Genocídio, matanças e expropriações. A repressão de Robert Mugabe em dois capítulos

15 Novembro 2017258

Ao início, Robert Mugabe era um libertador africano. Mas logo nos primeiros anos demonstrou que preservar o poder era o mais importante. A sua repressão causou um genocídio e arruinou uma economia.

Tempos houve em que Robert Mugabe e Nelson Mandela eram nomes equivalentes. Ambos constavam na mesma lista de líderes africanos que se dedicaram primeiro à causa anticolonialista e mais tarde contra a segregação de brancos e negros nos seus países. Durante os tempos da Rodésia, Robert Mugabe esteve preso pelo crime de sedição. Ao mesmo tempo, Nelson Mandela cumpria uma pena de prisão perpétua — acabou por não ser bem assim, como é sabido — por conspirar para derrubar o regime da África do Sul, então baluarte do apartheid.

Acabaram por ser libertados e por liderar cada um dos seus países, após eleições onde os cidadãos foram livres de escolher que queriam que os governasse. Mas é aqui que a História deixa de tê-los lado a lado. Enquanto Nelson Mandela iniciava a tarefa hercúlea de unir os dois lados da África do Sul pós-apartheid (tarefa longe de estar concluída e que tem sofrido quase tantos revéses como avanços), Robert Mugabe começava a inscrever o seu nome na lista de líderes autocráticos africanos da segunda metade do século XX — estatuto que durou até esta quarta-feira, 15 de novembro de 2017, dia em que um golpe de Estado o confinou a prisão domiciliária.

Robert Mugabe deixa para trás um legado trágico, com um país com uma economia arruinada e uma inflação ímpar no mundo. Além disso, as quase quatro décadas de poder de Robert Mugabe são marcadas por dois episódios de repressão. Um deles, o massacre de Matabeleland, é um genocídio internacionalmente reconhecido — mas que alguns países convenientemente ignoraram. O outro, a expropriação de terras, é a razão da pobreza generalizada do país que, em tempos, foi conhecido como “o cesto do pão do sul da África”.

O massacre de Matabeleland: execução do Zimbabué com o savoir-faire da Coreia do Norte

Em outubro de 1980, depois de ter vencido as eleições de abril do mesmo ano, que fizeram dele o primeiro primeiro-ministro do Zimbabué, Robert Mugabe fez uma visita oficial à Coreia do Norte. Chegado ao regime eremita, foi recebido por Kim Il-Sung. Em solo norte-coreano, deixou-se encantar pelo Juche, a variante do marxismo-leninismo que ainda hoje é a ideologia de Estado da Coreia do Norte. Quando regressou ao seu país, era um “homem mudado”. Além de distribuir livros com discursos e citações do ditador norte-coreano entre os seus funcionários mais próximos, era frequente o The Herald, jornal estatal do Zimbabué, publicar artigos elogiosos para o regime da Coreia do Norte.

A afinidade não se limitou à ideologia e estendeu-se até aos negócios. Naquela mesma visita, Robert Mugabe e Kim Il-sung assinaram um acordo onde os norte-coreanos garantiam formação e armamento para formar uma brigada militar de elite, externa e superior a todos os outros braços do jovem exército zimbabueano.

Em 1981, chegaram enfim ao Zimbabué 106 instrutores militares da Coreia do Norte com a missão de formar 3500 soldados fiéis ao partido de Robert Mugabe, o ZANU-PF. O historiador especialista na Coreia do Norte Benjamin R. Young escreve que depois de uma tentativa falhada com um primeiro grupo de militares — que ficaram conhecidos na capital, Harare, pelo seu “estilo de vida esbanjador e falta de disciplina” — surgiu aquela que ficou conhecida como a Quinta Brigada, treinada pelo major general Sin Hyon Dok.

“A Quinta Brigada respondia apenas perante Mugabe e consequentemente via-se acima da lei”, escreve Benjamin R. Young no NK News.

Nos primeiros anos da independência do Zimbabué, a maior preocupação de Robert Mugabe era manter-se no poder, livre de rivais que pudessem chegar à sua altura. Para o ZANU-PF, de Robert Mugabe e maioritariamente com origens na tribo Shona, a primeira e maior preocupação era o ZAPU-PF, de Joshua Nkomo, apoiada pela etnia Ndebele predominava.

Numa tentativa de não perder nenhum dos gestos dos seus rivais, Robert Mugabe convidou para o seu governo alguns membros do ZAPU-PF. Entre estes, estava o próprio Joshua Nkomo, que ficou com a pasta do Ministério da Administração Interna.

“Não chorem se durante este processo os vossos familiares forem mortos. Onde houver homens e mulheres a dar comida aos dissidentes, quando chegarmos lá acabamos com eles.”
Robert Mugabe, num discurso em 1983, na região de Matabeleland

A aliança era frágil e durou pouco. Em 1981, Robert Mugabe reorganizou o seu executivo e expulsou os membros do ZAPU-PF. Como reação, as facções militares do ZANU-PF e do ZAPU-PF, que nunca procederam a um verdadeiro desmantelamento após a guerra civil que terminou em 1980, voltaram a contar espingardas. Em 1982, o ZAPU-PF, com destaque para Joshua Nkomo, foi acusado de estar a preparar um golpe de Estado.

Em 1983, a tensão atingiu um pico. Num discurso em Matabeleland, Robert Mugabe foi direto. “Temos de lidar com este problema sem hesitações”, disse, segundo o livro Mugabe: Power, Plunder, and the Struggle for Zimbabwe’s Future, do jornalista britânico Martin Meredith. “Não chorem se durante este processo os vossos familiares forem mortos. Onde houver homens e mulheres a dar comida aos dissidentes, quando chegarmos lá acabamos com eles.”

O alvo estava escolhido: as populações civis de Matabeleland, da etnia Ndebele, onde o apoio ao ZAPU-PF de Joshua Nkomo era predominante. Seguiu-se um genocídio que, em Shona, o dialeto usado por grande parte dos apoiantes do ZANU-PF, ficou conhecido como Gukurahundi. Ou seja, algo como “as primeiras chuvas que ajudam a separar o trigo do joio”.

Ao todo, os 3500 soldados da Quinta Brigada terão matado cerca de 20 mil pessoas da etnia Ndebele, sob a acusação de serem dissidentes ou de colaborarem com eles. A execução foi zimbabueana, mas o savoir-faire era norte-coreano.

"A Quinta Brigada levou-nos para o rio Cewale, a alguns metros de distância. Éramos 62 e fomos todos alinhados para sermos fuzilados pela Quinta Brigada. Um dos meus irmãos morreu logo, com uma bala na barriga. Por acaso, sete de nós sobreviveram aos disparos. A mim atingiram-me na coxa esquerda. A Quinta Brigada acabou com alguns dos que sobreviveram, mas os meus dois irmãos e eu fingimos que estávamos mortos."
Testemunha de uma mulher que sobreviveu a um massacre do ZANU-PF em Matabeleland, quando tinha 15 anos

A barbárie daquele genocídio está bem explícita nos vários relatos recolhidos no relatório “Breaking the Silence”, da autoria Comissão Católica Pela Justiça e Paz no Zimbabué. Um dos testemunhos pertence a uma rapariga de 15 anos que foi levada da sua casa a meio da noite, juntamente com três irmãos mais velhos. Sob escolta da Quinta Brigada, foram escoltados para um campo. Foram colocados num grupo de 62 reféns que primeiro torturados e, depois levados para a margem do rio Cewale para serem executados.

“Um dos meus irmãos morreu logo, com uma bala na barriga. Por sorte, sete conseguiram sobreviver apesar de terem levado tiros. A mim atingiram-me na coxa esquerda”, conta a sobrevivente. “A Quinta Brigada matou alguns deles, mas dois dos meus irmãos e eu fingimos que estávamos mortos. Só passado algum tempo é que conseguimos ir para casa”, prossegue o relato. Dias depois, aquela força militar chegou a fazer buscas à casa desta família, onde encontrou um dos irmãos da sobrevivente. Inesperadamente, não lhe fizeram nada. Já estava gravemente ferido. “Ele tinha ferimentos de balas no peito e no braço. Mais tarde, tiveram de lhe amputar o braço ao nível do cotovelo e mais tarde no ombro”, recorda. Outro irmão foi amputado no pé.

(AARON UFUMELI/EPA)

Outro relato é feito por uma mulher grávida em cuja casa elementos da Quinta Brigada entraram. Queimaram-lhes a palhota onde viviam, juntamente com todos os seus bens e também roubaram todo o dinheiro que tinham. Depois começaram a disparar contra o marido da sobrevivente. “Acusaram-no de ter uma arma, mas ele não tinha nenhuma. Dispararam contra ele. Falharam os dois primeiros tiros, mas ao terceiro acertaram na barriga e mataram-no”, conta. Depois, foi a sua vez de ser espancada, enquanto a sogra assistia a tudo. “Eu disse-lhes que estava grávida e eles responderam-me que não devia ter crianças”, conta. Depois, os militares bateram-lhe repetidas vezes com coronhadas de espingarda na barriga. O bebé morreu dentro da barriga da mãe. “A criança nasceu mais tarde, aos pedaços”, conta a mãe. “Primeiro a cabeça, depois a perna, um braço, o corpo. Bocado a bocado.”

Em 1987, foi consumada uma reaproximação entre o ZANU-PF e o ZAPU-PF, com a assinatura de um armistício entre Robert Mugabe e Joshua Nkomo. No acordo, ficou estabelecido o fim do ZAPU-PF, que passaria a integrar o ZANU-PF. Além disso, Joshua Nkomo foi nomeado como vice-presidente do Zimbabué — e Robert Mugabe, após uma revisão constitucional que tornava aquele país num sistema presidencial, foi nomeado Presidente. Joshua Nkomo governou ao lado de Robert Mugabe até 1999, ano em que morreu.

O genocídio dos Ndebele permanece, ainda nos dias que correm, uma ferida para aquele povo do sul do Zimbabué. Só vários anos depois é que Robert Mugabe reconheceu — e apenas em parte, nunca falando de genocídio — a gravidade do que se passou em Matabeleland entre 1983 e 1984.

No serviço fúnebre de Joshua Nkomo, Robert Mugabe deu um primeiro passo ao reconhecer que as matanças do início dos anos 1980 foram “um ato de loucura”. “Matámo-nos uns aos outros, destruímos a propriedade de cada um, foi errado e os dois lados tiveram culpa”, disse.

Numa entrevista para o livro Dinner With Mugabe, publicado pela jornalista Heidi Holland em 2008, Robert Mugabe falada daquele genocídio como se dele tivesse dependido a formação da democracia zimbabueana. “O que foi o Gukurahundi? Havia um partido com uma guerrilha que queria reverter a democracia neste país. E foi tomada uma ação. E, sim, pode ter havido excessos dos dois lados”, disse. “Da minha parte, não há arrependimento pelo facto de nós termos de defender o nosso país. Mas os excessos, onde aconteceram, sim.”

“O que foi o Gukurahundi? Havia um partido com uma guerrilha que queria reverter a democracia neste país. E foi tomada uma ação. E, sim, pode ter havido excessos dos dois lados (...). Da minha parte, não há arrependimento pelo facto de nós termos de defender o nosso país. Mas os excessos, onde aconteceram, sim.”
Robert Mugabe, numa entrevista publicada no livro "Dinner With Mugabe" (2008), da jornalista Heidi Holland

À altura, o genocídio de Matabeleland foi pouco merecedor da atenção dos media internacionais e também dos líderes internacionais. “Os britânicos mal deram pelo massacre de Gukurahundi e nem sequer o condenaram”, escreve Heidi Holland, que no se livro fala com Peter Carington, ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido entre 1979 e 1982 e responsável pelo acordo de Lancaster House, que puseram um fim à guerra civil do Zimbabué e criaram as condições para as eleições de 1980. Quando a autora lhe pergunta sobre Gukurahundi, Peter Carington responde: “Será que varremos esse problema para debaixo do tapete? (…) Acho que sim, não é?”, para depois explicar que na altura do massacre propriamente dito já não era ministro.

Em maio de 2017, surgiram novas provas de que o Reino Unido sabia o que se estava a passar em Matabeleland, tendo escolhido ainda assim manter uma abordagem mais amigável em relação a Robert Mugabe e ao seu recém-formado governo. A revelação, apenas possível graças ao trabalho da investigadora Hazel Cameron, da University of St Andrews, foi feita após a publicação da troca de correspondência do alto comissário de Londres no Zimbabué, Robin Byatt, e o ministério dos Negócios Estrangeiros.

Numa dessas trocas de correspondência, Robin Byatt escreveu que “se quisermos ter influência nas decisões do Zimbabué, tenho a certeza de que a nossa melhor tática para continuar a oferecer uma postura compreensiva e construtiva, em vez de simplesmente criticá-los”. Mais tarde, após uma reportagem do programa Panorama, da BBC, ter levantado a ponta do véu da barbárie em Matabeleland, Robin Byatt criticou o jornalista Jeremy Paxman por apresentar “uma versão sensacionalista e sombria dos acontecimentos”.

Programa de Via Rápida para a Reforma Agrária, o eufemismo letal que dizimou a economia do Zimbabué

Durante as negociações que transformaram a Rodésia no Zimbabué, houve um assunto que quase bloqueou as conversações que juntaram à mesma mesa o líder do ZANU-PF, Robert Mugabe; o líder da ZAPU-PF, Joshua Nkomo; e Ian Smith, o último primeiro-ministro da Rodésia. As negociações contaram com a mediação de Peter Carington, ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido entre 1979 e 1982.

Do lado de Robert Mugabe e de Joshua Nkomo, havia uma exigência simples: as terras que pertenciam a agricultores brancos iriam passar para as mãos da população negra do Zimbabué. A ideia não foi bem recebida por Ian Smith, que representava a minoria branca da Rodésia, nem por Peter Carington, já que era uma minoria de agricultores britânicos que detinha a maioria da terra arável daquele país.

O compromisso final, conhecido como o Acordo de Lancaster House, contemplava concessões de parte a parte. Ficou acordado que durante um período de 10 anos, nenhum programa de “venda obrigatória” de terrenos iria afetar os agricultores brancos. Assim, só vendia quem queria e só comprava quem queria. Para que tudo isto fosse possível, mesmo que isso não tenha ficado escrito no Acordo de Lancaster House, o Reino Unido comprometeu-se com assistência financeira ao Zimbabué, para compensar o facto de a reforma agrária não ser tão rápida quanto Robert Mugabe quereria.

A cedência por parte do Reino Unido tinha o cunho do Partido Conservador — primeiro com Margaret Thatcher na liderança, depois com John Major. Ao todo, até 1996, foram dados 44 milhões de libras ao Zimbabué, que foram usados para comprar terras aos brancos para dar aos negros.

O governo de Margaret Thatcher acordou financiar a reforma agrária no Zimbabué, mas exigiu a Mugabe que não expropriasse os agricultores brancos e britânicos (Keystone/Hulton Archive/Getty Images)

Enquanto isso, foram poucas as terras que passaram das mãos dos agricultores brancos para os negros, organizados em cooperativas — e, salvaguardados pela garantia de Londres, que lhes assegurava que só teriam de vender se e o que quisessem, apenas venderam as terras menos rentáveis e de pior qualidade. Ainda assim, o sistema então em funcionamento conseguia manter um equilíbrio ténue entre as aspirações de Robert Mugabe e a manutenção do património dos agricultores brancos. Depois, Tony Blair foi eleito primeiro-ministro — e tudo deu uma volta de 180 graus.

Em 1997, o governo trabalhista pôs um fim a tudo isto. A política que deu a cara pelo corte foi a secretária de Estado para o Desenvolvimento internacional, Clare Short. “Somos um governo com diferentes antepassados, sem ligações a antigos interesses coloniais”, escreveu então a política trabalhista. “Nós reconhecemos as questões muito importantes que dizem respeito à reforma agrária. Estaríamos dispostos a apoiar um programa para a reforma agrária que passasse por uma estratégia de erradicação da pobreza, mas não de outra forma.”

Desde 1980 até 1996, o Reino Unido subsidiou a reforma agrária do Zimbabué com 44 milhões de libras. Quando subiu ao poder, Tony Blair fechou a torneira e deixou de dar dinheiro a Robert Mugabe para comprar as quintas dos agricultores brancos. A partir daí, essa rutura passou a servir de desculpa para as expropriações violentas, que visaram os agricultores brancos e os seus trabalhadores.

Foi assim que o Reino Unido de Tony Blair queria fechar a torneira ao Zimbabué de Robert Mugabe. E foi desta feita que o ditador zimbabueano arranjou a desculpa perfeita para pôr em prática a reforma agrária que lhe foi negada em 1980.

Numa primeira fase, vários agricultores brancos foram obrigados a vender as suas terras — obrigação a que muitos resistiram. Perante esta postura, Robert Mugabe e os partidários do ZANU-PF subiram o tom. “Se os colonos brancos puderam tirar-nos as nossas terras sem pagar, nós podemos, de uma forma semelhante, simplesmente tirar-lhas sem pagarmos por elas”, explicou então Robert Mugabe.

A situação escalou nos anos seguintes. Em 2000, Robert Mugabe promoveu um referendo a constituição onde, na proposta defendida pelo Presidente, seria possível expropriar as terras aos agricultores brancos. Contra as expectativas do regime, o “Não” ganhou com 54,7% dos votos — algo que foi possível com os votos dos colonos brancos e sobretudo com o apoio do então recém-formado Movimento para a Mudança Democrática (MDC, na sigla inglesa), de Morgan Tsvangirai.

Ainda assim, a reforma agrária avançou. O governo de Robert Mugabe aprovou o Programa de Via Rápida para a Reforma Agrária. Em suma, não passava de um eufemismo para o que se viria a seguir: invasões por parte de ex-guerrilheiros e milícias afetas ao regime a quintas de colonos brancos, onde era deixado um rasto de destruição.

Ao todo, foram mortos 12 agricultores brancos, a maior parte enquanto defendiam as suas quintas das invasões levadas a cabo por grupos de veteranos de guerra. Ainda maiores são os números da violência cometida contra os trabalhadores negros que era empregados nas quintas alvo de expropriação. Segundo um relatório de 2002 da Human Rights Watch, entre 2000 e a publicação daquele documento as milícias do ZANU-PF mataram 26 trabalhadores. Além disso, 11 foram violados, cerca de 1600 foram agredidos e pelo menos 3 mil foram impedidos de voltar às suas casas. A Human Rights Watch referia à altura que, entre os trabalhadores vítimas das expropriações, uma maioria de 47,2% apoiava o MDC, 43,6% não tinham ligações políticas e só 4,7% apoiavam o ZANU-PF.

“Eu estava a voltar da loja quando vi várias pessoas a chegar, rapazes e mulheres”, conta uma enfermeira à Human Rights Watch. Perguntaram-lhe onde era o escritório da quinta. “Depois disseram-me que estava a ser muito lenta a responder. Bateram-me com um pau no braço. Então levaram-nos para um espaço aberto. Estavam a dizer: ‘Para a frente ZANU-PF, abaixo o MDC’. Depois, pegaram noutro rapaz e sovaram-nos. A seguir, foram-se embora.”

O chamado Programa de Via Rápida para a Reforma Agrária teve consequências desastrosas para a economia e agricultura do Zimbabué. Longe de preencher o ideal de uma distribuição das terras aos trabalhadores rurais negros — a maioria apoiantes do MDC —, as terras foram distribuídas de forma desigual a correligionários do ZANU-PF. Muitas das terras deixaram de funcionar como verdadeiras quintas, mas antes centros do ZANU-PF a partir dos quais eram feitas campanhas intimidatórias, e não raras vezes violentas, contra apoiantes da oposição.

“Queremos paz, e a paz não requer uns ficarem com a fatia do leão e outros ficarem com a fatia do babuíno.”
Robert Mugabe num discurso em 2014, sobre as expropriações de 2000

Desde então, a agricultura do Zimbabué entrou em declínio. Em tempos, o país era conhecido como o “cesto do pão do sul da África”, que tinha na sua agricultura a sua maior fonte de riqueza — graças ao cultivo do tabaco, algodão, milho, café e também à carne de vaca. Agora, a braços com uma seca extrema e cercado por sanções internacionais, o Zimbabué tem de importar para comer. Cerca de um quarto da sua população tem dificuldades de acesso a comida e pouco mais de metade da sua superfície arável é cultivada.

Anos depois, apesar do fracasso da agricultura do Zimbabué, e consequentemente da sua economia, Robert Mugabe tem continuado a defender a tomada de terras agrícolas. “Queremos paz, e a paz não requer uns ficarem com a fatia do leão e outros ficarem com a fatia do babuíno”, disse em 2014. Na mesma ocasião, disse ainda: “Nós não mandámos os brancos embora. Nós tirámos-lhes as terras de acordo com o que os britânicos e nós acordámos, durante o governo de Margaret Thatcher”. E continuou, atirando farpas a um dos seus alvos preferidos da cena internacional, Tony Blair. “Se a Inglaterra de Blair já não queria pagar pelas terras, será que nós devíamos ter cruzado os braços e ter dito: ‘Oh, santo Deus, rezo em nome pai, do filho e do espírito santo’?”

O tema — e o tom — são recorrentes em Robert Mugabe. Este ano, voltou à carga, deixando a entender que poderia haver novas expropriações para os poucos agricultores brancos que ainda estão no Zimbabué. “Descobrimos que só na província de Mashonalad Este há 73 agricultores comerciais que ainda estão a ocupar as quintas, quanto o nosso povo não tem terras”, disse, num discurso em junho de 2017. “Vamos tomar aquelas terras e redistribuí-las pelos nossos jovens, alguns dos quais não beneficiaram do programa de reforma agrária.”

E em agosto falou dos agricultores brancos que foram mortos a partir durante as expropriações, garantindo que não ia haver nenhuma investigação àqueles homicídios. “Sim, houve aqueles que nós matámos quando eles resistiram. Nós nunca vamos julgar aqueles que os mataram. Pergunto uma coisa: porque que é que haveríamos de prendê-los?”

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