em que os bombeiros ainda não tinham entrado e que possivelmente iriam ser encontrados mais cadáveres — principalmente porque o fogo tinha acontecido na hora da “sesta”, apanhando muitos desprevenidos. Algumas aldeias, adiantou, foram completamente consumidas pelas chamas. O primeiro cenário da tragédia estava traçado, mas a responsabilidade de ir atualizando os números acabaria por ser dada ao secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes. As informações iam sendo dadas no Posto de Comando, onde vários governantes apareceram nas horas seguintes quando perceberam que a tragédia não terminaria tão depressa.

A então ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, chegou nessa madrugada mas só falou horas depois, emocionada:“O momento é um momento de pesar e de concentrar todo o esforço no combate a este incêndio (…) Os nossos operacionais estão a dar o melhor que podem e sabem trabalhar para combater este fogo. Neste momento, o tempo é mesmo de combate, de um combate sem tréguas”. Quatro meses depois, e após vários trágicos incêndios que imprimiram nas estatísticas de 2017 mais de 100 vítimas mortais, a ministra demitiu-se. António Costa também esteve no local. O primeiro-ministro anunciou que, naquele momento, havia já 61 mortos. Mas que “seguramente” iriam aparecer mais. Era meio da tarde de domingo, o segundo dia do fogo. Também o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ali passou e acabou por, numa declaração ao país, decretar três dias de luto nacional.

Na Grécia, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, que se encontrava numa visita oficial à Bósnia-Herzegovina, acabou por antecipar o seu regresso. “Não há palavras para descrever os nossos sentimentos. O país vive uma tragédia incalculável. Perderam-se dezenas de vidas. E isto é insuportável para nós”, disse esta segunda-feira também a partir do Centro de Coordenação Unificado, onde está a acompanhar a situação. “Vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para controlar os incêndios”, garantiu. Também ele decretou três dias de luto nacional.

Já o ministro da Administração Interna, Nikos Toskas, levantou suspeitas relativamente à origem dos fogos, alegando que poderá haver mão criminosa por trás dos incêndios — uma vez que começaram ao mesmo tempo — e pediu cautela aos cidadãos. Uma justificação que chegou a ser invocada em Portugal pelo presidente da Liga dos Bombeiros, Jaime Marta Soares, à TSF: “Têm de me provar outra coisa, eu acho que houve mão criminosa neste incêndio. O fogo já lavrava há duas horas quando aconteceu a trovoada. Não tenho provas, mas a experiência no terreno, a minha e a dos meus homens, aponta para crime”. Uma conclusão não vertida no relatório da Comissão.

Nas declarações de Evangelos Bournos, o presidente do município de Rafina-Pikermo, também se encontram semelhanças aquelas que então foram proferidas pelo presidente da câmara de Pedrógão. Bournos alertou para o facto de haver uma vila no seu município que desapareceu do mapa com os incêndios e que viu com os seus próprios olhos as chamas destruírem cerca de 100 casas. Disse também haver registo de, pelo menos, 60 pessoas desaparecidas — o que poderia vir a engrossar o número de mortos.

Combate às chamas na Grécia

AFP/Getty Images

Os testemunhos em Portugal e na Grécia

Quando se ouvem os testemunhos vindos da Grécia e se recordam aqueles que marcaram o fogo de Pedrógão também se encontram descrições comuns e muito semelhantes. E as críticas aos meios de socorro e ao combate são igualmente parecidas num e noutro país, apesar da distância de 13 meses entre ambos.

De Pedrógão:

“O meu marido dizia para pôr a minha mãe na carrinha, mas como ela não conseguia subir, porque anda de andarilho, ela disse-nos para a deixarmos no chão a morrer. Metemo-la no tanque. A temperatura era de tal ordem que nos enfiamos todos no tanque, um moço já tinha os braços a arder e nós punhamos água, água, para cima uns dos outros. Se não fosse o tanque morríamos todos. O vento era de tal ordem, só ouvíamos estrondos por causa das chapas das coberturas que iam pelos ares”. (Moradora da aldeia do Nodeirinho ao Jornal de Notícias.)

Da Grécia:

“Felizmente o mar estava ali e fomos para o mar, porque as chamas perseguiam-nos até à água. As chamas queimaram-nos as costas mas mergulhámos para o mar… Disse: meu Deus, temos de correr para nos salvarmos”. (Kostas Laganos, um dos sobreviventes, à BBC.)

De Pedrógão:

“Foi uma noite horrível. Eu aqui a seis quilómetros de Figueiró não tivemos um bombeiro, não tivemos nada ao pé das casas. Já tenho visto por aqui muitos fogos também grandes, para onde foram os bombeiros? Nem um bombeiro nos apareceu”. (Morador de Figueiró dos Vinhos, à TVI.)

Da Grécia:

“Estávamos a ver o fogo desde o primeiro momento. Não era enorme. Desceu as montanhas em duas horas. É mentira que tenha demorado meia hora. Havia tempo, mas não havia plano. Nem um plano de fuga. Fomos salvos por um fio. Eu e algumas pessoas conseguimos mudar o trânsito e fugir. Aqui não houve uma pinga de água sobre as chamas porque eles estavam apenas concentrados na Ática Ocidental. Foi por isso que houve pessoas vítimas de queimaduras. Ninguém foi informado por ninguém”. (Christina, a uma rádio local, citada pelo The Guardian.)

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