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Enquanto viveram no Jardim do Paraíso, Adão e Eva não conheceram outra coisa que não fosse o repouso, uma vez que todas as suas necessidades estavam asseguradas. Não faltavam árvores carregadas de frutos suculentos para prover à sua alimentação (o Génesis não faz menção a consumo de carne, pelo que há quem presuma que o Primeiro Casal fosse vegan e reivindique que tal opção é a mais natural para o ser humano e a única conforme aos planos originais do Criador); a temperatura era uniformemente agradável e o clima imperturbavelmente ameno e Adão e Eva “não se envergonhavam” da sua nudez, pelo que dispensavam vestuário e abrigo; a doença e a decrepitude também não eram conhecidas no Jardim do Paraíso, pelo que Adão e Eva também não faziam ideia do que fossem “despesas de saúde”. Tudo leva a crer que também não soubessem o que eram ansiolíticos e antidepressivos. Isto até que Eva, influenciada por umas atoardas maliciosas que a serpente (“o mais astuto de todos os animais”) lhe enviara através da WhatsApp, convenceu Adão a que provassem do fruto da única árvore do Jardim que Deus lhes interditara.
O resultado é bem conhecido: o Senhorio apercebeu-se da infracção ao estipulado no contrato de arrendamento e não só deu, de imediato, ordem de despejo ao Primeiro Casal, como condenou este a duras penas: “À mulher disse: multiplicarei grandemente a dor da tua conceição; em dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará. E ao homem disse: […] Maldita é a terra por tua causa; em fadiga comerás dela todos os dias da tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos; e comerás das ervas do campo. Do suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra”. A somar a isto, o facto de o fruto da árvore proibida ter tornado Adão e Eva conscientes e envergonhados da sua nudez, levou a que tivessem de cobrir esta com folhas de figueira cosidas, impulso que, na sua descendência, veio a assumir a forma de obsessão irreprimível em comprar roupa nova todas as semanas, dissipando neste afã parte apreciável do pecúlio amealhado com “o suor do rosto”.
É por aqui, pela transição do repouso ilimitado do homem no Paraíso para a vida de labuta pós-Queda, que começa a História do Repouso, o livro mais recente do historiador francês Alain Corbin (n.1936).
A capa de “História do Repouso”, de Alain Corbin (Quetzal)
Corbin é um especialista na “história das sensibilidades”, um ramo da história cultural cujas fronteiras com a história das mentalidades são imprecisas, e os seus livros tratam, não de figuras, eventos, instituições ou movimentos históricos, mas da evolução da forma como, ao longo do tempo, a sociedade tem percepcionado e se tem relacionado com conceitos abstractos como os odores (Le miasme et la jonquille, 1982), a paisagem sonora da ruralidade (Les cloches de la terre, 1994) ou o gosto por desfrutar da orla marítima (Le territoire du vide: L’occident et désir de rivage, 1988) e de prados e relvados (La fraîcheur de l’herbe, 2018). A original escolha de temas de Corbin favorece conceitos negativos, como o silêncio (Histoire du silence, 2016) e a ignorância (Terra Incognita: Une histoire de l’ignorance, 2020), e conceitos insubstanciais, como a sombra (La douceur de l’ombre, 2013) e o vento (La rafale et le zéphyr, 2021), pelo que não é de estranhar que, em vez de escrever um livro sobre a história do trabalho, tema que, aliás, tem sido amplamente coberto (só em 2021 saíram duas obras de grande fôlego sobre ele: Work: A deep history, from Stone Age to the Age of Robots, de James Suzman, e The story of work: A new history of mankind, de Jan Lucassen), tenha, na sua obra mais recente, optado pelo tema “reverso”.
Histoire du repos (2022), que nos chega agora em edição da Quetzal e com tradução de Sandra Silva, move-se pelas vizinhanças de L’avènement des loisirs (1995), uma obra colectiva dirigida por Corbin, que trata da evolução do conceito de lazer e do papel que este assume na sociedade. Como que comprovando a interpenetração dos temas “repouso” e “lazer”, a capa da edição em apreço de História do Repouso tem por base o quadro “Une baignade à Asnières” (que é reproduzido à cabeça deste artigo), e a capa de L’avènement des loisirs tem por base o quadro “Un dimanche après-midi à l’Île de la Grande Jatte”, ambos da autoria de Georges Seurat, pintados na mesma altura (1884-86) e tratando, com técnica, cromatismo e atmosfera muito similares, o ócio dos parisienses nas margens do Rio Sena, em dois locais próximos, a 3-4 Km do centro de Paris – tão próximos que uma extremidade da Île de la Grande Jatte é visível no lado direito de “Une baignade à Asnières”.
“Un dimanche après-midi à l’Île de la Grande Jatte”, c.1884-86, de Georges Seurat
O domingo não se fez para descansar
Na verdade, cronologicamente, História do Repouso começa antes da Queda: “Havendo Deus completado no dia sétimo a obra que tinha feito, descansou nesse dia de toda a obra que fizera. Abençoou Deus o sétimo dia e o santificou” (Génesis 2:2-3). Como observa Corbin, seria um erro supor que Deus se concedera esta pausa por se sentir cansado, “pois, além de contrariar a perfeição e a eternidade de Deus, rebaixá-lo-ia ao nível de algumas das suas criaturas”. Seria igualmente um equívoco supor que a religião cristã prescreveu o descanso dos fiéis ao sétimo dia como analogia do descanso de Deus: o sétimo dia deve ser consagrado a dar graças ao Criador do universo, não ao ócio ou (pior!) a festejos.
Ao instituir um dia “santificado”, a religião cristã adaptou o sabbath que já era observado na religião judaica, transferindo-o do último dia da semana – o sábado – para o primeiro – o domingo. Entre as razões para esta mudança está o “facto” de ter sido num domingo que Cristo ressuscitou e que o Espírito Santo surgiu aos apóstolos; pode também ter resultado da influência das crenças pagãs assimiladas pelo Império Romano, que associavam o primeiro dia da semana ao culto do deus solar, o que ainda se reflecte na designação do dia nas línguas do Norte da Europa: “sunday” em inglês, “Sonntag” em alemão, “zondag” em holandês, “søndag” em dinamarquês e norueguês, “söndag” em sueco, etc. Curiosamente, em 1879, surgiria na língua inglesa a palavra “weekend” (ainda que a semana de trabalho de cinco dias apenas tenha sido instituída em 1908, numa fiação de algodão na Nova Inglaterra), termo que ganharia análogos nas outras línguas europeias, à medida que a semana de trabalho de cinco dias foi ganhando adesão, sem que ninguém questionasse (ou questione) a sua adequação para designar o que, afinal, são o sétimo e o primeiro dias da semana.
Nos primeiros tempos da cristandade, manteve-se a tradição judaica de considerar santificado o sétimo dia, mas a celebração foi sendo progressivamente transferida para primeiro dia. Há quem atribua essa mudança a Justino Mártir (100-165 d.C.), que, a fim de convencer o imperador romano Antonino Pio a ser mais tolerante com os cristãos, se terá tentado demarcar dos judeus (uma constante fonte de irritação para o poder romano), fazendo notar que os cristãos santificavam o domingo, não o sábado. A mudança do dia santo cristão para o domingo ganhou força de lei em 321, através de édito do imperador Constantino (que se convertera ao cristianismo), que interditou os trabalhos nesse dia, abrindo excepção para os camponeses que tivessem de realizar tarefas inadiáveis.
Moeda com a efígie de Constantino o Grande (reinado: 324-337), responsável pela instituição do domingo como dia santificado em todo o Império Romano. A moeda contém a pista para a escolha deste dia da semana: atrás de Constantino surge a imagem do Sol Invictus, divindade solar que era identificada com o imperador romano, cujo culto se tornara religião oficial do Império em 274 (no reinado de Aureliano) e que era celebrada ao domingo (dies solis)
Mas se a mudança do dia santo não encontrou grande resistência, mais difícil foi convencer o povo de que “o dia do Senhor não [deveria ser] um tempo de ociosidade, porque esta apenas conduz à tentação e isso iria facilitar a obra do demónio” (pg. 92), mas de dar graças a Deus. A fim de assegurar que os fiéis não caíssem em tais tentações, foram proibidas as corridas de carros e os espectáculos teatrais ao domingo, o que provavelmente não foi aceite de bom grado pelos cidadãos e súbditos de Roma… A suspensão das actividades, fossem de labor ou lazer, servia para libertar os crentes de forma a poderem participar nas devoções religiosas – sobretudo naquilo que, mais tarde, viria a ser designado por “missa” –, uma possibilidade que, a partir do século VI, seria convertida em obrigação.
Que as ovelhas nem sempre acatavam estas injunções prova-o o facto de o Concílio de Trento (1545-63) se ter sentido obrigado a reafirmá-las, realçando que “o repouso é uma condição para se aceder à felicidade eterna e não uma simples interrupção das actividades” (pg. 93). Assim, o Concílio proibiu, no dia do Senhor, “todos os espectáculos, danças públicas e festas”, bem como “celebrações sacramentais, nomeadamente casamentos. Em suma, tudo o que possa evocar a ociosidade e ponha em causa a santificação do domingo é proscrito” (pg. 93).
Camponeses divertem-se num quadro de Pieter Brueghel o Velho, c.1567
Mas a pulsão do povo para fazer do domingo um período de ócio e diversão não foi subjugada, pelo que, em 1710, o bispo de La Rochelle se viu obrigado a instruir os seus párocos a “ajudar os fiéis a consagrar esse dia às práticas religiosas: oração de manhã, missa da paróquia, prédica, instrução familiar, vésperas, catequese, oração da tarde” (citado por Corbin, pg. 95). Com um programa destes, é bem possível que muitos fiéis da diocese de La Rochelle não encarassem a segunda-feira de manhã com o desalento generalizado que hoje suscita.
Quem gosta da segunda-feira?
A síndrome de segunda-feira de manhã é uma das mais eloquentes manifestações da aversão ao trabalho e das saudades do repouso ininterrupto do Jardim do Paraíso que consomem o ser humano. O trabalho é, genericamente, visto como desagradável e quem tem um trabalho de que gosta e o realiza tende a ser visto com suspeição (ver capítulo “A recompensa do trabalho” em Maus trabalhos: O que são, de onde vêm e que consequências têm?). A etimologia da palavra “trabalho” é um testemunho ainda mais eloquente da sua inata desagradabilidade, uma vez que provém do latim medieval “trepalium”, que designava um instrumento de tortura feito de três (“tres”) paus (“palus”). Têm a mesma origem as suas equivalentes francesa (“travail”), espanhola (“trabajo”) e catalã (“treball”), bem como a inglesa “travail”, que designa especificamente um trabalho doloroso e penoso (e que, por tortuoso caminho, esteve, por sua vez, na origem de “travel” = viagem, que é coisa que, hoje, no mundo desenvolvido, associamos a lazer, mas que, no século XIV, quando a primeira ocorrência de “travel” foi registada, era um empreendimento árduo, extenuante e arriscado).
Trabalhos agrícolas no Antigo Egipto, detalhe de pintura (c.1410-1370 a.C.) no túmulo de Nakht, um escriba e astrónomo que viveu no reinado do faraó Tutemósis IV
Assim sendo, é natural que as promessas de diminuição da jornada laboral tendam a ser bem acolhidas pelas massas. A jornada de trabalho no mundo pré-industrial costuma ser descrita como sendo “de sol a sol”, o que não corresponde rigorosamente à realidade, uma vez que, como sublinha Corbin, “o trabalho do artesão ou o do agricultor não eram trabalhos a tempo inteiro, com horários fixos, estando pontuados por pequenas interrupções da actividade. O trabalhador fazia a gestão do seu tempo, incluindo, obviamente, períodos de repouso” (pg. 106).
“Os ceifeiros” (1565), da série “Os meses”, por Pieter Brueghel o Velho: uma ilustração da gestão flexível do tempo e do repouso pelos trabalhadores agrícolas de antanho
A Revolução Industrial veio alterar drasticamente este panorama, uma vez que “nas fábricas, o próprio ritmo das máquinas impede que haja liberdade para qualquer tipo de repouso” (pg. 107).
Não é de surpreender que quem pretendia alterar a ordem social e política tivesse a redução da jornada de trabalho como bandeira – num discurso às massas realizado pouco antes da Revolução de Outubro, Trotsky prometia paz e pão e garantia que os bolcheviques iriam dar terra aos camponeses e “reduzir as horas de trabalho, meus camaradas das fábricas, para quatro, com o dobro do salário que recebeis agora”. Treze anos depois, no ensaio “Economic possibilities for our grandchildren”, John Maynard Keynes (que estava longe de ser um socialista – rotulou as teorias marxistas como “mistificação enredada” e garantiu que “a luta de classes encontrar-me-á do lado da burguesia culta”), previu que, daí a um século, mercê da acumulação de avanços na ciência e tecnologia, a jornada de trabalho estaria reduzida a três horas. Keynes antevia que, com o alívio do fardo laboral, “iremos fazer mais coisas para nós mesmo do que os ricos costumam hoje fazer e ficaremos satisfeitos com os nossos pequenos deveres, tarefas e rotinas”.
As promessas e antevisões de Trotsky e Keynes não se cumpriram: o regime bolchevique trouxe guerra civil, perseguições e fuzilamentos em massa em vez de paz e fome em vez de pão, arrebatou as terras a todos os camponeses (mesmo aos de mais modestas posses) e, em vez de reduzir substancialmente a jornada dos “camaradas das fábricas”, impôs-lhes metas de produção extremamente exigentes ou até irrealistas, instituiu o conceito de “emulação socialista”, que instigava as empresas estatais e os seus trabalhadores a competir entre si, com o fito de melhorar a produtividade, e recompensou com condecorações os “heróis do trabalho socialista” que se esfalfavam bem para lá do que era razoável ou humano e cujo expoente foi Aleksey Stakhanov, operário numa mina de carvão que ganhou estatuto semilendário ao ultrapassar sistematicamente as metas de produtividade fixadas pela administração.
Aleksey Stakhanov (à direita)
Quanto à predição de Keynes, estamos perto do horizonte de 2030 por ele definido e em vez de um cenário de relaxamento espiritual e desafogo material, o que temos é um crescimento avassalador da percentagem de trabalhadores em burnout, como revelou um estudo à escala global realizado pela consultora Mercer. Se em 2020 se estimava que 63% dos trabalhadores estivesse em risco de burnout, no estudo divulgado em Fevereiro de 2023 esse número subia para 81%. Um estudo similar conduzido em Portugal pelo Laboratório Português dos Ambientes de Trabalho Saudáveis e divulgado em Maio passado chegou a resultados similares: 80% dos trabalhadores exibiam pelo menos um sintoma de burnout, e 63% acumulavam três sintomas (ver Estudo: 80% dos trabalhadores tem pelo menos um sintoma de burnout).
Burnout, acédia, desídia e karoshi
O burnout não é um fenómeno novo e alguns autores vêm mesmo um seu precursor na acédia dos tempos medievais, que, por vezes, é identificada com a preguiça (ou desídia) ou com a depressão. O burnout (burnout ocupacional, para se ser mais rigoroso) caracteriza-se por uma sensação de exaustão, perda de afinidade com o trabalho, acompanhada de desleixo e quebra na produtividade. A acédia tinha como sintomas a apatia, o desinteresse e o enfado e os teólogos medievais tenderam a identificá-la com o pecado mortal da preguiça. Há, todavia, que distinguir a indolência macambúzia de quem é atormentado por pensamentos sombrios e angústias existenciais, da indolência jovial de quem é madraço e se regozija com as astúcias a que recorre para não fazer qualquer esforço, fugir às suas obrigações e viver à custa do esforço alheio.
Independentemente do que possa ter sido o real entendimento medieval da acédia, importa destacar que os fenómenos de burnout se manifestavam, até há pouco tempo, de forma pontual, atacando sobretudo indivíduos muito exigentes consigo mesmos ou que desempenhavam funções muito extenuantes ou arriscadas – era uma “doença” circunscrita a empresários, corretores de Wall Street, directores executivos e funcionários de bancos de investimento, empresas de consultoria e grandes escritórios de advogados – enquanto hoje assumem proporções pandémicas e abrangem os mais variados escalões sociais e um amplo leque de profissões.
A acédia segundo Pieter Brueghel o Velho, gravura da série Os sete vícios (1558)
A incidência do burnout e a forma de se manifestar variam consoante os países, as profissões e as empresas. Nos casos mais extremos, o burnout pode conduzir à morte, situação que é conhecida como “karoshi”, um termo com origem no Japão – onde o primeiro caso de morte por excesso de trabalho foi registado formalmente, em 1969 –, o que não é de estranhar, já que o país é conhecido pelas longas jornadas de trabalho, por uma ética de trabalho de elevada exigência e rigor (que não se traduz necessariamente numa maior produtividade), pela devoção do trabalhador à empresa e por relações hierárquicas rígidas nas empresas e na sociedade. Apesar de o Japão reconhecer o karoshi como um problema nacional e de, nos anos mais recentes, o burnout ocupacional ter vindo a concitar a atenção dos media, das empresas, dos sindicatos e do Estado nos países desenvolvidos, a verdade é que o excesso de trabalho mata mais nos países menos prósperos, em particular no Sul e Sudeste Asiático, no Norte de África e na América Latina do que no Japão ou na Coreia do Sul (outro país tradicionalmente associado a tremendas pressões sobre os trabalhadores) e que nos países desenvolvidos do Ocidente. Talvez o resultado mais surpreendente que se extrai da consulta de um mapa-mundo de incidência da morte por excesso de trabalho seja a elevada prevalência do fenómeno em países que, no imaginário global, são um paradigma de vida descontraída, ociosa e isenta de stress: Cuba e República Dominicana. Quase tão inesperado é que o México, que os estereótipos identitários representam como país de ritmos pausados e gente preguiçosa, figure no mesmo patamar que a pátria do karoshi, onde também se incluem Portugal, Polónia e Islândia, os três líderes das mortes por excesso de trabalho na Europa.
Mortes por excesso de trabalho no mundo em 2021 (mortes por 100.000 habitantes e por ano)
Outro resultado contra-intuitivo dos estudos sobre burnout ocupacional tem a ver com as suas causas: o número médio de horas de trabalho não será a principal, uma vez que este valor tem registado uma tendência geral de descida no último século e meio. Era de 3000 horas/ano em 1870 (data que Corbin identifica como sendo do início da tomada de consciência “dos efeitos nefastos do excesso de trabalho” e da reivindicação de um “repouso capaz de travar a proliferação destes problemas fisiológicos e psicológicos”), caiu para 2000-1500 horas/ano em 1990 e, desde então, tem continuado a diminuir num ritmo mais lento ou estabilizou.
Número médio anual de horas de trabalho, 1950-2014, na Alemanha (azul), Reino Unido (laranja), Brasil (verde), EUA (amarelo torrado), Rússia (lilás) e Índia (azul)
As realidades lúgubres sob as notícias positivas
Os inquiridos no estudo da Mercer também contrariam a ideia de que as jornadas laborais demasiado longas são a principal razão para o burnout ocupacional, uma vez que atribuem este ao “facto de não serem suficientemente reconhecidos e recompensados pelos seus esforços”. Por outro lado, também há indícios de que parte do burnout ocupacional estará associado à crescente percentagem de trabalhadores que desempenham “trabalhos de treta”, que, embora sendo pouco exigentes em número de horas de trabalho e esforço físico (são quase sempre ocupações burocráticas), razoavelmente (ou bem) remunerados e providos de vínculos estáveis e um confortável pacote de regalias, são altamente corrosivos para o espírito (ver Maus trabalhos: O que são, de onde vêm e que consequências têm?).
Por outro lado, há que considerar que as médias podem ocultar realidades muito diferenciadas. Na administração pública, nalgumas empresas do sector empresarial do Estado e nas empresas mais pujantes – sobretudo nas da “nova economia” – tem-se assistido, com efeito, à diminuição generalizada das horas de trabalho; além disso, os trabalhadores que fazem parte dos quadros têm direito a férias pagas, pensões de reforma, baixas médicas, licenças de maternidade e paternidade, “tolerâncias de ponto” (na administração pública) e faltas justificadas por motivos que incluem a prestação de assistência a familiares e o falecimento de parentes (motivos a que se pretende somar o falecimento de animais de estimação). Em algumas empresas de alguns países (como Portugal), começa a testar-se, com o beneplácito e o incentivo do Estado, a “semana de quatro dias”, que, teoricamente, visa reduzir o horário de trabalho sem comprometer a produtividade, ou até aumentando-a (o argumento, sancionado por alguns estudos, é que o alívio do stress no trabalhador, resultante de ter mais um dia para consagrar a si mesmo e à vida familiar, o faz trabalhar com redobrada energia e discernimento). Nas empresas de perfil mais moderno e em que o trabalho é quase exclusivamente burocrático (sobretudo nas “tecnológicas”), mesmo as horas passadas no local de trabalho começam a deixar de ser inteiramente preenchidas com tarefas estritamente produtivas: permite-se que os “colaboradores” (este tipo de empresas costuma ter “colaboradores”, não “trabalhadores”) façam, a seu bel-prazer, pausas para usufruir dos espaços e equipamentos para convívio e relaxamento instalados pela empresa (matraquilhos, mesas de ping-pong e bilhar, máquinas de jogos, ginásios, cafetarias, esplanadas, etc.) e encoraja-se que tragam os seus animais de estimação para o local de trabalho.
Sala de jogos nos escritórios da Google em Cambridge, Massachusetts
Há quem vá mais longe do que a “semana de quatro dias” e defenda convictamente que os ganhos de produtividade obtidos pelo progresso tecnológico permitem gerar uma tal abundância de bens e serviços que nem sequer teremos de trabalhar as módicas 15 horas por semana previstas por Keynes e que o Estado poderá pagar a cada cidadão um rendimento básico universal suficiente para cobrir as despesas inerentes a uma vida digna e confortável, cabendo a cada um, consoante a sua ambição, as suas capacidades e o seu apetite por luxos e extravagâncias, trabalhar as horas que bem entender (ver capítulo “Quem paga o rendimento básico universal?” em O que devemos ensinar aos nossos filhos? Há um guru que mostra o caminho e capítulo “O oráculo vesgo de Silicon Valley” em O futuro aos algoritmos pertence).
A maior parte das regalias dos trabalhadores que se mencionaram acima são legítimas, justas e sensatas, foram conquistadas após uma porfiada e acerba luta entre trabalhadores e patrões e conseguiram resgatar os primeiros das condições desumanas das fábricas da Revolução Industrial e dar-lhes tempo e condições materiais suficientes para terem uma vida digna. Porém, ao mesmo tempo que uns trabalhadores vêem a sua jornada ficar cada vez mais suave, o capitalismo do século XXI está a gerar uma imensa massa de trabalhadores com vínculos laborais precários ou nulos e remunerações baixas ou miseráveis, que não têm direito a nenhuma das regalias acima mencionadas, nem são contemplados com subsídios de refeição, turno, representação, deslocação ou risco, nem são recompensados com “diuturnidades” ou “prémios de desempenho”, nem têm contratos que lhes confiram direito a seguros de saúde e indexem o salário à inflação, e para quem não existe “contagem de anos de serviço”, ou perspectivas de “progressão na carreira”, ou sequer “carreira”, uma vez que nem sequer há “escalões” para galgar – o panorama que contemplam é uma árida planura de trabalho que se estende a perder de vista em todas as direcções.
Neste novo proletariado (cada vez mais sem prole) incluem-se os trabalhadores agrícolas asiáticos, africanos ou latino-americanos sem os quais a agricultura de moldes industriais da Europa e dos EUA seria incapaz de operar e que os empregadores e as empresas de trabalho temporário que os recrutam costumam amontoar em alojamentos sem condições mínimas de higiene, conforto e privacidade; parte considerável dos trabalhadores das limpezas e da construção civil e dos motoristas; os funcionários dos call centers e dos armazéns das empresas de comércio online, que desempenham tarefas repetitivas e entorpecentes, de acordo com protocolos rígidos e imutáveis, cuja remuneração e continuidade no emprego dependem do cumprimento de exigentes metas de produtividade e que costumam estar sujeitos a vigilância panóptica enquanto estão a trabalhar; os trabalhadores da “economia do biscate” ou “de plataforma” (gig economy ou platform economy), em que, a pretexto da “liberdade”, da “flexibilidade” e da “livre iniciativa”, cada trabalhador toma nas mãos o chicote e se converte no implacável capataz de si mesmo (ver capítulo “O trabalho na era do machine learning e dos algoritmos” em Maus trabalhos: O que são, de onde vêm e que consequências têm?); a mão-de-obra não-especializada das grandes empresas fabris e de distribuição, que, apesar de ter um vínculo laboral mais sólido que os grupos anteriores, recebe uma remuneração tão exígua que, para conseguir assegurar as suas necessidades básicas, é obrigada a arranjar um segundo e até um terceiro emprego, em part-time, ou a recorrer ao auxílio do Estado e das instituições privadas de solidariedade social e ONGs, ainda que os seus empregadores sejam marcas de renome internacional e costumem recompensar generosamente os seus accionistas, proprietários e gestores (é o caso da Walmart – ver capítulo “O Grande Casino Financeiro” em O futuro aos algoritmos pertence).
Estafeta de empresa online de entrega de refeições, Manchester
Que repouso poderão ter estes novos proletários? Quando se realizam inquéritos sobre trabalho, repouso, remunerações, carreira, condições de vida, alguém lhes faz perguntas? E se faz, quantos se atreverão a responder? Quem, na classe média e da classe média para cima, gasta um segundo a pensar na vida do novo proletariado quando recebe a refeição trazida por um estafeta da Uber Eats ou se delicia com os mirtilos colhidos pelos nepaleses que trabalham nas explorações agrícolas do Sudoeste Alentejano?
Sob a fachada de estatísticas risonhas que dão conta da diminuição do tempo de trabalho e do concomitante aumento do tempo livre, e das propostas róseas dos visionários da semana de quatro dias e do rendimento universal garantido, ocultam-se duas realidades lúgubres: a dos que se deixaram agrilhoar a “trabalhos de treta”, abatidos pelo tédio e pela consciência da inutilidade e falta de sentido do seu labor; e a dos novos proletários assoberbados por jornadas de trabalho longas, desgastantes e parcamente remuneradas e angustiados com a possibilidade de serem despedidos a qualquer momento. Os segundos não têm tempo para nada, os primeiros não sabem o que fazer do tempo. Nem uns nem outros conhecem repouso e ambos vivem sob o espectro do esgotamento.
Greve de motoristas da Uber, Montparnasse, Paris, Fevereiro de 2016
Uma perspectiva peculiar
Corbin não fala de “trabalhos de treta” nem da “uberização da economia” e não gasta mais de meia dúzia de linhas com o burnout ocupacional. A sua História do Repouso é instrutiva, estimulante e plena de erudição, a sua prosa prima pela clareza, pela verve e pela elegância, as suas observações são pertinentes, mas Corbin deixa por analisar numerosos aspectos essenciais da história do repouso. Não é que Corbin seja dado à perífrase ou a divagações estéreis ou despropositadas, o que acontece é que o livro tem uma extensão modesta – são 123 páginas de texto e pouco mais de sete páginas de notas, em formato de bolso, com linhas generosamente espaçadas e margens amplas. O livro chega ao fim tão abruptamente que se fica com a impressão de que Corbin partiu precipitadamente para férias a meio da escrita…
O título sugere abrangência temática, geográfica e histórica, mas quem espere ter uma ideia de como se ocupavam os tempos livres no Antigo Egipto ou no Japão medieval ficará desiludido – para começar porque Corbin não parece interessado em abordar a componente quotidiana e concreta do repouso, por outro lado porque exclui completamente do escopo do livro as sociedades não-europeias. “História do conceito de repouso em França” seria talvez um título mais justo para esta dissertação sobre a forma como o repouso foi visto nos círculos intelectuais da Europa Ocidental e, em particular, da França – se exceptuarmos os textos sagrados judaicos e cristãos, praticamente todos os pensadores e autores convocados são franceses: Pascal, Bossuet, La Rochefoucauld, Montaigne, La Bruyère, Diderot, Xavier de Maistre, Victor Hugo, Baudelaire, Ronsard, Rousseau, Rodenbach, para citar aqueles a que concede mais espaço. Como se deduzirá destes nomes, História do Repouso centra-se no período que vai até ao final do século XIX; o século XX é aviado de forma sumária e das mudanças profundas ocorridas no século XXI (a ascensão da “economia do biscate” e do teletrabalho, o fim da ideia de que há um “emprego para a vida”) nada se diz.
O maior enviesamento do livro talvez seja o que decorre de a evolução do conceito de repouso ser entendida, quase exclusivamente, na perspectiva da elite intelectual, omitindo a da gente comum. Quando Corbin afirma que no século XVI o repouso (ou “retiro”) era visto como uma via para o auto-conhecimento, longe do tumulto do mundo, e que nos séculos XVII e XVIII o repouso decorria, frequentemente, da retirada da vida pública após a “queda em desgraça” junto da corte, não parece dar-se conta de que tal diz respeito apenas às classes possidentes, cujas obrigações laborais eram reduzidas ou nulas (e nunca tinham componente braçal) e possuíam (mesmo depois de “caírem em desgraça”) os meios necessários para passarem o resto da vida a organizarem as suas bibliotecas, a gozarem a frescura dos jardins dos seus châteaux e a passearem pelas suas herdades, entregues a ruminações sobre o sentido da vida e a natureza do tempo e do cosmos.
Michel de Montaigne (1533-1592), aqui num retrato de 1584 por Étienne Martellange, foi um dos autores clássicos que mais reflectiu sobre o repouso
As considerações de Montaigne, La Bruyère ou Baudelaire sobre o repouso são indiscutivelmente válidas e estimulantes, mas estão muito distantes das preocupações das massas do seu tempo, para quem a ideia de repouso provavelmente se ficava pela pausa por que anseia o corpo obrigado a exercer um esforço físico intenso e continuado, muitas vezes em condições insalubres e perigosas.
Quando La Bruyère elege “saúde, repouso e liberdade” como aspirações máximas de qualquer homem sensato, dá por adquirido que este tenha asseguradas as suas necessidades materiais – o que não é de estranhar, uma vez que, embora tivesse origens modestas, a herança recebida de um tio, aos 28 anos, lhe permitiu comprar o cargo de tesoureiro-geral na repartição de finanças de Caen, que gerava o pingue rendimento anual de 20.000 libras (e que, em jeito de bónus, lhe conferiu um pequeno título de nobreza). E Montaigne, que nasceu numa família nobre e abastada (um bisavô, que enriquecera a comerciar arenque, foi o primeiro a ostentar o título de Seigneur de Montaigne), reconheceu que a sua devoção ao prazer do repouso foi facilitada porque “a Fortuna nisso me ajudou, pois sendo a minha principal profissão na vida viver molemente […], ela me poupou a ter de multiplicar as riquezas para prover aos meus numerosos herdeiros” (capítulo IX dos Essais).
Escreve Corbin que, a partir do final do século XIX, se dá “uma revolução na história do repouso”, que deixa de ser visto como “um tempo para si, de quietude e recolhimento, passando simplesmente a constituir um período temporal legislado” (pg. 108), cujo intuito é combater “o risco de esgotamento e da fadiga nervosa e intelectual” (pg. 107), parecendo não se dar conta de que as diferentes perspectivas de repouso sobre as quais discorre dizem respeito a grupos sociais distintos. O que mudou no século XIX foi 1) a Revolução Industrial ter aumentado brutalmente o fardo dos trabalhadores comuns e 2) as elites terem começado a preocupar-se com a saúde física e mental dos trabalhadores, por um lado por recearem a sua sublevação (recorde-se a vaga de revoluções populares contra a ordem estabelecida que varreu a Europa em 1848), por outro porque, na nova economia pautada pela sofisticação tecnológica e organizacional, pela racionalização e optimização de processos e por uma competição intensa entre os produtores de bens e serviços de todo o mundo (uma consequência da intensificação da globalização), o desgaste dos trabalhadores se repercutir negativamente na produtividade e, logo, nos rendimentos das elites (a economia pré-Revolução Industrial era tão “tosca” que não fazia muita diferença a forma como era tratada a mão-de-obra, nem se esta se encontrava motivada ou abatida).
A semana de 15 horas (regresso ao Éden)
Uma das omissões inesperadas nesta História do Repouso diz respeito à transição da caça-recolecção (geralmente nómada) para a agricultura (geralmente sedentária), que representou uma decisiva (e muito discutida) mudança nos padrões de trabalho/repouso. Estima-se, com base no estudo das raras sociedades de caçadores-recolectores que sobreviveram até à actualidade, que este modo de vida requeria 15 a 20 horas de trabalho por semana, enquanto a agricultura “primitiva” requeria pelo menos o dobro desse valor. Um estudo realizado nas Filipinas pelo antropólogo Mark Dyble e publicado em Maio de 2019 na revista Nature: Human Behavior comparou subgrupos da tribo Agta e apurou que os que ainda viviam exclusivamente da caça-recolecção necessitavam de apenas dez horas de trabalho por semana (500 horas por ano) para prover às suas necessidades, enquanto os que combinavam o cultivo de arroz com alguma recolecção, precisavam de 30 horas (com o fardo adicional a recair principalmente sobre as mulheres).
Os Agta ou Aeta ou “Negritos das Filipinas”, numa ilustração de 1885
Há quem, perante estes valores, conclua que a adopção da agricultura foi um erro e que, daí em diante, toda a marcha da civilização foi um equívoco, que teve o seu auge durante a Revolução Industrial – em 1840, nas Ilhas Britânicas, o trabalhador médio labutava 3100-3650 horas por ano. Hoje, a média na União Europeia foi em 2022 de 1570 horas/ano, com extremo inferior nas 1340 horas dos alemães (com fama de trabalhadores zelosos e incansáveis) e extremo superior nas 1886 horas dos gregos (com fama de madraços); mas mesmo as 1340 horas dos alemães parecem um fardo pesado perante as 500-1000 horas/ano dos caçadores-recolectores. Talvez a narrativa bíblica dos primeiros tempos no Jardim do Paraíso seja uma memória remota e nebulosa de um tempo idílico em que (supostamente) a vida era doce e o sustento do homem apenas requeria que estendesse a mão para os frutos que a Natureza generosa lhe proporcionava.
“Adão e Eva no Paraíso Terrestre” (1827), por Johann Peter Wenzel
Claro que quem crê que teria sido mais sensato o Homo sapiens ter-se quedado pela caça-recolecção faz por ignorar os inúmeros inconvenientes associados a este modo de vida, como sejam 1) a breve esperança média de vida, em resultado não só de doenças, de episódios de fome extrema, da exposição à inclemência dos elementos, de acidentes e de incidentes envolvendo animais (nem todos os jantares se entregavam sem resistência), como da elevada taxa de homicídios (intra e intertribais); 2) a extrema penosidade que é enfrentar a velhice sem os confortos e alívios proporcionados pela ciência e pela tecnologia; ou 3) a pobreza de experiências e a estreiteza de horizontes (de que serve ter imenso tempo livre se não há nada para fazer?). As visões edénicas, pacíficas e harmoniosas da vida dos caçadores-recolectores, populares entre hippies, neo-hippies e a esquerda woke que vê na civilização ocidental a fonte de todos os males que têm afligido o mundo nos últimos seis séculos (ou até desde a Grécia Clássica), estão, provavelmente, mais longe da realidade do que o soturno quadro da vida pré-civilização esboçado por Thomas Hobbes num célebre trecho do Leviathan (1651): “sem registo do tempo; sem artes nem letras; sem sociedade; e, pior do que tudo, com medo permanente e risco de morte violenta; a vida do homem era solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”.
“Trabalho” (1896), pintura mural por Charles Sprague Pearce
O que fazer do tempo livre?
O tempo livre deixado pelo trabalho não corresponde necessariamente a repouso – mesmo descontando as tarefas domésticas, o tempo sobrante pode ser ocupado de diferentes formas. Ainda que na linguagem corrente as fronteiras entre os conceitos de “tempo livre”, “repouso” e “lazer” sejam nebulosas, é útil estabelecer distinções entre eles. Corbin escreve, na pg. 122, que, a partir de meados do século XX, “o lazer substitui o repouso. Ocupa o tempo deste e invade-lhe o espaço”. Embora (sem surpresa) Corbin não se dê ao trabalho de definir “lazer” e “repouso”, percebe-se o quer dizer: o repouso, entendido no sentido de busca da quietude, de criação de um nicho de espaço e tempo para si mesmo, foi definitivamente escorraçado pela indústria do lazer, que já andava a corroer o repouso desde finais do século XIX. O entendimento presente de “lazer” está mesmo nos antípodas do entendimento clássico de “repouso”, como se conclui imediatamente da consulta dos suplementos de lazer da imprensa e dos anúncios e prospectos que publicitam o lazer (duas modalidades de comunicação que tendem a confundir-se).
Em todo o mundo desenvolvido, implantou-se firmemente a ideia de que todo o tempo livre tem de ser investido num frenético carrossel de “actividades de lazer” (a palavra “actividades” deixa logo claro que nada disto tem a ver com repouso), onde se incluem viagens, passeios, excursões e visitas a museus, exposições, monumentos, catacumbas, catedrais, mesquitas, ruínas, miradouros, parques naturais, parques temáticos, oceanários, parques de diversões, cemitérios, feiras, certames, vinhas, adegas e geysers.
Turistas em torno da Fonte de Trevi, Roma, Dezembro de 2004
Deste carrossel faz também parte a prática de toda a sorte de desportos e de actividades físicas esdrúxulas (e potencialmente letais ou incapacitantes) que alguém se lembrou de rotular como desporto e a frequentação de espectáculos, festivais, performances, competições desportivas, saunas, termas, restaurantes, bares, gastrobares, sushibares, roulottes de bifanas e toda a galáxia de estabelecimentos devotados à bebida e à comida. A quem ainda reste uma nesga de tempo por preencher, propõem-se sessões de degustação e showcooking e workshops de escrita criativa, olaria, apicultura, mecânica relativista, tricot, maquilhagem, ilusionismo, quiromancia e levitação. Fica-se com a ideia que, mais importante do que escolher esta ou aquela “actividade de lazer”, é assegurar que não existam intervalos entre elas, que não haja uma fresta por onde o tédio ou os pensamentos sombrios possam insinuar-se. No já mencionado ensaio “Economic possibilities for our grandchildren”, Keynes alertava para o risco de a previsível e almejada redução do horário laboral ir confrontar o homem “com o seu real e eterno problema […], como ocupar o tempo de lazer que a ciência e os juros compostos conquistaram para ele”, mas o ilustre economista não foi capaz de prever que a indústria do lazer seria capaz de resolver o “real e eterno problema”, ao não permitir que o ser humano em lazer fique, por um minuto que seja, sozinho consigo mesmo.
Não é surpreendente que o banimento do repouso coincida com o triunfo do hipercapitalismo: por um lado, a nível conceptual, o repouso, entendido como quietude, contemplação e meditação, confunde-se com a preguiça, a passividade, o imobilismo, tudo pecados mortais na óptica dos textos sagrados do capitalismo – quem, numa era que exalta o “empreendedorismo” e o “sair da zona de conforto”, teria a audácia de reconhecer que “vive molemente”? Por outro lado, numa perspectiva prática, o repouso não é susceptível de ser comercializado: como pode extrair-se dinheiro que se veja a quem se contenta em ler livros caducos escritos por gente morta há séculos e cujo nome tombou no olvido, em fazer caminhadas solitárias pelos campos e em contemplar o solene cortejo das nuvens?
Com a inestimável ajuda de regimentos de “marqueteiros” crisóstomos, o hipercapitalismo há muito logrou a mercantilização total do tempo livre e nem sequer as ocupações mais íntimas e imateriais escaparam a este processo. A meditação deixou de ser uma demanda espontânea e pessoal e converteu-se numa mera técnica de redução de stress ou numa variante da “mindfulness”; pode ser aprendida em “workshops de meditação” a rescender a incenso e a charlatanismo Zen; e o seu fito não é produzir reflexões enriquecedoras mas esvaziar a mente e preenchê-la com “boas vibrações”. Quanto aos “retiros”, dantes vistos como um tempo de reclusão, despojamento e frugalidade, são hoje realizados em grupo, em acomodações luxuosas e dotadas de todos os confortos modernos, situadas em paragens exóticas; decorrem sob a permanente e afável supervisão de uma equipa de gurus, nutricionistas holísticos, instrutores de reiki e alinhadores de chakras e de acordo com regras e horários rígidos e detalhados; e constituem um momento de “consumo conspícuo”, destinado a ser “partilhado” na página pessoal do “Face” ou do “Insta”. Curiosamente, só a partir do momento em que se converteram ao puro materialismo é que os retiros passaram a ser designados como “retiros espirituais”.
Santani Wellness, Kandy, Sri Lanka: Não é preciso renunciar ao luxo e ao bom gosto para encontrar a Verdade Profunda
O triunfo do cansaço
Todas estas correrias – a do trabalho e a do lazer – são vãs, pois, como explica Byung-Chul Han, filósofo coreano radicado na Alemanha, em O aroma do tempo: Um ensaio filosófico sobre a arte da demora (Duft der Zeit: Ein philosophischer Essay zur Kunst des Verweilens, 2009), “a Era da Pressa, com a sua sucessão cinematográfica de presenças pontuais, não tem acesso ao belo e ao verdadeiro. Apenas na contemplação demorada , até mesmo em recolhimento ascético, podem as coisas desvelar a sua beleza, a sua essência fragrante”.
As classes média e média-alta do mundo desenvolvido estão cada vez mais descontentes com o trabalho, que vêem como fonte de frustração, ansiedade, stress psicológico e burnout, mas resignam-se a desempenhá-lo porque precisam dos rendimentos que ele proporciona para comprar as actividades de lazer de que julgam necessitar para se retemperarem do desgaste que o trabalho lhes causa, não se dando conta de que estão presas num círculo vicioso e de que no trabalho e no lazer, acabam por viver num estado de permanente tensão e agitação. A diminuição do horário médio de trabalho prevista pelos futurólogos das primeiras décadas do século XX redundou em três tremendas desilusões: 1) foi menor do que previsto; 2) deixou de fora amplos segmentos da sociedade; 3) e os segmentos que dela beneficiaram acabam por desbaratá-la. E assim, em vez da prometida sociedade do repouso, temos uma “sociedade do cansaço”, expressão escolhida por Byung-Chul Han para título de um seu livro de 2010 (Müdigkeitgesellschaft no original, The burnout society na edição inglesa).
A insatisfação, superficialmente analisada, gera ressabiamentos, quase sempre mal dirigidos: quem entende que o rendimento que aufere está abaixo do que merece, atribui a culpa às deficiências e corrupções do sistema democrático; quem se queixa do sufoco que é viver na Era da Pressa, refere-se a esta como se fosse alheia ao seu arbítrio e lhe fosse imposta por um regime totalitário ou resultasse de uma sinistra conspiração à escala global. Em A sociedade do cansaço, Byung-Chul Han contrapõe outra perspectiva: “A aceleração da vida contemporânea desempenha um papel na incompletude do ser. A sociedade da labuta e do sucesso não é uma sociedade livre. Gera novos constrangimentos. […] Nesta sociedade de compulsão, cada um carrega um campo de trabalhos forçados dentro de si. Este campo de trabalhos forçados define-se por cada um ser, simultaneamente, prisioneiro, guarda, vítima e perpetrador. Cada um explora-se a si mesmo: o que significa que a exploração é possível mesmo sem dominação”.
No mesmo livro, que é um recomendável complemento a História do Repouso, Han escreve: “Nunca estamos mais activos do que quando não fazemos nada, nunca se está menos só do que quando estamos connosco mesmos”, ecoando os trechos de Montaigne citados por Corbin nas pg. 36-37, que advogam o repouso e recomendam que, neste, cada um deve “conversar consigo mesmo, deter-se e concentrar-se em si mesmo”, ainda que evitando uma “ociosidade frouxa e letárgica”, e que “a melhor coisa do mundo é saber estar consigo mesmo”.