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Jorge Mario Bergoglio nunca tinha visto a Capela Sistina. Era já cardeal quando entrou pela primeira vez na esplendorosa capela adornada com os frescos de Miguel Ângelo no dia 18 de abril de 2005 — e terá tido de implorar, em lágrimas, aos seus colegas cardeais que não votassem nele para Papa. Um movimento de cardeais reformistas procurava bloquear a eleição do cardeal Joseph Ratzinger, que tinha sido o número dois do recém-falecido João Paulo II durante duas décadas, e fazia campanha em torno do cardeal Bergoglio, o reputado arcebispo de Buenos Aires conhecido pelo trabalho com os pobres e marginalizados.

Bergoglio representava uma Igreja diferente da europeia, cansada e gasta, fechada sobre si própria, fechada nas catedrais com medo das ameaças do mundo moderno. Mas aquele não era ainda o momento certo. Depois do longo pontificado de João Paulo II, era preciso um período de transição. Ratzinger foi mesmo o escolhido. Bento XVI governaria a Igreja até renunciar ao cargo, em 2013. Aí, o segundo classificado de 2005 não escaparia de novo: ao final da tarde de 13 de março de 2013, Francisco apareceu na varanda da Basílica de São Pedro e inaugurou o pontificado com um “boa noite”.

Os primeiros dias do pontificado do Papa Francisco ficaram marcados por pequenas historietas que atraíram a atenção mediática global: a recusa dos sapatos vermelhos e das vestes pomposas, o telefonema para o quiosque de Buenos Aires a pedir que deixassem de lhe guardar o jornal, o outro telefonema para cancelar pessoalmente uma consulta no dentista que já estava marcada, a insistência em ir ele próprio até à residência romana onde se tinha alojado antes do conclave para arrumar as malas e pagar a conta, e por aí fora.

Tudo isto surpreendeu o mundo, mas não terá surpreendido muitos na Argentina. Nada daquilo era teatro. Bergoglio era mesmo aquele homem simples que, em todos os lugares por onde tinha passado, implementara profundas reformas guiadas por um desejo de regressar à fonte da fé: o Evangelho. Tinha sido assim na Companhia de Jesus na Argentina, nos bairros pobres da diocese de Buenos Aires, na Igreja da América Latina. E seria assim agora na Igreja global. Poucos dias depois da eleição, os jornais italianos, habituados a outro tipo de papas, falavam de Francisco como o “pároco do mundo”, por causa do estilo próximo e acessível do novo pontífice.

O Papa Francisco morreu esta segunda-feira aos 88 anos de idade, após um pontificado de 12 anos que ficou marcado pelos esforços de reforma da Igreja a partir das fontes originais da fé. Durante estes anos, mais do que implementar decisões neste ou naquele sentido, Francisco procurou abrir debates e processos — incluindo alguns que, alguns anos antes, teriam sido absolutos tabus — e convocou a generalidade dos fiéis para esse trabalho. Abriu o Sínodo dos Bispos à participação dos leigos, reformou a Cúria Romana para a tornar menos centrada no poder dos cardeais e abriu a discussão em relação a temas que deixaram de ser interditos, incluindo a ordenação de mulheres e a relação da Igreja com as pessoas homossexuais. Nos temas “fraturantes”, preferiu abdicar de generalizações e falar ao concreto de cada história pessoal.

Foi também durante o pontificado de Francisco que a crise dos abusos sexuais na Igreja se aprofundou para níveis sem precedentes, o que obrigou o Papa a dar um murro na mesa e a convocar uma cimeira global dos bispos católicos para discutir o assunto. Na sequência de decisões do Papa, foram implementadas novas leis e criados organismos para combater a realidade dos abusos — que, nos últimos anos, se têm traduzido em ações concretas nas dioceses católicas de todo o mundo.

Mas, afinal, quem foi este homem? O Papa que reformou a Igreja não foi sempre uma personagem unânime. Nos jesuítas, foi um líder popular antes de ser mandado para o exílio. Enfrentou duras acusações de conluio com a ditadura militar argentina antes de virem a público as histórias das dezenas de pessoas que salvou da perseguição dos militares. Os intelectuais acusaram-no de dar demasiada importância à religiosidade popular e de passar o tempo nos bairros pobres a fazer de pároco, mesmo quando já era cardeal. Tudo capítulos de uma história que podia nem ter chegado a começar.

Papa. A revolução que está a mudar o Vaticano

, por Rita Garcia
Clique nos títulos em baixo
para ler os capítulos
Uma família
salva pelo acaso
“Se não me caso contigo
vou para padre”
A longa formação
jesuíta moldada
pelo Concílio Vaticano II
Um provincial com 36 anos
A Lista de Bergoglio
De jesuíta exilado a cardeal
“Não te esqueças
dos pobres”
O Papa da Igreja
para “todos, todos, todos”

Uma família
salva pelo acaso

Em todas as grandes tragédias, é possível identificar vários tipos de vítimas: há, naturalmente, as vítimas primárias, diretamente expostas ao desastre; os familiares delas; os profissionais que tiveram de as socorrer; a comunidade em que se deu a catástrofe e as pessoas afetadas, ainda que não diretamente, pela tragédia. Mas as ciências psicológicas identificam ainda um outro tipo de vítimas, um sexto grau de impacto de uma tragédia, com implicações profundas em quem passa pela experiência: quem só por acaso não foi uma vítima direta.

Podemos pensar num trabalhador que ficou doente na manhã de 11 de setembro de 2001 e não se deslocou ao World Trade Center naquele dia fatídico ou num passageiro que até tinha bilhete para determinada viagem de comboio que acabaria em desastre, mas que se atrasou a chegar à estação. A experiência de ter sido salvo pelo mero acaso pode ser igualmente traumática, dar origem a sentimentos de culpa pela sobrevivência e deixar marcas para toda a vida.

O Papa que reformou a Igreja não foi sempre uma personagem unânime. Nos jesuítas, foi um líder popular antes de ser mandado para o exílio. Enfrentou duras acusações de conluio com a ditadura militar argentina antes de virem a público as histórias das dezenas de pessoas que salvou da perseguição dos militares.

Em outubro de 1927, a família Bergoglio passou por uma experiência semelhante, com impactos que se viriam a repercutir na vida do pequeno Jorge Mario, ainda por nascer.

A história remonta aos avós do Papa, Giovanni Angelo Bergoglio e Rosa Margherita Vassallo de Bergoglio, um casal de italianos da província de Asti, na região de Piemonte (cuja capital é Turim). Giovanni Angelo e Rosa Margherita eram de origem rural, mas, como escreve Austen Ivereigh na sua biografia de Bergoglio, Francisco, o Grande Reformador (Vogais, 2015), “ascenderam ao estatuto da classe média graças à instrução que deram à sua prole”. Esse primeiro salto deu-se em 1920, quando o casal deixou a pequena vila de Portacomaro, onde tinha casado e criado os seis filhos, para se instalar em Turim, “onde a exploração de um café lhes permitia à justa pagar a educação dos filhos”. Entre os seis filhos do casal encontrava-se Mario Bergoglio, que viria a ser o pai de Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco. Nascido em 1908, Mario já pôde estudar e tornar-se contabilista na Banca d’Italia.

No decorrer da década de 1920, contudo, Giovanni Angelo e Rosa Margherita juntar-se-iam à intensa onda migratória italiana com destino à Argentina — país que, depois do período da confederação do século XIX, que se seguiu à independência de Espanha, era à época liderado por uma elite liberal que procurava o desenvolvimento através da europeização do seu território, atraindo imigrantes europeus em massa. No período de ouro da imigração italiana para a Argentina, entre 1880 e 1930, largas centenas de milhares de italianos cruzaram o Atlântico em grandes navios para desembarcar em Buenos Aires em busca de uma vida melhor.

O SS Principessa Mafalda, considerado o “Titanic italiano”, que naufragou em 1927. Os avós de Bergoglio tinham bilhetes para aquela viagem, mas trocaram-na à última hora

Giovanni Angelo e Rosa Margherita compraram bilhetes de terceira classe para si e para os seis filhos para a viagem do SS Principessa Mafalda, considerado o “Titanic italiano”, um dos mais luxuosos navios de passageiros da época, para atravessar o oceano com destino a Buenos Aires em outubro de 1927. Todavia, um atraso na chegada do dinheiro que tinha resultado da venda do café da família em Turim obrigou o casal a trocar os bilhetes para a viagem do SS Giulio Cesare, agendada para o final de novembro. O atraso em Turim acabaria por salvar a família: o SS Principessa Mafalda naufragou em 25 de outubro de 1927, ao largo do Brasil, num acidente que levou à morte de centenas de passageiros.

Ao longo de gerações, a família Bergoglio conservaria a recordação clara de que se tinham salvado por mero acaso. Certamente essa recordação estaria presente na sua mente quando, em julho de 2013, quatro meses depois de ser eleito, o Papa Francisco escolheu a ilha de Lampedusa como destino da sua primeira viagem fora de Roma, para deitar uma coroa de flores ao mar, lembrando a morte, nas águas do Mediterrâneo, de milhares de migrantes a quem a Europa virou as costas e alertando o mundo para o perigo da “globalização da indiferença”.

Mas não foi por acaso que Giovanni Angelo e Rosa Margherita se mudaram para a Argentina. Naquele país, na cidade de Paraná, já viviam três irmãos de Giovanni Angelo, que tinham criado uma empresa de pavimentação que lhes abrira a porta da prosperidade e lhes tinha permitido até construir uma imponente casa que ficaria conhecida como “Palazzo Bergoglio”. Foi na cidade de Paraná que, vindos de Turim, Giovanni Angelo e Rosa Margherita se fixaram com os seis filhos. Nas palavras do biógrafo do Papa Francisco, os Bergoglios correspondiam, na altura, “ao estereótipo dos imigrantes típicos da Argentina”, país que, “à semelhança dos Estados Unidos, passou a ser uma nação dotada de uma grande classe média que colocava uma grande ênfase no trabalho árduo e no progresso”.

Mas a vida tranquila dos Bergoglios na Argentina não duraria muito tempo. Em 1929, a Grande Depressão abateu-se com estrondo e fez vítimas por todo o mundo capitalista — e a empresa de pavimentação dos irmãos de Giovanni Angelo foi profundamente afetada. A machadada final foi a morte do irmão mais velho de Giovanni Angelo, que era também o principal responsável pela empresa. Em 1932, no pico da crise, a família Bergoglio estava já numa situação financeira muito grave, que obrigou à venda do Palazzo Bergoglio e à separação da família. Mario Bergoglio, o futuro pai do Papa Francisco, seguiu para Buenos Aires com os pais — e é naquele momento que se pode identificar uma aproximação decisiva da família Bergoglio à Igreja Católica, que moldaria definitivamente a vida do Papa Francisco.

Sem recursos, a família encontrou salvação na ajuda do padre Enrico Pozzoli, um salesiano que o jovem Mario, então com pouco mais de 20 anos, já conhecia das suas frequentes idas a Buenos Aires. Enrico Pozzoli tornar-se-ia uma figura referencial para a família Bergoglio: em 2021, a editora do Vaticano viria mesmo a publicar uma biografia do padre que batizou o Papa, com prefácio do próprio Francisco, que se referia a ele como um “grande apóstolo do confessionário”.

O sacerdote ajudou a família a conseguir um empréstimo, com o qual os avós do Papa Francisco montaram um pequeno café — negócio a partir do qual a família se reconstruiu.

Mas foi também neste novo contexto, em Buenos Aires, que Mario Bergoglio conheceu Regina Sivori — a irmã de dois dos rapazes que frequentavam, com Mario, o grupo de jovens rapazes próximos do padre Pozzoli — e se apaixonou por ela. Mario e Regina casaram no dia 12 de dezembro de 1935 em Buenos Aires; um ano depois, a 17 de dezembro de 1936, nasceu o seu primeiro filho, Jorge Mario Bergoglio, batizado no dia de Natal desse mesmo ano pelo padre Enrico Pozzoli.

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Os pais de Jorge Bergoglio, Regina Maria Sivori e Mario Jose Francisco Bergoglio, no dia do seu casamento, a 12 de dezembro de 1935

API/Gamma-Rapho via Getty Images

Dado todo este contexto, a família do pequeno Jorge Mario foi desde sempre muito ligada à Igreja. Jorge cresceu no bairro de Flores, em Buenos Aires, para onde haveria de voltar muitos anos mais tarde como bispo auxiliar — e onde faria planos para passar uma reforma tranquila. Foi naquele bairro que a vida religiosa de Bergoglio começou a ganhar forma. O futuro Papa Francisco ia à missa com os pais ao convento das irmãs da Misericórdia Divina, onde também havia um jardim de infância que Jorge frequentou. Mais tarde, as freiras daquele jardim de infância haveriam de contar ao biógrafo do Papa Francisco que o pequeno Jorge já dava sinais do que viria a ser o seu pontificado, inquieto, fora de muros, em busca das periferias: é que a criança nunca ficava dentro da sala, preferindo sempre as brincadeiras na rua.

Foi ali que conheceu a irmã Dolores, que se tornaria numa figura referencial: foi ela quem o preparou para a primeira comunhão e lhe passou os primeiros ensinamentos sobre os fundamentos da fé cristã. Em casa, foi Rosa Margherita quem se tornou numa grande referência cuja influência perduraria até ao seu pontificado: ao contrário dos pais, que eram católicos bastante puritanos (Austen Ivereigh descreve até uma casa onde quem se divorciasse deixava de poder entrar), a avó Rosa ensinou a Jorge a importância da misericórdia de Deus. Leu-lhe Os Noivos, o clássico de Alessandro Manzoni, e ajudou-o a compreender a fé mais pelos olhos da misericórdia de Deus do que pelas rígidas lentes do cumprimento cego das regras religiosas. Décadas mais tarde, o Papa Francisco dedicaria uma grande parte do seu magistério ao tema da misericórdia, dedicando-lhe um jubileu extraordinário em 2016.

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Bergoglio numa fotografia de grupo da sua turma da escola infantil. O futuro Papa encontra-se na fila de baixo, na ponta direita.

dpa/picture alliance via Getty I

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A escola 8-11, no bairro de Flores, ainda guarda, nos seus arquivos, fotografias e documentos do pequeno Jorge Bergoglio, que ali estudou entre os 6 e os 11 anos.

dpa/picture alliance via Getty I

“Se não me caso contigo
vou para padre”

Em 1948, quando o pequeno Jorge Mario estava perto de completar 12 anos de idade, Regina Sivori ficou gravemente doente na sequência do parto da irmã mais nova do Papa Francisco, María Elena. Com Regina incapaz de cuidar dos outros quatro filhos — Jorge, Oscar, Marta e Alberto — foi preciso encontrar uma solução para eles. Novamente, foi no padre Enrico Pozzoli que a família encontrou ajuda: o sacerdote conseguiu encontrar colocações para os quatro irmãos em escolas católicas de Buenos Aires, em regime interno.

Jorge foi enviado para o colégio Wilfrid Barón de los Santos Ángeles, nos arredores de Buenos Aires, uma escola dos salesianos. Entrou no sexto ano de escolaridade e, logo na infância, começou a confrontar-se com os temas difíceis — incluindo a morte — e a explorar a possibilidade de uma vocação sacerdotal. No colégio aprendeu o canto litúrgico e a ajudar à missa e começou a pensar, ainda que sem certezas, em ser padre.

Em 1990, o já padre Jorge Bergoglio viria a recordar os seus anos de formação naquele colégio, numa carta que enviou ao superior dos salesianos. Nessa missiva, Bergoglio lembra o “afeto” com que fala dos salesianos, quer devido à influência do padre Pozzoli na sua família, quer devido ao tempo que passou naquele colégio. “Estava imerso num modo de vida preparado para que não houvesse tempo para a preguiça. O dia passava como uma flecha sem tempo para nos aborrecermos. Sentia-me submergido num mundo que, embora preparado ‘artificialmente’ (com recursos pedagógicos), não tinha nada de artificial. A coisa mais natural era ir à missa de manhã, tomar o pequeno-almoço, estudar, ir às aulas, brincar durante o recreio, ouvir o ‘boa noite’ do padre diretor.”

“Fui ensinado a amar de forma pura, sem qualquer forma de ensinamento obsessivo. Não havia nenhuma obsessão sexual na escola, pelo menos no ano que lá passei.”
Padre Jorge Bergoglio, sobre os tempos que passou na escola salesiana

Para Bergoglio, o tempo que passou naquela escola criou em si, “não apenas uma consciência moral, mas uma espécie de consciência humana (social, lúdica, artística, etc.). Por outras palavras: a escola criou, através do despertar da consciência na verdade das coisas, uma cultura católica que não era de todo ‘fanática’ ou ‘desorientada’. O estudo, os valores sociais de viver em conjunto, as referências sociais aos mais necessitados (lembro-me de ter aprendido a privar-me de algumas coisas para as dar a quem era mais pobre do que eu), o desporto, a competência, a piedade, tudo era real e tudo formou hábitos que, em conjunto, formaram uma forma cultural de ser.”

Desta “cultura católica” formada no colégio salesiano, destaca-se um aspeto formativo de Bergoglio que viria a tornar-se evidente durante o pontificado de Francisco: a importância do sentir. “Eles educaram ali o meu sentimento. Os salesianos têm uma aptidão especial para isto. Não me refiro ao ‘sentimentalismo’, mas ao ‘sentimento’ como valor do coração.” Anos mais tarde, em Lampedusa, Francisco começaria assim a sua homilia em recordação dos imigrantes mortos no Mediterrâneo: “Desde há algumas semanas, quando tive conhecimento desta notícia (que infelizmente se vai repetindo tantas vezes), o caso volta-me continuamente ao pensamento como um espinho no coração que faz doer.” Perguntando “quem chorou” pelos mortos no mar, lamentou: “A globalização da indiferença tirou-nos a capacidade de chorar.”

Outro aspeto referido por Bergoglio naquela carta de 1990 ajuda a compreender o que viria a ser o seu pontificado, no qual Francisco condenou a “obsessão neurótica” da Igreja Católica com as questões do sexo. “Fui ensinado a amar de forma pura, sem qualquer forma de ensinamento obsessivo. Não havia nenhuma obsessão sexual na escola, pelo menos no ano que lá passei.”

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Jorge Bergoglio (na terceira fila, o quarto a contar da esquerda) numa fotografia de grupo na escola salesiana

Getty Images

Mas a vocação sacerdotal não se fez anunciar de forma óbvia e imediata. Naquela fase de início da adolescência, já depois do ano que passou no colégio salesiano, Jorge apaixonou-se por Amalia Damonte, uma rapariga da vizinhança da família. Os dois tinham 12 anos quando Jorge a pediu em casamento numa brincadeira que fez correr muita tinta sobre a possibilidade de um suposto desgosto amoroso ter conduzido Bergoglio ao caminho do sacerdócio: “Se não me caso contigo vou para padre.” Isso mesmo seria, já em 2013, recordado pela própria Amalia, numa entrevista a uma rádio argentina, que lembrou o episódio como uma coisa “de crianças e pura”. A biografia de Francisco redigida por Austen Ivereigh conta o episódio com uma ligeira diferença: na carta que Jorge escreveu a Amalia, e na qual desenhou uma casa de telhado vermelho onde os dois deveriam viver no futuro, Bergoglio teria escrito, na verdade, “se não for para padre, caso contigo” — o que, no entender do biógrafo, significa que Bergoglio já ponderava naquele momento a vocação sacerdotal. Seja como for, o que é certo é que o pai de Amalia não gostou do namorico, bateu-lhe e proibiu-a de voltar a ver Jorge. Só mais tarde, quatro anos depois, é que a vocação sacerdotal se consolidaria verdadeiramente em Jorge.

Depois do primeiro desgosto amoroso, Jorge seguiu para o ensino secundário, na Escuela Industrial n.º 3, em Buenos Aires, onde aprendeu química laboratorial. Na altura, era o tempo do peronismo, o regime popular do carismático Juan Domingo Perón que sucedeu ao período do liberalismo e que, pelo menos numa primeira fase, vê na Igreja Católica uma importante força política. Na escola secundária, Jorge Bergoglio foi um verdadeiro missionário e empenhou-se na ajuda espiritual aos colegas — mas também começou a trabalhar, primeiro na firma de contabilidade que entretanto o pai tinha aberto, e depois no escritório de uma fábrica de meias.

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Amalia Damonte, a antiga namorada do pequeno Jorge Bergoglio, continuou sempre a viver em Flores, Buenos Aires

AFP via Getty Images

Durante a escola secundária, Jorge Mario Bergoglio era um jovem convencional dos subúrbios de Buenos Aires: de origem italiana, como milhões de argentinos, católico convicto e devoto devido ao contexto familiar e à formação, trabalhador como muitos jovens de famílias afetadas pela Grande Depressão — e, naturalmente, também era um argentino tradicional, apaixonado pelo tango e pelas festas noturnas. Os relatos dos amigos de Bergoglio, compilados em inúmeras reportagens e biografias, dão conta de um excelente dançarino de tango, que tinha uma namorada e que gostava de comer, de beber e de festas aos sábados à noite (sem que isso o impedisse de, no domingo bem cedo, estar na missa).

O fascínio de Bergoglio pelos ambientes do tango, na altura ainda uma dança muito associada às prostitutas e às classes sociais mais baixas, tem sido lido por muitos como um sinal precoce de aproximação às periferias das sociedades. Bergoglio não se fechava, física e intelectualmente, nas igrejas, no trabalho ou em casa — saía do centro, em busca das periferias existenciais da sua cidade. A “opção preferencial pelos pobres”, que o Papa Francisco reiterou múltiplas vezes no seu pontificado como missão central da Igreja Católica, não tinha origem numa visão académica, externa, mas num conhecimento em primeira mão dos contextos reais da humanidade do seu tempo.

Foi nessa fase da adolescência, marcada pelo namoro, pelo tango e pelas festas, que Jorge Bergoglio, com 17 anos, descobriu a sua vocação. Conhecemos os pormenores desse importante dia 21 de setembro de 1953 porque o próprio Bergoglio, já como cardeal arcebispo de Buenos Aires, os contou em 2012 numa entrevista intimista à rádio La 96, uma pequena estação da paróquia de Caacupé, numa das zonas mais pobres e menos desenvolvidas da cidade de Buenos Aires — o tipo de bairros por onde era frequente encontrar o cardeal Bergoglio. Três dias depois da eleição do Papa Francisco, a paróquia criou um canal no YouTube especificamente para partilhar com o mundo a entrevista em que Bergoglio revelou vários pormenores da sua biografia.

“Em criança, já me tinha ocorrido ser padre, mas como ocorre ser engenheiro, ser médico ou ser músico”, contou Bergoglio. “Estava na escola industrial, estudava química, e no dia 21 de setembro [de 1953] — porque disso lembro-me sempre — estava a sair para ir passear com os meus companheiros e passei pela igreja de Flores. Eu ia a essa igreja. E aí entrei. Senti que tinha de entrar, essas coisas que sentimos de dentro e não sabemos como são. Olhei, estava escurito, uma manhã de setembro, e vejo que vinha um padre a caminhar. Não o conhecia, não era da igreja, e senta-se no último confessionário, à esquerda, de frente para o altar. E, aí, não sei o que me aconteceu.”

Continuou o cardeal Bergoglio: “Senti como se alguém me tivesse agarrado por dentro e me tivesse levado ao confessionário. Não sei o que se passou aí, evidentemente contei-lhe as minhas coisas, confessei-me, mas não sei o que aconteceu para, quando acabei de me confessar, ter perguntado ao padre de onde era, pois não o conhecia. Disse-me: ‘Sou de Corrientes e estou a viver aqui perto, no lar sacerdotal, e venho celebrar missa aqui à paróquia de vez em quando.’ Ele tinha um cancro, uma leucemia, e morreu no ano seguinte. Aí, senti que tinha de ser padre. Não duvidei, não duvidei.”

Jorge já não foi ao piquenique com os amigos para onde se dirigia naquela manhã de setembro: voltou para casa. Depois disso, continuou a ir à escola até completar a sua formação secundária, mas já convicto de que o seu caminho estava trilhado.

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Jorge Bergoglio durante a infância, numa fotografia de arquivo sem data

Getty Images

A longa formação
jesuíta moldada
pelo Concílio Vaticano II

“Vou terminar a escola secundária com vocês, mas não vou ser um químico, vou ser padre. Mas não quero ser o padre de uma basílica. Vou ser um jesuíta, porque quero ir para os bairros, para as villas, estar com as pessoas”, diria Jorge Mario Bergoglio ao seu colega Oscar Crespo, com quem trabalhava no laboratório químico durante os estudos na escola secundária. O relato do amigo, que surge na biografia de Francisco elaborada por Ivereigh, parece apontar para uma vocação jesuíta identificada logo no primeiro momento — embora o caminho de Bergoglio até à Companhia de Jesus não tenha sido assim tão direto, uma vez que a primeira porta a que bateu foi a do seminário diocesano, ou seja, a escola que o formaria para se tornar um padre do clero secular da diocese de Buenos Aires.

A consciência da vocação sacerdotal de Jorge não o afastou da vida que levava durante a escola secundária, nas periferias de Buenos Aires, da vida noturna e da paixão pelo tango. Aliás, para amealhar algum dinheiro extra, Jorge chegou mesmo a trabalhar com porteiro em bares de tango na capital argentina.

Tudo só acabaria em março de 1956, no início do ano letivo em que entrou no seminário diocesano de Buenos Aires após uma despedida custosa dos muitos amigos que deixou para trás. A principal dificuldade foi convencer os pais, que estavam convictos de que Jorge viria a ser médico. Só com a ajuda do padre Enrico Pozzoli, o seu guardião espiritual desde a infância, Bergoglio conseguiu tranquilizá-los em relação à sua escolha de vida.

“Vou terminar a escola secundária com vocês, mas não vou ser um químico, vou ser padre. Mas não quero ser o padre de uma basílica. Vou ser um jesuíta, porque quero ir para os bairros, para as 'villas', estar com as pessoas.”
Jorge Mario Bergoglio ao seu colega Oscar Crespo

Foi no seminário diocesano de Buenos Aires, administrado pela Companhia de Jesus, que conheceu os jesuítas mais intimamente. Recordado pelos colegas como um grande jogador de futebol, aluno bem comportado, respeitado pelo talento e sabedoria, Jorge Bergoglio passou de uma vida marcada pelo trabalho e pela diversão para um contexto de grande rigor dentro do seminário, onde cada minuto da rotina quotidiana era contado: as orações matinais e de vésperas, a missa diária, o estudo, as aulas e os períodos de tempo livre.

Na juventude de Bergoglio, o futebol esteve sempre presente. Herdou do pai a paixão fervorosa pelo San Lorenzo, com estádio no bairro de Flores — aliás, o pai de Jorge viria a morrer justamente de ataque cardíaco nas bancadas daquele estádio. Na infância, Jorge chegou a cruzar-se no bairro de Flores com aquele que se tornaria numa das maiores lendas do futebol argentino, Alfredo Di Stéfano, e os dois terão mesmo chegado a jogar juntos no bairro. A história da ligação de Bergoglio ao futebol foi profundamente explorada pelo antigo embaixador colombiano no Vaticano, César Mauricio Velásquez, que escreveu um livro sobre a relação entre a fé e o desporto e o lado humano do futebol a partir de conversas com o Papa Francisco e várias lendas do futebol mundial.

Em 2018, em entrevista ao Observador, Velásquez lembrou como o Papa Francisco e Di Stéfano “jogaram juntos algumas vezes no bairro onde viviam” e também como o futebolista argentino, que morreu em 2014, ficou “tão emocionado” no dia da eleição pontifícia de Bergoglio “que pôs uma bandeira da Argentina na varanda da sua casa em Madrid” nesse dia.

"O Papa e Di Stéfano jogaram juntos no bairro"

, por Fábio Ferreira Lima

A ligação de Bergoglio ao futebol perduraria até ao pontificado: nos museus do Vaticano há camisolas de equipas, luvas de guarda-redes e troféus, com destaque para as ofertas do San Lorenzo. O Papa Francisco enviaria também uma imagem da Virgem Maria para o estádio do San Lorenzo e, mesmo dentro do Vaticano, recebe dos seus assessores informações detalhadas sobre os resultados desportivos do país natal. Velásquez perguntou também a Bergoglio o que era, para si, um bom golo: “O Papa diz que um bom golo tem de ser surpreendente, um bom golo tem de ter muito de habilidade. Habilidade, surpresa e emoção.”

Aquele primeiro ano de seminário foi, contudo, de grandes dúvidas para Jorge, que chegou mesmo a passar uma boa parte do ano atormentado com a ideia de abraçar o celibato. Segundo Austen Ivereigh, o já seminarista Bergoglio conheceu no casamento de um tio uma rapariga tão bela que continuava a invadir-lhe o espírito sempre que tentava rezar — e avolumavam-se as dúvidas sobre se seria capaz de levar uma vida sem mulher filhos. Acabou, no entanto, por se decidir a ficar no seminário.

No segundo ano letivo que passou no seminário de Buenos Aires, Jorge foi subitamente afetado por uma doença que o levou a vários dias de internamento hospitalar — e que deixaria marcas muito profundas que se viriam a repercutir durante toda a vida do Papa Francisco. Uma grave pleurisia (inflamação da pleura, a membrana que reveste os pulmões) resistente aos antibióticos atirou-o para uma cama do hospital perto do seminário, para onde foi levado de urgência com fortes dores.

A experiência foi de tal modo radical que, durante cinco dias, Jorge esteve dentro de uma tenda de oxigénio e foi operado. Foram-lhe retirados três quistos dos pulmões, uma parte do pulmão direito e uma parte da pleura — uma condição que deixaria Bergoglio particularmente vulnerável, ofegante ao mínimo esforço, até ao fim dos seus dias.

Durante o internamento doloroso — conta-se que chegou a delirar com as dores inimagináveis —, Jorge procurou incessantemente encontrar um sentido para o que lhe estava a acontecer. Foi a irmã Dolores, que havia conhecido no infantário e que o tinha marcado profundamente, quem o ajudou a procurar identificar o seu sofrimento naquela cama de hospital com o sofrimento de Cristo pregado na cruz. Bergoglio viria a contar, mais tarde, que essa capacidade de identificação com o sofrimento de Cristo o ajudou decisivamente a superar os dias de internamento, durante os quais esteve quase sempre acompanhado de amigos seminaristas.

Foi também durante o internamento que Jorge Mario se decidiu a entrar na Companhia de Jesus. Estava determinado a não ficar aquartelado numa paróquia urbana, queria ir para as frentes de batalha quotidianas da Igreja — que Bergoglio identificava na história da Companhia de Jesus na Argentina.

Chegados ao território da Argentina no final do século XVI oriundos do Peru, poucos anos depois da morte do fundador, Santo Inácio de Loyola, os jesuítas encontraram uma região ainda em processo de colonização, e tornaram-se nos principais defensores dos povos indígenas perante os abusos dos colonos espanhóis. Entre os séculos XVII e XVIII, os jesuítas foram os responsáveis por organizar milhares de comunidades, articulando a divulgação do Evangelho com a promoção das culturas locais. O alinhamento dos jesuítas com a defesa dos direitos dos povos indígenas valeu-lhes a inimizade da coroa espanhola e foi um dos motivos que levaram o rei Carlos III a pressionar o Papa Clemente XIV a suprimir a Companhia de Jesus, em meados do século XVIII. A ordem só seria restaurada já no século XIX e os jesuítas encontraram um território entretanto independente. A recusa dos jesuítas em promover o regime do ditador Juan Manuel de Rosas levou à expulsão dos jesuítas da Argentina — só voltariam mais tarde, depois da deposição de Rosas, recuperando gradualmente igrejas e colégios e assumindo-se como educadores. Foi nessa fase que lhes foi confiado o seminário diocesano de Buenos Aires, que Bergoglio viria a frequentar em 1956.

Durante o internamento doloroso — conta-se que chegou a delirar com as dores inimagináveis —, Jorge procurou incessantemente encontrar um sentido para o que lhe estava a acontecer. Foi a irmã Dolores, que havia conhecido no infantário e que o tinha marcado profundamente, quem o ajudou a procurar identificar o seu sofrimento naquela cama de hospital com o sofrimento de Cristo pregado na cruz.

Quando foi aceite na Companhia de Jesus, em 1958, Jorge já levava quase dois anos de estudos de seminário, o que lhe permitiu reduzir ligeiramente o tempo de formação nos jesuítas. Ainda assim, Bergoglio passou por um intenso processo formativo, que incluiu dois anos de noviciado em Córdoba, na Argentina, um ano de estudos de juniorado, em Santiago do Chile, três anos de estudo de filosofia em Buenos Aires (no Colégio Máximo, a grande instituição de ensino superior dos jesuítas), três anos de magistério a dar aulas em Santa Fé, três anos de estudos de teologia novamente em Buenos Aires e ainda um ano de exercícios espirituais em Espanha no final do processo, antes dos votos finais.

A formação intelectual de Bergoglio coincidiu, em grande parte, com o Concílio Vaticano II, o grande concílio da Igreja Católica ocorrido na década de 1960 por decisão do Papa João XXIII, que considerava urgente um debate aprofundado sobre a relação da Igreja no mundo contemporâneo — no qual ficou célebre no meio eclesiástico o termo aggiornamento, italiano para atualização, para designar o processo de adaptação da mensagem da Igreja aos desafios do mundo moderno. O Vaticano II, que produziria muitos dos documentos referenciais da Igreja contemporânea, também não foi alheio às revoluções culturais dos anos 60.

À semelhança da generalidade da Igreja, no que diz concretamente respeito às congregações religiosas, um dos grandes desígnios do Concílio Vaticano II foi a ideia do regresso às fontes do Cristianismo, ao espírito das primeiras comunidades cristãs e dos Padres da Igreja e aos carismas dos fundadores das congregações religiosas — rompendo com a pesada estrutura de poder hierárquico em que a Igreja se tinha transformado ao longo dos séculos. Essa ideia de regresso às fontes, no caso dos jesuítas, moldaria decisivamente o modo de Jorge Bergoglio olhar para a Igreja e para a Companhia de Jesus.

Jorge fez os primeiros votos como jesuíta em 12 de março de 1960, após um período de noviciado sob regras apertadas. Segundo conta Ivereigh na sua biografia do Papa Francisco, os noviços em Córdoba estavam obrigados a tratar-se por você, e não por tu, e proibidos de andar em grupos com menos de três elementos, para evitar amizades preferenciais. A educação era especialmente formal e os colegas lembram Jorge como um jovem soturno e piedoso, que já sabia latim e grego devido aos anos no seminário diocesano — o que acelerou o seu processo formativo.

Depois dos votos iniciais, Jorge foi para Santiago do Chile, onde passou o tempo do juniorado, um tempo de estudos iniciais, na Casa Loyola — uma casa destinada justamente a acolher os jesuítas juniores que se encontram neste primeiro período de formação. Ali, Bergoglio viveu de modo muito rígido, com horários apertados e obrigado a uma rotina de estudo intenso. Durante aquele tempo, aos fins de semana, Jorge deu aulas numa escola frequentada por crianças muito pobres, naquele que foi o primeiro grande contacto daquele jovem jesuíta de classe média com a miséria de alguns estratos sociais da população argentina.

De volta a Buenos Aires após o período do juniorado, Jorge rumou ao Colégio Máximo, para o primeiro dos dois grandes ciclos de estudos da sua formação intelectual: a filosofia. O período de estudos filosóficos em Buenos Aires ficou marcado pela tristeza da perda do pai, que morreu de ataque cardíaco no estádio de futebol do San Lorenzo — a equipa que Bergoglio continuou a apoiar fervorosamente até como Papa, em Roma — e pelos desafios teológicos colocados pela realização do Concílio Vaticano II. Como estudante, Bergoglio debateu intensamente os desenvolvimentos do concílio com os colegas — e já se assumia como um defensor da corrente mais progressista, a que defendia uma Igreja mais disponível para dialogar com o mundo contemporâneo.

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O Colégio Máximo era o centro intelectual dos jesuítas na Argentina

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Foi ali que Bergoglio estudou filosofia e teologia

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O Colégio Máximo hoje em dia

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O escritório que Bergoglio ocupou durante o seu tempo no Máximo

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O quarto onde Bergoglio viveu

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No final dos três anos de estudos filosóficos, Jorge foi colocado como professor de literatura no Colégio da Imaculada Conceição, em Santa Fé, onde ensinou jovens do ensino secundário. Naquele período de magistério, pelo qual os jesuítas passam durante a sua formação, Jorge foi um professor muito apreciado de uma das escolas mais importantes da Argentina. Foi nesse período que se cruzou com Jorge Luis Borges, o mais aclamado escritor argentino — que na altura era já um ícone da literatura em língua espanhola. Bergoglio tinha contacto com a secretária de Borges e foi através dela que convidou o autor para ir ao colégio falar de literatura aos estudantes.

Borges acedeu e passou vários dias no colégio jesuíta com Bergoglio — um professor considerado brilhante, com grande conhecimento literário, mas soturno — e os seus estudantes; no final, o professor Bergoglio promoveu entre os alunos a escrita de contos, garantindo-lhes que os melhores textos seriam enviados a Jorge Luis Borges. A promessa de Bergoglio concretizou-se: quando recebeu o dossiê com os contos, Borges sugeriu a Bergoglio que os editasse num volume autónomo e ofereceu-se até para escrever o prefácio.

Após três anos de ensino de literatura, Bergoglio regressou ao Colégio Máximo, em Buenos Aires, para o segundo grande ciclo de estudos da sua formação jesuíta — depois da filosofia, a teologia, entre 1967 e 1970. O grande tema daqueles anos era, inevitavelmente, o Concílio Vaticano II, que terminara pouco antes. O ressourcement — o regresso às fontes — era um objetivo vital do concílio e, dentro da Companhia de Jesus, o padre Pedro Arrupe, à época superior geral, coordenava este processo de regresso à espiritualidade de Santo Inácio. Ainda durante os estudos teológicos, Bergoglio começou a escrever os seus primeiros artigos e foi nomeado assistente do mestre de noviços. Aquela era uma ambição antiga de Bergoglio, que alinhava pela corrente mais progressista da Igreja Católica e pretendia ter responsabilidades na formação dos futuros jesuítas e contribuir para moldar as novas mentalidades ao sabor dos novos ventos do concílio.

O pensamento teológico de Bergoglio foi fortemente influenciado pela obra do teólogo francês Yves Congar, que apontava a diferença entre a verdadeira reforma (que pretende tornar a Igreja mais fiel a si própria, regressando às origens e valorizando a tradição) e a falsa reforma (um mero alinhamento da Igreja com o pensamento secular). Num contexto de grande divisão teológica na Igreja argentina, com fraturas assinaláveis entre católicos e num momento marcado pelo surgimento da teologia da libertação, Bergoglio preparava-se para a ordenação sacerdotal.

É impossível compreender o catolicismo na América Latina naquele período histórico sem o ler à luz da teologia da libertação, uma corrente teológica surgida na sequência do Concílio Vaticano II que colocou a ênfase da libertação humana, já não apenas na ideia de rejeição do pecado, mas também na libertação das sociedades dos regimes e estruturas sociais que oprimem os povos e aumentam as desigualdades e a injustiça. Popularizava-se a “opção preferencial pelos pobres”, expressão que o Papa Francisco viria a repetir múltiplas vezes durante um pontificado em que deu significado à redefinição da Igreja Católica como “povo de Deus”, e já não como uma mera estrutura hierarquizada, que resultou do concílio.

Rapidamente, porém, a teologia da libertação ganharia, no contexto latino-americano, uma grande proximidade com as ideias marxistas. Bergoglio situava-se, segundo o seu biógrafo Austen Ivereigh, noutro campo de pensamento: para ele, a opção pelos pobres não se devia confundir com o marxismo; a Igreja não defende os pobres classificando-os como uma classe em luta contra outras, mas defende a dignidade integral de cada pessoa, olhando para cada um como agente da sua própria história.

No entanto, uma interpretação da teologia da libertação mais próxima do marxismo tornou-se a mais popular na Argentina, sobretudo tendo em conta que o país estava nas mãos de uma ditadura militar desde 1966. Naquele contexto, o marxismo, o socialismo, o peronismo e a teologia da libertação começaram a fundir-se. O marxismo disseminou-se dentro da Igreja Católica, sobretudo com a criação do “Movimento de Sacerdotes do Terceiro Mundo”, que a dada altura já reunia uma parte significativa dos padres argentinos. A ideia era a de que a Igreja Católica tinha de estar do lado do povo — e o povo era peronista. Ao mesmo tempo, como recorda o biógrafo de Francisco, a visão destes padres entrava em conflito com a dos bispos, que estavam muito próximos dos militares. Este conflito entre as bases e a hierarquia, na verdade, refletia a divisão existente na sociedade, entre o povo e as forças armadas.

A teologia da libertação ganharia, no contexto latino-americano, uma grande proximidade com as ideias marxistas. Bergoglio situava-se, porém, noutro campo: para ele, a opção pelos pobres não se devia confundir com o marxismo; a Igreja não defende os pobres classificando-os como uma classe em luta contra outras, mas defende a dignidade integral de cada pessoa, olhando para cada um como agente da sua própria história.

Esta proximidade entre alguns segmentos da Igreja e o marxismo e o peronismo levou a que, entre o final da década de 1960 e o início da década de 1970, muitos destes padres e jovens católicos se ligassem às guerrilhas que lutavam contra o regime dos militares. Segundo Austen Ivereigh, não se pode dizer que a Igreja como instituição tenha participado ativamente na guerrilha, mas muitos padres justificavam e enquadravam a violência como meio necessário para a libertação dos oprimidos.

Em 13 de dezembro de 1969, após um longo período de formação dentro da Companhia de Jesus marcado pela turbulência social na Argentina e pelas grandes reformas do Concílio Vaticano II, Jorge Bergoglio foi ordenado padre na capela do Colégio Máximo. Começaria, naquele momento, um dos períodos mais complexos da vida do futuro Papa, situado no meio de profundas divisões sociais no seu país, na sua Igreja e também na sua Companhia de Jesus. Como explica o biógrafo, Bergoglio defendia “a ideia de uma reforma, ao invés da rutura”, o que seria um elemento fundamental para que, mais tarde, viesse a ser nomeado provincial dos jesuítas na Argentina — embora com a oposição dos mais vanguardistas, que foram, diz Ivereigh, “os promotores da falsa ideia de que Bergoglio seria um conservador”.

Um provincial
com 36 anos

Depois do Concílio Vaticano II (1962-65), a Igreja entrou num período de confusão. O Papa Bento XVI, que participou no concílio como perito em teologia quando ainda era um jovem padre e académico, lamentaria mais tarde que a reunião magna dos bispos na década de 60 tenha sido mal compreendida e assimilada. Para Bento XVI, além do concílio propriamente dito, que decorreu entre os bispos no interior das paredes do Vaticano, houve também o “concílio dos meios de comunicação, que era quase um concílio à parte”, através do qual o mundo percecionou o que ali se passava. Nesse concílio paralelo, em vez de um debate “no âmbito da fé”, decorria um debate “dentro das categorias” mediáticas, enquadrado como “uma luta política, uma luta de poder entre diversas correntes da Igreja”, lamentaria Bento XVI.

Na biografia de referência do Papa Francisco, publicada originalmente em 2014, o britânico Austen Ivereigh sumariza o ambiente de divisão que se viveu no interior da Igreja nesse período: “Antes do Concílio, muita gente da Igreja confundia o que era essencial e imutável — aquilo que Jesus tinha confiado à Igreja para que esta o preservasse — com o que era de facto tradicional ou contingente numa época determinada. Após o Concílio, o perigo transformou-se no oposto: o que era essencial podia vir a ser encarado com um hábito sem sentido, enquanto o que era novidade poderia ser considerado bom em si mesmo. A partir daqui, cerraram-se fileiras: alguns censuravam o Concílio por mudar demais; enquanto outros se indignavam por ele ter mudado de menos.”

Na Argentina, aquele foi também um período de enorme tensão. Juan Domingo Perón tinha sido deposto e exilado em 1955 após quase uma década no poder. Uma década depois, em 1966, após um longo período de instabilidade, os militares tomaram o poder e instauraram uma ditadura militar. Durante esse período, os peronistas organizam-se para lutar pelo regresso de Perón. Um episódio especialmente violento aconteceu em 1969 e ficaria conhecido como cordobazo: em Córdoba, vários estudantes e trabalhadores foram mortos pelo exército durante um protesto. Esse episódio inaugurou um período de grande violência social.

O movimento peronista incluía vários grupos bastante diferentes, desde os mais radicais e violentos, que usavam táticas de guerrilha, assassinatos e atentados, aos mais moderados e intelectuais. O grande objetivo era a realização de umas eleições livres, o que veio a acontecer em 1973, quando os peronistas venceram o escrutínio, abrindo o caminho ao regresso de Perón. Este governo duraria pouco tempo: Perón morreu apenas um ano depois, em 1974, sucedendo-lhe a sua mulher, Isabelita Perón, durante um período em que a violência social cresceu. Em 1976, os militares voltaram a tomar o poder e a instaurar uma ditadura violenta, durante a qual milhares de pessoas foram raptadas e mortas pelo regime.

Foi durante este período turbulento que Jorge Mario Bergoglio começou a sua vida sacerdotal na Argentina. Ordenado com 33 anos, após aquele longo período de formação jesuíta, Bergoglio terminou a licenciatura em Teologia em 1970 e, no final desse ano, rumou a Espanha. Apesar de já ser padre, ainda não tinha completado o percurso jesuíta. Faltava a terceira provação, um período de recolhimento, oração e trabalho antes dos votos finais. Bergoglio passou-o em Alcalá de Henares, nas proximidades de Madrid, um lugar por onde Santo Inácio de Loyola tinha passado. Era, como lembra Ivereigh, a primeira viagem de Bergoglio à Europa. Nesse período, teve a oportunidade de visitar vários dos lugares fundamentais da vida de Santo Inácio, que conhecia apenas dos livros.

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Jorge Mario Bergoglio foi ordenado na igreja do Colégio Máximo, em Buenos Aires, em 13 de dezembro de 1969

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De regresso à Argentina, Bergoglio foi nomeado mestre de noviços da província jesuíta do país. Tinha apenas 35 anos, o que tornava a nomeação bastante insólita. Mas o jovem jesuíta tinha essa ambição. A sua formação tinha sido orientada por regras bastante rigorosas e Bergoglio queria mudar isso. Como mestre de noviços, mudou a forma de se fazer o noviciado na Companhia de Jesus na Argentina, colocando uma ênfase maior na dimensão espiritual interior de cada um. A vida do noviciado era marcada por uma grande presença dos noviços junto dos pobres e por um período de austeridade destinado a promover a vida interior, que era mais importante para Bergoglio do que um mero seguimento de regras. “A essência da vida espiritual consiste em observar as formas e os movimentos do Espírito de Deus na nossa alma, e em fortalecer a nossa vontade na resolução de os seguir”, dizia Bergoglio, de acordo com o seu biógrafo. Foi essa a máxima que orientou Bergoglio na definição do novo modelo de noviciado.

A relação de Bergoglio com o contexto político do seu país começou a tornar-se mais complexa e intrincada em 1971. Nessa época, o jovem jesuíta vivia na casa dos noviços e, além das suas funções como mestre de noviços, também dava aulas de teologia pastoral no Colégio Máximo, onde era vice-reitor. Na altura, os jesuítas tinham outra universidade na área de Buenos Aires, a Universidade del Salvador, onde tinha grande expressão o movimento Guardia de Hierro. Era um movimento de índole peronista, mas que, ao contrário dos mais radicais — como os montoneros, organização que recorria às táticas da guerrilha urbana para procurar derrubar a ditadura militar —, rejeitava a violência e o radicalismo e procurava o regresso às origens do peronismo. Como explica Ivereigh, os membros da Guardia de Hierro, mais moderados e intelectuais, rejeitavam a viragem à esquerda do peronismo, marcada por uma confluência ideológica entre o peronismo, o marxismo e as interpretações marxistas da teologia da libertação.

Naquele ano, na Universidade del Salvador, Bergoglio começou a dar apoio espiritual aos membros da Guardia de Hierro. O movimento era um dos muitos grupos peronistas que defendiam o fim da ditadura militar e o regresso de Perón de Espanha, onde estava exilado. Naquele grande aglomerado de movimentos peronistas, os guardianos eram essencialmente os “ativistas e intelectuais peronistas, tradicionais ou ortodoxos, que preparavam o terreno para o regresso de Perón”, como diz o biógrafo de Francisco. Em 1973, eram já cerca de 4 mil membros e 15 mil apoiantes.

Gradualmente, Bergoglio tornou-se próximo deles, influenciando o seu pensamento político e deixando-se influenciar no seu pensamento teológico, virado para o povo, para os direitos dos trabalhadores e para o combate às injustiças, não numa lógica de confrontação política que olha para o povo como uma massa, mas numa lógica que procura interpretar os sentimentos do povo. Noutra ponta do espectro, padres que integravam o “Movimento de Sacerdotes do Terceiro Mundo” estavam do lado dos montoneros. Defensores de uma perspetiva marxista da teologia da libertação, consideravam a violência justificável, legitimando-a como um meio aceitável para alcançar a justiça social.

Por isso, as divisões transcendiam a ideologia política, penetrando na própria realidade eclesiástica e provocando divisões entre pensamentos teológicos.

No início da década de 1970, Bergoglio subiu rapidamente na hierarquia da Companhia de Jesus na Argentina. Em 1972 foi eleito para conselho de cinco consultores do provincial, que à época era o padre Ricardo O’Farrell — um homem que já enfrentava bastante contestação interna. Por um lado, registava-se uma grande queda no número de jesuítas na Argentina em relação aos anos 60. Além disso, havia crescentes divergências sobre o modo de implementação das reformas do Concílio Vaticano II. Por outro lado, o apoio de O’Farrell aos padres mais radicais começava a causar desconforto na companhia. O provincial tinha permitido a abertura de “comunidades de inserção”, em que jesuítas viviam no meio de alguns dos bairros mais problemáticos da região, envolvendo-se na luta política, o que não era visto com bons olhos por uma boa parte da Companhia de Jesus: muitos jesuítas eram oriundos de famílias militares e as universidades da Companhia formavam uma parte significativa da elite política e militar do país. As divisões que afetavam também a Universidade del Salvador, devido à presença de elementos mais radicais, levaram um grupo de jesuítas a enviar uma carta ao superior geral da Companhia de Jesus, Pedro Arrupe, pedindo a saída de O’Farrell.

“Quando desejarem saber aquilo em que a Igreja crê, procurem o Magistério… mas quando desejarem saber como a Igreja crê, procurem o povo fiel. O Magistério irá ensinar-lhes quem é Maria, mas o povo fiel irá ensinar-lhes como se deve amar Maria.”
Padre Jorge Bergoglio

Em 1973, Bergoglio foi o escolhido para suceder a O’Farrell como líder dos jesuítas argentinos. Tinha apenas 36 anos de idade e pouca experiência — tinha sido mestre de noviços, mas nunca liderara uma obra jesuíta. Contudo, era visto como um símbolo de equilíbrio numa Companhia de Jesus profundamente dividida: lutava pela justiça social, mas não a tornava numa luta radical nem legitimava a violência.

No ano em que Bergoglio subiu à liderança dos jesuítas, o contexto político argentino voltou a mudar, com a abdicação da junta militar, a vitória eleitoral dos peronistas e o regresso de Juan Domingo Perón. A fragmentação política, essa, continuou — e a violência subiu de tom, com os grupos mais radicais a assassinarem elementos do antigo regime. O moderado Bergoglio testemunhou esta escalada da violência rejeitando aquele tipo de ideologia. Para Bergoglio, os marxistas violentos, os montoneros, com recurso a táticas terroristas, não representavam o povo — eram só outra elite. Num clima de quase guerra civil entre duas fações, nenhuma estava do lado do povo, que sofria com a violência.

Naquele contexto, Bergoglio consolidou o seu pensamento teológico centrado na interpretação dos sentimentos do povo. “Quando desejarem saber aquilo em que a Igreja crê, procurem o Magistério… mas quando desejarem saber como a Igreja crê, procurem o povo fiel. O Magistério irá ensinar-lhes quem é Maria, mas o povo fiel irá ensinar-lhes como se deve amar Maria”, exemplificaria, mais tarde, numa meditação citada por Austen Ivereigh na sua biografia do Papa Francisco. Bergoglio rejeitava a excessiva politização da Igreja da altura, profundamente dividida, e, inspirado pelas conclusões do Concílio Vaticano II, defendia que era necessário saber interpretar as aspirações do povo (entendido como o povo de Deus, na dignidade de cada pessoa, e não como uma classe social amalgamada em confronto com as elites), não impondo ideologias a um povo que queria caminhos de paz.

Algumas das primeiras decisões de Bergoglio como provincial, tomadas num contexto de grande conflito social, causaram divergências: o encerramento das comunidades de inserção onde viviam os padres mais ligados aos movimentos marxistas, o envio de padres para as villas miseria, para viver com os mais pobres ou a transferência da Universidade del Salvador para um grupo de leigos, tirando-a da esfera da Companhia de Jesus. Aquele período ficou também marcado pela ação das brigadas anticomunistas, que defendiam o poder militar e consideravam comunistas todos os que trabalhassem com os mais pobres e que começaram a abater a tiro os padres que trabalhavam nos bairros sociais: a Triple A (Aliança Anticomunista Argentina) dedicava-se a eliminar todo o tipo de artistas, intelectuais e políticos de esquerda. A conflitualidade social era imensa, com o governo peronista (liderado já não por Perón, mas por Isabelita Perón) já bastante impopular e grande violência nas ruas entre montoneros, entretanto de costas voltadas com o governo, anticomunistas e o exército. Execuções extrajudiciais, assassinatos e atentados à bomba eram frequentes.

Em 1976, após um período de grande confrontação, os militares voltaram a tomar o poder, derrubando o governo peronista e impondo uma ditadura altamente repressiva de todos os oponentes políticos. A “Guerra Suja” lançada pelo general Jorge Videla para esmagar toda a oposição, com grande destaque para os montoneros e os peronistas no geral, terá levado à morte ou desaparecimento de mais de 30 mil pessoas. Os militares orquestrariam também o rapto sistemático de bebés de famílias de opositores — algo que o general Videla viria a admitir, décadas mais tarde, embora sem qualquer arrependimento, numa entrevista ao jornalista argentino Ceferino Reato para o seu livro Disposición Final. O período da “Guerra Suja”, durante a ditadura que se prolongou entre 1976 e 1983, viria também a ser um dos períodos decisivos e mais controversos da vida do padre Bergoglio.

A Lista de Bergoglio

O dia 24 de março de 1976 está marcado na memória dos argentinos como o início de um dos períodos mais terríveis da sua história, mesmo que naquele momento isso não tenha sido imediatamente claro. Tinham sido anos de violência nas ruas, com uma escalada de tensões entre os movimentos peronistas, sobretudo os mais radicais, e os movimentos anticomunistas. Entre a esquerda radical, inspirada e apoiada por Cuba, a ideia era a de alcançar uma revolução popular por via da guerrilha — algo que se intensificara em 1974, depois da morte de Juan Domingo Perón, quando a sua mulher Isabelita lhe sucedeu na liderança do governo.

Perante o clima de guerra civil que se vivia na Argentina naquele período, os militares levaram a cabo um golpe de Estado em 24 de março de 1976 para tomar o controlo do país. O general Jorge Videla, do exército argentino, liderou o golpe e foi ele quem passou a liderar o país, através de uma Junta Militar de que faziam parte o almirante Emilio Eduardo Massera (da Marinha) e o brigadeiro Orlando Ramón Agosti (da Força Aérea). Hoje, são conhecidos os horrores do período que se seguiu, e que ficaria para sempre cravado na história argentina como o período da “Guerra Suja”, com milhares de “desaparecidos” — opositores políticos que, pura e simplesmente, desapareciam sem deixar rasto, presos em prisões clandestinas e executados pelo regime, frequentemente através dos “voos da morte”.

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Jorge Rafael Videla (ao centro), ladeado por Emilio Massera e Orlando Agosti, em 1979, depois do golpe de estado com que instituíram a ditadura

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Contudo, naquela altura, a intervenção dos militares foi tolerada pela generalidade da população. De acordo com Marzia Rosti, investigadora da Universidade de Milão especializada na História da América Latina, “a intervenção dos militares, em 1976, era esperada ou até mesmo invocada por uma parte da sociedade que punha neles a esperança de que resolvessem as tensões e os conflitos sociais que a incapacidade dos governos anteriores não tinha conseguido recompor”. Citada pelo jornalista italiano Nello Scavo no seu livro A Lista de Bergoglio (Paulinas, 2013), sobre a atuação de Jorge Bergoglio durante o período da ditadura militar argentina, Rosti acrescenta ainda assim que, “embora fosse necessário intervir de forma enérgica, não há dúvida de que os militares foram muito além do que a própria sociedade esperaria”.

Na sua biografia de Francisco, Austen Ivereigh sustenta que os anos imediatamente anteriores ao golpe de Estado foram de grande desespero devido ao escalar da violência, sobretudo dentro do próprio movimento peronista, de onde se começaram a destacar aqueles que queriam a guerrilha e a revolução a todo o custo, já desviados do pensamento peronista original: “O investimento estrangeiro tinha desaparecido, a inflação atingia os 600%, e o desemprego subia em flecha. Em 1975, o jogo político reduzia-se à escalada de uma violenta luta fratricida que opunha duas fações do peronismo. A comunicação social concluíra que o golpe de Estado era tão violento como necessário, e os principais jornais exigiam que os tanques saíssem dos quartéis.” Basta pensar, diz ainda Ivereigh, que o Exército Revolucionário do Povo e os montoneros já tinham 6 mil elementos efetivos e o apoio de 150 mil, além de dinheiro, equipamentos e apoio de Cuba, o que os tornava no maior movimento guerrilheiro do continente. Quando os guerrilheiros, no início da década de 70, começaram a controlar porções do território, Isabelita Perón deu luz verde ao uso da força, uma antecâmara da intervenção dos militares.

Depois do golpe de estado, contudo, os argentinos começaram a sentir a mão pesada dos militares. “Os militares venceram a guerra, mas não procuravam a paz”, escreveu Nello Scavo. “Declararam o estado de sítio, ab-rogando os direitos constitucionais, suspendendo as atividades políticas e de associação, proibindo os sindicatos, vigiando os jornais, sequestrando militantes políticos, ativistas sociais e guerrilheiros. A tortura tornou-se regra para obter informações, aplicando o método do desaparecimento sistemático de pessoas para gerar um clima de terror. Entre outras coisas, os centros clandestinos de detenção eram o motor de um perverso sistema de apropriação dos recém-nascidos filhos das reclusas.”

Uma das principais prioridades da Junta Militar era a eliminação total dos oponentes políticos e de qualquer tipo de subversão. Todavia, os militares sabiam que tinham de ter cuidado: não podiam limitar-se a prender e executar, às claras, os oponentes, já que isso motivaria grande contestação nacional e sobretudo internacional. Levar milhares de pessoas à justiça também não era uma opção viável. A Junta Militar começou, então, a levar a cabo um conjunto de operações secretas que envolviam raptos, prisões clandestinas e execuções sumárias (tornaram-se especialmente conhecidos os tenebrosos voos da morte, em que os prisioneiros eram mortos ao serem atirados de aviões e helicópteros para o Oceano Atlântico). Tudo isto enquanto, em público, a Junta Militar negava sequer saber do paradeiro destas pessoas. Para todos os efeitos, estavam desaparecidos, palavra que correu o mundo assim mesmo na sua versão em espanhol. Nem todos os desaparecidos eram guerrilheiros: uma grande parte eram civis desarmados, pessoas que trabalhavam com os mais pobres ou que defendiam a justiça social, incluindo elementos da Igreja Católica.

Estima-se, de acordo com os números apresentados por Nello Scavo no seu livro, que durante a ditadura militar argentina tenham “desaparecido” pelo menos 30 mil pessoas, além de 19 mil pessoas que foram fuziladas nas ruas e de milhares de ativistas que foram detidos. Estima-se ainda que tenham sido retirados cerca de 500 bebés recém-nascidos às suas mães durante a ditadura. Esta era outra forma de repressão da subversão: bebés nascidos nas prisões eram imediatamente retirados às detidas e entregues a famílias de militares que não tinham filhos, sendo criados sem nunca saberem a sua verdadeira identidade.

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Na década de 1980, o movimento das Mães da Praça de Maio, identificadas pelos lenços brancos à cabeça, tornou-se num dos símbolos da resistência na Argentina. Exigiam o regresso dos "desaparecidos"

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Foi neste contexto que o padre Jorge Bergoglio viveu os seus primeiros anos como provincial dos jesuítas na Argentina. Aquele foi um período complexo para a Igreja Católica, que procurou manter uma relação funcional com a ditadura que lhe permitisse continuar a trabalhar no país — o que gerou grandes ambiguidades. Entre os bispos argentinos, havia diferentes sensibilidades: alguns mais progressistas, ou mesmo próximos dos revolucionários marxistas, foram críticos duros do regime; outros eram defensores da intervenção militar, próximos da Junta e conhecedores dos segredos do regime; e uma grande parte simplesmente tolerou a ditadura. Mesmo que, no abstrato, a Igreja até condenasse a tortura, a maioria dos bispos não condenava o regime propriamente dito. Contudo, dentro da Igreja continuavam também a existir os padres marxistas, que tinham estado associados ao Movimento dos Sacerdotes do Terceiro Mundo e que eram radicalmente contra a ditadura. Esses viriam a sofrer duramente às mãos do regime.

Como recorda o biógrafo de Francisco, o então provincial Bergoglio recebeu de Roma duas indicações claras sobre como deveria proceder no governo da província argentina: proteger os jesuítas e auxiliar as vítimas da repressão. Acrescenta Austen Ivereigh, em O Grande Reformador: “Os dois objetivos eram obviamente antagónicos: se se soubesse que o provincial era cúmplice de elementos subversivos procurados pelo Estado, todos os jesuítas seriam considerados suspeitos. Tratava-se de um ato de equilibrismo difícil, mas Bergoglio conseguiu levá-lo a cabo.” Com efeito, Bergoglio conseguiu que nenhum jesuíta argentino tenha perdido a vida durante a Guerra Suja e ainda salvou largas dezenas de perseguidos, ajudando-os a fugir do país. Há, contudo, um aspeto de que Bergoglio pode ser acusado: o de nunca ter criticado publicamente o regime.

Poucas horas depois de o cardeal Jorge Mario Bergoglio ter sido eleito Papa, em 2013, começaram a circular na imprensa internacional acusações relacionadas com a atuação do padre Bergoglio durante a ditadura militar. No dia seguinte à eleição pontifícia, o The Guardian noticiava: “Papa Francisco: ainda há dúvidas sobre o seu papel durante a ditadura argentina.” Nesse artigo, que teve eco global, o diário britânico afirmava que “a Igreja Católica e o Papa Francisco têm sido acusados de um silêncio cúmplice ou pior durante a ‘Guerra Suja’ de assassinatos e raptos levada a cabo pela Junta que governou a Argentina entre 1976 e 1983”. Apesar de assumir que as provas dessa colaboração eram escassas e contestadas, o artigo do The Guardian, bem como muitos outros na imprensa internacional, deixariam a pairar sobre Bergoglio a suspeita de ter colaborado com uma ditadura.

A situação mais polémica, que deu origem a essas suspeitas, ficaria conhecida como “caso Yorio/Jalics”. O argentino Orlando Yorio e o húngaro Franz Jalics eram dois jesuítas que trabalhavam na província argentina da Companhia de Jesus e que estavam ligados à fação mais à esquerda dentro da Igreja. Faziam parte do grupo que deu início às já referidas “comunidades de inserção” — comunidades de jesuítas que viviam em bairros mais pobres, sem estrutura hierárquica, para trabalhar com os mais pobres. Essas comunidades eram frequentemente bases de recrutamento para a guerrilha marxista e os sacerdotes que lá trabalhavam envolviam-se também na luta política. Bergoglio decidira encerrar essas comunidades, que considerava que estavam a promover a desunião na província, chamando esses padres para viver nas residências jesuítas — ao mesmo tempo que, em sentido contrário, procurava instalar comunidades jesuítas nos bairros mais pobres de Buenos Aires, mas em comunhão com a província.

Jalics e Yorio acabariam por abandonar a Companhia de Jesus em desacordo com Bergoglio e continuaram a viver naqueles bairros — mesmo depois de Bergoglio os ter alertado para o perigo que corriam. Naquela fase, os padres mais próximos dos bairros sociais onde fervilhava a guerrilha eram vistos como perigosos agitadores e eram um alvo do regime, que começava não só a prender, mas também a executar alguns destes religiosos. Em 1976, foram presos e levados para a Escola Superior de Mecânica da Marinha (ESMA), o mais temido dos centros de detenção clandestinos. Durante cinco meses foram mantidos em cativeiro e torturados — até terem sido depois libertados.

Chegou mesmo a circular a ideia de que Bergoglio tinha entregue às autoridades uma lista de nomes aos militares, para que fossem presos. Mais tarde, contudo, descobrir-se-ia que não tinha sido Bergoglio o responsável pela prisão de Yorio e Jalics, mas sim uma catequista daquele bairro que se tinha juntado à guerrilha.

À época, Jalics e Yorio acreditaram que o seu superior, Bergoglio, os tinha abandonado à sua sorte e fechado os olhos à sua prisão pelas forças do regime. Com o passar do tempo, e à medida que se enfureceu ao perceber o grau de colaboração de alguns bispos com o regime, o padre Orlando Yorio começou a acusar Bergoglio (que o tinha ajudado a sair da prisão e a reconstruir a sua vida) não só de ter fechado os olhos, mas de ter efetivamente tido um papel ativo na sua prisão. Chegou mesmo a circular a ideia de que Bergoglio tinha entregue às autoridades uma lista de nomes aos militares, para que fossem presos. Mais tarde, contudo, descobrir-se-ia que não tinha sido Bergoglio o responsável pela prisão de Yorio e Jalics, mas sim uma catequista daquele bairro que se tinha juntado à guerrilha, tinha sido presa e, sob tortura, tinha dado indicações sobre os padres que ali trabalhavam.

No final da década de 1980, já depois da queda da ditadura e numa altura em que o país atravessava um tenso período de prestação de contas devido àquele período negro, começaram a circular relatos concretos da suposta colaboração de Bergoglio com a ditadura. A principal fonte terá sido, lembra Austen Ivereigh, um livro escrito por Emilio Mignone, um advogado que tinha trabalhado para o governo peronista antes da ditadura e fundado, posteriormente, uma organização de direitos humanos. No livro, intitulado Iglesia y Dictadura, parafraseado por Ivereigh, Emilio Mignone alegou que “dois jesuítas tinham sido raptados de um bairro pobre de Buenos Aires depois de Bergoglio dar ‘luz verde’ às forças de segurança para os deterem”.

Mais tarde, o jornalista Horacio Verbitsky, de inclinação marxista, entrevistou o padre Orlando Yorio — já profundamente revoltado com Bergoglio — para escrever livros e artigos em que aprofundou a tese de que tinha sido o provincial jesuíta a dar a ordem para a prisão dos dois sacerdotes. Estes artigos de Verbitsky teriam eco até ao século XXI, fazendo pairar sobre Bergoglio aquela suspeita durante vários anos. A própria Amnistia Internacional ver-se-ia obrigada, em 2013, a redigir um documento interno destinado aos seus funcionários para lhes explicar a posição da organização caso fossem contactos por jornalistas. “A Amnistia Internacional sabe de um caso aberto em 2005, relativamente ao desaparecimento de dois padres jesuítas, mas não tem nenhuma documentação para demonstrar ou negar a participação do novo Papa nestes eventos. Não se fez nenhuma acusação formal contra Jorge Bergoglio e não temos rastos, nos nossos arquivos, de algum envolvimento do antigo arcebispo de Buenos Aires neste ou noutros casos”, lê-se no documento, integralmente reproduzido como anexo no livro A Lista de Bergoglio.

O caso de 2005 refere-se a uma queixa apresentada por um grupo de direitos humanos na sequência das muitas acusações que vieram a público com base nos textos de Verbitsky. O padre Yorio acabaria por morrer amargurado com Bergoglio, mas Franz Jalics viria mais tarde a admitir que Bergoglio não tinha estado envolvido na sua prisão. Jalics e Bergoglio reconciliaram-se e até celebraram uma missa em conjunto no ano 2000. Já depois da eleição de Francisco, quando os rumores ganharam dimensão internacional, Jalics emitiu um comunicado e assumir que chegou a acreditar que tinha sido vítima de uma denúncia de Bergoglio, mas que entretanto tinha compreendido que “essa suspeita era infundada”.

“É errado afirmar que a nossa detenção aconteceu por iniciativa do padre Bergoglio”, escreveu Jalics. “O facto é este: Orlando Yorio e eu não fomos denunciados pelo padre Bergoglio.”

Durante anos, o caso Yorio/Jalics ganhou dimensão à medida que o próprio Bergoglio subiu na hierarquia eclesiástica. Como cardeal e arcebispo de Buenos Aires, Bergoglio foi durante mais de uma década o principal responsável religioso da Argentina. Apesar de, ao contrário de alguns bispos argentinos da década de 70, não ter colaborado com a ditadura militar, Bergoglio acabaria por tornar-se no rosto de uma Igreja colaborante — e o caso dos dois jesuítas aprofundou esse sentimento. Como recorda Austen Ivereigh, o período pós-ditadura na Argentina ficou marcado por um pensamento dicotómico de “bons vs. maus”, isto é, os que tinham lutado ativamente contra a ditadura vs. os que tinham compactuado com ela. O biógrafo de Francisco lamenta que essa visão redutora deixe pouca margem para personagens como Bergoglio, que salvou dezenas de pessoas, embora sempre de modo discreto — e sem nunca falar publicamente sobre o assunto.

Em 2023, durante um encontro com jesuítas a pretexto de uma viagem papal à Hungria, Francisco recordou o caso numa das raras vezes que falou sobre o tema. Sublinhando que, durante a ditadura, a situação do país era “muito confusa e incerta”, o Papa destacou: “Depois, desenvolveu-se a lenda de que eu os tinha entregado para serem presos.” Em 2010, o cardeal Bergoglio foi ouvido como testemunha no gigantesco inquérito judicial relativo aos crimes da ditadura. “Algumas pessoas no governo queriam ‘cortar-me a cabeça’, mas no final foi concluída a minha inocência”, recordou Francisco, que também lembrou um encontro que teve, já como Papa, com um dos juízes que o interrogaram nessa ocasião: “Ele disse-me claramente que tinham recebido instruções do governo para me condenar.”

Papa acusa Cristina Kirchner de o querer prender

, por Adriana Alves

Só muitos anos mais tarde, já depois da sua eleição como Papa, é que viriam a conhecer-se os detalhes da atuação clandestina de Jorge Mario Bergoglio durante a ditadura militar. Grande parte do que se sabe hoje deve-se ao jornalista italiano Nello Scavo e ao seu livro A Lista de Bergoglio. Nele, Scavo conta as histórias de múltiplas pessoas que eram perseguidas pelo regime militar e que se salvaram devido à intervenção pessoal de Bergoglio.

Na verdade, o próprio Bergoglio viria a admitir, quando foi ouvido no inquérito, que havia muita gente na esfera da Igreja Católica em perigo. “Os líderes da ditadura demonizavam toda a teologia da libertação, colocando no mesmo saco os padres que usavam uma hermenêutica marxista (…) a par daqueles padres que viviam simplesmente a sua vocação sacerdotal entre os pobres”, afirmou Bergoglio. Todos os que, de uma forma ou de outra, trabalhassem com os pobres tornavam-se alvos do regime militar. Os “cristãos não alinhados” contavam-se, na verdade, entre os principais alvos da repressão militar.

Em "A Lista de Bergoglio", o autor italiano Nello Scavo conta a história das pessoas que o padre Bergoglio salvou durante a ditadura militar argentina

Bergoglio era um homem que se movia bem em vários círculos. A sua experiência tinha-o levado a dar-se tanto com peronistas e montoneros como com os próprios militares (vivia, aliás, com vários capelães militares no Colégio Máximo). Além disso, tinha bons acessos à Santa Sé, por ser relativamente próximo de Pedro Arrupe.

Ao mesmo tempo, Bergoglio foi profundamente audacioso. Sem nunca falar disso publicamente, montou uma autêntica rede de fugas a partir do Colégio Máximo, mesmo debaixo dos narizes dos militares. “No Colégio Máximo apresentavam-se personagens variadas, sozinhas ou em grupos, que estavam alguns dias e, depois, desapareciam. Dizia: ‘Vêm para um retiro espiritual.’ E os exercícios duravam uma semana. Compreendi que se tratava de leigos dissidentes que o padre Jorge ajudava a fugir. Como? De algum modo e arriscando sempre muitíssimo”, contou a Nello Scavo o padre Miguel La Civita, um dos que foram salvos por Bergoglio.

Por vezes era o próprio Bergoglio quem ia de carro buscar ou levar fugitivos. Acolhia-os em segredo no colégio, disfarçados de estudantes em retiro, e ali ficavam alguns dias, enquanto Bergoglio engendrava a fuga. O padre tinha conhecimentos em vários setores chave e sabia a quem recorrer para arranjar um bilhete de avião, uma passagem clandestina para o Brasil, uma boleia ou uma noite de alojamento. Os jesuítas no Brasil eram os principais aliados de Bergoglio nesta missão, tendo acolhido dezenas de pessoas enviadas pelo argentino. Através de conhecimentos em embaixadas de países europeus, foi possível arranjar vistos para dezenas de fugitivos e embarcá-los em voos para a Europa. Segundo Nello Scavo, a estimativa mais conservadora aponta para a possibilidade de Bergoglio ter ajudado pelo menos uma centena de pessoas a fugir do país.

O acesso de Bergoglio à elite militar permitia-lhe saber, com frequência, os nomes de ativistas que poderiam vir a ser presos em breve — e era essas que ele alertava de imediato para a necessidade de fugir. Assim, agindo quase sempre sozinho e sem falar disso com ninguém, Bergoglio conseguiu impedir dezenas de pessoas de serem enviadas para centros de detenção clandestinos de onde provavelmente nunca viriam a sair. “A maioria dos desaparecidos passava o dia e a noite encapuzados, acorrentados e com os olhos vendados, numa cela tão estreita que se chamava ‘tubo’”, descreveu a Nello Scavo um sobrevivente da prisão, Mario Villani. Também eram comuns os raptos de casais e a violação de mulheres, com o objetivo de forçar os maridos a colaborar. Bergoglio, por seu turno, teve de enfrentar fortes riscos no seu “esforço de subtrair vítimas humanas à máquina repressora”.

“Esta era a Argentina de Jorge Mario Bergoglio, que em 1973 se tornou provincial dos Jesuítas. Um labirinto de espelhos deformados em que todos deviam suspeitar de cada um e não parecia haver saída. Um país que acabou nas piores mãos, que proliferava de praticantes de jogo duplo e de carreiristas de última hora”, resumiu Scavo. “Para salvar vidas inocentes era com esta gente que era preciso lidar.”

Só depois da queda do regime ditatorial, em 1983 — em grande parte devido à humilhação pela derrota na guerra das Malvinas —, é que na Argentina se começou a falar à boca pequena sobre os horrores do regime. Bergoglio deu-se conta desse horror bem cedo e conseguiu salvar várias pessoas. “O padre Jorge construiu uma rede de apoio no Brasil, de maneira a favorecer o sucesso das fugas. Na verdade, nenhum dos membros do ‘sistema Bergoglio’ sabia que fazia parte dele. Cada um fazia um único favor concreto ao provincial argentino: um providenciava uma cama para uma noite, outro um transporte de carro, outro metia uma ‘cunha’ aos funcionários consulares europeus, outro tratava dos bilhetes de avião”, escreveu Scavo.

“O padre Jorge construiu uma rede de apoio no Brasil, de maneira a favorecer o sucesso das fugas. Na verdade, nenhum dos membros do ‘sistema Bergoglio’ sabia que fazia parte dele. Cada um fazia um único favor concreto ao provincial argentino: um providenciava uma cama para uma noite, outro um transporte de carro, outro metia uma ‘cunha’ aos funcionários consulares europeus, outro tratava dos bilhetes de avião.”
Nello Scavo, autor de “A Lista de Bergoglio”

No livro, o jornalista italiano conta a história de padres, famílias, catequistas, sindicalistas e várias pessoas que conseguiram sair da Argentina devido à intervenção de Bergoglio, que seguiam quase sempre o mesmo esquema: a ida para o Colégio Máximo (onde os militares não ousavam entrar), o recurso aos contactos internacionais e a passagem clandestina para o Brasil. Gonzalo Mosca, um jovem ativista salvo por Bergoglio, recorda no livro de Scavo como o jesuíta o alojou num quarto do Colégio Máximo, oferecendo-lhe livros de Jorge Luis Borges e um rádio para ouvir as notícias, antes de o levar pessoalmente à porta do avião onde seguiu para o norte, para entrar clandestinamente no Brasil.

Só agindo totalmente em silêncio é que Bergoglio conseguiu atingir os seus objetivos. Não podia falar abertamente sobre o que fazia. Mesmo depois da queda da ditadura, quase nunca falou sobre o assunto.

De jesuíta exilado
a cardeal

O padre Jorge Mario Bergoglio foi provincial dos jesuítas na Argentina durante seis anos. Depois, seguiu-se um dos períodos mais sombrios da sua vida.

A nota biográfica oficial elaborada pelo Vaticano limita-se a contar que, depois de abandonar o cargo de provincial, Bergoglio “retomou o trabalho no campo universitário e, de 1980 a 1986, foi novamente reitor do colégio de São José, e inclusive pároco em San Miguel”. Continua a nota biográfica: “No mês de março de 1986 partiu para a Alemanha, onde concluiu a tese de doutoramento; em seguida, os superiores enviaram-no para o colégio do Salvador em Buenos Aires e sucessivamente para a igreja da Companhia, na cidade de Córdoba, onde foi diretor espiritual e confessor.”

O que aquela biografia oficial não conta é que tanto a ida para a Alemanha como o envio para Córdoba foram, na verdade, uma espécie de exílio para Bergoglio, que começou a ser visto como um problema para a hierarquia jesuíta da Argentina.

Manda a tradição — e os votos — dos jesuítas que os membros da Companhia de Jesus não ambicionem cargos de autoridade e poder na Igreja. É por isso que, por norma, são raros os bispos jesuítas. E é também por isso que, por norma, os cargos de poder dentro da Companhia de Jesus são muito rotativos e não são ocupados pelo mesmo jesuíta durante mais do que um mandato: quando um provincial termina o seu mandato, deve retirar-se e colocar-se às ordens do provincial seguinte. Em teoria, foi isso que aconteceu na Argentina em 1979 — mas, na prática, não foi bem assim.

Jorge Bergoglio promoveu uma autêntica revolução no Colégio Máximo. Deu uso aos terrenos em volta do colégio e pôs os estudantes a cultivar hortas e a cuidar de vacas e de porcos. Além de querer assegurar a alimentação do colégio, Bergoglio pretendia pôr os alunos da classe média-alta a trabalhar no campo, para que não se esquecessem de que era para aqueles — os mais pobres — que deveriam trabalhar durante toda a sua vida.

A partir de 1979, Bergoglio voltou a ser um jesuíta normal e foi colocado de novo no Colégio Máximo, desta vez como reitor. Foi já nestas funções, com 43 anos de idade, que voltou a estar às portas da morte, tendo de ser operado para retirar a vesícula biliar.

Como recorda o seu biógrafo, Jorge Bergoglio promoveu uma autêntica revolução no Colégio Máximo. Estava consciente de que tinha de formar jesuítas para o mundo e não apenas para os corredores asséticos das universidades. Nas aulas do Colégio Máximo, além da filosofia e da teologia, estudava-se a cultura e a literatura da Argentina e era dado especial enfoque à teologia do povo que foi característica do pontificado de Bergoglio: é o povo que está no centro da ação da Igreja.

Em poucos anos, Bergoglio aumentou consideravelmente o número de alunos do colégio, mas também transformou radicalmente aquilo que eles faziam lá dentro. Com a Argentina a passar por uma profunda crise económica na fase final da ditadura, Bergoglio deu uso aos terrenos em volta do colégio e pôs os estudantes a cultivar hortas e a cuidar de vacas e de porcos. A maioria da alimentação consumida no colégio passou a ser produzida pelos próprios — incluindo por Bergoglio. De acordo com Austen Ivereigh, esse era um dos fatores distintivos da formação bergogliana: o próprio reitor punha as botas de borracha e ia com eles para o trabalho braçal.

Além de querer assegurar a alimentação do colégio, Bergoglio pretendia pôr os alunos da classe média-alta a trabalhar no campo, para que não se esquecessem de que era para aqueles — os mais pobres — que deveriam trabalhar durante toda a sua vida. Os métodos de Bergoglio tornaram-se extremamente populares, embora tenham chocado com as ideias de alguns professores, mais habituados a outro nível de vida.

O trabalho no campo não substituía o trabalho espiritual: complementava-o. Bergoglio deu uma nova centralidade aos Exercícios Espirituais e promovia o tempo de meditação, contemplação e discernimento na agenda dos alunos. Trabalhar no campo era, na verdade, um facilitador deste processo espiritual.

Ao mesmo tempo, Bergoglio começou a perceber o duro impacto que a crise económica estava a ter na cidade, especialmente nos bairros pobres que ficavam na zona do Colégio Máximo. Os alunos eram incentivados a transpor os muros do colégio, a percorrer os bairros e a contactar com a população — e rapidamente o reitor do colégio percebeu que havia uma pobreza crescente à sua volta.

Era preciso agir. Aumentou a produção hortícola e pecuária no colégio e montou uma autêntica cozinha comunitária, gerida pelos alunos, para distribuir centenas de refeições pelo bairro. Na cantina do colégio e nas casas dos mais pobres da cidade, comia-se exatamente o mesmo. O projeto evoluiu, em pouco tempo, para uma paróquia formal: a Paróquia do Patriarca São José, construída nas imediações do colégio por iniciativa do próprio Bergoglio.

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Bergoglio criou a Paróquia do Patriarca São José com a ajuda da comunidade do Colégio Máximo

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Além de reitor, Bergoglio tornou-se também pároco de uma das comunidades mais pobres de Buenos Aires.

A partir do colégio, com os estudantes, Bergoglio dava apoio pastoral a toda a região. Os alunos não ficavam dentro do colégio: tinham de palmilhar os bairros a pé, contactar diretamente com as pessoas. O reitor insistia com os estudantes que eles não iriam ensinar nada ao povo — iam aprender do povo. Como recorda Ivereigh, Bergoglio defendia a inculturação da teologia: estar no meio do povo, aprender de cada povo as suas culturas, hábitos e costumes, para saber de que modo a Igreja pode servir cada população e como se pode anunciar o Evangelho a cada pessoa. Mas sempre resistindo à tentação de falar pelo povo, como se o povo não tivesse voz, como faziam as elites eclesiásticas.

A revolução promovida por Bergoglio no Colégio Máximo gera um grande entusiasmo em toda uma nova geração de jesuítas argentinos. Contudo, foi ali que as coisas começaram a mudar para o futuro Papa — e é naquele período que se encontram as raízes que explicam uma reação muito tímida por parte da Companhia de Jesus quando, em 2013, Bergoglio foi eleito Papa.

O biógrafo Austen Ivereigh resume assim aquele período: “O sucesso espetacular de Bergoglio como provincial e reitor acabou por ser também a sua fraqueza. À medida que avançava rapidamente na transformação dos jesuítas e também da vida dos habitantes de San Miguel, ele criava um problema: o simples ritmo e alcance das mudanças iriam gerar ressentimentos. Em poucos anos, ele tinha criado uma instituição florescente, profundamente inserida na cultura e na vida dos pobres da Argentina, cuja base era uma visão radical e estimulante das primitivas missões jesuítas, aliada a uma liderança carismática e inspiradora. O elevado e contínuo fluxo de vocações, as transformações dos bairros vizinhos, e a seriedade e dedicação dos jovens jesuítas falam por si. O problema estava na ideia preconcebida de que os provinciais e os reitores devem cumprir um único mandato, retirando-se a seguir e ficando em segundo plano. Contudo, Bergoglio, nas suas funções de reitor, tornara-se um ‘provincial sem pasta’, cuja autoridade pessoal ultrapassava a do provincial oficial e cujo mandato não terminara na prática com a nomeação do seu sucessor.”

Subitamente, Bergoglio era já o jesuíta mais importante da Argentina. Mesmo não sendo já o provincial, era ele a figura de proa da Companhia de Jesus no país — e o novo provincial estava, de certa forma, ao serviço de um projeto encabeçado por Bergoglio.

A década de 1980 foi turbulenta para Bergoglio. A partir do Centro de Investigação e Ação Social (CIAS), um centro de estudos sociais da província argentina da Companhia de Jesus, começou a desenhar-se uma campanha anti-Bergoglio. Fortemente influenciado pela esquerda, com vários padres que provinham do Movimento de Sacerdotes do Terceiro Mundo, o CIAS acusava Bergoglio de, durante o seu período como provincial, ter limitado a atividade do centro. Mais: acusavam Bergoglio de ter aparecido do nada, sem estudos, sem um doutoramento, a propagar uma perspetiva teológica que relegava os intelectuais e as elites académicas para a insignificância.

Bergoglio “estava mais preocupado em alimentar os pobres do que a apurar as razões da sua pobreza”, acusava o CIAS, de acordo com uma síntese feita pelo biógrafo do Papa Francisco. Efetivamente, formou-se um clima de guerra civil dentro da província argentina da Companhia de Jesus: de um lado, o Colégio Máximo, com os jovens jesuítas a defender Bergoglio e a achar que os intelectuais do CIAS falavam da pobreza sem conhecer os pobres; do outro lado, o CIAS, que lamentava que Bergoglio estivesse a transformar a Companhia de Jesus num conjunto de padres de aldeia, fixados na piedade popular e não no trabalho intelectual.

Tudo se iria agudizar depois da queda da ditadura, quando começaram as célebres investigações aos crimes cometidos durante a ditadura e começaram a vir a público alguns detalhes sobre a relação entre a Igreja Católica e o regime dos militares. Bergoglio, que foi provincial da Companhia de Jesus durante o período da ditadura, é duramente criticado a nível nacional e internacional.

Só muitos anos mais tarde é que viriam a público as histórias dos muitos que Bergoglio salvou clandestinamente — e ele também nunca procurou vangloriar-se publicamente desses feitos. Seriam os próprios, se quisessem, a contar as suas histórias. Bergoglio aceitou as críticas com a convicção de que a verdade acabaria por se impor. O sentimento de vergonha sentido pela Igreja Católica a nível global ao tomar conhecimento da atuação de muitos bispos argentinos durante a ditadura daquele país fez com que as duras críticas lançadas pelo CIAS contra Bergoglio fossem valorizadas em Roma.

Em 1986, foi nomeado um novo provincial para os jesuítas argentinos: um homem recomendado pelo centro de estudos sociais. Ficava, a partir daquele momento, bem claro que o tempo da influência de Jorge Bergoglio nos jesuítas argentinos tinha chegado ao fim. A linha intelectual tinha assumido o poder.

Tudo começou a mudar no Colégio Máximo. As ordens eram para que fosse posto um ponto final àquela estratégia de Bergoglio, marcada pelo trabalho no campo e pelo apoio pastoral aos bairros pobres. A paróquia esvaziou-se, o número de estudantes no colégio caiu.

Foi neste contexto que, em maio de 1986, a caminho dos 50 anos de idade, o padre Bergoglio fez um acordo com o novo provincial: iria para a Alemanha, para um período sabático, com o objetivo de fazer um doutoramento sobre o teólogo Romano Guardini. Aquele foi, porém, um tempo de grande infelicidade para Bergoglio. Um homem que tinha passado toda a sua vida na ação concreta junto das comunidades via-se, de súbito, confinado aos corredores de uma universidade a ler e a estudar. O biógrafo de Francisco lembra mesmo que era comum o padre Bergoglio, com saudades da Argentina, deambular pelas ruas de Frankfurt e ir até ao aeroporto acenar aos aviões que partiam.

Em maio de 1986, a caminho dos 50 anos de idade, o padre Bergoglio fez um acordo com o novo provincial: iria para a Alemanha, para um período sabático, com o objetivo de fazer um doutoramento sobre o teólogo Romano Guardini.

Bergoglio voltaria à Argentina alguns meses depois. Não seria capaz de ficar mais tempo na Alemanha e regressou ao país-natal, embora sem abandonar os estudos doutorais, que continuou na Argentina.

Apesar de já não ter qualquer cargo oficial, Bergoglio continuava a ser admirado por uma grande parte dos jesuítas argentinos. Por causa dessa popularidade, foi convidado a dar aulas, a participar em palestras e a fazer discursos. Escreveu artigos e livros e tornou-se, novamente, uma dor de cabeça para a hierarquia jesuíta da altura. Aumentava a tensão entre duas visões da Companhia de Jesus no país: uma representada por Bergoglio e seguida pelas gerações mais jovens; outra representada pela fação intelectual, que agora detinha a liderança da organização. Segundo o seu biógrafo, uma das grandes provas da popularidade de que Bergoglio continuava a gozar foi a sua eleição para “procurador” em 1987 — o representante da província numa reunião em Roma.

Pela sua popularidade, Bergoglio torna-se um incómodo para a hierarquia dos jesuítas na Argentina e, em 1990, é enviado para Córdoba, a 650 quilómetros de Buenos Aires. Passou dois anos numa residência jesuíta, onde celebrou missas, ouviu confissões, leu e escreveu. Ao mesmo tempo, a maioria dos seus apoiantes e seguidores também conheceram o exílio e foram enviados para estudar em universidades europeias. A nova liderança dos jesuítas argentinos queria consolidar uma nova estratégia e unificar a província, mas não foi isso que aconteceu: o número de novas vocações continuou em queda.

Os dois anos passados em Córdoba são de grande sofrimento interior para Bergoglio. Sentiu-se profundamente sozinho e abandonado e passou por uma crise interior, de esvaziamento espiritual, enquanto assistia impotente à reversão de tudo aquilo que tinha feito na província argentina da Companhia de Jesus. Ainda assim, como recorda o seu biógrafo, aquele foi um período que permitiu a Bergoglio desenvolver um trabalho espiritual interior de combate à “mundanidade espiritual” que, anos mais tarde, se refletiria no pontificado de Francisco.

O exílio haveria de terminar em maio de 1992, porque a Igreja Católica tinha outros planos para Jorge Bergoglio.

Cinco anos antes, quando o cardeal Juan Carlos Aramburu completou os 75 anos e chegou à idade de renunciar ao cargo de arcebispo de Buenos Aires, começaram os procedimentos para o substituir. O escolhido foi Antonio Quarracino, então arcebispo de La Plata, que assumiu a liderança da arquidiocese de Buenos Aires em 1990. Quarracino conhecia bem o trabalho que Bergoglio tinha feito no Colégio Máximo e no bairro de San Miguel — e não gostava da forma como ele tinha sido tratado pelos jesuítas.

Como arcebispo de Buenos Aires, Quarracino quis ir buscar Jorge Bergoglio ao exílio para o elevar a bispo auxiliar da capital. Multiplicou-se em diplomacias junto do Vaticano e, ultrapassando as reservas demonstradas pela Companhia de Jesus, conseguiu que João Paulo II convidasse Bergoglio para assumir o cargo. Foi ordenado bispo em 27 de junho de 1992, na catedral de Buenos Aires, pelo próprio Quarracino, com quem colaborou durante mais de cinco anos.

O novo bispo auxiliar recebeu como primeira missão o acompanhamento da região pastoral de Flores, a zona da cidade onde cresceu e onde descobriu a sua vocação — e também a zona mais pobre de Buenos Aires. A incumbência do bispo Bergoglio resumia-se de forma simples: replicar ali o sucesso dos seus projetos no Colégio Máximo.

Foi naquela altura que teve a rutura mais violenta com os jesuítas. Depois de algum tempo a residir na cúria da Companhia de Jesus (enquanto era preparada uma residência para ele em Flores), foi informado de que devia sair, uma vez que a sua presença era inoportuna. Foi embora — e durante duas décadas praticamente não teve contactos com a Companhia de Jesus. Quando viajava até Roma, nunca ficava sequer hospedado na sede mundial dos jesuítas, junto ao Vaticano, como faziam os outros bispos jesuítas.

Como bispo, Bergoglio rompeu com as práticas conhecidas da diocese. Quase nunca estava sentado à secretária: percorria diariamente toda a região que lhe estava atribuída. Dispensou motoristas e secretários, geria o próprio telefone e a própria agenda e andava de transportes públicos. Era frequente vê-lo nas paróquias, junto dos fiéis e dos padres, e a resolver problemas com as próprias mãos: se algum padre não conseguisse encontrar um substituto para o seu período de férias, era o próprio Bergoglio que ia substituí-lo durante esse tempo. Dedicava especialmente o seu tempo às villas miseria, onde se empenhava, com os padres, em projetos de angariação de fundos e de dinamização pastoral.

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O bispo Jorge Bergoglio era presença frequente nas "villas miseria" de Buenos Aires

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A basílica de San José de Flores, no bairro de Flores, onde Bergoglio desempenhou a sua missão de bispo auxiliar

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Bergoglio foi bispo auxiliar de Buenos Aires e, depois, coadjutor, antes de assumir a liderança da arquidiocese

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O bispo Bergoglio numa das paróquias de Buenos Aires

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Apenas um ano e meio depois de ter sido elevado a bispo auxiliar, Jorge Bergoglio recebeu uma nova missão: foi escolhido para vigário-geral da diocese de Buenos Aires, tornando-se, efetivamente, o número dois daquele que era já o principal eclesiástico da Argentina (além de arcebispo de Buenos Aires, era também presidente da conferência episcopal). Como vigário-geral, Bergoglio teve de administrar toda a diocese, ajudar Quarracino na redação de discursos e aconselhar o cardeal — incluindo na gestão de algumas polémicas, como quando Quarracino sugeriu que os homossexuais deviam viver num bairro próprio, com leis próprias.

Em 1997, Jorge Bergoglio subiu novamente na hierarquia eclesiástica, quando foi nomeado arcebispo coadjutor de Buenos Aires. Na prática, passou a ter direito de sucessão automática como arcebispo de Buenos Aires — sem que fosse preciso passar por um novo processo de nomeação. Antonio Quarracino tinha uma saúde muito fragilizada e acredita-se que pretendia assegurar que lhe sucederia um homem acima de qualquer suspeita. Quarracino tinha fama de ser muito próximo do regime argentino — e, com as crescentes suspeitas de corrupção que manchavam o governo, um arcebispo visto como independente da rede política permitiria salvaguardar a imagem da Igreja.

Bergoglio ascendeu ao cargo mais elevado da Igreja argentina em fevereiro de 1998, depois da morte de Quarracino.

As primeiras semanas do arcebispo Bergoglio evocavam já aquilo que viriam a ser os primeiros dias do Papa Francisco, década e meia depois. Rejeitou a residência oficial do arcebispo, a limusina e o motorista, para se instalar num pequeno apartamento no edifício da diocese. Um quarto, um pequeno gabinete e uma pequena cozinha onde ele próprio preparava as próprias refeições. Continuava a não ter um secretário particular e recusou que fossem feitas novas roupas: bastou apertar e adaptar as de Quarracino. Continuou a andar de transportes públicos e a percorrer semanalmente toda a diocese. “O meu povo é pobre e eu sou um deles”, dizia com frequência.

Foi já como arcebispo de Buenos Aires que, pela primeira vez, celebrou o tradicional Lava-Pés, de Quinta-Feira Santa, num hospital de Buenos Aires onde são tratados doentes com doenças infecciosas. No lugar dos 12 discípulos de Jesus, na Semana Santa de 1998, estiveram jovens com sida, toxicodependentes e pessoas transgénero. Manteve a tradição durante todo o período como arcebispo, celebrando a Quinta-Feira Santa em prisões e hospitais — e levou a tradição para Roma, quando, na Semana Santa de 2013, o Papa Francisco fez manchetes em todo o mundo ao celebrar a Quinta-Feira Santa numa prisão. Para quem o conhecia de Buenos Aires, não era novidade.

Uma das primeiras atitudes que teve como arcebispo de Buenos Aires foi contratar uma auditora internacional independente para fazer uma auditoria às contas da arquidiocese. Fez uma limpeza de alto a baixo — e encontrou muito que limpar. A sua reputação acabou por sair consolidada desse período, sobretudo pelo modo aberto como enfrentou um caso judicial que envolveu buscas à sede da arquidiocese e que permitiu descobrir uma teia de favores entre a Igreja, bancários, empresários e políticos que remontava aos tempos de Quarracino.

Em fevereiro de 2001, o arcebispo Jorge Bergoglio foi elevado a cardeal por João Paulo II. Na ocasião, pediu aos fiéis argentinos que não viajassem até Roma para festejar com ele: que pusessem de lado o dinheiro que gastariam nessa viagem e o destinassem aos pobres.

“Não te esqueças
dos pobres”

Como cardeal, Jorge Bergoglio passou a ter de viajar com frequência para Roma — algo que tentava fazer o menor número de vezes possível. Não gostava especialmente de ir ao Vaticano. Segundo o seu biógrafo, Roma representava tudo aquilo de que Bergoglio não gostava na Igreja Católica, incluindo o luxo e a ostentação, mas particularmente o centralismo.

Como bispo da América Latina, Bergoglio dava grande relevância à colegialidade dos bispos no governo da Igreja, quer a nível universal, quer a nível regional. O Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) foi o primeiro e mais destacado exemplo de cooperação entre os bispos a nível regional. Mas, durante o pontificado de João Paulo II, o centralismo de Roma em relação à Igreja Universal saiu reforçado — e o papel dos colégios episcopais por todo o mundo foi relativizado.

Isto acarretava um problema fundamental: a Igreja Católica moldada a partir de Roma era, necessariamente, uma Igreja eurocêntrica. E a Igreja da Europa atravessava uma forte crise. Com crescentes dificuldades em afirmar-se como relevante num mundo cada vez mais secularizado, a Igreja na Europa fechava-se sobre si própria, nos seus rituais, nas suas hierarquias e nos seus posicionamentos morais.

Alguns bispos da Europa começavam a perceber que a Igreja europeia estava, gradualmente, a deixar de ter capacidade para ser a fonte para os católicos de todo o mundo. Em sentido contrário, a Igreja latino-americana afirmava-se como mais vibrante do que nunca. Nos anos finais do pontificado de João Paulo II, começa a gerar-se entre alguns cardeais a ideia de que seria necessária, num futuro próximo, a eleição de um Papa sul-americano.

Segundo Austen Ivereigh, foi na década de 1990 que começaram as reuniões do “Grupo de St. Gallen”, um grupo de cardeais europeus de tendência mais progressista e reformista que percebia a necessidade de olhar para fora da Europa no pós-João Paulo II.

Bergoglio começou a destacar-se. Na sequência da grande crise económica argentina na viragem do milénio, que resultou num aumento substancial da pobreza extrema e do número de desempregados e sem-abrigo, o cardeal de Buenos Aires mobiliza toda a rede de apoio social da Igreja Católica e coloca-a ao serviço do país. Sob as ordens de Bergoglio, foram criadas cozinhas sociais e ampliadas as redes sociocaritativas, o que permitiu mitigar consideravelmente o impacto da crise — e contribuiu para um reforço significativo da reputação da Igreja Católica no país, cada vez mais distante dos escândalos de corrupção do passado.

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Jorge Bergoglio foi criado cardeal em 21 de fevereiro de 2001 pelo Papa João Paulo II

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Os ecos deste trabalho foram chegando a Roma, onde Bergoglio também se destacou quando, em 2001, foi o relator do Sínodo dos Bispos daquele ano, dedicado ao trabalho do bispo. O trabalho de Bergoglio na redação do documento final, procurando consensos e defendendo uma maior colegialidade na Igreja, impressionou os colegas em Roma.

Nas idas a Roma, Bergoglio foi estreitando laços com o cardeal Carlo Maria Martini, que também era jesuíta. Martini, um dos intelectuais mais relevantes daquela altura, era não só um dos nomes mais progressistas da Igreja do século XX como fazia também parte do Grupo de St. Gallen, que Bergoglio conheceu.

Quando, em 2005, João Paulo II morreu ao fim de vários anos a sofrer em público da doença de Parkinson, os cardeais voaram todos para Roma para o conclave. Naquele conclave, havia duas campanhas de bastidores: o establishment romano tentava eleger Joseph Ratzinger, que nas últimas duas décadas tinha sido o número dois de João Paulo II; o Grupo de St. Gallen, por seu turno, queria eleger um candidato reformista. Os cardeais reformistas, reunidos no Colégio Inglês, em Roma, sob os auspícios do cardeal britânico Cormac Murphy-O’Connor, arcebispo de Westminster, perceberam que Bergoglio poderia ter o apoio de vários cardeais latino-americanos — e começaram a desenhar uma campanha em torno dele.

Durante os dias que antecederam o conclave, começaram a circular em Roma relatos com o aparente objetivo de denegrir a imagem do cardeal Bergoglio, que recuperavam acusações antigas em torno do caso Yorio/Jalics. Não se terá percebido exatamente a origem daqueles rumores — mas é possível que tenham tido o efeito contrário, já que é conhecida a grande aversão dos cardeais relativamente a tentativas externas de influenciar o conclave.

Bergoglio entrou pela primeira vez na Capela Sistina no dia 18 de abril de 2005. O apoio dos latino-americanos e dos reformistas levou a que Bergoglio chegasse a ter 40 votos num dos escrutínios, o que impediu Ratzinger, o primeiro classificado, de alcançar os 77 necessários para a maioria. O argentino terá mesmo implorado aos colegas, em lágrimas, que votassem no alemão. No final, Ratzinger foi eleito Papa com 84 votos e Bergoglio ficou em segundo lugar com 26.

Duas décadas depois daquele conclave, o Papa Francisco viria a recordar o momento em que quase foi eleito Papa em vez de Bento XVI. Num livro-entrevista escrito pelo jornalista espanhol Javier Martínez-Brocal, Francisco contou que se sentiu usado por uma “manobra” destinada a bloquear a eleição de Ratzinger. “Estavam a usar-me, mas nas minhas costas já estavam a pensar em propor outro cardeal. Ainda não tinham chegado a acordo sobre quem, mas já estavam prestes a lançar um nome”, contou.

O objetivo de toda aquela manobra, segundo contou Francisco, era o de impedir a eleição de Bento XVI. “Se tivessem continuado a votar em mim, ele não teria conseguido atingir os dois terços necessários”, revelou. Por isso, o próprio Bergoglio dirigiu-se ao cardeal colombiano Darío Castrillón Hoyos, um dos nomes influentes da Igreja latino-americana, a quem disse: “Não brinquem com a minha candidatura porque agora mesmo vou dizer que não vou aceitar. Deixem-me ficar por aqui.” O movimento anti-Ratzinger não conseguiu encontrar um candidato alternativo e o alemão seria mesmo eleito.

“Estavam a usar-me, mas nas minhas costas já estavam a pensar em propor outro cardeal. Ainda não tinham chegado a acordo sobre quem, mas já estavam prestes a lançar um nome. (...) Se tivessem continuado a votar em mim, [Bento XVI] não teria conseguido atingir os dois terços necessários.”
Papa Francisco, em entrevista ao jornalista espanhol Javier Martínez-Brocal

Um dos momentos mais importantes do cardinalato de Bergoglio ocorreria dois anos depois daquele conclave, em maio de 2007, no santuário brasileiro de Nossa Senhora Aparecida. Cerca de 200 bispos latino-americanos reuniram-se ali durante duas semanas para a 5.ª Conferência Geral do CELAM, um encontro que decorreu sob o patrocínio de Bento XVI e que reforçou a importância da colegialidade dos bispos na procura de respostas para os desafios da Igreja contemporânea em diferentes pontos do mundo.

Bergoglio foi nomeado relator do documento final, o que lhe deu um papel fundamental na procura de consensos entre os participantes. O texto que resultou do encontro, que ficaria conhecido como o Documento de Aparecida, seria mais tarde lido como uma antecâmara do programa do futuro Papa Francisco. Naquele texto, Bergoglio mencionou a importância de olhar para as margens e de combater a cultura do descarte, de ir em busca dos que sobram por serem deixados de lado pela economia de mercado: os pobres, os idosos, as crianças. O documento inaugurou também uma expressão que se tornaria uma síntese do Papa Francisco: a Igreja tem de ir até às “periferias existenciais”.

Aquele era um apelo inicialmente dirigido à própria América Latina. As periferias das cidades latino-americanas estavam a tornar-se mais do que meras periferias geográficas: repletas dos mais pobres da sociedade argentina, incluindo muitos imigrantes, estavam também a tornar-se periferias existenciais. Mas era lá, na religiosidade popular daquele povo, na chama da fé presente nos crentes mais pobres, que estava o centro do Cristianismo — mais do que nas grandes catedrais.

Aplaudido pelo seu trabalho naquele documento que firmou decisivamente a opção preferencial pelos pobres na Igreja, Bergoglio acabaria entronizado como o líder de facto da Igreja latino-americana. Mas aquele programa eclesial tinha aplicação muito além das fronteiras da América do Sul.

Como cardeal, Bergoglio manteve a postura que tivera como padre e bispo. Passava o máximo de tempo possível nos bairros mais pobres, não tirava férias, desenvolveu iniciativas de diálogo ecuménico e inter-religioso — e são múltiplas as histórias que se contam da sua proximidade quotidiana, do dono do quiosque que lhe guardava o jornal diariamente aos jovens com quem fazia questão de passar bastante tempo.

Aos 75 anos, como fazem todos os bispos, entregou a renúncia ao Papa. Era o ano 2011 e Bergoglio tinha planos muito tranquilos para o futuro: tinha um quarto à sua espera na casa de repouso do clero de Buenos Aires, no bairro de Flores, onde tinha crescido. Queria terminar a tese de doutoramento, que nunca tinha concluído, e passar o resto da vida como arcebispo emérito a ajudar no trabalho dos padres do bairro.

Mas o plano saiu furado. Em fevereiro de 2013, a renúncia de Bento XVI ao trono de São Pedro apanhou todo o mundo de surpresa, incluindo os cardeais. A Igreja europeia estava cansada, gasta e autocentrada. Apesar de as soluções europeias não funcionarem, a instituição continuava a ser eurocêntrica. Em 2013, porém, os cardeais europeus já começavam a perceber que talvez tivessem algo a aprender da parte da Igreja vibrante da América Latina.

No dia 27 de fevereiro de 2013, Bergoglio entrou num avião com destino a Roma. Da parte do Vaticano, tinha recebido um bilhete para a classe executiva, mas trocou-o por um bilhete em económica. Tinha um bilhete de regresso para o dia 23 de março, mas nunca haveria de o usar. Pediu ao dono do quiosque junto à catedral que continuasse a guardar-lhe o jornal. Não quis que o fossem buscar de carro ao aeroporto de Roma — apanhou o comboio e o autocarro e instalou-se numa modesta residência clerical junto à Piazza Navona. Nos dias que antecederam o conclave, Bergoglio não surgia nas famosas listas de papabili elaboradas pelos meios de comunicação social, focados em nomes como os dos cardeais Angelo Scola, Odilo Scherer, Marc Ouellet ou Sean O’Malley.

Mas Bergoglio sabia que existia o sério risco de sair da Capela Sistina vestido de branco. Os cardeais do Grupo de St. Gallen faziam campanha por ele: os reformistas queriam um líder novo para a Igreja e fizeram lóbi junto dos cardeais de todo o mundo, percorrendo durante aquela semana os discretos jantares entre cardeais organizados nos colégios de Roma.

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Já como cardeal, continuava a andar por toda a diocese e preferia os transportes públicos ao carro oficial. Manteria o estilo de proximidade já como Papa

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O momento decisivo aconteceu já na reta final das Congregações Gerais — as reuniões de cardeais à porta fechada que antecedem o conclave, durante as quais todos os cardeais têm a oportunidade de discursar e falar da sua visão para o futuro da Igreja. Bergoglio fez um discurso curtíssimo, com menos de 400 palavras, que se tornaria do conhecimento público depois de um cardeal cubano lhe ter pedido os apontamentos e os ter publicado na internet.

No discurso, o cardeal Bergoglio foi sintético. Pediu uma Igreja com capacidade de “sair de si mesma e ir às periferias, não só às geográficas, mas também às periferias existenciais: as do mistério do pecado, da dor, da injustiça”. Alertou para os perigos de uma Igreja que “não sai de si mesma para evangelizar” e que se torna “autorreferencial”, criticou o “narcisismo teológico” e disse que, nesta fase, Jesus já não estava à porta a bater para entrar (como nas palavras do Apocalipse), estava a bater “desde dentro para que o deixemos sair”.

Na prática, Bergoglio queria um regresso às origens do Evangelho. Uma Igreja que voltasse a ser mysterium lunae, ou seja, uma Igreja que não tem luz própria, mas que existe para brilhar ao refletir a luz de Cristo. Ao acreditar “que tem luz própria”, a Igreja cai no perigo da “mundanidade espiritual”, alertou.

O diagnóstico traçado e os caminhos apontados por Bergoglio convenceram os cardeais. Na semana seguinte, quando Bergoglio entrou na Capela Sistina, já era favorito — embora nos jornais essa viesse a ser uma enorme surpresa.

O argentino foi eleito à quinta ronda de votações (sexta, se contarmos com uma ronda anulada por ter sido encontrado um boletim a mais dentro da urna, um boletim em branco que foi agarrado por engano ao boletim de um dos cardeais). De acordo com o livro The Election of Pope Francis, do vaticanista Gerard O’Connell, elaborado com base no relato detalhado, embora anónimo, de um dos cardeais presentes no conclave, Bergoglio foi eleito com 85 votos, ultrapassando largamente a maioria de 77 que era necessária.

Ao final da tarde do dia 13 de março de 2013, uma quarta-feira, o Papa Francisco apareceu vestido de branco na varanda central da Basílica de São Pedro pela primeira vez. “Irmãos e irmãs, boa noite! Vós sabeis que o dever do conclave era dar um bispo a Roma. Parece que os meus irmãos cardeais tenham ido buscá-lo quase ao fim do mundo”, disse à multidão. “Eis-me aqui.”

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Francisco inaugurou o seu pontificado com um "boa noite"

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O próprio nome anunciava todo um programa pastoral e político. Tinha sido escolhido na Capela Sistina, enquanto eram contados os votos dos cardeais. Quando se tornou claro que Bergoglio seria o escolhido, por ter ultrapassado a fasquia dos 77 votos, houve um forte aplauso dentro do conclave. O cardeal brasileiro Cláudio Hummes, sentado ao lado de Bergoglio, segredou-lhe: “Não te esqueças dos pobres.” Durante os minutos que se seguiram, enquanto iam sendo contados os votos que faltavam para que Bergoglio fosse oficialmente questionado sobre se aceitava a eleição canónica, uma luz acendeu-se no espírito do argentino: escolheria o nome de São Francisco de Assis, o santo dos pobres.

O Papa da Igreja
para “todos, todos, todos”

Os primeiros dias do pontificado de Francisco fizeram manchetes na imprensa de todo o mundo, quase todas por pequenas histórias — menores, mas ainda assim significativas. Por cima da batina branca, Francisco manteve a cruz peitoral prateada que tinha usado como bispo, recusando a tradicional cruz dourada dos papas. Nos pés, manteve os sapatos castanhos que sempre tinha usado, em vez dos tradicionais múleos vermelhos usados pelo chefe da Igreja (e que tanta polémica tinham causado durante o pontificado de Bento XVI). Continuava a usar um relógio de plástico.

Depois de visitar os luxuosos apartamentos pontifícios, preferiu continuar a viver num quarto na Casa de Santa Marta, a residência clerical do Vaticano. Não só porque não queria todo aquele luxo, mas essencialmente porque queria continuar a morar em comunidade, a rezar e a fazer as refeições com outras pessoas, em vez de viver na solidão luxuosa do apartamento papal, que continuou a usar como local de trabalho. Francisco não queria apenas rejeitar a riqueza e a ostentação: queria estar junto da Humanidade. Era imperativo que, tal como sempre acontecera quando era bispo, as pessoas tivessem acesso a ele.

Também chegaram às notícias as dores de cabeça que Francisco provocou à segurança do Vaticano nos primeiros dias, quebrando todos os protocolos para se aproximar dos fiéis, para os cumprimentar sem ficar fechado na gaiola de segurança do Papa. Os jornais italianos começaram a chamar-lhe “o pároco do mundo”, expressão que se tornou célebre para descrever o Papa e chegou até a títulos de livros. Francisco mantinha a espontaneidade e a proximidade que sempre tivera como arcebispo de Buenos Aires, pelo que nada daquilo era novidade em Bergoglio — mas o contraste com Bento XVI, o brilhante mas reservado teólogo alemão que havia liderado a Igreja nos últimos anos, tornava tudo mais evidente.

Naquelas primeiras horas como Papa, Francisco quis passar pessoalmente na residência onde se tinha hospedado antes do conclave para recolher a mala e pagar a conta. Telefonou ao dono do quiosque de Buenos Aires para lhe dizer que, a partir daquele momento, já não precisava de lhe guardar o jornal, e ao consultório do dentista para desmarcar uma consulta. Todas estas pequenas histórias foram aparecendo nas páginas dos jornais como marca de um Papa diferente.

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Francisco a cumprimentar os fiéis no Vaticano, nos primeiros dias como Papa, lançando o caos sobre a equipa de segurança

Corbis via Getty Images

Nos primeiros meses, algumas decisões tiveram especial destaque. Logo um mês depois da eleição, Francisco criou o “Conselho dos Cardeais”, que ficaria conhecido como C9, por ter nove cardeais — um organismo composto por cardeais de todo o mundo para o ajudarem no governo da Igreja e, especialmente, na reforma da Cúria Romana. Estava dado o mote para uma nova forma de gerir a Igreja: a ideia de uma monarquia absoluta centrada no Papa e, sobretudo, centrada numa cosmovisão europeia, tinha terminado. Aquele grupo tinha cardeais latino-americanos, africanos, australianos e americanos, chamados ao topo da hierarquia.

Ao longo do pontificado, também viria a transformar a Igreja de outra forma: mudando a configuração do colégio cardinalício. Rompendo com a tradição de manter o colégio dos cardeais maioritariamente europeu e italiano, Francisco elevou a cardeais bispos de todos os continentes, aumentando significativamente a representação de África, Ásia e América Latina. Além disso, também procurou, nas escolhas dos cardeais, ir às periferias, optando por nomear cardeais em dioceses que habitualmente não tinham tanto destaque e rompendo com algumas tradições milenares, numa mensagem clara de que a hierarquia eclesiástica não era uma corte monárquica.

Todos aqueles sinais podiam apontar o foco para o caminho que o Papa queria percorrer — de maior colegialidade na tomada de decisões, de atenção radical às periferias existenciais e aos mais pobres e de colocar a Igreja ao serviço do mundo e da Humanidade. Cinco anos depois da eleição do Papa, numa entrevista ao Observador, o então superior da Companhia de Jesus em Portugal, padre José Frazão Correia, destacava que a “coerência” tinha sido a principal novidade trazida pelo Papa Francisco à Igreja. “Se a novidade do Papa fosse simplesmente ter sapatos pretos em vez de sapatos vermelhos, penso que seria uma coisa quase ridícula”, afirmava o sacerdote. “A grande novidade do Papa Francisco é procurar um Cristianismo que faça sentido e que seja fecundo num tempo onde a proposta cristã não decorre de si.”

“Creio que a questão é mais complexa do que isso. Como eu entendo, o Papa Francisco vai ao coração, ao que é mais elementar no Evangelho, e a como é que essa dimensão mais elementar do Evangelho pode hoje levar a Igreja a redesenhar o modo de estar, de sentir, de pensar, de atuar, que seja fecundo num contexto global, plural, secularizado em muitos contextos”, analisava ainda o líder jesuíta português. “Creio que isso faz com que haja aqui uma deslocação da própria compreensão da autoridade da Igreja, até da própria tradição da Igreja, e de símbolos eclesiais, que em muitos casos são identificados quase como o coração da Igreja e da vida eclesial.”

Mais do que pela implementação de reformas radicais, o pontificado de Francisco ficou indelevelmente marcado pelos debates que abriu. Francisco, o primeiro pontífice não-europeu em quase 1.300 anos, procurou abrir a Igreja ao mundo, criticando a tentação da “autorreferencialidade” e do “narcisismo teológico” de uma Igreja eurocentrada. A busca pelas periferias existenciais verificou-se tanto do ponto de vista geográfico (visitando países pobres, pouco desenvolvidos, devastados por guerras) como do ponto de vista humano, revertendo o discurso de exclusão face às mulheres, aos homossexuais, aos divorciados que voltaram a casar e, genericamente, a todos aqueles que a Igreja vê como pecadores.

Numa entrevista ao Observador em 2018, o cardeal António Marto descreveu a grande reforma da Igreja implementada pelo Papa Francisco como a criação de uma Igreja “que não seja autorreferencial, que não viva fechada sobre si mesma, sobre as suas pequenas questões, mas (…) seja a Igreja em saída”, indo “ao encontro do mundo” e tornando-se “uma Igreja próxima, uma Igreja acolhedora, uma Igreja misericordiosa, uma Igreja que estabelece pontes de diálogo com todos os quadrantes da sociedade, uma Igreja que procura ir às periferias existenciais, portanto todos os lugares do sofrimento, da pobreza humana — não só material, mas também espiritual — e, sobretudo, uma Igreja empenhada na construção e na aproximação dos povos em ordem à paz”.

10 anos de Francisco: os temas que abriu na Igreja

, por João Francisco Gomes

“O Papa Francisco diz que prefere uma Igreja que suje as mãos e os pés no lodo do mundo, na lama, mas que saia ao encontro dos outros, correndo este risco de sujar, do que uma Igreja doente por ficar fechada em si mesmo e não respirar o ar puro”, assinalava o cardeal. O Papa Francisco queria uma Igreja que fosse um “hospital de campanha”, para tratar as feridas do mundo, no meio do mundo.

O pontificado de Francisco ficou marcado por vários picos de crise, com especial destaque para o problema dos abusos sexuais de menores no contexto da Igreja. Este drama, tão antigo quanto a própria Igreja, transformou-se numa crise contemporânea no início da década de 1980, com o surgimento dos primeiros casos no sul dos EUA. Durante o pontificado de Bento XVI, a revelação de casos e de redes de encobrimento sistemático em todo o mundo deu-lhe proporções globais. Coube a Francisco gerir a crise.

No primeiro ano do seu pontificado, criou a Comissão Pontifícia de Proteção de Menores, um organismo do Vaticano para dar resposta ao problema dos abusos. Em 2018, depois de um ano particularmente controverso neste âmbito, Francisco convocou uma cimeira inédita, juntando no Vaticano bispos de todo o mundo para discutirem respostas àquela crise. Daquela reunião, resultaram novas regras, muito mais apertadas, para o modo como a Igreja deve lidar, com tolerância zero, com a crise dos abusos. Em Portugal, estes avanços traduzir-se-iam, por exemplo, na criação de comissões diocesanas e, depois, na criação da comissão independente que, pela primeira vez, estudou o fenómeno no país, abrindo caminho, por exemplo, para o processo de indemnizações lançado em 2024.

Francisco procurou também fazer uma limpeza profunda às finanças do Vaticano, envolvidas em polémica desde o escândalo “Vatileaks”. Mas seria nos chamados “temas fraturantes” que o pontificado de Francisco acenderia mais paixões, valendo-lhe, por um lado, uma admiração assinalável entre crentes e não-crentes e, por outro lado, a oposição firme dos mais rigoristas dentro da Igreja.

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O primeiro ato de Francisco como Papa foi inclinar-se perante a multidão e pedir orações aos fiéis

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Ainda no primeiro ano do pontificado, a sua resposta a uma pergunta de um jornalista sobre a homossexualidade na Igreja (“Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?) tornou-se uma espécie de lema do Papa Francisco para estes assuntos. Nos temas fraturantes, a postura de Francisco foi simples: as pessoas antes das polémicas. Por trás de qualquer generalização moral, estão pessoas concretas — e é a cada pessoa concreta que a Igreja tem de chegar.

Como resumiu ao Observador o padre jesuíta americano James Martin, um sacerdote mundialmente conhecido pelo seu trabalho junto da comunidade LGBTQ, o Papa Francisco “não mudou a doutrina da Igreja” sobre o assunto, “mas seguramente mudou o rumo da conversa”, e “mudar o rumo da conversa é mudar a Igreja”.

O padre que quer um lugar na Igreja para os LGBTQ

, por João Francisco Gomes

Mas talvez nenhum posicionamento do Papa Francisco tenha gerado tanta controvérsia como aquele que assumiu em 2016 sobre a moral familiar. Na exortação apostólica Amoris Laetitia, Francisco escreveu que “um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais àqueles que vivem em situações ‘irregulares’, como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas”. Francisco falava de todas as pessoas que viviam em situações que a moral do Catecismo da Igreja Católica considera “irregulares”, incluindo casais que vivem em conjunto sem estarem casados ou aqueles que, depois de um divórcio, tinham voltado a casar civilmente.

No documento, Francisco virou-se contra uma perspetiva maniqueísta da moral. “Por pensar que tudo seja branco ou preto, às vezes fechamos o caminho da graça e do crescimento e desencorajamos percursos de santificação que dão glória a Deus”, escreveu, sinalizando que é “possível” que uma pessoa, em situações habitualmente classificadas como pecado, possa “viver em graça de Deus”. Como se tudo isto não fosse já bastante problemático para a ala radical e ultra-conservadora, Francisco foi mais longe e, numa nota de rodapé, disse que “em certos casos, poderia haver também a ajuda dos sacramentos”. Traduzido por miúdos, haveria situações em que pessoas em situação “irregular” poderiam comungar.

Mais uma vez, Francisco evitava fórmulas fechadas e generalizações, que não serviam a missão do Cristianismo. O que importava eram as pessoas: cada padre, cada bispo, tinha a missão de conhecer cada um dos fiéis das suas comunidades e perceber como a Igreja poderia ajudar na situação concreta de cada pessoa. De nada serviria emitir uma lei a partir de Roma se cada pessoa é diferente. Mas estava aberta a polémica, uma vez que Francisco abria, efetivamente, a porta dos sacramentos, por exemplo, aos divorciados que tinham voltado a casar. Isto valeu-lhe uma controvérsia de grandes dimensões. O Papa foi até acusado de heresia por alguns teólogos — e quatro cardeais escreveram ao Papa pedir-lhe uma clarificação pela confusão lançada.

No plano institucional, o grande projeto do pontificado de Francisco foi uma reforma da Cúria Romana, de alto a baixo, que ficou concluída em junho de 2022 e incluiu, entre outras novidades, a possibilidade de serem nomeados leigos para os lugares de “ministro” do governo da Santa Sé, em vez de apenas cardeais. O reforço da participação dos leigos verificou-se também no processo sinodal lançado em 2021 pelo Papa: pela primeira vez, a assembleia do Sínodo dos Bispos não teve apenas bispos, mas também leigos — e, pela primeira vez, foi dado direito de voto às mulheres.

A Igreja "já não é apenas um mundo de homens"

, por João Francisco Gomes

O processo sinodal ficou concluído em outubro de 2024, com o final da segunda sessão da assembleia geral. Alguns dos temas mais quentes, incluindo a questão da ordenação de mulheres, ficaram de lado dessa segunda sessão e foram delegados em vários grupos de trabalho que deveriam reportar diretamente ao Papa e que se mantiveram em funções depois do Sínodo — uma indicação de que Francisco, consciente do tempo necessário para um processo eficaz, não pretendia que o debate se esgotasse ali e que a discussão continuasse.

Apesar da forte deterioração da sua saúde, Francisco foi até ao final dos seus dias um Papa fortemente interventivo. O ritmo das viagens internacionais baixou consideravelmente (em 2024, foram apenas três, embora uma delas tenha sido um périplo de duas semanas por vários países asiáticos), mas Francisco continuou a não abdicar de se posicionar no espaço público como defensor de uma Igreja fiel às suas fontes evangélicas. Quando o vice-presidente dos EUA, JD Vance, procurou justificar a deportação em massa de imigrantes ilegais com uma argumentação da teologia cristã, Francisco, numa altura em que já estava bastante fragilizado, não hesitou em escrever uma dura carta aos bispos norte-americanos em que chocava de frente com as políticas de Donald Trump: para o Papa, classificar como criminosos os imigrantes ilegais era incompatível com uma perspetiva cristã da dignidade humana.

Como Papa, Francisco passou duas vezes por Portugal. A primeira foi em 2017 — uma viagem de apenas 24 horas com o único objetivo de canonizar os pastorinhos Francisco e Jacinta, em Fátima. A segunda foi em agosto de 2023, para presidir à Jornada Mundial da Juventude de Lisboa. Durante uma semana, Francisco esteve na capital portuguesa para um evento que reuniu cerca de 1,5 milhões de jovens de todo o mundo. No primeiro discurso perante a multidão de jovens reunida em Lisboa, Francisco deixou uma mensagem que se converteria numa síntese do seu pontificado e da Igreja que transformou: “Na Igreja, há lugar para todos. Todos, todos, todos.”

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