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"Ratinho-lanoso Colossal", ratinho com pelo de mamute
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▲"Ratinho-lanoso Colossal", ratinho com pelo de mamute

Colossal

▲"Ratinho-lanoso Colossal", ratinho com pelo de mamute

Colossal

Genes de mamutes-lanosos em ratos? Cientistas fazem avanços na "de-extinção" de espécie ancestral: mas, valerá a pena?

Do pelo cinzento e raso ao dourado e longo. Através do genoma do já extinto mamute-lanoso, criou-se o "ratinho-lanoso". Apesar do entusiasmo dos responsáveis, especialistas questionam a sua utilidade.

O que em tempos eram características que garantiam a sobrevivência de certas espécies em condições de temperaturas extremas, agora podem ser mimetizadas em laboratório e replicadas em animais que não têm essa necessidade. Há 4.000 anos os mamutes-lanosos tinham uma densa camada de pelo para os proteger do frio do ártico, agora ratinhos comuns foram munidos com a capacidade de sobreviver aos graus negativos e ventos fortes da região. Mas são apenas uma mera experiência. Mais uma de um grande objetivo perseguido há já alguns anos: eles são os novos esforços da “de-extinção”.

Como “primeira e única” empresa do mundo dedicada unicamente à “de-extinção”, a Colossal — em atividade desde 2021 — acredita estar “mais perto do que ninguém de restaurar o passado, preservar o presente e salvaguardar o futuro”. Comprometeram-se a “reintroduzir” os mamutes, os dodôs e os lobos-da-Tasmânia de volta aos seus ecossistemas, apesar destes animais estarem extintos há centenas ou milhares de anos. E é através da engenharia genética e da “adaptação” de espécies com “características semelhantes” que pretendem concretizar os seus objetivos ambiciosos.

Para começar, a rede de laboratórios à escala global define o conceito de “de-extinção” como o “processo de criação de um organismo que se assemelhe e seja geneticamente semelhante a uma espécie extinta“. Desta forma, o seu objetivo é “ressuscitar a linhagem perdida de genes fundamentais desta espécie, criando resistências naturais e melhorando a adaptabilidade”, abrindo portas à “prosperidade no ambiente atual de alterações climáticas, de recursos cada vez mais escassos, doenças e interferência humana”.

O projeto de “de-extinção” do mamute, no entanto, deu os primeiros passos na direção certa esta semana, quando um grupo dos seus cientistas conseguiu replicar algumas das características físicas dos mamutes em ratinhos de laboratório. Através de um conjunto de genes dos elefantes asiáticos, em muitas formas semelhantes aos dos mamutes-lanosos, conseguiram extrair informação sobre a fisionomia do animal extinto. Por questões éticas e de preservação dos elefantes que existem também eles sob ameaça de extinção, esta fase inicial do projeto teve como alvo ratinhos.

Estes, ao contrário dos mamíferos de quatro toneladas e quase três metros de altura, têm um período de gestação extremamente reduzido — 20 dias — uma grande vantagem comparativamente aos 18 a 22 meses desta espécie de elefante. Assim, adaptando uma série de genes e incorporando-os nos alvos do teste, foram criados os “ratinhos-lanosos Colossal”, com a tal densa camada de pelo dourado, desenhada para os proteger do frio do ártico.

Mas vários especialistas no ramo da conservação de ecossistemas e de espécies em vias de extinção advertem contra o conceito de “de-extinção” não vendo qualquer vantagem na sua prática, e acreditando que “pode trazer mais mal do que bem em termos de mudanças de perceção do público“. Não se trata de “trazer espécies extintas à vida”, uma vez que a “extinção é mesmo para sempre” e, por isso, este tema de pesquisa é bastante controverso na comunidade conservacionista, levantando grandes debates de ética.

Engenharia genética, os pêlos do ratinho e a adaptação ao frio do ártico

“Ao criar múltiplas caraterísticas de tolerância ao frio a partir de percursos evolutivos gigantescos numa espécie modelo viva, provámos a nossa capacidade de recriar combinações genéticas complexas que a natureza demorou milhões de anos a criar”, afirmou o diretor executivo e um dos fundadores da Colossal, Ben Lamm, num comunicado enviado à imprensa. Depois desta afirmação surge a questão: como é que isto é possível? Como é possível fazer num curto espaço de tempo aquilo que “demorou milhões de anos a criar”?

▲ Comparação entre grupo controlo (direita) e grupo experimental (esquerda) no processo de edição genética dos ratinhos

Colossal

Na verdade, de acordo com os resultados do estudo, não é assim tão linear, ao contrário do que indica Lamm. Sim, de facto a componente física da experiência foi um grande sucesso, conseguiram estimular o crescimento de folículos capilares para formar a tal camada densa de pelo, que tem a mesma cor e propósito verificado naquela espécie de mamutes. Contudo, uma outra parte do processo visava a alteração do metabolismo dos ratinhos, de modo a garantir que estes ficassem efetivamente preparados para lidar com as condições extremas do círculo ártico. E este último objetivo não foi conseguido.

Para tudo isto se verificar, foi necessário analisar o genoma (conjunto de toda a informação genética presente no indivíduo) de 121 mamutes e elefantes, de modo a identificar quais os genes responsáveis pelo crescimento capilar e outros traços de adaptação ao frio. Assim, focaram-se numa lista de 10 genes, entre eles os responsáveis pela cor do pelo, pela textura, pelo comprimento e ainda o armazenamento de massa, todos compatíveis com os sistemas dos ratinhos. Deste modo seguiram-se combinações de diferentes variações da tecnologia de edição de genes CRISPR/Cas9.

É através deste conjunto de técnicas que é possível “corrigir” erros presentes num genoma, aumentando e diminuindo a expressão de determinados genes, que se traduzem em diferentes características fisiológicas. No caso dos ratinhos, a diferença foi evidente. Num dos lados, no grupo controlo, ficaram os ratinhos que não sofreram qualquer alteração ao seu genoma e permanecem com uma cor cinzenta e pelo extremamente curto. No outro, o grupo experimental, composto por vários ratinhos com diferentes graus de expressão dos genes desejados. Foi neste segundo elenco que se verificou claramente a discrepância das características físicas comparativamente à “versão original”, e algumas semelhanças com a espécie extinta há cerca de 4.000 anos.

O pelo denso, lanoso e ondulado, juntamente com os bigodes enrolados presentes nos ratinhos que sofreram a edição do seu genoma permitiu aos cientistas concluírem que este modelo “fornece os recursos necessários para pesquisas adicionais sobre as vias de desenvolvimento do pelo relevantes para a ‘de-extinção’ do mamute-lanoso”. Reconhecem que existe um vasto conjunto de características fisiológicas que diferem entre as duas espécies, mas reforçam que o modelo murino permite ter acesso a uma “visão valiosa das consequências funcionais das adaptações específicas dos mamutes”, que ajudarão a “definir prioridades para as modificações genéticas suscetíveis de conferir as características desejadas nos elefantes”. Mas faltará muito para lá chegar.

Segundo a Colossal, a reintrodução dos mamutes-lanosos no seu ecossistema original poderá contribuir para a "inversão do rápido aquecimento do clima e, mais importante ainda, proteger o permafrost do ártico — uma das maiores reservas de carbono no mundo".

Resultado extremamente positivo para uns, indiferente para outros

Ainda não é um híbrido mamute-elefante como desejado, mas têm o “primeiro animal vivo concebido para expressar múltiplas características de adaptação ao frio utilizando genes do mamute” e, também, um “modelo vivo para estudar estas adaptações em mamíferos”. Esta é ainda a primeira paragem numa longa viagem até chegarem ao objetivo final, mas admitem que este ratinho modificado “demonstra progressos notáveis na engenharia precisa do genoma” e, a partir de agora, poderão “conceber e construir adaptações genéticas complexas, com profundas implicações para o futuro da engenharia e da ‘de-extinção’ de múltiplos genes”.

Porém, “existe um intervalo evolutivo muito grande entre o rato e o elefante“, de acordo com a especialista em biologia evolutiva Bárbara Parreira e, desta forma, acredita que estes resultados podem nem ser indicativos de uma aplicabilidade relevante. “O argumento é que [assim] podem mais facilmente modificar genes em elefantes para obterem o mesmo resultado”, explica ao Observador, adiantando que ainda estão muito longe de atingir este patamar e, para além das diferenças entre os dois animais, é “impossível distinguir os efeitos destas mutações específicas”, uma vez que “os resultados obtidos não são lineares”.

“Ainda estão longe de chegar a um mamute ou a um ‘rato-mamute’“, concorda o especialista em engenharia genética Stephan Riesenberg, em declarações à revista Nature. “É só um ratinho com genes especiais”, remata, admitindo não reconhecer avanços significativos quer na sua área de especialização, quer no próprio caminho ditado pela Colossal até chegar a um “mamute ressuscitado”.

Para Robin Lovell-Badge, diretora de laboratório no instituto Francis Crick, em Londres, o maior problema é não existirem evidências relativamente à tolerância dos ratinhos ao frio, apesar de terem sido induzidos esses traços dos mamutes, dizendo que era esse o objetivo da experiência, que não conseguiram verificar. “Atualmente, temos alguns ratinhos peludos fofinhos, mas sem qualquer conhecimento da sua fisiologia ou comportamento”, esclarece à CNN Internacional, indicando que os resultados da investigação não lhes permite concluir se, eventualmente, “seriam capazes de dar a um elefante características úteis semelhantes às dos mamutes”.

“De-extinção”. Conceito revolucionário ou enganador?

Não se trata necessariamente de “ressuscitar” um animal que já não existe, uma vez que isso é impossível, mas de acordo com a própria definição da empresa, é possível conceber um organismo que se assemelhe geneticamente a uma espécie extinta, a partir de um outro que tenha traços em comum com o animal desejado. Neste caso, a espécie mais próxima do mamute-lanoso é o elefante asiático, apesar de continuarem a apresentar várias diferenças entre si. Independentemente, acreditam que, num futuro próximo, será possível reinserir dezenas de espécie s ancestrais nos seus habitats originais, mesmo que muitos já não existam, em muitos casos, tal como existiam.

Por isso, para além de tentarem replicar ao máximo o genoma destes animais, também pretendem “melhorar” algumas das suas características, criando uma maior adaptabilidade a condições climatéricas adversas face as alterações climáticas, a escassez de recursos naturais, doenças e ainda interferência humana, uma das  principais razões pela redução de um número significativo de espécies ao longo dos últimos anos.

Segundo um artigo publicado por uma das investigadoras do projeto dos ratinhos — e responsável pelos cientistas—, Beth Shapiro, existem três mecanismos para abordar a “de-extinção”. O retrocruzamento foca-se numa reprodução seletiva e controlada, com o objetivo de “concentrar” num único indivíduo características que são predominantes numa determinada população. Com esta técnica, certas características podem ser “ressuscitadas” ao fim de algumas gerações, mas os genes sofrem mutações à medida que são passados pela linhagem, deixando de ser idênticos às da espécie extinta original.

O segundo mecanismo mencionado pela investigadora é a clonagem de células. Seguindo este método, que tem com base em células somáticas (qualquer célula de um organismo, à exceção das reprodutoras) preservadas da espécie desejada, são criadas cópias geneticamente iguais do animal que já não existe. Estas células são então fundidas com óvulos de uma espécie relativamente próxima, acabando por provocar a formação de um embrião, que é carregado por um “outro hospedeiro”. No entanto, a especialista aponta que esta técnica é a menos provável de ser “exequível”, uma vez que estas células, independentemente do método de preservação, acabam por se degradar no momento da morte do animal.

Por fim, e o método empregado pelos cientistas da Colossal, a engenharia genética. Trata-se da edição de sequências de genes nas células de espécies vivas, de modo que essas sequências se aproximem às de uma espécie extinta. Apesar de serem três técnicas completamente diferentes, o resultado final que se pode atingir acaba por ser afunilado para um conjunto muito restrito de opções. No fundo, nunca se vai criar uma cópia exata de um outro animal, ou um clone idêntico do original. O que se gera é um “proxy“, como descreve Shapiro, capaz de “preencher o nicho ecológico da espécie extinta”.

Com milhares de espécies em vias de extinção atualmente, e evidentes "problemas gigantescos de alterações ambientais", os especialistas defendem que quando uma espécie se extingue, é permanente, é impossível voltar atrás, e que qualquer promessa de "ressuscitar" animais ou genes que já não existem pode ser "enganadora" para o público.

“Enquanto que os novos mamutes não vão ser geneticamente idênticos aos mamutes extintos, não há motivos para esperar que não pastem, reciclem e dispersem nutrientes e, deste modo, contribuem para a manutenção de um ecossistema diverso e saudável”, escreve a investigadora, reconhecendo e reforçando que não se trata então de “ressuscitar” uma espécie extinta, mas sim de uma aproximação adaptada que ocupe o papel que desempenhava há milhares de anos, de forma a reestabelecer algum equilíbrio ambiental.

Segundo a Colossal, a reintrodução dos mamutes-lanosos no seu ecossistema original poderá contribuir para a “inversão do rápido aquecimento do clima e, mais importante ainda, proteger o permafrost do ártico — uma das maiores reservas de carbono no mundo”. Um dos objetivos da empresa, para além da “de-extinção” destas espécies, é a reabilitação de antigos ecossistemas, como é o caso da estepe, a zona de prado no círculo ártico onde habitavam os mamutes e, com as passadas pesadas das manadas, retiravam as camadas de neve e permitiam a “absorção eficaz de carbono” pelo solo.

“O restabelecimento de um ecossistema repleto de prados ajudará a criar um ciclo que impede o degelo e a libertação de gases com efeito de estufa armazenados no permafrost“, explicam, defendendo a inserção destes híbridos mamute-elefante tolerantes ao frio a pastar e vaguear “confortavelmente durante os invernos”. Apresentado este motivo, concluem: “O mamute-lanoso é um guardião natural de um planeta mais saudável“.

É um investimento necessário? Vale a pena apostar na “de-extinção”?

Mas “a natureza está a desaparecer”, de acordo com a comunidade conservacionista internacional. Ao longo dos últimos 50 anos, a dimensão média das populações de animais selvagens diminuiu 73%, dizem os últimos dados do “Living Planet Report” de 2024 do World Wildlife Fund (WWF). “O colapso da biodiversidade é um dos desafios sociais mais urgentes do nosso tempo”, explica Bárbara Parreira, que considera mais relevante intensificar os esforços de prevenção, ao invés dos que estão a ser praticados pela Colossal.

Com milhares de espécies em vias de extinção atualmente, e evidentes “problemas gigantescos de alterações ambientais”, os especialistas defendem que quando uma espécie se extingue, é permanente, é impossível voltar atrás, e que qualquer promessa de “ressuscitar” animais ou genes que já não existem pode ser “enganadora” para o público. No caso dos mamutes, a investigadora diz que, na verdade, o projeto da empresa norte-americana limita-se à criação de “um elefante geneticamente modificado”, demonstrando incertezas sobre a capacidade de replicar algumas das características que diferenciam os dois animais.

Então, se este é o caso, porque é que se estão a focar milhões e milhões de dólares — a empresa já angariou mais de 400 milhões de dólares em quatro anos de atividade — em espécies que já não existem, em vez de se investir antes que seja tarde de mais? Contactados pelo Observador, a Colossal indica que as suas pesquisas não se tratam de uma “solução isto ou aquilo” mas sim algo que é benéfico para ambas as áreas.

Apresentam o exemplo dos dodôs, para além dos mamutes, que idealmente serão introduzidos nas Maurícias, uma vez que “não existe atualmente nenhuma ave de grande porte que não voe nessa paisagem”, e dos lobos-da-Tasmânia no território homónimo, comparando com a introdução de um outro predador — os lobos cinzentos — no ecossistema de Yellowstone, nos EUA. Para além disto, indicam que o seu trabalho também visa “resolver problemas relacionados com espécies hospedeiras, como doenças e predadores introduzidos“, cuja resolução trará “benefícios imediatos para as espécies que vivem nos dias de hoje“.

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