805kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

Joseph Ratzinger em 1965

Twitter History In Pictures @HistoryInPics

Joseph Ratzinger em 1965

Twitter History In Pictures @HistoryInPics

Perfil. Bento XVI, o teólogo rebelde que transformou a Igreja

Do progressismo teológico ao papel na reforma da Igreja, Ratzinger foi quem durante mais tempo influenciou a maior instituição religiosa do mundo na história contemporânea. Conheça a sua longa vida

Bento XVI nunca teve pudor em falar da sua própria morte. Eleito Papa em 2005 após mais de duas décadas como braço direito de João Paulo II, o alemão já sentia a proximidade do fim. Tinha 78 anos, e a idade avançada levou-o a adaptar o seu programa de ação ao pouco tempo disponível. “Não me podia propor fazer nada a longo prazo”, confessaria Joseph Ratzinger, já reformado, ao jornalista alemão Peter Seewald, um dos mais profundos conhecedores da vida e da obra do homem que durante mais tempo influenciou os destinos da Igreja Católica contemporânea. “Tinha consciência de que a minha missão era outra. Tinha sobretudo de procurar mostrar o que é a fé no mundo de hoje.”

O Papa alemão terá calculado mal o tempo que lhe restava. Se não tivesse abdicado ao fim de oito anos, em 2013, e optasse por seguir a milenar tradição de ser Papa até ao fim da vida, Bento XVI teria tido um dos pontificados mais longos da história da Igreja — quase 18 anos. A surpreendente abdicação em 2013, por considerar não ter forças físicas e espirituais para guiar a Igreja rumo às reformas necessárias num período especialmente conturbado, sobretudo pela crise dos abusos sexuais, pelas polémicas financeiras e pelos conflitos entre a tradição católica e o mundo moderno, marcou definitivamente a história recente da Igreja e será, certamente, um dos principais motivos pelos quais Bento XVI será recordado.

Depois de oito anos como Papa, Ratzinger foi Papa emérito durante outros quase dez anos, e a Igreja Católica precisou de aprender a lidar com a situação. Qual o lugar de um Papa que se reformou e deixou o trono de São Pedro? Devia ficar no Vaticano ou voltar ao seu país? Devia continuar a pronunciar-se publicamente sobre assuntos da vida da Igreja e da fé cristã? Devia ter um lugar formal na hierarquia eclesiástica? As questões, muitas, foram difíceis de resolver. Bento XVI viveu a reta final da vida num pequeno mosteiro nos jardins do Vaticano. Embora isolado, ficou a escassas centenas de metros do lugar de trabalho do sucessor. As diferenças entre Francisco e Bento XVI tornaram o lar do alemão reformado numa espécie de refúgio para os mais conservadores e tradicionalistas da Igreja, que viram em Ratzinger um meio para legitimar uma oposição feroz ao Papa argentino que está a mudar a face da Igreja (muitas vezes colando ao alemão o rótulo de porta-voz de uma Igreja antiquada que não fez justiça ao verdadeiro progresso que Ratzinger trouxe à instituição no século XX).

GERMANY-POPE-RELIGION-HEALTH

Bento XVI encontrava-se já num estado de saúde bastante fragilizado

POOL/AFP via Getty Images

Francisco e Bento XVI lutaram sempre contra a tentativa de os apontar como representantes de correntes distintas. Depois de se retirar do Palácio Apostólico, Ratzinger prometeu obediência ao sucessor. Francisco visitou-o com frequência e deu-lhe um lugar de destaque nas principais celebrações do Vaticano. Mas nem sempre foi possível evitar a polémica (por exemplo, quando o cardeal conservador Robert Sarah arrastou Bento XVI para uma discussão sobre o celibato justamente no momento em que o sucessor Francisco deliberava para decidir sobre a ordenação de homens casados). Por não ter saído do centro geográfico da Igreja, Bento XVI também não se afastou do centro simbólico da maior instituição religiosa do mundo — a relação complexa e inédita entre Ratzinger e Bergoglio foi retratada em 2019 no filme “Dois Papas”, da Netflix.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Bento XVI morreu aos 95 anos depois de revolucionar decisivamente a própria ideia do que é um Papa. “Fica claro que o Papa não é nenhum super-herói e que a sua presença só por si não basta”, comentou Bento XVI sobre a sua própria resignação na série de entrevistas a Peter Seewald, publicada em 2016 no livro Conversas Finais, uma espécie de testamento intelectual e balanço de vida que abre portas inéditas ao percurso pessoal e religioso de Ratzinger. “O cargo do Papa não perdeu nada da sua grandeza, ainda que o caráter humano do mesmo se tenha tornado talvez mais evidente.”

Ouça aqui o episódio extra do podcast “A História do Dia” sobre o Papa Bento XVI.

Extra.Bento XVI, o Papa que mudou a História dos Papas

Nos quase dez anos que passou recolhido, na sombra de Francisco, Bento XVI refletiu profundamente sobre a inevitabilidade da própria morte e deixou que a sua face mais humana emergisse, sobrepondo-se à imagem austera do Papa vestido com uma pompa muitas vezes considerada anacrónica. Pode um Papa, o representante por excelência de Deus na Terra, ter medo da morte? “De certa maneira, sim”, respondeu Bento XVI, naquele livro de 2016. “Antes de mais, há o receio de vir a ser um peso para as pessoas se houver um longo período de incapacidade. Isso seria para mim muito confrangedor”, continuou. “A outra razão é que, apesar de toda a confiança que tenho que o bom Deus não me vá descartar, quanto mais nos aproximamos da sua face, mais sentimos e percebemos tudo o que fizemos de mal. (…) Aflige-me nem sempre ter valido às pessoas, não as ter tratado bem.”

E “o que espera encontrar?”, perguntou-lhe o jornalista alemão, autor de inúmeros livros sobre Bento XVI. “Há vários níveis de expectativa. Por um lado, o nível mais teológico. Um grande consolo, mas também um grande pensamento que, aqui, consiste na afirmação de Santo Agostinho. Ele interpreta as palavras do salmo ‘buscai sempre a sua face’ dizendo que esse ‘sempre’ é toda a eternidade. (…) Ao mesmo tempo, há o lado muito humano da questão: estou contente com a perspetiva de voltar a estar com os meus pais, os meus irmãos e amigos, e de poder imaginar que tornará a ser tão bom como quando estávamos em casa.”

Da influência de Mozart ao exército nazi

Joseph Aloisius Ratzinger nasceu em 16 de abril de 1927, numa pequena aldeia da Baviera, dentro de uma Alemanha então configurada na curta República de Weimar. Adolf Hitler já tinha sido preso pelo primeiro golpe de estado falhado, já tinha escrito Mein Kampf na prisão e já tinha sido solto — e por aquela altura preparava-se para o momento em que ascenderia ao cargo de chanceler para implementar a ditadura do Terceiro Reich. O pai, Joseph, era polícia, o que levava a família a mover-se com frequência pela Baviera; a mãe, Maria, uma dotada cozinheira. O futuro Papa foi o terceiro filho da família rural, sucedendo à irmã Maria e ao irmão Georg (que também seguiria a vida eclesiástica). Apesar de não serem “pobres no sentido estrito da palavra, uma vez que o salário mensal estava garantido”, a família teve de viver “de modo frugal e simples”, já que o pai era “modestamente pago”, contou Ratzinger em 1997 no livro O Sal da Terra.

Quando Ratzinger nasceu, nem sequer o Vaticano era o que é hoje. O rei Vítor Emanuel II da Sardenha já tinha tomado Roma e alcançado a unificação de Itália no final do século XIX, acabando com os Estados Pontifícios, um dos territórios que compunham a península italiana até 1870 — mas a independência do minúsculo estado do Vaticano só viria a ser reconhecida em 1929, com a assinatura do Tratado de Latrão entre Mussolini e o Papa Pio XI, que era pontífice quando Ratzinger nasceu. Alheio à Questione Romana, o pequeno Ratzinger já dava sinais de uma vocação sacerdotal em potência. Aos 7 anos, pelo Natal, escreveu uma carta ao menino Jesus pedindo-lhe um missal, uma casula verde e um coração de Jesus, para se mascarar de sacerdote e simular missas. “Brincar aos padres era, de uma forma ou de outra, uma brincadeira bonita. Na época ainda era muito popular”, confessou Bento XVI a Seewald em 2016.

Embora assente numa fé aparentemente sólida, inspirada no pai profundamente religioso, a infância de Ratzinger foi vivida num contexto traumático. Em 1933, quando o futuro Papa tinha apenas 6 anos de idade, Adolf Hitler tornou-se chanceler da Alemanha, abrindo o capítulo mais negro da história da Europa do século XX. O pai, particularmente anti-nazi, inspirou nos filhos um sentimento de oposição natural às ideias de Hitler. “O nosso pai era de tal forma contra [os nazis] que era impensável que alguém na família fosse a favor”, sublinhava Ratzinger. Além disso, era igualmente “evidente que um sacerdote tinha de ser contra os nazis”.

Os primeiros anos do nazismo foram também os primeiros anos de uma nova vida para a família Ratzinger: o pai reformou-se da polícia em 1937 e, no ano seguinte, a mãe, cozinheira de exceção, teve de arranjar um emprego numa pensão para fazer face às despesas familiares — numa altura em que os três filhos já andavam na escola e representavam uma despesa de cerca de 20 marcos por mês. A dedicação da mãe ao trabalho permitiu ao pequeno Ratzinger fortalecer a relação com o pai, muito religioso, mas severo nas exigências de pontualidade e exatidão.

Ratzinger Family Portrait

Em cima: os irmãos Georg e Joseph Ratzinger. Em baixo: a irmã Maria, a mãe Maria e o pai Josef Ratzinger. Fotografia de 1951

Getty Images

Depois da reforma do pai, a família mudou-se para Traunstein, uma pequena cidade alemã perto da fronteira com a Áustria, a cerca de trinta quilómetros de Salzburgo, onde o seu pai havia comprado uma casa rural com vista a passar ali os seus anos de reforma. Ratzinger “recebeu neste contexto, que ele mesmo definiu ‘mozartiano’, a sua formação cristã, humana e cultural”, conta-se na biografia oficial de Ratzinger divulgada pelo Vaticano. Foi naquela cidade que o jovem Ratzinger entrou no seminário menor, com apenas 12 anos — e foi ali que desenvolveu a sua personalidade cultural e intelectual, assumidamente marcada pela influência de Mozart.

“Embora nos tenhamos deslocado bastante durante a minha infância, a família manteve-se sempre basicamente na área entre os rios Inn e Salzach. E a maior, mais importante e melhor parte da minha juventude foi passada em Traunstein, em que se reflete muito a influência de Salzburgo. Pode dizer-se que, ali, Mozart penetrou profundamente nas nossas almas e a sua música ainda me toca muito, porque é tão luminosa e, ainda assim, tão profunda”, recordava Ratzinger em O Sal da Terra.

Em Traunstein, a juventude de Ratzinger seria novamente perturbada, quando, em 1939 — justamente o ano em que ingressou no seminário menor —, estalou a Segunda Guerra Mundial, o conflito que mudaria definitivamente o rosto da Europa. Tinha ainda 12 anos.

“Quando morreram os primeiros amigos e vimos que estava a chegar a nossa vez, tudo se tornou ainda mais sufocante”, lembrou Ratzinger em 2016. Um dos primeiros sinais da guerra foi percebido pelo jovem seminarista ainda em Traunstein, quando o seminário foi transformado em hospital de guerra. “Lembro-me bem [do início da guerra]”, disse Ratzinger, “porque teve como consequência imediata a transformação do seminário em hospital e, a partir de então, íamos de casa para a escola”.

Como qualquer alemão nascido na década de 1920, Ratzinger confrontou-se desde a infância com os horrores do regime nazi. “Sabíamos que havia coisas horríveis a acontecer”, assumiu a Seewald. “A questão dos judeus não estava tão presente entre nós, porque nem em Aschau, nem em Traunstein havia judeus. (…) Pessoalmente, não conhecíamos nenhum judeu. Porém, quando precisávamos de tecidos para coser, o pai encomendava-os sempre a uma empresa de Augsburg, cujo dono era judeu. Depois de os nazis o terem expropriado e perante a publicidade do novo dono de que tudo ia continuar como dantes, o meu pai disse: ‘Não compro nada a uma pessoa que tirou algo a outra pessoa’. E nunca mais comprou nada àquela empresa. (…) Dos gaseamentos não ouvíamos dizer nada. Sabíamos bem que os judeus estavam a ter problemas, tinham sido evacuados, que tínhamos de temer o pior, mas de forma concreta só o soube depois da guerra”, acrescentou.

As décadas de 1930 e 1940 foram, naturalmente, um período definidor para a vida de Ratzinger, que viveu a sua infância e juventude durante o traumático processo de implantação da Alemanha nazi e a Segunda Guerra Mundial. O peso daqueles anos viria a perseguir Ratzinger até ao trono pontifício. Depois do conclave de 2005, a escolha do cardeal alemão para suceder a João Paulo II fez soar alarmes entre as comunidades judaicas, que temeram que o novo líder da Igreja Católica pudesse ser um antissemita com ligações às ideias nazis. No centro do receio, a história incompleta de um dos capítulos mais penosos da vida de Ratzinger: a pertença à Juventude Hitleriana e às forças armadas da Alemanha Nazi.

Desde tenra idade, Joseph Ratzinger cresceu num ambiente profundamente anti-nazi, devido à influência do seu pai. Nos últimos anos da República de Weimar, quando Hitler já se posicionava para capturar o poder, o pai de Ratzinger não escondia o seu desprezo pelas ideias nazis. “Eu ainda era muito novo, mas lembro-me do quanto ele sofreu”, explicou Ratzinger em O Sal da Terra. “Ele tinha assinado o Der gerade Weg, um jornal anti-nazi, e ainda me consigo lembrar das caricaturas de Hitler. Ele era muito rígido nas palavras. A iminente captura do poder, que ele anteviu, foi também uma das principais razões pelas quais fomos para a vila. Ali, a situação era, obviamente, muito menos tensa, embora houvesse infelizmente um grande número de nazis entre os agricultores. Ele não fazia oposição pública, isso não seria possível nem mesmo na vila. Mas em casa, quando lia o jornal, quase tinha explosões de raiva. Expressava quase sempre a sua indignação de modo vigoroso e falava sempre livremente com as pessoas em quem podia confiar. Acima de tudo, nunca se juntou a qualquer organização, apesar de ser funcionário público.”

A família Ratzinger nunca aderiu ao Partido Nazi e procurou sempre manter-se discreta naquele ambiente de grande tensão social — nunca apoiando o regime de Hitler, mas também não dando voz a críticas públicas que pusessem em risco a família. Desde 1939, a adesão à Juventude Hitleriana, a fação juvenil do Partido Nazi, era obrigatória para todos os jovens rapazes a partir dos 14 anos de idade, mas o seminário havia recusado inscrever os seminaristas. Esta neutralidade durou até 1941, altura em que se tornou impossível lutar contra a obrigatoriedade, como explicou o próprio Ratzinger em O Sal da Terra: “Inicialmente, não fazíamos parte [da Juventude Hitleriana], mas quando a pertença obrigatória foi introduzida, em 1941, o meu irmão foi obrigado a aderir. Eu ainda era muito novo, mas mais tarde, enquanto seminarista, fui inscrito na Juventude Hitleriana.”

Não só se havia tornado obrigatório pertencer à Juventude Hitleriana como, além disso, a redução de propinas de que a família Ratzinger precisava para manter os filhos a estudar estava dependente da apresentação de uma prova de pertença à organização juvenil. “Felizmente, havia um professor de matemática muito compreensivo”, lembrava Ratzinger. “Ele próprio era um nazi, mas era um homem honesto, que me disse ‘vai lá uma vez e traz o documento para o termos’. Quando ele viu que eu simplesmente não queria ir, disse-me ‘compreendo, eu trato disso’, e eu não precisei de ir.”

Dois anos depois daquela primeira associação formal às fileiras nazis, começou o verdadeiro inferno militar para Ratzinger. Em 1943, com apenas 16 anos de idade, Joseph Ratzinger e os seus colegas seminaristas foram recrutados para o exército nazi e colocados numa base de artilharia anti-aérea em Munique, onde testemunharam em primeira mão os bombardeamentos americanos. “Durante um ano inteiro, entre agosto de 1943 e setembro de 1944, cumprimos o nosso serviço. Em Munique, ficámos ligados à escola secundária Max, por isso também tivemos aulas em paralelo. As aulas tinham sido reduzidas, mas tivemos, ainda assim, uma instrução útil. Por um lado, isto naturalmente não era agradável, mas, por outro lado, a camaradagem daquele tempo também era entusiasmante”, lembrou Ratzinger em 1997.

Joseph Ratzinger As Young German Air Force Assistant

Joseph Ratzinger em 1943, quando estava colocado numa unidade de artilharia anti-aérea

Getty Images

Durante o período mais crítico dos bombardeamentos em Munique, já na fase final da guerra, Ratzinger esteve alocado a uma unidade de comunicações e testemunhou de perto a intensa luta aérea que marcou os últimos meses da Segunda Guerra Mundial. Em setembro de 1944, foi dispensado da frente de combate e seria, mais tarde, colocado numa unidade de infantaria na cidade de Traunstein, regressando à terra onde cresceu. Foi aí que, depois de ser novamente mobilizado, desertou do exército nazi e teve de fugir da Gestapo, a polícia secreta nazi, que estava empenhada em descobrir e executar os desertores.

“Decidi ir para casa”, escreveu Ratzinger nas suas memórias, evocando esse perigoso episódio em que abandonou as fileiras nazis. Em 2016, ainda recordava com espanto a deserção, que lhe podia ter valido uma captura e uma condenação sumária à pena de morte. “Sabia que havia sentinelas, que éramos logo abatidos e que uma história dessas, na verdade, só podia acabar mal. Porque é que, apesar disso, fui tão tranquilo para casa, na verdade, já não sei dizer, isto é, não consigo explicar como fui tão ingénuo em tudo isso.” Nessa fuga, já em 1945, acabaria por ser capturado pelas forças americanas e feito prisioneiro de guerra — o que lhe salvou a vida.

Foi como prisioneiro de guerra que Ratzinger assistiu ao fim da Segunda Guerra Mundial, segundo o testemunho do próprio, firmado no livro de 1997. “Durante as seis semanas da minha prisão, dormimos ao relento, no chão, o que não foi sempre agradável. Os americanos não tinham tendas ou camaratas para aquela enorme massa de prisioneiros. Não tínhamos calendário, nada, por isso tínhamos de fazer um esforço para saber a data em que estávamos. Também não havia notícias. Por isso, a única coisa em que reparámos foi que no dia 8 de maio os americanos, que habitualmente disparavam alguns tiros para o ar, começaram repentinamente a disparar que nem loucos. Foi um autêntico espetáculo de fogo de artifício. Depois, começou a espalhar-se o rumor de que a guerra tinha acabado, de que a Alemanha se tinha rendido. Nessa altura, respirámos de alívio, claro, porque pensámos que a nossa libertação se estaria a aproximar e que nada mais nos podia acontecer.”

Durante o cativeiro, fez as suas primeiras produções intelectuais, escrevendo dissertações e poemas gregos no caderno que conseguiu levar de casa dos pais antes de ser feito prisioneiro. Joseph Ratzinger ainda seria transportado para um campo de prisioneiros em Ulm, onde esteve com cerca de 50 mil prisioneiros de guerra até ser libertado, no dia 19 de junho de 1945. Tinha 18 anos — e, por esta altura, já tinha tomado consciência da sua vocação sacerdotal.

O jovem padre progressista que quis mudar o mundo

Durante a guerra e, em especial, durante o cativeiro, o jovem Ratzinger aprofundou a descoberta de uma vocação sacerdotal que já o acompanhava desde que, aos 7 anos, se dedicara a brincar aos padres em casa e que já havia tido o seu primeiro reflexo formal aos 12 anos, com o ingresso no seminário menor. Em O Sal da Terra, em 1997, o cardeal Ratzinger contava como a vocação sacerdotal surgiu de modo gradual, sem nenhum momento de iluminação espontânea. Na infância, uma visita do cardeal Michael von Faulhaber, então arcebispo de Munique, à região onde Ratzinger vivia marcou a criança. As imponentes vestes púrpuras do cardeal impressionaram-no ao ponto de dizer que gostaria de se tornar “algo do género”. Na altura, contudo, Joseph Ratzinger estava apenas a iniciar um caminho de descoberta do mundo religioso, enformado pela fé profunda do seu pai e pela piedade devota da sua mãe. Atraía-o o fascínio pela liturgia e pelos mistérios divinos — e, sobretudo, pela educação.

“Muito cedo, ainda na escola primária, despertou em mim um desejo de ensinar. Estou muito grato por este desejo se adequar tão bem à ideia do sacerdócio. Mas diria que o ensino, a transmissão daquilo que descobrimos, era desde muito cedo algo que me entusiasmava”, contava Ratzinger no mesmo livro. A infância e a juventude foram inelutavelmente perturbadas pelo nazismo e pela guerra, mas durante todo esse processo traumático Ratzinger amadureceu a ideia do sacerdócio. “Não houve um momento tipo relâmpago de iluminação em que eu tenha percebido que estava destinado a tornar-me padre. Pelo contrário, houve um longo processo de amadurecimento e a decisão teve de ser meticulosamente pensada e constantemente reconfirmada. Não consigo colocar uma data nessa decisão. Mas o sentimento de que Deus tem um plano para cada pessoa, e para mim também, tornou-se claro desde cedo. Gradualmente, tornou-se claro para mim que o que ele tinha em mente estava relacionado com o sacerdócio.”

O caminho que levou Ratzinger à decisão de enveredar pelo sacerdócio foi marcado por dúvidas e resistências — sobretudo porque aquele jovem franzino e intelectual se apaixonara pela filosofia, pela teologia, pela literatura e pela vida académica. Mas cedo percebeu que a vida de um padre não se limitaria aos corredores da universidade. “Tornou-se cada vez mais claro para mim que há mais na vocação sacerdotal do que o gosto pela teologia. Na verdade, o trabalho numa paróquia pode frequentemente levar-nos para muito longe disso e fazer exigências completamente diferentes”, lembrava o cardeal Ratzinger no final da década de 1990. “O ‘sim’ ao sacerdócio significava que eu teria de dizer ‘sim’ a toda a missão, até nas suas formas mais simples. Uma vez que eu era muito tímido e nada prático, uma vez que não tinha qualquer talento para o desporto, a administração ou a organização, tinha de me perguntar a mim mesmo se seria capaz de me relacionar com as pessoas. Se, por exemplo, enquanto capelão seria capaz de liderar e inspirar jovens católicos; se seria capaz de dar instrução religiosa aos mais novos; se seria capaz de me dar bem com os idosos e os doentes, e por aí fora.”

“Tive de me perguntar a mim próprio se estava pronto para fazer aquilo durante toda a minha vida e se seria mesmo a minha vocação. Associado a isto estava, naturalmente, a questão de se eu seria capaz de me manter celibatário e sem casar durante toda a vida”, acrescentou Ratzinger, lembrando que meditou frequentemente sobre estas questões em longos passeios a pé no parque de Fürstenried, em Munique, durante o curso de teologia.

Joseph Ratzinger fez parte da primeira geração de sacerdotes alemães formados no pós-Segunda Guerra Mundial. A 3 de janeiro de 1946, seis meses depois de ter sido libertado do campo de prisioneiros de guerra, ainda com 18 anos de idade, Joseph e o irmão Georg seguiram para Frisinga de comboio, com alguma roupa e poucos livros na mala, destinados ao seminário maior onde estudariam para o sacerdócio. O seminário da diocese ainda não tinha sido totalmente devolvido à Igreja — uma grande parte ainda era usada pelas forças aliadas como hospital de guerra e como campo de prisioneiros — e as condições de habitabilidade da casa ainda eram precárias. Mas Ratzinger começou, nos primeiros dias, a trilhar um caminho intelectual que o transformaria mais tarde num dos maiores e mais revolucionários teólogos do século XX. “Tivemos logo de início um retiro orientado pelo professor Angermair, o moralista da faculdade. O retiro foi muito bom. Ele era um pensador vivo, novo, que pretendia em especial arrancar-nos à religiosidade rígida do século XIX e proporcionar-nos uma abertura”, lembrou Ratzinger em Conversas Finais. “O novo ambiente que sentíamos foi para mim, por assim dizer, uma conquista.”

Para Ratzinger, mergulhar no universo académico foi também sinónimo de um “alargamento de horizontes” no que respeita à fé cristã, que já não era apenas a devoção piedosa da sua mãe ou o seguimento escrupuloso da doutrina social por parte do seu pai, mas uma viagem radical pelo pensamento da filosofia e da teologia — em muitos momentos sinónimo de renovação e de rompimento com lógicas antigas. “Eu não queria movimentar-me apenas no seio de uma filosofia gasta e bloqueada. Queria antes compreender a filosofia enquanto pergunta: o que somos realmente? Queria, em especial, conhecer o novo e entrar na filosofia moderna”, recordava Ratzinger. “Nós éramos progressistas. Queríamos renovar por completo a teologia e, com ela, também reestruturar a Igreja e torná-la mais viva.”

O futuro Papa não escondia, também, que pertencia a uma geração de jovens católicos apostada em romper com o passado e em readequar a Igreja Católica aos tempos contemporâneos (processo em que viria a ter um papel ativo mais tarde, durante o Concílio Vaticano II). “Nós todos sentíamos um certo desprezo pelo século XIX, estava na moda na altura sentir isso”, assumiu Ratzinger em 2016. “Por outras palavras, sentíamos desprezo pelo novo gótico e por aquelas figuras de santos um tanto kitsch, bem como pela religiosidade rígida e um tanto kitsch, e pelo sentimentalismo excessivo. Queríamos deixar tudo isso para trás, dando origem a uma nova fase da religiosidade que, voltando às origens, se moldasse justamente a partir da liturgia e das suas sobriedade e grandeza, sendo por isso outra vez nova e moderna.”

“Repousando nessa certeza de que podemos reconstruir o mundo, as grandes questões não nos assustavam”, acrescentou no mesmo livro.

Na faculdade, começou rapidamente destacar-se e a ser considerado um dos melhores alunos de teologia — e foi profundamente influenciado por grandes teólogos alemães do século XX como Gottlieb Söhngen (que foi seu professor) ou Romano Guardini, que chegou a conhecer pessoalmente. Durante o curso, Ratzinger continuou a confrontar-se com um dos seus principais combates interiores: a possibilidade de vir a ser um padre de aldeia e não um professor, como sonhava. “Tinha decidido em consciência que não tinha de vir a ser professor”, assumiu em Conversas Finais. “Para mim era fundamental assumir plenamente o compromisso e ser sacerdote, se o bispo não quisesse que eu fosse outra coisa.”

Após cinco anos de estudo entre a Escola Superior de Filosofia e Teologia de Frisinga e a Universidade de Munique, Joseph Ratzinger foi ordenado padre em 29 de junho de 1951, com 24 anos, no mesmo dia que o irmão Georg, pelas mãos do cardeal Michael Faulhaber, cujas vestes púrpuras o tinham impressionado anos antes. Seguiu-se, na vida de Ratzinger, uma curta vida paroquial: logo em julho de 1951, em Moosach e, em agosto do mesmo ano, em Bogenhausen (Munique), onde foi vigário paroquial durante um ano. Aí, pôde experimentar o que havia aprendido nas aulas práticas em que os seminaristas usavam bonecas para treinar os batismos: a existência de uma maternidade na paróquia levou-o a celebrar vários batismos todas as semanas.

No entanto, a vida paroquial de Ratzinger durou pouco tempo, uma vez que o jovem prodígio da teologia estava destinado a uma vida académica. Logo em 1952, tornou-se professor no seminário de Frisinga e na escola superior onde ele mesmo havia estudado poucos anos antes. No ano seguinte, concluiu o doutoramento com uma tese sobre Santo Agostinho, a grande figura que inspirou o percurso teológico de Joseph Ratzinger. Quatro anos depois, em 1957, Ratzinger deu o passo final na sua consolidação como académico, obtendo a habilitação para a docência com uma tese sobre São Boaventura orientada pelo seu antigo professor Gottlieb Söhngen. A tese recebeu inicialmente um parecer negativo e teve de ser melhorada, o que abriu as portas a um período conturbado na vida de Ratzinger, que teve de preparar a sua primeira aula pública avaliada em poucos dias, enquanto dava as suas aulas normais no seminário. Em 21 de fevereiro de 1957, deu a primeira aula pública, que ficaria marcada por uma acesa discussão entre os professores que compunham o júri e que se revelou traumática para Ratzinger — chegou mesmo a acreditar que iria chumbar na habilitação para a docência e ficar sem condições para sustentar os pais, que entretanto se haviam mudado para Frisinga com ele.

Aquela “humilhação”, como lhe chamaria mais tarde Ratzinger, revelou-se porém fundamental para reduzir as expectativas de um jovem brilhante a quem a genialidade podia ter começado a subir à cabeça. “Depois do doutoramento, que foi considerado brilhante, o reitor disse logo que esperava ter-me como colega”, lembrava em Conversas Finais. “Foi tudo muito rápido e estonteante. Tudo me corria de feição, de maneira que era uma das pessoas das quais se esperava que viesse a ser alguém”, acrescentava. “Creio que atingir facilmente objetivo atrás de objetivo e ser louvado em tudo é perigoso para um jovem. É bom que ele aprenda a conhecer as suas limitações; passe pela experiência de ser criticado.”

Um ano depois de obter a habilitação para a docência, o padre e professor Joseph Ratzinger publicou a sua primeira grande provocação teológica: um artigo chamado “Os Novos Pagãos e a Igreja”, editado em 1958 na revista Hochland. Ratzinger inspirou-se na sua curta, mas intensa, experiência como vigário paroquial e também no seu tempo como professor para escrever um longo ensaio sobre o grande problema que, no seu entender, assolava — e, pode argumentar-se, assola ainda hoje — a Igreja Católica: o progressivo afastamento do mundo real em relação à Igreja e à fé, mantendo as relações institucionais sem que mantivessem uma verdadeira vivência da fé cristã. A participação dos fiéis nas missas e nos sacramentos mantinha-se por tradição, mas com cada vez menos densidade espiritual que sustentasse a própria razão de ser da Igreja Católica.

As reações ao artigo radical foram duríssimas. Na altura, estava em cima da mesa um convite para lecionar em Bona — e a publicação do artigo levou a grande sobressalto e questionamento sobre se seria oportuno manter o convite a Ratzinger ou não. O jovem teólogo chegou mesmo a ser acusado de heresia. Mas os ânimos acabaram por serenar e Ratzinger mudou-se para Bona, para assumir uma cátedra de teologia.

Na Universidade de Bona, reconstruída depois da guerra, Ratzinger ensinou teologia e filosofia e aproveitou o ambiente de renascimento provocado pelo ambiente pós-guerra para também contribuir para uma reinvenção da fé. “A Universidade de Bona, tendo sido destruída durante a guerra, tinha acabado de ser reconstruída, e a biblioteca ainda estava incompleta. Tudo isso fazia com que o começo fosse completamente evidente. Recomeçar após a guerra e, no novo quadro, procurar novamente a fé”, contava Ratzinger em Conversas Finais. Naquele contexto, e ainda com 32 anos, Ratzinger, um homem que se habituou a escrever sempre a lápis para precaver a possibilidade de errar (hábito que se manteve até aos documentos papais), assumia-se como uma voz incontornável da teologia moderna alemã. Era já uma estrela em ascensão no panorama teológico da Europa em reconstrução.

Concílio Vaticano II. Da promessa de reforma à desilusão

Joseph Ratzinger era professor em Bona quando, no dia de Natal de 1961, o Papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II. No texto de convocatória do concílio, o Papa assinalou que “a Igreja [assistia] à grave crise da sociedade”, que se caracterizava “por um grande progresso material a que não [correspondia] um igual progresso no campo moral”. João XXIII liderava uma Igreja Católica que se confrontava com um reforço do “ateísmo militante” e concluía, inevitavelmente, que a Igreja teria de se reunir em concílio para debater “a possibilidade de contribuir mais eficazmente para a solução dos problemas da idade moderna”. O concílio teria lugar entre 1962 e 1965, terminando já sob a liderança de Paulo VI, e resultaria na profunda reforma que transformou a Igreja naquilo que é hoje.

Pope John XXIII Being Carried in Chair
O Concílio Vaticano II foi formalmente convocado em dezembro de 1961 pelo Papa João XXIII
Bettmann Archive
Opening Ecumenical Council at St. Peter's Basilica
O concílio reuniu no Vaticano milhares de bispos e cardeais de todo o mundo para discutir a reforma da Igreja Católica
Bettmann Archive
Pope Paul VI at the second session of the Vatican ecumenical council II. 1963
O objetivo do concílio foi o de responder ao pedido de João XXIII para que se debatesse o modo como a Igreja podia responder às exigências do mundo moderno
Touring Club Italiano/Marka/Univ
ARCHIVE:VATICAN COUNCIL II
Joseph Ratzinger participou no concílio como perito em teologia
Gamma-Rapho via Getty Images

Três dias depois de renunciar ao cargo de Papa, em 14 de fevereiro de 2013, Bento XVI recordou na primeira pessoa a sua experiência pessoal no Concílio Vaticano II, durante um encontro com o clero de Roma no Vaticano. “Em 1959, tinha sido nomeado professor da Universidade de Bona, onde fazem os seus estudos os alunos, os seminaristas da diocese de Colónia e de outras dioceses vizinhas. Foi assim que entrei em contacto com o cardeal de Colónia: o cardeal [Josef] Frings”, recordou Ratzinger. Frings era uma figura de grande relevo no panorama alemão; detentor de um dos cargos eclesiásticos mais reconhecidos na Alemanha, assumira-se como um dos principais rostos de oposição ao nazismo. Em 1961, a poucas semanas da convocatória oficial do concílio, numa fase de preparação da reunião magna, Frings — e, sobretudo, o jovem Ratzinger — tiveram um papel decisivo na definição das linhas orientadoras do concílio.

“O cardeal [Giuseppe] Siri, de Génova — no ano 1961, acho eu — organizou uma série de conferências sobre o Concílio feitas por vários cardeais europeus, e convidara também o arcebispo de Colónia para realizar uma das conferências, que tinha por título ‘O Concílio e o mundo do pensamento moderno’”, explicou Bento XVI naquele encontro em Roma. Ratzinger e Frings conheciam-se desde que o cardeal assistira a uma conferência do jovem professor sobre a teologia do concílio e, no seguimento do discurso, trocaram ideias sobre a reunião que se aproximava. Desde então, os dois corresponderam-se com frequência — e, mais tarde, Frings convidou Ratzinger para redigir um esboço do discurso que deveria apresentar em Génova em 19 de novembro de 1961. “Ele gostou do projeto e propôs ao povo de Génova o texto como eu o escrevera”, contou Ratzinger em 2013.

O discurso, hoje disponível na internet, foi poderoso — e chegou rapidamente a Roma. “Pouco tempo depois, o Papa João [XXIII] convida-o para ir ter com ele, e o cardeal estava cheio de medo por ter talvez dito algo de não correto, algo falso, e consequentemente ser chamado para uma admoestação, talvez mesmo para lhe tirar o cardinalato”, lembrava Ratzinger. Josef Frings, temendo que o discurso representasse o fim da sua carreira eclesiástica, protagonizou um episódio caricato. Quando o secretário o foi buscar para o levar à audiência, Frings pediu-lhe que lhe pusesse a capa vermelha sobre os ombros e disse-lhe: “Talvez seja a última vez que uso estas vestes.” Mas o cardeal estava radicalmente errado. Na verdade, João XXIII chamara-o para lhe agradecer pelo discurso, que tinha lido na noite anterior e considerava ser a súmula perfeita daquilo que a Igreja precisava de fazer no Concílio Vaticano II — e que o próprio Papa não conseguira formular de modo tão perfeito. Frings explicou então ao Papa que não fora ele a redigir o discurso, mas sim um jovem professor de teologia de Bona. O texto elaborado tornou-se num dos documentos centrais da preparação do Concílio Vaticano II, que foi alterada nas últimas semanas devido a este contributo singular — e que só mais tarde foi publicamente atribuído a Ratzinger.

Com modéstia, Joseph Ratzinger relativizou sempre o seu contributo determinante para o concílio que reformou a Igreja Católica. “Nunca devemos, como dizia frequentemente Karl Rahner, sobrestimar o papel de um indivíduo. O Concílio era um grande corpo e, embora os indivíduos certamente tenham gerado impulsos decisivos, a razão pela qual eles o podiam fazer era o facto de outros desejarem o mesmo. Talvez outros não o conseguissem formular, mas a vontade estava lá. As pessoas estavam em busca de algo”, disse Ratzinger em O Sal da Terra. “Os padres conciliares não se reuniram simplesmente com a intenção de adotarem textos pré-feitos e, por assim dizer, carimbarem os textos mas, em sintonia com os seus cargos, buscarem as palavras que tinham de ser ditas naquele momento.”

Depois daquele discurso, o cardeal Frings, que seria um dos padres conciliares, convidou Joseph Ratzinger para o acompanhar ao concílio na qualidade de perito em teologia, para o assessorar pessoalmente no decurso dos trabalhos. Mais tarde, no arranque da cimeira, Ratzinger foi nomeado perito oficial do Concílio. “Partimos para o Concílio não apenas com alegria, mas também com entusiasmo. Havia uma expectativa incrível. Esperávamos que tudo se renovasse, que viesse verdadeiramente um novo Pentecostes, uma nova era da Igreja, pois esta apresentava-se ainda bastante robusta naquele tempo, a prática dominical ainda boa, as vocações ao sacerdócio e à vida religiosa, apesar de já um pouco reduzidas no número, ainda eram suficientes. Contudo, tinha-se a sensação de que a Igreja não caminhava, ia diminuindo, parecia mais uma realidade do passado que a portadora do futuro”, comentou Bento XVI em 2013. “E, naquele momento, esperávamos que esta situação se alterasse.”

No concílio, Ratzinger cruzou-se com grandes figuras da teologia contemporânea, incluindo Henri de Lubac, Karl Rahner ou Yves Congar, que, ao lado do jovem alemão, representavam a corrente progressista que ficaria conhecida como nouvelle theologie. Ao longo das sessões do concílio, em Roma, destacou-se como uma eminente voz do progressismo que procurava desprender-se das amarras de uma religiosidade rígida herdada do século XIX, que já não se adequava ao mundo contemporâneo. “Naquele tempo, ser progressista não significava ainda abandonar a fé, mas sim aprender a compreendê-la melhor e a vivê-la mais corretamente a partir das origens”, esclarecia em 2016 em Conversas Finais, com uma linguagem que parece evocar o discurso reformista de Francisco, apostado em regressar à fé das primeiras comunidades cristãs como modelo do que deve ser a Igreja hoje — por oposição à instituição fechada em que se transformou ao longo de vários séculos. Por exemplo, defendendo alterações na liturgia, adaptando-a ao mundo moderno, promovendo o diálogo interreligioso ou reforçando o colégio dos bispos do mundo em redor do Papa como organismo de decisão central da Igreja, em vez de uma espécie de monarquia absoluta comandada a partir de Roma.

Os escritos que Ratzinger produziu durante as sessões do concílio, hoje amplamente editados em livros e compilações, permanecem como documentos centrais para decifrar aquele período vital da história contemporânea da Igreja. Todavia, embora o concílio tenha sido uma fase definidora na carreira de Ratzinger, reforçando-o como teólogo e académico (pelo meio, mudou-se de Bona para Münster como professor e ainda aceitou lecionar em Tubinga), aqueles anos foram também de dor e desilusão para o padre alemão. Primeiro, porque foi naquela fase que viu morrer o pai e a mãe. Depois, porque o fim do concílio representou para o futuro Papa uma grande desilusão face à reforma fundamental com que Ratzinger sonhava para a Igreja.

No discurso que proferiu em 2013 em Roma depois da resignação, Bento XVI falou sobre essa desilusão, que até ao final da vida atribuiu ao facto de aquele ter sido o primeiro grande concílio da Igreja Católica ocorrido na era dos meios de comunicação de massas. “Havia o Concílio dos Padres — o verdadeiro concílio —, mas havia também o concílio dos meios de comunicação, que era quase um concílio à parte. E o mundo captou o concílio através deles, através dos mass-media”, descreveu o Papa em 2013, acrescentando que, enquanto dentro do Vaticano o debate conciliar “se realizava no âmbito da fé” e procurava “entender os sinais de Deus naquele momento”, o concílio mediático se realizou “dentro das categorias dos meios de comunicação atuais, isto é, fora da fé, com uma hermenêutica diferente”, segundo a qual “o concílio era uma luta política, uma luta de poder entre diversas correntes da Igreja”.

Josep Ratzinger

O padre e professor Joseph Ratzinger teve uma participação decisiva no Concílio Vaticano II como assistente do arcebispo de Colónia

ullstein bild via Getty Images

“Estas traduções, banalizações da ideia do concílio, foram virulentas na prática da aplicação da reforma litúrgica; nasceram numa visão do concílio fora da sua chave própria de interpretação, da fé”, lamentou Bento XVI. “Sabemos como este concílio dos meios de comunicação era acessível a todos. Por isso, acabou por ser o predominante, o mais eficiente, tendo criado tantas calamidades, tantos problemas, realmente tanta miséria: seminários fechados, conventos fechados, liturgia banalizada, … enquanto o verdadeiro concílio teve dificuldade em concretizar-se, em ser levado à realidade.”

Três anos depois daquele discurso, no livro Conversas Finais, Bento XVI olhou para a sua própria participação no concílio à luz da desilusão. “É claro que nos questionamos sobre se agimos bem ao fazê-lo, sobretudo quando tudo descarrilou como descarrilou… essa foi uma pergunta que nos colocámos. O cardeal Frings sentiu mais tarde imensos remorsos. Eu, porém, tive sempre a consciência de que aquilo que factualmente dissemos e impusemos estava certo e tinha de acontecer”, disse o Papa emérito. “Fizemos o que estava certo, ainda que de facto não tenhamos avaliado corretamente as consequências políticas e os efeitos reais. Pensámos demasiado em termos teológicos e não refletimos sobre o impacto externo que as coisas poderiam ter.”

No fim do concílio, Joseph Ratzinger continuou a dar aulas na Universidade de Tubinga, no sul da Alemanha. Foi a partir das preleções das aulas que deu ali que surgiu, em 1968, o livro Introdução ao Cristianismo, a sua primeira grande obra teológica, que ainda hoje é um dos livros fundamentais da fé cristã, continuando a ser vendido em grande escala e em diversas, línguas, incluindo em português. O livro foi editado num ano de grande turbulência social, marcado pela revolução sexual e também pela publicação da encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI — um duríssimo texto em que o Papa se opôs diretamente à contraceção e ao aborto e que marcou definitivamente o posicionamento da Igreja Católica num debate efervescente na década de 1960. Foi também em Tubinga que Ratzinger atravessou o período das revoltas estudantis e que se incompatibilizou com o teólogo suíço Hans Küng, que viria mais tarde a perder a autorização para ensinar teologia devido ao seu afastamento da doutrina católica.

Em 1969, com 42 anos, quando já era decididamente um dos nomes maiores da teologia católica alemã, mudou-se para Regensburg, na sua Baviera, onde construiu uma casa e se instalou achando que seria ali o seu último destino académico. Contudo, foi ali que, em 1977, ao fim de mais de duas décadas de ensino da teologia nas melhores universidades alemãs, Joseph Ratzinger foi arrancado do lugar e do trabalho com que sonhara. A 25 de março de 1977, o Papa Paulo VI nomeou formalmente Ratzinger para o cargo de arcebispo de Munique. O padre e teólogo ficou aterrorizado: não só lhe era tirado o sonho de vida (ser professor universitário) como se considerava perfeitamente inapto para as tarefas de administração e coordenação que eram exigidas a um bispo. Aceitou depois de uma complexa luta interior e foi ordenado bispo em 28 de maio de 1977. Com a sé arquiepiscopal de Munique veio também a elevação a cardeal, formalizada no verão do mesmo ano.

Joseph Ratzinger wird Erzbischof
A 28 de maio de 1977, o professor Joseph Ratzinger foi ordenado bispo e elevado ao cargo de arcebispo de Munique
picture alliance via Getty Image
Joseph Ratzinger zum Erzbischof geweiht
A subida ao episcopado representou para Ratzinger o abandono da vida académica, uma realidade que lhe custou particularmente
picture alliance via Getty Image
Joseph Kardinal Ratzinger
No mês seguinte, em Roma, recebeu também a dignidade de cardeal. Nesta imagem, Ratzinger é saudado pelo povo de Munique à chegada à cidade, em 1 de julho de 1977, depois da elevação a cardeal
picture alliance via Getty Image

A elevação a cardeal permitiu-lhe participar, logo no ano seguinte, nos dois conclaves que elegeram primeiro João Paulo I e, logo de seguida, na sequência da morte inesperada do Papa Luciani, João Paulo II. No primeiro conclave, o cardeal Ratzinger travou conhecimento com Karol Wojtyla, o cardeal e filósofo polaco que protagonizaria o pontificado mais longo da história contemporânea. Nessa primeira ocasião, Ratzinger ficou muito bem impressionado com aquele de quem viria a ser o braço direito durante duas décadas em Roma.

A passagem de Ratzinger por Munique seria, assim, relativamente curta. Desde o início do pontificado que João Paulo II estava apostado em levá-lo para Roma.

No entanto, foi durante a curta passagem de Ratzinger por Munique que o cardeal protagonizou um episódio que o perseguiu até praticamente ao final da sua vida: o caso do padre Peter Hullermann, que o Observador contou detalhadamente num artigo publicado em janeiro de 2022. O caso resume-se em poucas linhas: em 1980, a diocese de Essen, no noroeste da Alemanha, viu-se a braços com o escândalo do padre Hullermann, que havia forçado um menino de 11 anos a fazer-lhe sexo oral. Em vez de comunicar o caso à polícia, como mandam as normas atuais, o bispo de Essen optou pela via mais comum à época e, procurando abafar o caso, decidiu enviar o padre para Munique, onde deveria ser submetido a uma terapia psicológica. Como mandam as regras da Igreja, o bispo da diocese de Munique — neste caso, Ratzinger — teria de ser informado da chegada de um padre ao seu território e ter uma palavra a dizer sobre o seu destino. Ratzinger esteve presente numa reunião, com data de 15 de janeiro de 1980, em que o tema foi discutido. E, posteriormente, Hullermann foi colocado ao serviço de uma paróquia, onde manteve o contacto com crianças.

O caso foi inicialmente noticiado pela imprensa alemã em 2010, colocando grande pressão sobre o então Papa Bento XVI, que foi questionado sobre o que sabia e o que não sabia em relação ao caso. Nessa altura, um padre idoso que nos anos 80 tinha ocupado o cargo de vigário-geral de Munique assumiu total responsabilidade pela nomeação. Mais recentemente, em 2022, na sequência da investigação independente à história dos abusos na Alemanha, o caso foi ressuscitado e a comissão encarregada da investigação quis ouvir Bento XVI. Num testemunho assinado pessoalmente, Bento XVI afirmou que nunca tinha estado presente na reunião. Contudo, pouco tempo depois, Ratzinger viu-se forçado a admitir que tinha mentido na declaração inicial: afinal, tinha estado na reunião, mas nela não tinha sido discutida a nomeação do padre para uma paróquia, apenas a atribuição de alojamento ao sacerdote durante a terapia. O recuo de Bento XVI foi justificado com um erro na edição do texto pelos seus assistentes, mas manchou indelevelmente a sua credibilidade e a da Igreja numa altura em que o tema dos abusos de menores está no topo da atualidade católica.

No geral, porém, a passagem de Ratzinger por Munique foi avaliada muito positivamente. O arcebispo ganhou grande influência na região, tornando-se uma das figuras mais escutadas da Baviera e, como lembrava o jornalista e biógrafo do Papa emérito Peter Seewald, as suas homilias em Munique foram muito procuradas durante aqueles quatro anos. Ratzinger torna-se assim um “dos mais eloquentes analistas da sociedade, cujo contributo para as questões éticas contemporâneas é evidente”.

Pope John Paul II. visits Bavaria: Arrival with Archbishop Ratzinger in Munich

Em novembro de 1980, o Papa João Paulo II visitou a Alemanha e foi recebido pelo cardeal Ratzinger em Munique

picture alliance via Getty Image

Em novembro de 1981, aconteceu aquilo que Ratzinger já via como inevitável: a mudança para Roma. O Papa João Paulo II nomeou-o para o cargo de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o organismo da Cúria Romana que sucedeu à Inquisição e ao Santo Ofício e que, nos tempos modernos, é responsável por zelar pelos preceitos e princípios da fé católica e da doutrina da Igreja. Trata-se de um dos mais importantes cargos da cúpula eclesiástica, considerado um braço direito do Papa — e Ratzinger, aquele jovem prodígio da teologia talhado pela experiência da guerra e da reconstrução da Europa, ia agora ocupá-lo. A despedida de Munique foi emocionante e grandiosa. A 1 de março de 1982, Ratzinger chegou a Roma e atraiu sobre si as luzes da ribalta. Começava ali a fase mundialmente visível da história do homem que durante mais tempo influenciou os destinos da Igreja Católica contemporânea.

O braço direito de João Paulo II

A partir da desilusão com as divisões entre progressistas e conservadores motivadas pelas interpretações do Concílio Vaticano II e, sobretudo, a partir da revolução sexual do final da década de 1960, Joseph Ratzinger deu início a uma viragem para o conservadorismo como resposta às interpelações do mundo contemporâneo e à sua incompatibilidade com a doutrina fundamental da Igreja. O cardeal, que tocava Beethoven ao piano e tinha estudado o latim e o grego desde a infância, fora um revolucionário durante a juventude e a ascensão como teólogo. Procurara resgatar a fé cristã das amarras de uma piedade rígida e de uma hierarquia estanque do século XIX, adaptando a Igreja ao mundo moderno, e deu contributos fundamentais para isso nos seus escritos e no concílio, mas rapidamente se desiludiu com o rumo que viu o mundo tomar, afastando-se da vida espiritual.

Esse confronto com o mundo moderno moldou decisivamente o pensamento de Ratzinger em relação a temas hoje incontornáveis no seio da Igreja Católica, incluindo a crise dos abusos sexuais de menores por membros do clero.

Essa relação conturbada de Ratzinger com o mundo moderno pós-revolução sexual ficou bem patente num texto publicado em 2019 pelo já Papa emérito a propósito da crise dos abusos de menores. Bento XVI escreveu um longo ensaio sobre o assunto depois de o Papa Francisco ter convocado uma cimeira global para debater a crise, agendada para fevereiro de 2019, mas o texto só foi publicado — na revista católica alemã Klerusblatt — depois da cimeira, provavelmente para evitar perturbar as deliberações da reunião. Naquele texto, Bento XVI criticava abertamente a revolução sexual dos anos 60 por um colapso moral da sociedade que abriu portas a todo o tipo de depravações, incluindo os abusos de menores. Bento XVI lembrava até situações que viveu durante o seu percurso académico na Alemanha para ilustrar aquilo a que se referia, incluindo o dia em que viu uma fila à porta de um cinema onde deveria ser mostrado um filme erótico ou a vez em que chegou a Regensburg, onde dava aulas, e viu um conjunto de cartazes publicitários com “duas pessoas completamente nuas num abraço apertado”.

Joseph Ratzinger

Como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Joseph Ratzinger subiu a um dos postos mais elevados na hierarquia da Igreja Católica

Getty Images

No entender de Bento XVI, todo aquele ambiente de liberalização da sexualidade prejudicou profundamente a sociedade e contribuiu para o colapso da teologia moral católica, que já vinha em curso desde o Concílio Vaticano II. Ratzinger argumentava ainda que “parte da fisionomia da Revolução de 1969 foi passar a considerar a pedofilia como permitida e apropriada” e, num contexto em que a homossexualidade passou a ser vista com maior naturalidade, essa realidade atingiu também os seminários, contribuindo para a crise dos abusos, defendia.

Quando chegou a Roma para ocupar o lugar popularmente conhecido como “guardião da fé”, no início da década de 1980, Ratzinger já não era o rebelde de outros tempos, mas sim um cardeal austero e conservador no que respeita à teologia e à doutrina católica. Em 2005, numa meditação no Vaticano a poucas semanas da morte de João Paulo II, não escondia que “ir contra a corrente e resistir aos ídolos da sociedade contemporânea faz parte da missão da Igreja”. Em O Sal da Terra, em 1997, o cardeal falou sobre essa ideia de que existiram “dois Ratzingers”, o jovem rebelde e o cardeal conservador. “As fases da vida mudam um homem, que não deverá tentar ter 17 anos quando tem 70 e vice-versa. Quero ser fiel àquilo que reconheço como essencial e também permanecer aberto a ver o que deve mudar. E aquilo que rodeia um homem também muda a sua posição”, afirmou.

Joseph Ratzinger foi prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé durante 23 anos, praticamente todo o pontificado de João Paulo II. Ao longo dessas mais de duas décadas, Ratzinger foi o braço direito do Papa polaco e um dos principais ideólogos do pontificado de Wojtyla. Foi como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé que ajudou a levar a Igreja Católica para o século XXI ao lado de um Papa que se tornaria num fenómeno de popularidade. Os dois — um filósofo e outro teólogo — tinham perfis muito diferentes, como admitia Ratzinger em Conversas Finais. “Ele era uma pessoa que precisava da convivência, da vida e do movimento, dos encontros. Eu, pelo contrário, sou uma pessoa que necessita mais do silêncio e assim. Mas, precisamente por sermos diferentes, completávamo-nos muito bem.”

Ao longo do período que passou como “guardião da fé”, Ratzinger foi responsável por supervisionar os principais textos teológicos sobre a fé católica produzidos a partir do Vaticano com carácter oficial — mas nunca foi ele próprio a redigi-los. Explicaria, anos mais tarde, que não queria ser acusado de impor uma teologia pessoal à Igreja Católica, motivo pelo qual optou por não ser ele a escrevê-los. Foi também durante o mandato de Ratzinger — e sob sua orientação direta — que nasceu o Catecismo da Igreja Católica, o documento central que sintetiza e pormenoriza toda a doutrina católica. O catecismo nasceu por ocasião dos vinte anos do Concílio Vaticano II, comemorados em 1985, numa altura em que bispos de todo o mundo manifestavam a necessidade de a Igreja produzir um documento que formalizasse a doutrina católica. “Na altura havia cada vez mais pessoas que se questionavam sobre se a Igreja ainda tinha uma doutrina comum. Já não se sabia em que é que a Igreja acreditava”, resumiria Ratzinger na conversa com Peter Seewald. João Paulo II encarregou então o cardeal Ratzinger de liderar a comissão que preparou o documento que ainda hoje rege a vida da Igreja.

Pope John Paul II and Cardinal Ratzinger

Joseph Ratzinger esteve ao lado de João Paulo II durante praticamente todo o pontificado

Bettmann Archive

Ao longo dos 23 anos que passou à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, Ratzinger procurou várias vezes regressar à tranquilidade académica da Alemanha. Em 1986, então com 59 anos de idade, quando terminou o primeiro mandato de cinco anos no cargo, informou o Papa de que pretendia terminar por ali a sua missão, mas o pedido não foi atendido. Cinco anos depois, em 1991, foi a saúde que o fez vacilar. Nesse ano, Ratzinger sofreu uma hemorragia cerebral que lhe trouxe dois anos de grande sofrimento físico e o levou a perder a vista no olho esquerdo. Ainda assim, João Paulo II recusou a demissão e disse-lhe que ficaria no cargo enquanto o polaco fosse Papa.

Foi durante o mandato de Joseph Ratzinger como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé que eclodiu na Igreja Católica a maior crise a assolar a instituição na história contemporânea: o drama dos abusos sexuais de menores. Em 1983, o padre norte-americano Gilbert Gauthe foi detido por suspeitas de abusos sexuais contra dezenas de crianças e jovens na sua igreja do estado do Louisiana, no sul dos EUA. Aquele foi o primeiro caso em que a Igreja era levada à justiça civil por crimes de abuso que, durante séculos, tinham sido ocultados pela hierarquia eclesiástica para proteger a reputação da Igreja. O caso, a que se sucederam muitos outros ao longo dos anos 80, 90 e 2000, primeiro nos EUA e depois em vários pontos do universo católico, obrigou a Igreja a agir — incluindo nas suas instâncias mais altas, em Roma.

Foi nesta fase que Joseph Ratzinger se assumiu como um defensor de uma política de mão firme contra os abusadores no seio da Igreja, como atestam relatos históricos sobre como o então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé interveio para chamar àquele organismo o julgamento dos casos de pedofilia e abusos sexuais. Isto porque a congregação a que Ratzinger presidia é também a instância máxima da justiça do Vaticano e aquela que tem jurisdição para julgar os delitos mais graves cometidos dentro da Igreja — e tem ainda a autoridade para alargar os prazos de prescrição desses crimes. O facto de Joseph Ratzinger ter defendido a aplicação da jurisdição da Congregação para a Doutrina da Fé sobre os casos de abuso, sobretudo em oposição ao cardeal colombiano Darío Castrillón Hoyos, então prefeito da Congregação para o Clero e um polémico defensor de uma política mais branda relativamente aos abusadores, é ainda hoje entendido como um sinal de que o futuro Papa pretendia apertar o cerco aos abusadores dentro da Igreja Católica e expurgar aquele mal da Igreja.

Joseph Ratzinger acompanhou também o Papa João Paulo II num dos momentos mais relevantes para a vida da Igreja Católica em Portugal nas últimas décadas: a revelação pública, em 2000, da terceira parte do chamado “Segredo de Fátima” — as mensagens que os pastorinhos Francisco, Jacinta e Lúcia teriam recebido diretamente de Maria nas aparições de 1917. A terceira parte do segredo tinha sido conservada durante décadas por pedido da Irmã Lúcia, tendo a sua revelação sido determinada por João Paulo II em 2000, numa altura em que parecia claro que o conteúdo da mensagem — o ataque a um “bispo vestido de branco” — se referia, de modo profético, aos atentados contra o Papa polaco na década de 1980. Foi o cardeal Ratzinger quem assinou o comentário teológico àquele texto manuscrito pela Irmã Lúcia, um documento hoje considerado fundamental para compreender o fenómeno de Fátima.

Controversial cleric: Cardinal Joseph Ratzinger head of the Vatican's Congregation for the Doctrine

Joseph Ratzinger liderou a Congregação para a Doutrina da Fé durante mais de vinte anos

Toronto Star via Getty Images

O cardeal Ratzinger esteve, depois, ao lado de João Paulo II na fase final da sua vida, escrevendo muitos dos textos, homilias e discursos que o polaco estava já impossibilitado de redigir e praticamente incapaz de proferir. A 2 de abril de 2005, João Paulo II morreu — e terminava assim o terceiro pontificado mais longo da história da Igreja (só superado pelo próprio São Pedro e pelo Papa Pio IX). Ratzinger, o seu fiel braço direito durante mais de vinte anos, tinha então 78 anos e, após várias tentativas falhadas de se reformar e voltar à Alemanha, sonhava agora com o descanso. Queria voltar ao país natal e escrever livros. Mas estava enganado quanto àquilo que o futuro lhe reservava.

A visit at the heart of the Vatican, the world's smallest state in Rome, Vatican City on April 18, 2005.

Foi o cardeal Joseph Ratzinger que presidiu ao funeral de João Paulo II, acompanhado em direto pela televisão por milhões de pessoas em todo o mundo

Gamma-Rapho via Getty Images

Ao contrário do que sucedera na década de 1970, quando Ratzinger era ainda um jovem cardeal a participar pela primeira vez num conclave, agora o alemão era um dos homens fortes de Roma. Era o decano do colégio cardinalício, o que significava que lhe cabiam as tarefas de presidir ao funeral do Papa e de preparar e liderar o conclave seguinte. Além disso, não eram poucos aqueles que viam em Ratzinger um possível sucessor a João Paulo II. Afinal, era ele o homem que mais bem conhecia o lugar e o mais bem preparado para assumir a espinhosa missão. Foi o que aconteceu a 19 de abril de 2005, ao segundo dia do conclave, quando os cardeais escolheram Ratzinger para liderar a Igreja Católica. Teve de se resignar a uma missão que ele próprio já antevia como muito provável. Nesse mesmo dia, apareceu na varanda da Praça de São Pedro já com a batina branca e o nome pontifício de Bento XVI. Esperavam-no oito anos muito difíceis.

As dificuldades e as polémicas do pontificado

Bento XVI comandou a Igreja Católica entre 2005 e 2013. Nada fazia antever que suceder a João Paulo II seria uma tarefa fácil. O Papa polaco tinha transformado decisivamente o rosto do papado com a sua proximidade aos fiéis. O mundo tinha acompanhado compadecido os anos finais de João Paulo II e havia um enorme carinho pelo polaco. Na Praça de São Pedro, nos dias que rodearam as cerimónias fúnebres de João Paulo II, ouviam-se gritos de “santo subito!” (‘santo já!’, em português). O povo católico elevara João Paulo II à categoria de santo e a Igreja viria a responder a esse apelo, canonizando Wojtyla através de um processo mais rápido que atalhou o caminho habitualmente percorrido na canonização de outras figuras históricas.

Tomar o lugar de um homem que tinha capturado de tal forma o carinho do planeta era uma missão difícil, sobretudo considerando a figura de Joseph Ratzinger: austero, conservador, pouco sorridente, com uma frieza alemã que contrastava com a proximidade do polaco, litúrgica e teologicamente conservador. Nos primeiros anos, todas estas características, associadas ao seu passado, foram motivo de duras críticas — por vezes totalmente injustas, como o caso da associação abusiva de Ratzinger ao regime nazi, usada por alguns grupos para desacreditar o novo Papa —, mas o que é certo é que Bento XVI assumiu desde o primeiro minuto as grandes diferenças em relação ao seu antecessor e não procurou nunca, da escolha do nome aos seus pronunciamentos públicos, apresentar-se como tendo o mesmo estilo que João Paulo II. A Igreja tinha agora um Papa teólogo, professor, oriundo da academia.

Cardinal Joseph Ratzinger is Named as Pope Benedict XVI - April 19, 2005

Joseph Ratzinger foi eleito Papa em 19 de abril de 2005

WireImage

Ainda assim, o seu “programa de governo” foi claramente moldado pelos anos que passou como colaborador de João Paulo II. Na mensagem que dirigiu aos cardeais eleitores depois do conclave, em que apresentou as linhas orientadoras do seu pontificado, enfatizou o diálogo ecuménico e interreligioso e a aposta na juventude, temas claramente herdados das quase três décadas de pontificado de João Paulo II, que evocou com ternura nesse primeiro discurso. No centro do seu pontificado, contudo, estaria a aplicação do verdadeiro espírito do Concílio Vaticano II — aquele para o qual tinha contribuído e com o qual se tinha desiludido no final da década de 1960, e que agora tinha a oportunidade de tentar implementar.

Aos 78 anos, contudo, Bento XVI considerava que o seu pontificado seria muito curto e que não se poderia dar ao luxo de iniciar processos de longo prazo. Tinha uma visão para o seu tempo: buscar o encontro entre o cristianismo e a sociedade moderna, que pareciam afastar-se crescentemente. Acabaria por viver muito mais do que anteviu.

Os oito duros anos de pontificado de Bento XVI foram marcados por uma sucessão de polémicas e mal-entendidos que ainda hoje moldam a imagem do Papa alemão.

Uma das maiores polémicas protagonizadas por Bento XVI ocorreu em janeiro de 2009, quando o Papa alemão decidiu levantar a excomunhão que tinha sido imposta vinte anos antes por João Paulo II a quatro bispos da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X (FSSPX), um grupo religioso paralelo à Igreja Católica que rejeita os ensinamentos do Concílio Vaticano II. A FSSPX foi criada em novembro de 1970, na sequência do concílio, pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, um duro crítico das reformas implementadas pelo Vaticano II — incluindo a aceitação do diálogo interreligioso, a revisão da liturgia ou até as relações com os judeus —, que considerava heréticas e inválidas. Lefebvre criou então um grupo separatista, que juntou vários tradicionalistas que continuaram a celebrar a missa antiga e a rejeitar os ensinamentos do concílio, entrando em rota de colisão com Roma. A gota de água deu-se em 1988, quando Marcel Lefebvre ordenou quatro bispos desrespeitando uma proibição explícita do Papa João Paulo II. O ato de rebeldia em relação à autoridade papal foi o motivo da excomunhão imposta a Lefebvre e aos quatro bispos em questão, que atirou a FSSPX oficialmente para fora da Igreja Católica.

A fraternidade manteve-se no ativo (aos dias de hoje reúne centenas de padres e seminaristas), sempre sem uma relação regular com Roma, até 2009, ano em que Bento XVI decidiu levantar a excomunhão contra os quatro bispos, esperando que esse gesto de boa fé ajudasse a um diálogo construtivo que restaurasse a unidade da Igreja. Dois anos antes, Bento XVI tinha emitido uma carta apostólica na qual voltava a admitir que fosse usado o rito antigo pelos padres que o desejassem e, no caso de uma missa com participação dos fiéis, desde que o bispo autorizasse. Na altura, essa decisão já havia sido interpretada como uma cedência do conservador Bento XVI aos tradicionalistas — visão que o Papa alemão rejeitou até ao fim dos seus dias.

Em Conversas Finais, o seu grande testamento intelectual pós-papado, Bento XVI refletiu sobre o assunto: “Sempre disse, e continuo a dizer, que era importante que aquilo que antigamente na Igreja era o mais sagrado para as pessoas não passasse de repente a ser completamente proibido. Uma sociedade que proíba o que antes considerava ser fundamental não é viável. (…) Para mim era importante que, interiormente, a Igreja e o seu próprio passado fossem um só; que aquilo que antes era sagrado não passasse agora a ser errado. O rito tem de evoluir. Foi por isso que a reforma foi anunciada. Só que a identidade não pode ser destruída. A razão de ser da Fraternidade São Pio X reside no sentimento que as pessoas têm de que a Igreja se negou a si própria. Isso não pode acontecer.”

A polémica intensificou-se grandemente em 2009 com a readmissão dos bispos lefebvrianos e Bento XVI viu-se obrigado a escrever uma carta aos bispos de todo o mundo a explicar a sua decisão. “Muitos Bispos sentiram-se perplexos perante um facto que se verificou inesperadamente e era difícil de enquadrar positivamente nas questões e nas tarefas atuais da Igreja. Embora muitos Bispos e fiéis estivessem, em linha de princípio, dispostos a considerar positivamente a decisão do Papa pela reconciliação, contra isso levantava-se a questão acerca da conveniência de semelhante gesto quando comparado com as verdadeiras urgências duma vida de fé no nosso tempo. Ao contrário, alguns grupos acusavam abertamente o Papa de querer voltar atrás, para antes do Concílio: desencadeou-se assim um avalanche de protestos, cujo azedume revelava feridas que remontavam mais além do momento”, escreveu Bento XVI, acrescentando: “Uma contrariedade que eu não podia prever foi o facto de o caso Williamson se ter sobreposto à remissão da excomunhão.”

O Papa referia-se à polémica causada pelo facto de, nos dias seguintes à decisão de levantar a excomunhão, os meios de comunicação social terem recuperado excertos de uma entrevista recente dada pelo bispo Richard Williamson, um dos quatro bispos em causa, na qual o inglês negava a perseguição aos judeus durante o nazismo e o Holocausto. As declarações tornaram-se o centro das atenções e levaram, inclusivamente, a acusações de antissemitismo e negacionismo contra o próprio Bento XVI. O Papa viu-se enredado numa história que não antecipou e lamentou que um “convite à reconciliação com um grupo eclesial implicado num processo de separação” se tenha transformado “no seu contrário”. Mais tarde, o Papa Francisco continuaria este trabalho de aproximação entre a Igreja e a FSSPX, admitindo em 2017 que os casamentos celebrados por padres daquela organização tinham validade canónica.

O caso Williamson revelou-se um grave problema para Bento XVI, tendo sido amplamente aproveitado pelos seus críticos para o desacreditar. Até ao fim dos seus dias, Ratzinger penitenciou-se por não ter sabido da entrevista de Williamson antes de tomar a decisão de levantar a excomunhão.

Contudo, novas controvérsias viriam a somar-se ao pontificado de Joseph Ratzinger. Ainda em 2009, foi publicado na Irlanda um relatório explosivo dando conta da dimensão da crise dos abusos sexuais de menores naquele país ao longo das décadas. O documento continha números assustadores e salientava que os abusos sexuais, físicos e psicológicos tinham sido uma constante ao longo de décadas nos orfanatos, escolas e reformatórios geridos pela Igreja à maneira de verdadeiros campos de trabalhos forçados, onde viveram cerca de 35 mil crianças. O relatório fez eclodir na Europa a grave crise que nos Estados Unidos já se vivia desde o final da década de 1990 com os casos de Boston e o Papa Bento XVI teve de responder à crise num contexto em que ele próprio se veria envolvido em suspeitas de não ter lidado corretamente com denúncias antigas na diocese de Munique.

Em resposta à crise irlandesa, Bento XVI redigiu em 2010, ano em que visitou Portugal, um dos documentos mais importantes do seu pontificado: uma carta aos católicos irlandeses que ainda hoje é tida como texto vital para compreender a resposta da Igreja à crise dos abusos. No documento, Bento XVI não poupou nas palavras, usando palavras duras para se dirigir aos padres abusadores: “Traístes a confiança que os jovens inocentes e os seus pais tinham em vós. Por isto deveis responder diante de Deus omnipotente, assim como diante de tribunais devidamente constituídos. Perdestes a estima do povo da Irlanda e lançastes vergonha e desonra sobre os vossos irmãos.”

Às vítimas, deixou um reconhecimento do sofrimento sentido por milhares de crianças: “Sofrestes tremendamente e por isto sinto profundo desgosto. Sei que nada pode cancelar o mal que suportastes. Foi traída a vossa confiança e violada a vossa dignidade. Muitos de vós experimentastes que, quando éreis suficientemente corajosos para falar de quanto tinha acontecido, ninguém vos ouvia”, escreveu Bento XVI. “Sei que alguns de vós têm dificuldade até de entrar numa igreja depois do que aconteceu.”

Ao escândalo Williamson e à crise dos abusos sexuais somar-se-ia, mais tarde, outra crise gravíssima na Igreja Católica: o acumular de escândalos financeiros no Instituto para as Obras da Religião (popularmente conhecido como Banco do Vaticano) e o Vatileaks. Logo em 2010, uma investigação judicial feita ao então presidente do IOR, Ettore Gotti Tedeschi, por suspeitas de lavagem de dinheiro, deu a entender que o mundo financeiro do Vaticano era demasiado opaco relativamente a dinheiro que, em tese, serve para financiar a caridade da Igreja em todo o mundo. Em 2012, o jornalista italiano Gianluigi Nuzzi trouxe a público cartas de altos funcionários do Vaticano que davam conta de indícios de corrupção no Banco do Vaticano. No mesmo ano, o mesmo jornalista publicou um livro com cartas secretas trocadas entre Bento XVI e o seu secretário que adensaram ainda mais a polémica em torno de supostos escândalos de corrupção que se passavam dentro do Vaticano.

O escândalo daria origem a um conjunto de processos judiciais, sobretudo contra o mordomo do Papa, o italiano Paolo Gabriele, que confessou ter fornecido as cartas confidenciais ao jornalista. Condenado a três anos de prisão, o mordomo viria a receber um indulto por parte de Bento XVI. Mas o caso Vatileaks levou também a que Bento XVI reconhecesse que era necessário mudar radicalmente o modo como as finanças do Vaticano eram administradas. No início de 2013, o Papa nomeou para a liderança do IOR o economista alemão Ernst von Freyberg, já com o objetivo de reformar as finanças vaticanas.

Pope Benedict XVI and Paolo Gabriele Pope's Ex-butler Gets 18 Months In Prison For Leaking Confidential Papers

O mordomo do Papa, Paolo Gabriele, foi condenado a 18 meses de prisão num caso que abalou profundamente a credibilidade de Bento XVI e do Vaticano

Mondadori Portfolio/Archivio Mar

Bento XVI chegou a 2013 evidentemente cansado. O pontificado tinha sido duro. Os escândalos somavam-se e a Igreja parecia mais descredibilizada do que alguma vez tinha sido: os abusos sexuais de menores eram tema de noticiário diariamente; o Papa era acusado de antissemitismo e de islamofobia; as notícias sobre as finanças do Vaticano mostravam um universo de corrupção nos corredores da Santa Sé, e debatia-se a existência de um alegado “lóbi gay” a comandar subrepticiamente os destinos da instituição. A Igreja encontrava-se num momento decisivo em que precisava de uma reforma profunda e Bento XVI, dava-se conta de que, aos 85 anos, não tinha a força física e intelectual necessária para guiar a Igreja nesse sentido. No verão de 2012, tomou a decisão inédita que mudaria a Igreja contemporânea.

A renúncia histórica

Em 2012, Bento XVI já não se sentia “muito bem”, segundo explicou a Peter Seewald em Conversas Finais. Em março desse ano, fez uma viagem apostólica ao México e a Cuba, que foi “realmente muito cansativa”. O médico foi perentório: Bento XVI “não poderia voltar a atravessar o Atlântico”. Havia, assim, um problema. A Jornada Mundial da Juventude seguinte estava agendada para o Rio de Janeiro em 2014 — mas o campeonato do mundo de futebol obrigara a antecipar o evento um ano, devendo realizar-se em 2013. “Sabia que, a renunciar, teria de fazê-lo a tempo de permitir que o novo Papa se pudesse preparar para o Rio. A decisão foi, portanto, amadurecendo gradualmente depois da viagem ao México e a Cuba. Caso contrário, ainda teria tentado aguentar até 2014. Mas naquelas circunstâncias sabia que já não iria conseguir.”

Bento XVI tinha testemunhado em primeira mão os penosos anos finais do pontificado de João Paulo II, que arrastou o sofrimento até aos últimos minutos da sua vida sem nunca abdicar do trono pontifício. “Não podíamos repetir a experiência indefinidamente”, considerou Bento XVI. “Após um pontificado de oito anos, não poderíamos acrescentar porventura mais oito naquele estado.”

Bento XVI já se tinha pacificado com a ideia de não ser Papa até morrer. Quatro anos antes, visitara a cidade italiana de L’Aquila, onde está sepultado o Papa Celestino V, considerado o primeiro Papa católico a renunciar ao cargo, e havia deixado no túmulo daquele pontífice do século XIII o seu pálio, veste representativa do poder papal. A visita começava a ganhar uma nova leitura à medida que Ratzinger se convencia de que tinha de renunciar. Não podia deixar que a Igreja, em turbilhão e urgentemente necessitada de reformas profundas, continuasse indefinidamente sob a liderança de um homem que se sentia sem forças.

Pope Benedict XVI Visits Italian Earthquake Site

Bento XVI depositou o seu pálio junto às relíquias do Papa Celestino V em 2009

Getty Images

No verão de 2012, tinha uma decisão tomada. Ratzinger, o teólogo rebelde e brilhante que tinha mudado a face da Igreja com os seus escritos, os seus contributos para o concílio e os seus vinte anos à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, ia voltar a revolucionar a Igreja moderna ao abandonar o cargo de Papa. O intelectual que gostava de pensar e escrever em silêncio, de tocar piano e de ir à ópera — e que detestava a faceta política do papado — tinha sofrido praticamente todas as agruras possíveis durante o seu pontificado e não se sentia em condições de continuar ao leme.

No início de 2013, chegou o momento de anunciar a decisão, guardada em total segredo durante meio ano. Redigiu o texto com duas semanas de antecedência e chamou os cardeais para um consistório agendado para a manhã do dia 11 de fevereiro. À partida, nada fazia crer que aquela reunião de cardeais fosse um grande evento mediático. Na agenda oficial, apenas um anúncio formal: a Congregação para as Causas dos Santos tinha aprovado a canonização de um conjunto de mártires italianos e latino-americanos. O consistório não atraiu a atenção mediática, à exceção de alguns poucos jornalistas especialmente atentos aos movimentos do Vaticano, que foram acompanhando a transmissão do encontro, sem grande atenção, através do Youtube do Vaticano.

Depois dos anúncios rotineiros daquele dia, Bento XVI deu a entender que tinha mais alguma coisa a dizer e dirigiu-se aos cardeais em latim. Apesar de o latim ser a língua oficial das declarações formais da Igreja Católica, a verdade é que muito poucos o conhecem suficientemente bem ao ponto de comunicarem entre si em latim — mesmo entre o colégio cardinalício. O que se seguiu foi, por isso, um episódio de estupefação total em que os cardeais presentes na sala tentavam, com grande esforço e com pouco sucesso, perceber o que Ratzinger estava a dizer. Seria mesmo uma renúncia? Ou teriam percebido mal? Quem assistia à transmissão à distância ficou igualmente atónito.

Foi preciso esperar pelas traduções divulgadas pelo Vaticano para compreender o alcance total da declaração inédita:

Caríssimos Irmãos,

convoquei-vos para este Consistório não só por causa das três canonizações, mas também para vos comunicar uma decisão de grande importância para a vida da Igreja. Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idóneas para exercer adequadamente o ministério petrino. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado. Por isso, bem consciente da gravidade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de fevereiro de 2013, às 20h00 horas, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice.

Caríssimos Irmãos, verdadeiramente de coração vos agradeço por todo o amor e a fadiga com que carregastes comigo o peso do meu ministério, e peço perdão por todos os meus defeitos. Agora confiemos a Santa Igreja à solicitude do seu Pastor Supremo, Nosso Senhor Jesus Cristo, e peçamos a Maria, sua Mãe Santíssima, que assista, com a sua bondade materna, os Padres Cardeais na eleição do novo Sumo Pontífice. Pelo que me diz respeito, nomeadamente no futuro, quero servir de todo o coração, com uma vida consagrada à oração, a Santa Igreja de Deus.

Vaticano, 10 de fevereiro de 2013.

A declaração foi notícia de primeira página a nível mundial. Não havia memória de uma renúncia papal na história contemporânea. O sofrimento de João Paulo II acompanhado em direto pelo mundo tinha marcado o tom de como termina habitualmente um pontificado. Surgiram, de imediato, todas as perguntas possíveis. E agora? Para onde iria Bento XVI? Continuaria a ser Papa? Voltava a ser cardeal? Teria um lugar no Vaticano? Quem seria o sucessor e como lidaria com a sombra do seu antecessor ainda vivo?

Na mensagem de Bento XVI, uma expressão mereceu especial destaque: “Bem consciente da gravidade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma.” Com “plena liberdade”, enfatizou Bento XVI. Apesar da referência explícita, o Papa demissionário não conseguiria afastar a especulação de que teria sido pressionado a sair pelo tal “lóbi gay”, pela crise dos abusos ou pelo Vatileaks. “Tudo isso é um perfeito disparate”, diria mais tarde a Peter Seewald. “Devo dizer que é muito mau uma pessoa, seja por que motivos for, convencer-se de que tem de criar um escândalo para limpar a Igreja. Ninguém me tentou pressionar, nem eu me teria deixado pressionar. Se tivesse havido essa tentativa, então é que eu teria ficado, porque não podemos, nem devemos, ir embora sob pressão.”

A decisão de Bento XVI mudou definitivamente o conceito de Papa para os tempos modernos, abrindo o precedente da renúncia. O Papa Francisco, seu sucessor, já admitiu várias vezes que, se considerar essa a melhor decisão, não hesitará em abdicar do trono pontifício quando sentir que não pode continuar. Os analistas confluem numa ideia: a abdicação passará a ser a norma daqui em diante. A renúncia de Bento XVI levantou até outras questões, incluindo a de se deveria ou não haver uma idade limite para o papado, a partir da qual a reforma seja obrigatória — tal como existe atualmente para os bispos (75 anos) e para os cardeais eleitores, que deixam de poder votar no conclave a partir dos 80 anos.

Bento XVI foi o primeiro Papa da história a receber o título de Papa emérito. Viveu desde 2013 na tranquilidade de um mosteiro nos jardins do Vaticano. O seu sucessor, Francisco, foi escolhido um mês depois, num conclave que decorreu num ambiente estranho em Roma, pela primeira vez não marcado pela consternação em torno da morte do antecessor. A eleição de Francisco trouxe à Igreja Católica um Papa com um perfil radicalmente diferente de Bento XVI: depois de um professor, intelectual e teólogo europeu, veio um arcebispo da América Latina com um claro perfil pastoral, que rapidamente capturou as atenções do mundo pela simplicidade dos gestos, o que contribuiu ainda mais para que Bento XVI ficasse para a história como um Papa antigo e conservador — apesar das mudanças que introduziu na Igreja justamente no sentido contrário, por exemplo, acabando com a tradição do beija-mão ao Papa.

Os dois papas deram-se sempre bem. Francisco visitou frequentemente Bento XVI no seu mosteiro e reservou-lhe um lugar especial no protocolo do Vaticano, mantendo-o ao seu lado nas celebrações mais importantes da Praça de São Pedro. Sempre que nomeava novos cardeais, levava-os em pequenos autocarros a visitar Bento XVI. Francisco é o claro continuador da obra de Bento XVI: no campo dos abusos sexuais, pegou na luta inicial de Ratzinger e deu início a uma revolução completa dos procedimentos; nas finanças, prosseguiu o trabalho de Bento XVI com a criação de uma nova secretaria para a Economia; no que toca à difusão da fé católica, Bergoglio tem-se focado especialmente nas periferias do mundo, continuando um trabalho de análise e ação no mundo moderno começado por Bento XVI. Todavia, as diferenças entre os dois papas levaram a que Ratzinger fosse frequentemente procurado pelos tradicionalistas que se opõem a Francisco — o que causou um desconforto tal que o Vaticano editou em 2019 um livro escrito a quatro mãos pelos dois papas para mostrar como os dois estão em sintonia em relação à crise dos abusos.

O Papa alemão calculou mal o tempo que lhe restava quando abdicou. Se, quando foi eleito, em 2005, considerava não ter tempo suficiente para implementar um programa de longo prazo, hoje é certo que, se tivesse permanecido no trono petrino até ao fim da vida, teria tido um dos pontificados mais longos da história da Igreja. Contudo, os anos finais foram passados em grande sofrimento. Nos últimos anos, contam aqueles que o visitaram, Bento XVI estava já fisicamente incapaz, ainda que intelectualmente lúcido. Suficientemente lúcido para perceber que o caminho até à morte estava a demorar demasiado.

Em junho de 2022, numa cerimónia no Vaticano destinada a evocar os 95 anos de vida de Bento XVI, o seu secretário privado de longa data, o arcebispo Georg Gänswein, explicava como Ratzinger se encontrava já num estado bastante frágil. “Nunca acreditei que a última parte do caminho entre o mosteiro Mater Ecclesiae e as portas do céu de São Pedro seria tão longa”, disse Gänswein entre lágrimas. “O Papa emérito tornou-se num homem muito idoso, fisicamente frágil, mas cuja mente e olhar, graças a Deus, continuam despertos e brilhantes. Mesmo que a sua voz se esteja a tornar cada vez mais fraca e incompreensível. Os últimos anos esgotaram-lhe a força.”

Depois da renúncia, Bento XVI regressou finalmente ao seu lugar de eleição: uma secretária para escrever, rodeado de livros. Durante os anos de recolhimento, escreveu vários textos importantes, mas longe daquilo que gostaria de ter escrito se tivesse regressado à vida académica ainda nos anos 80, depois de uma primeira passagem por Roma. O que gostaria de ter feito? À pergunta do amigo de longa data Peter Seewald, Bento XVI respondeu como o académico em busca da verdade que sempre foi: “Teria gostado, naturalmente, de trabalhar mais em termos científicos. ‘Revelação’, ‘Escrituras’, ‘tradição’ e ‘o que é a teologia enquanto ciência’ eram os temas que gostaria de ter trabalhado cientificamente melhor, mas não consegui.”

Pope Benedict XVI on summer holiday in the Italian Alps poses in Alpeggio Pileo near his residence in Les Combes in Italy on July 14th, 2005.

Gamma-Rapho via Getty Images

 
Assine o Observador a partir de 0,18€/ dia

Não é só para chegar ao fim deste artigo:

  • Leitura sem limites, em qualquer dispositivo
  • Menos publicidade
  • Desconto na Academia Observador
  • Desconto na revista best-of
  • Newsletter exclusiva
  • Conversas com jornalistas exclusivas
  • Oferta de artigos
  • Participação nos comentários

Apoie agora o jornalismo independente

Ver planos

Oferta limitada

Apoio ao cliente | Já é assinante? Faça logout e inicie sessão na conta com a qual tem uma assinatura

Há 4 anos recusámos 90.568€ em apoio do Estado.
Em 2024, ano em que celebramos 10 anos de Observador, continuamos a preferir o seu apoio.
Em novas assinaturas e donativos desde 16 de maio
Apoiar

19 MAIO 2024 - SEDE OBSERVADOR

Atos de vandalismo não nos calarão.

Apoie o jornalismo que há 10 anos se pauta pela liberdade de expressão e o nunca vergar por qualquer tipo de intimidação.

Assine 1 ano / 29,90€ Apoiar

MELHOR PREÇO DO ANO

Ao doar poderá ter acesso a uma lista exclusiva de benefícios

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

Ofereça artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.

Há 4 anos recusámos 90.568€ em apoio do Estado.
Em 2024, ano em que celebramos 10 anos de Observador, continuamos a preferir o seu apoio.
Em novas assinaturas e donativos desde 16 de maio
Apoiar

19 MAIO 2024 - SEDE OBSERVADOR

Atos de vandalismo não nos calarão.

Apoie o jornalismo que há 10 anos se pauta pela liberdade de expressão e o nunca vergar por qualquer tipo de intimidação.

Assine 1 ano / 29,90€

MELHOR PREÇO DO ANO