Um ano após o estrondoso sucesso de Brat, o disco que catapultou o nome Charli xcx para a liga dos grandes da cena pop atual, as dúvidas pairam na cabeça de Charlotte Aitchison, a produtora e cantora britânica de 32 anos que pôs o mundo inteiro a vestir verde-lima — ou antes, verde brat. “Tenho pensado muito no brat summer… Digam-me a verdade. Vão odiar-me se eu continuar?”
A pergunta foi lançada já perto da uma da manhã, no palco do Primavera Sound, no Parque da Cidade, no Porto, na estreia de Charli xcx em Portugal, depois de 12 meses a surfar a onda que a levou de artista underground a indiscutível fenómeno pop.
Afinal, Brat foi mais do que apenas o sexto álbum da carreira da artista. Tudo ajudou a criar o mito: uma capa emblemática, um título provocador (brat, que numa tradução literal para português significa “pirralho/a”), mas também as canções — uma pop que mergulha em sonoridades eletrónicas e resgata a energia das raves dos anos 90.
Só que o impacto de Brat foi além da música. Criou-se um movimento estético e cultural que se revela na indumentária (botas de cano alto, micro-calções, t-shirts minúsculas, óculos pretos e um certo tom de verde), mas, sobretudo, na atitude. “Uma atitude confiante, independente e hedonista”, segundo o Collins, o dicionário inglês de referência que elegeu “brat” como a palavra do ano de 2024.
O efeito na geração Z e nos millenials disseminou-se como pólvora e isso ficou por demais evidente esta quinta-feira no Parque da Cidade, qual campo literal de liberdade para os muitos que se apresentaram no seu mais exuberante coordenado “brat summer”. A palavra “evoca tanto a auto-aceitação como a rebeldia”, lê-se ainda no Collins.
A rebeldia do nome cimeiro do primeiro dia do festival portuense começou ao não se deixar fotografar por profissionais. Nada de novo, pois assim tem feito ao longo da digressão que vamos acompanhando nas redes sociais com milhares de vídeos de todos os ângulos. Pela lente dos que a veneram, seguramente, isso será brat.
Chegou com pontualidade britânica ao palco principal do certame, e numa hora (10 minutos a menos do previsto pela organização nos horários divulgados) criou o ambiente propício a destruir ainda mais a cortina verde-brat que transporta de espetáculo em espetáculo.
À maior enchente do dia — será preciso aguardar para descobrir se do festival — serviu um menu de hits: 365, 360, Von dutch, Apple, Guess, todos os Club classics e outros “Charli classics”, como o popular I Love It, faixa de 2012 que muitos poderão atribuir apenas a à sueca Icona Pop, que lhe emprestou voz. O público respondeu-lhe com toda a energia, obediente quando lhes era pedido que saltasse ou pusesse as mãos no ar.
A faixa I might say something stupid proporcionou o momento mais calmo da noite, com a cantora a expor a vulnerabilidade possível de uma super-estrela pop. “It’s so confusing to be a girl”, canta-nos em Girl, so confusing. “Sabem o que eu quero dizer, Porto?”, pergunta. Ídolo acessível, ela é tal como nós, parece dizer-nos. Só que não, percebemos quando desfila pelo meio do palco até ao público e um séquito de fãs grita clama verso após verso. Na grade, três raparigas abraçam-se enquanto os seus corpos obedecem à batida, olhos escondidos detrás de óculos escuros, tal como Charli, que lhes mente com todas as letras: “Adoro-te Porto, só faço esta festa para vocês”. Uma mentira perdoável para entoar “only threw this party for you” (Party 4 you).
I might say something stupid (“posso dizer algo estúpido”, em português), ouvimo-la dizer de novo, mas o que mostrou no Primavera Sound Porto tem muito pouco de tonto. Em 60 minutos, Charli xcx provou como conquistou lugar nas “Powerpuff Girls” da pop (ao lado de Chappell Roan e Sabrina Carpenter). A forma como se comporta em palco, com uma coreografia existente (pobre realizador se assim não fosse), mas não evidente, rebolando no chão entre o fumo, e interagindo com a câmara, lembra uma das suas primeiras referências, Britney Spears. Terá, como cantava em 2017, sido capaz de Unlock it — um segredo, uma fórmula de sucesso — ou será o brat summer um fenómeno passageiro?
Em euforia, os fãs não parecem preocupados com a resposta. Mas Charli continua a pensar. Por isso a pergunta, que atira para os ecrãs laterais, findo o concerto: “Vão odiar-me se eu continuar?”. E se o “brat summer” foi para sempre?
▲ Muitos telefones erguidos para captar cada segundo do "brat summer" que, para Charli xcx, arrisca-se a ser para sempre
Marisa Cardoso
Mas a energia de fazer inveja às melhores raves não chegou ao Primavera Sound Porto apenas pela cabeça de cartaz do primeiro dia. É evidente o espaço que a música eletrónica está a conquistar no festival que este ano tem um dia extra, o domingo, dedicado precisamente à música eletrónica. Mais: em regime de after hours, o evento prolonga-se pela primeira vez noite adentro em espaços como o Edifício Transparente, o Pérola Negra ou o Indulgent.
Voltando ao recinto do Parque da Cidade, que às 18h30, três horas após a abertura de portas, já se compunha. Alguns embalavam-se nas atmosferas únicas e misteriosas de Surma, no Super Bock, outros perdiam-se na introspeção do californiano Christian Lee Hutson, no Vodafone, mas muitos eram os que suavam hipnotizados para lá das paredes negras de um enigmático cubo preto.
Como é que um espaço que não figura sequer nos horários gerais do site do festival está cheio de gente? O novo palco, que herda o nome da marca de automóveis patrocinadora, Cupra, tem uma programação curada por talentos emergentes da música eletrónica e urbana, e, ao arranque do primeiro dia, era o que mais mobilizava o escalão sub-30.
Runnan abria as hostilidades na pista, recheada, em contraste com público rarefeito no imenso prado verdejante do Parque da Cidade. Durante cerca de duas horas, a DJ e produtora brasileira, co-fundadora de dois eventos queer na Invicta, Lombra e Bunda em Brasa, esteve imparável na cabine, de leque erguido, impregnando techno de energia de baile funk. Dançava-se como se não fossem seis da tarde, mas seis da madrugada.
A bela elegia de Anohni e a lua de mel dos Fontaines D.C.
No Cupra, cada corpo dava tudo o que tinha como se o mundo fosse acabar amanhã, sentimento semelhante àquilo que se viria a passar no palco Vodafone, pouco depois das dez da noite. O registo foi completamente diferente, mas a finitude era a mesma.
Anohni, vestida até aos pés, aparecia em palco branca e linda, tal e qual um coral morto. I’m dying now, ela e os filhos dentro dela, canta em Manta Ray. E se a sua voz (que voz!) não bastasse para nos cravar a urgência ambientalista da sua mensagem, havia o testemunho de cientistas com quem falou a propósito da sua última visita à Austrália, para documentar a destruição da Grande Barreira de Coral e fazer o seu luto, a corroborá-la.
Mourning the Great Barrier Reef é precisamente o nome do espetáculo que Anohni and The Johnsons trouxeram ao Primavera Sound Porto, festival por onde passaram há 10 anos, ainda Anohni era Anthony. Nessa altura, todos os palcos pararam para que o silêncio imperasse. Esta noite, não foi preciso decretar qualquer suspensão: o público, com os pés firmes na relva, deixando apenas o corpo a balançar como as algas na corrente, fez-se silêncio, fez-se fundo do mar.
Ao longo de praticamente uma hora, Anohni cantou a nossa elegia. Chorou a morte dos corais e a nossa própria morte, enquanto no ecrã gigante atrás de si passavam imagens do recife, as tais que documentou com um grupo de cineastas e biólogos marinhos. Chorou como um coral prestes a morrer, dando a sua luz mais bela e garrida antes de se branquear devido ao stress térmico.
Em 4 degrees os holofotes tingiram a túnica branca de Anohni de vermelho, a terra a queimar com o aumento da temperatura, o risco de quase 30% das espécies enfrentarem a extinção, segundo a Associação Americana para o Avanço da Ciência. I wanna see this world / I wanna see it boil / It’s only four degrees, canta, para mais tarde se questionar, em Hopelessness, como é que me tornei um vírus? Desta vez amarelada, como uma doente terminal.
Entre as canções, com arranjos subtis dos The Johnsons, tão subtis quanto o equilíbrio das espécies, iam passando os tais testemunhos dos cientistas, interlúdios de uma narrativa maior que viajou desde I’m a Bird Now (2005), do qual se ouviu a sororidade de You Are My Sister, até ao mais recente álbum My back was a bridge for you to cross (2023). Praticamente vinte anos cosidos como se este momento já estivesse a ser escrito antes de Anohni e de Anthony, o mesmo corpo, existirem.
Pelo meio, um canto espiritual afroamericano nascido da orfandade da escravatura. Interpretando Sometimes I Feel Like a Motherless Child, Anonhi encarnava Nina Simone, Billie Holiday e todos os frutos estranhos que continuam pendurados em árvores cheias de sangue. E se o sabor a ferro ainda não nos chegou à boca, é porque estamos com as papilas cegas.
No fim do concerto, entre lágrimas e pessoas emocionadas, entrelaçadas num código genético de amor e empatia, falou-se de esperança. Falou-se em transformar a dor e o luto em energia, motor para inspirar os outros, como ouvimos de uma das testemunhas. “O luto é um ato de amor e de cuidado”. Ou, como diria o poeta e ensaísta Ocean Vuong, “o luto é provavelmente a última tradução do amor”.
Precisamos todos de um outro mundo. Vamos sentir a falta deste, ouve-se em Another World, nos últimos silvos do concerto. Vamos, sem dúvida, sentir a falta de Anohni quando esta primavera passar. Será que da próxima vez que nos virmos não estaremos todas de vestido até aos pés, tão belas, tão brancas?
Se Anohni foi coral, os Fontaines D.C. foram melancia, com o frontman Grian Chatten a passar grande parte do concerto agarrado à bandeira da Palestina como se fosse a bandeira da sua Irlanda. Vistas bem as coisas, as cores em pouco diferem e quando se trata de opressão e ocupação, cores e lutas tornam-se uma mancha só. Nos ecrãs laterais, tal e qual como aconteceu no Primavera Sound Barcelona, leu-se Free Palestine e Israel is committing genocide. Use your voice, enquanto soava I Love You.
▲ O frontman dos Fontaines D.C., Grian Chatten, passou grande parte do concerto agarrado à bandeira da Palestina como se fosse a bandeira da sua Irlanda
O público respondeu à mensagem com aplausos, gritos e assobios fervorosos, naquele que foi um dos momentos de maior tração de todo o espetáculo. Houve, ainda assim, outras catarses, como em Boys in the Better Land, malha imaculada que faz parecer a pandeireta nas mãos de Grian Chatten o instrumento mais incrível à face da terra; ou em In the Modern World, soletrada pela audiência como um pai-nosso.
Quem viu estes miúdos de Dublin há três anos, na estreia em Portugal, no NOS Alive, talvez se pasme – ou não – como em tão pouco tempo eles passaram de estar metidos numa tenda para hoje encherem um prado imenso. A plateia do palco principal do Primavera Sound, compacta até à bainha das calças, parecia pequena para tanta gente que ali estava. E, ainda assim, os Fontaines D.C. conseguem a proeza de abarcar tudo e todos, literal e metaforicamente falando.
Conseguem enfiar na sua discografia post-punk, britpop, nu metal, indie rock, rock melódico, Blur e Oasis sentados à mesma mesa (disse ninguém nunca até hoje); conseguem fazer uma última ceia em que estão lá os Korn, os The Kooks, os The Streets, Morrissey, Kurt Cobain e toda a VH1 com as suas Greatest Songs lá metidas. Mestria para uns, uma pastiche chatinha para outros.
Mas que interessa isso, quando no final das contas millennials, gen z e gen alpha bebem da mesma fonte, como em poucas outras situações? Quando pais e filhos, tantas vezes atados a comunicar entre si, cantam juntos canções tão distintas como “Big”, cheia de pontapés, e “Bug”, redonda melodia de acordes fáceis? Talvez seja essa a fórmula mágica dos Fontaines D.C. e talvez seja essa mesma fórmula a fazer com que os irlandeses, com o álbum Romance no bolso, estejam a viver uma lua de mel com os fãs e com a vida de artista.
Romances àparte, o Primavera Sound continua a sua jornada esta sexta-feira 13, dia de casamentos de Santo António, de Central Cee, Michael Kiwanuka, Deftones, Beach House e outras histórias de amor.