A deteção de malas sem dono e cheias de cocaína no aeroporto de Lisboa culminou esta terça-feira na detenção de duas pessoas e na constituição de três arguidos por suspeitas da prática dos crimes de tráfico de estupefacientes, de substâncias e métodos proibidos e branqueamento de capitais numa operação da Polícia Judiciária (PJ). Entre os arguidos da operação SKYS4ALL, figura o cantor Nininho Vaz Maia que, mais de 10 anos depois de ter cumprido pena de prisão domiciliária por se ter envolvido numa rixa, volta a lidar com a justiça: a sua casa, no Montijo, foi alvo de buscas.
Segundo apurou o Observador, o tráfico de droga começava no Brasil (e, com menor expressão, noutros países da América Latina) e chegava a Portugal por via aérea. No Aeroporto Humberto Delgado, a cocaína aparecia em malas e encomendas deixadas sozinhas, que eram recolhidas por um dos integrantes do grupo criminoso.
A PJ não revela como tinham acesso às bagagens estes suspeitos e não especifica se eram trabalhadores do aeroporto. Fonte ligada à investigação detalha apenas que as detenções não significam, necessariamente, que os três detidos teriam acesso às malas: bastaria apenas um deles para empreender a atividade criminosa.
A relação de Nininho com o esquema não é clara, mas fonte policial garantiu à Lusa que o músico “não está entre os principais alvos, nem é o centro da operação” SKYS4ALL — cujas diligências foram acompanhadas por um juiz de Instrução Criminal e um magistrado do Ministério Público. Segundo adiantou a CNN Portugal, o artista é suspeito de branqueamento de capitais associado ao tráfico de droga.
O crime de branqueamento de capitais é constatado quando, no seguimento de outra atividade ilícita, ocorre uma tentativa de tentar inserir no circuito legal dinheiro proveniente dessa ação criminosa, ‘branqueando’ esses ganhos. Este crime pode ser punível com uma pena de prisão de 2 a 12 anos, agravada no caso de Nininho por ter cadastro.
No total, os 80 elementos empenhados na operação SKYS4ALL cumpriram 33 buscas domiciliárias e não domiciliárias na Grande Lisboa, desde Loures à Margem Sul.
“A operação teve em vista a recolha de prova, sobre as presumíveis atividades ilícitas, de um grupo criminoso, que se dedicava ao tráfico de estupefacientes por via aérea e branqueamento de capitais”, lê-se num comunicado sobre a operação da responsabilidade da Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes da PJ, coordenada por Artur Vaz.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Cocaína entrava via Portugal para ser traficada na Europa
Depois de ser recolhida, a cocaína era traficada tanto em Portugal como em outros países europeus, sendo a capital portuguesa utilizada como porta de entrada para o mercado do ‘velho continente’. Na operação que desmascarou este esquema, a PJ apreendeu cinco carros, duas armas de fogo, elevadas quantias de dinheiro em numerário, material de comunicações e documentação.
Na casa de Nininho, onde os inspetores da PJ entraram cerca das 7h00 desta terça-feira, não terão sido apreendidos mais do que documentos, mas as provas recolhidas na investigação que “decorria há algum tempo” permitiram constituir arguido o cantor nascido no bairro da Picheleira, apurou o Observador. O cantor já prestou as primeiras declarações às autoridades.
Nininho Vaz Maia nunca escondeu o passado complicado com a justiça. O momento que o catapultou para a fama foi gravado quando cumpria pena de prisão domiciliária, como atestado pela pulseira eletrónica bem visível no seu tornozelo esquerdo.
Na única reação para já conhecida do artista, através da sua equipa de comunicação, é defendida a sua inocência, bem como a plena confiança na justiça.
“Foram realizadas buscas e o Nininho foi acompanhado para prestar declarações, colaborando desde o primeiro momento com as autoridades. Importa deixar absolutamente claro que o Nininho está inocente e que confiamos plenamente na Justiça e estamos certos de que tudo será esclarecido com brevidade”, escreveram, numa nota enviada aos jornalistas.
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Fama chegou através de vídeo a cantar com pulseira eletrónica
Deixem-me ser como sou, nem todos somos iguais
Assim cantava, na música “Soy Gitano” (Sou cigano), Nininho Vaz Maia, que nunca escondeu as suas origens ciganas apesar de admitir, num podcast da SIC Notícias, que não se revia em todos os aspetos da sua comunidade.
“Revejo-me menos no temperamento cigano. Nós somos criticados, mas também criticamos muito. Dizemos que não existe aceitação, mas não nos conseguimos integrar. O povo cigano está demorado a evoluir. Faz parte da nossa cultura, somos muito fechados”, disse na entrevista publicada em julho de 2024.
No Alta Definição da SIC, Avelino, nascido em 1988 no bairro da Picheleira, em Lisboa, confessa que o crime esteve presente na sua vida desde o princípio e que viu o próprio pai ser levado pela polícia: “Eu estava lá e, em tribunal, lembro-me de correr atrás da carrinha”.
“No meu bairro não se falava em sucesso. (…) Não me lembro de sonharmos ser um grande advogado, ou um grande dentista, ou até mesmo um grande futebolista. O futuro era incerto”, confidenciou nessa entrevista.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Para Nininho, o momento em que um projeto de integração social começou a aparecer no bairro mudou a sua vida para sempre. “Sem o acompanhamento daqueles profissionais, o mais provável era sair da escola e andar pelas ruas a fazer porcaria, a roubar”, desabafou.
Admite que cresceu “a pensar que um dia ia acontecer [ser preso]” e a sua intuição confirmou-se quando tinha 25 anos e se envolveu numa rixa. Por ter antecedentes criminais, cuja origem o próprio não revela, ficou mais de um ano em prisão domiciliária.
“Assisti a coisas que não quero que os meus filhos assistam. Pessoas mortas. Pessoas caídas porque assim foi a vida que escolheram, ou não conseguiram sair dela”.
Com o pai na prisão, emergiu na sua vida a figura de um tio que, “infelizmente, também foi preso”, relata, o que contribuiu para aumentar a sua revolta e solidão.
Visitava o pai semanalmente na prisão; uma dessas idas coincidiu com o seu aniversário, onde teve uma conversa com o pai que ainda hoje recorda. “Fazia anos no dia em que fui lá à visita. Ele disse-me: ‘O que queres que o pai te ofereça?’. Eu respondi: ‘Não quero nada, a maior prenda que me podes dar é curar-te”, relatou, emocionado.
“Em muitas fases da minha vida eu não era companhia de alguém”. Admitiu no Alta Definição que não hesitaria, novamente, em envolver-se numa rixa para defender um amigo, como aconteceu na noite que o levou a cumprir mais de um ano de prisão domiciliária.
“Era muito normal acontecer nos sítios onde parávamos, as mentalidades que paravam nesse espaço, sabíamos que 90% era muito provável no fim da noite pegarmo-nos uns com os outros”, resumiu. Para aliviar a raiva durante o ano de prisão domiciliária, dedicou-se à prática de artes marciais e cantava.
“Para mim não era compor, era desabafo. Até que um dia aconteceu, até que essa música foi para o YouTube e, sem perceber, já tinha mudado a minha vida”, descreveu no Alta Definição.
O vídeo, onde aparece apenas de calções e com a pulseira eletrónica, correu mundo e disparou-o para o estrelato. Em março de 2025, depois de ter privado com Cristiano Ronaldo, recriou esse momento, desta vez com uma pulseira falsa e sentado perante um Meo Arena lotado.