Não embarco com a maior das facilidades em ondas, mas também não sou pessoa do contra. Não foi sempre assim, até porque não saltei magicamente o período da adolescência. Fui de alimentar ódios viscerais a coisas consensuais, só porque sim, brindando as pessoas com autênticas TED Talks sobre as minhas opiniões que interessavam a cerca de ninguém. Fui podando essas ervas daninhas da minha personalidade ao longo dos anos, no entanto, a jardinagem periódica continua a ser necessária. Exemplo disso é que só comecei a ver o The Office americano muito recentemente (muito graças a The Paper, sobre a qual escrevi aqui), porque “Para quê mexer na perfeição que é o original do Gervais?”. Aproveito para pedir desculpas publicamente a todas pessoas a quem enfiei esta palestra garganta abaixo, ao longo dos anos. Já vou na quinta temporada. E sim, estou a adorar cada minuto, não consigo parar e mais houvesse.
Quando, do dia para a noite, fui abalroada por um TGV de referências a Heated Rivalry, fiquei entre o “‘tou cheia de te ouvir!” e o “mortinha para ver” — que a pessoa evoluiu, mas ainda não conseguiu extirpar o FOMO na sua totalidade, se é que alguma vez o vai conseguir fazer. Esperei calmamente que a série aterrasse numa plataforma “legal”, não propriamente por superioridade moral, mas por falta de pachorra para inesgotáveis pop-ups com grandes seios a uns quantos quilómetros de minha casa. Fez-se justiça e eis que sou presenteada com a série em ante-estreia, que estará finalmente disponível entre nós no dia 23 de janeiro (sexta-feira) na HBO Max.
Para quem esteve em reclusão numa cave no último mês: Heated Rivalry é uma série canadiana com o NHL como pano de fundo (a liga de hóquei no gelo norte-americana que junta as equipas dos Estados Unidos e do Canadá) que acompanha a relação dos rivais/amantes Ilya Rozanov (Connor Storrie) e Shane Hollander (Hudson Williams). No ringue, dá a ideia que se vão comer que nem cães, no quarto de hotel concretizam-no. Um clássico enredo rivals-to-lovers que marca a diferença pelos ditos serem dois homens extremamente agradáveis à vista e que ao fim de 18 minutos do primeiro episódio nos levam para a cama com eles, salvo seja. Meninas e meninos, isto não é um slow burner. São atletas, é gente que está no pico de forma, as hormonas andam ali a dançar o cavalinho do Pedro Sampaio, é vê-los a dar tudo. Um ao outro e a uma audiência muito feminina e, em boa parte, com o cartão de utente heterossexual, que caiu de quatro por estes dois, o que me parece adequado.
Os protagonistas conhecem-se à entrada do gimnodesportivo onde a Rússia e o Canadá se vão defrontar, sendo que cada um é a jovem promessa da respetiva seleção. Shane, como bom menino de coro, vai-se apresentar ao adversário, elogia-o e deseja-lhe boa sorte, demonstrando um fair play impecável. Ilya faz o calado misterioso, o atleta rebelde que fuma cigarros, e garante a Shane que lhe vai dar na pá (pun intended). A tensão sexual vai aumentando entre os dois, incluindo uma cena em que pedalam lado a lado, com o russo a arfar como se estivesse a invadir a Crimeia, e a coisa lá se dá. A partir daqui, vemos os avanços e recuos (no pun intended) da relação entre os dois, ao longo de 8 anos, e do quanto estão ou não emocionalmente investidos um no outro.
Enquanto isso, a comunicação social trata-os como o Messi e o Cristiano Ronaldo do hóquei no gelo, sendo Shane o artigo mais comercial da dupla. (Não era um grande plot twist se agora descobríssemos que o argentino e o madeirense têm um caso há anos? Desculpa, Kátia. Deixei-me levar.) É uma relação que segue o cliché dos opostos que se atraem. O russo é o anti-herói, que usa a vodka e o deboche generalizado como escape para uma família disfuncional, que não só não lhe dá amor, como o suga financeiramente. Já o canadiano tem uma mãe-helicóptero, que também é a sua agente, dando-lhe muito pouco espaço de manobra para se emancipar, o que contribui certamente para o transformar num people pleaser. Tudo isto enquanto estão os dois trancadinhos no armário sem perspetivas de abandonar, graças ao meio estruturalmente homofóbico em que estão inseridos. Um amor impossível, enfeitado com sexo inevitável.
Eu queria muito gostar muito disto. A representatividade na ficção é muitíssimo importante, para tirar palas dos olhos e para que todos se sintam vistos. E se não gostam, ponham à borda do prato, que o que não faltam são histórias de meninos que só gostam de meninas para vos aquietar o tremor no olho conservador. Além disso, é estatisticamente impossível que os desportos de equipa de alta competição não tenham muito homossexual fechado no cacifo do balneário, o que torna esta situação mais que verosímil. Como série propriamente dita? Ao contrário da chama prometida, achei assim para o morninho. Se são bonitos? São. Se são grandes atores? Médio +, diria eu. Lamento, mas vou-me muito abaixo com aquele sotaque russo à vilão do James Bond dos anos 80.
Mas sejamos justos, não é que eles tenham um texto incrível para entregar. A picardia entre os dois em 80% das situações resume-se ao Ilya a dizer desdenhosamente ao Shane que ele é “boring”. O Shane por sua vez, na loucura, chama-lhe “asshole”. Quanto à realização, edição e música, achei meio a atirar para o soft porn, e isso foi um turn off para mim. Menção honrosa ao banger All the Things She Said das russas t.A.T.u., porque #nostalgia. Já a história propriamente dita, é o chamado “é o que é” e “é para o que é”, em particular, nos primeiros 4 episódios, que vão intercalando entre as provocações pré-jogo, o teasing pré-coito e o consequente arrebimba-o-malho. Como diria Ilya: “boring” (fazer sotaque russo de um natural do Texas).
Os dois últimos episódios são significativamente melhores do que o resto da série, o que por um lado ajuda ao balanço final, mas por outro me deixa um pouco confusa relativamente às decisões do criador, que realiza e assina o guião, Jacob Tierney. Ainda assim, e apesar dos pesares, estive ali entretida, enterneci-me e torci por um final feliz, que não vos vou dizer se houve ou não. Mas não consegui sacudir a sensação do muito barulho não para nada, mas para o que eu achava que ia ser muito mais.
Mas se assim é, de onde vem todo este hype? Heated Rivalry é baseado no livro com o mesmo nome, que faz parte da série de romances “Game Changers” da autora canadiana e fãzona de hóquei no gelo, Rachel Reid. A boa da Rachel confessou que precisava de um escape criativo enquanto criava aos filhos e atirou-se ao Word. Apesar de grande adepta do desporto-rei do Canadá, a escritora afirma que é um meio carregadinho de machismo e homofobia — quem diria — e foi aí que se inspirou para criar este universo. Curiosamente, a NHL está tão entusiasmada com a atenção que a modalidade está a receber, que não se importa nada de enfiar a carapuça do preconceito.
Long story short, o Jacob Tierney devorou os livros durante a pandemia. Ele, que também gosta de hóquei como a escritora e também gosta de homens como os protagonistas, percebeu que tinha ali terreno por lavrar, comprou os direitos dos livros e conseguiu convencer a Crave, uma plataforma canadiana de streaming a fazer isto. A HBO Max, que não é parva nem nada, ainda o último episódio não tinha acabado já tinha garantido os direitos de distribuição. Facto é que o sucesso foi imediato, muito graças ao boca-a-boca dos tempos modernos que são as redes sociais. Mais do que a comunidade gay, como seria expectável, foram mulheres de todas as idades e orientações sexuais que transformaram Hudson Williams e Connor Storrie em super estrelas instantâneas. É abrir o TikTok e ver reacts de mães, e até avós, a Heated Rivalry, depois de terem sido convencidas pelas mais novas a ver a série. E é só clientes satisfeitas.
Num artigo do The Guardian, a jornalista Julia Carrie Wong defende uma tese que vi replicada por outras, de forma mais ou menos sustentada: num mundo onde o sexismo, a misoginia ou, pura e simplesmente, o ódio às mulheres não tem vergonha de sair à rua, este romance entre dois homens é uma bolha de segurança. Homens emocionalmente vulneráveis, que respeitam as mulheres e que estão continuamente a pedir consentimento são um bálsamo. E se isto não é das coisas mais deprimentes que leram na vida, não sei o que será. É caso para atualizar uma conhecida expressão: “Sad, ‘cause it’s probably true”. É claro que eles serem uns gatos ajuda. E o fator novidade da nudez masculina em fartura e o sexo entre os dois em abundância também. Mas acrescentaria que o enredo simples e novelesco, bom para alienar da tempestade de esterco que vai lá fora, é um elemento a ter em conta.
O fandom que não me odeie, mas acho que a série tem ali um quê de romance de cordel e outro tanto de telefilme da Hallmark. Mas acredito que o que me deu mesmo cabo disto foram as expectativas criadas pelo buzz à volta da produção. Lamentavelmente, não é a primeira vez, nem será a última, que isto me acontece. Mas muito embora não tenha ficado assolapada, também não acho que a série seja má e até sou menina para ver uma próxima temporada para perceber o que é que um banho de loja, que é como quem diz um orçamento substancialmente maior, vai fazer pela série, que tem as suas qualidades. Mais que não seja dar voz a protagonistas que foram, e muitas vezes ainda são, silenciados. E estampar sorrisos de satisfação na cara de mulheres, o que é bem mais do que uns quantos heteros conseguem fazer. Há triliões de séries medianas sobre casais heterossexuais e ninguém morreu. Fico à espera da próxima vida de Heated Rivalry.