1232,8kWh poupados 1232,8 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

GettyImages-688526462
i

Getty Images

Getty Images

Isto nunca vai acabar, Jeff Buckley

Estreia-se no DocLisboa o documentário de Amy Berg sobre um dos mais geniais, inspiradores e fugazes compositores da história do indie-rock. Um filme que é uma história de beleza, drama e tragédia.

Toda a gente — e sei bem que quando se começa uma frase por toda a gente está-se inevitavelmente a generalizar, mas ainda assim arrisco na generalização — tem algures na vida um momento de epifania: aquele segundo em que o clube (que não é do pai, nem do tio) marca um golo e nos apercebemos que somos do FCP; ou quando vamos ao aniversário de um amigo do nosso melhor amigo e damos com alguém que nos faz pensar “esta vai ser a mãe dos meus filhos”.

A minha epifania ocorreu em Aveiro, no carro de um amigo que me deu boleia para casa – e lamento, mas esta história não vai ser tão interessante quando o início do parágrafo dá a entender. Até então, eu desmerecera a música de Jeff Bucley como AOR, sigla que indica a pouco entusiasmante categoria que dá pelo nome completo de Adult Oriented Rock; simplesmente, não conseguia compreender o que havia assim de tão original naquela música, que me parecia (perdoem) lamechas.

Não era a primeira vez que eu e o meu amigo tínhamos esta discussão – tempos antes eu despachara os Blue Nile com o mesmo argumento. Ainda por cima, tinham baixos slapados e sintetizadores – aquilo parecia-me música para divorciados de 40 anos e eu não tinha 40 anos, nem hipotecas nem filhos.

[o trailer de “It’s Never Over”, Jeff Buckley”:]

Mas, nessa noite, o meu amigo limitou-se a pôr uma canção a tocar no leitor de cassete do rádio: chamava-se Nightmares by the Sea e era de Sketches for My Sweetheart the Drunk, o disco póstumo, de 1998. Notem bem: Jeff Buckley já tinha morrido, eu ficara triste pelos meus amigos que eram fãs, mas até escutar Nightmares by the Sea eu nunca conseguira ter a ligação que eles tinham com a música dele.

Só que Nightmares by the Sea era outra coisa: muito mais negra e contida do que a emocionalidade à flor da pele (achava eu) de Grace, o disco de estreia (de 1994), muito mais próximo dos Television e do pós-rock, guitarras secas em duelo – e naquele instante fiquei apaixonado por aquela canção.

Isto levou-me a re-ouvir Grace, que passei a apreciar, mas ainda assim não com o grau de religiosidade que os meus amigos lhe prestavam. Até que fui ao cinema ver Breaking the Waves seguido de The End of the Affair. Foi nessa sessão dupla que surgiu um trailer qualquer que usava Lover, You Should Have Come Over, precisamente do álbum Grace – e nesse exato instante, fui tomado por uma emoção que desconhecia e tudo – os amores falhados, a morte de Jeff, a minha rejeição de anos a algo que era tão claramente o meu campeonato – abateu-se sobre mim e desatei a chorar (um senhor de idade simpaticamente pôs-me a mão no ombro e disse “Não se preocupe, isto nunca melhora”). Até hoje não sei qual o filme que usava a canção.

O que sei é que, desde então, Grace se tornou uma religião. E o mais ridículo é que eu já era fã do pai, Tim, e conseguira, com muito esforço e alguns empregos de verão para ganhar dinheiro e ir a Londres, comprar a discografia completa do Buckley mais velho – que, nesses dias, era difícil de determinar.

A Columbia descobre-o; numa entrevista perguntam-lhe o que herdou do pai; ele responde: “As pessoas que se lembravam dele”. Faz uma pausa e diz: “Próxima pergunta”. As editoras procuravam-no, ele decidiu escrever 100 canções em 5 semanas, tinha como heróis os Smiths e Dylan, recebia telefonemas sem fim de agentes, deixou a namorada para se concentrar na música.

Tal como era difícil de determinar a exata relação entre pai e filho, para lá das óbvias semelhanças físicas e também as que se registavam entre as 4 oitavas que ambos exibiam facilmente na voz. Passou tempo suficiente para que um documentário como It’s Never Over, sobre a vida de Jeff Buckley (e que se estreia entre nós esta sexta-feira, dia 17, no DocLisboa e que passa no Cinema Trindade, no Porto, dia 18 às 19h e dia 22 às 21h30), nos esclareça aquele milhão de dúvidas que tínhamos sobre a vida dele.

Mas agora, graças ao documentário, podemos ouvir a mãe do músico dizer que, aos 5 meses de vida do filho, sabia que Tim Buckley, um dos grandes compositores e intérpretes do século XX, não seria propriamente um grande pai – tinha outra mulher, estava concentrado em vencer como músico e simplesmente abandonou-a à sua sorte. Custa ouvir a mãe de Jeff dizer que sente que foi uma mãe falhada – e nós a pensar se não falharíamos facilmente nessa situação.

Num qualquer momento do seu crescimento, Jeff ficou com o pai durante uma semana – ao fim da qual Tim lhe comprou um bilhete de autocarro de volta para casa da mãe. É difícil avaliar o impacto que isto teve no rapaz: os amigos dizem que havia momentos em que ele se fechava em si próprio, e era incapaz de transmitir o que se passava dentro dele. Mas é claro que, maldição ou bênção, o filho herdou coisas do pai: apaixonou-se pela música da primeira vez que ouviu Ain’t no mountain high enough, de Diana Ross.

GettyImages-1318194562

▲ "Grace" trasnformou-se em algo mais do que um álbum. Tornou-se uma religião. E Jeff Buckley o xamã romântico que nunca vimos operar a sua magia em carne e osso

Getty Images

O padrasto introduziu-o aos Led Zepelin; aos 15 tocava Al Di Meola de ouvido todos os dias para treinar guitarra – o dom foi-lhe dado geneticamente, o amor paternal foi-lhe negado egoisticamente. Jeff – para avançar a história – foi viver para Nova Iorque, vivia de lavar pratos e tocava ocasionalmente – inicialmente, tocava versões e só havia meia-dúzia de pessoas a ouvi-lo; mas gradualmente foi introduzindo canções suas e o número de ouvintes aumentou (é fascinante ouvi-lo dizer que queria ser Nina Simone ou uma série de mulheres cantoras, com as quais se identificava).

Numa dessas noites a Columbia descobre-o; numa entrevista perguntam-lhe o que herdou do pai; ele responde: “As pessoas que se lembravam dele”. Faz uma pausa e diz: “Próxima pergunta”. As editoras procuravam-no, ele decidiu escrever 100 canções em 5 semanas, tinha como heróis os Smiths e Dylan, recebia telefonemas sem fim de agentes, deixou a namorada para se concentrar na música.

A parte do documentário que se dedica à gravação de Grace é fascinante – cada decisão tomada, como qual o arranjador de cordas, demonstra cabalmente o conhecimento musical que Jeff tinha, os riscos que estava disposto a correr e, obviamente, a sua extraordinária voz. Quando o disco saiu, toda a gente, desde Robert Plant a David Bowie, ficou rendida, emocionalmente abalroada pelo disco – exceto este vosso amigo, que precisou de um trailer de um filme, depois de ter visto Breaking the Waves, para chorar ao som de Lover, You Should’ve Come Over. Mas, ouçam, eu nunca disse que era inteligente.

"Grace" tinha sido uma compilação de tudo o que havia feito durante 27 anos e perguntava-se se precisava de outros 27 anos para fazer um novo disco. Talvez "Grace" tivesse sido um acaso e a única coisa que sabia com certeza era que não queria repetir tal feito.

Escuso de dizer: Grace tem tudo. Canções de dor de corno, de esperança, de adeus, versos de “por favor não me deixes”, e tem aquele “It’s never over” que me mata over and over (porque é que morreste, seu burro), tem riffs, tem cordas, tem ruído, tem melodias, tem versos que deviam ser tatuados abaixo da omoplata, tem aquela voz de quatro oitavas, tem jazz, tem quase metal, tem a puta da vida toda lá dentro, naquela preciso momento da vida em que se sente tudo com uma intensidade danada e é impossível tirar isto da pele, é impossível porque a dada altura Grace torna-se uma segunda pele.

Aimee Mann aparece para contar que ele a tentou seduzir, que ele tentava lidar com os seus traumas pinando (todo o respeito), que diz ser toda dada a fix a broken guy, que ele tentava lidar com os seus traumas bebendo e auto-medicando-se (todo o respeito), e a dada altura ela confessa ter-lhe dito “You need love, not sex” e, ouçam, uma vez entrevistei a Aimee Mann e ri-me durante uma hora, sendo que esta informação é irrelevante para o filme em questão, mas serve para chegar a este ponto: a ideia com que fiquei é de que Aimee Man é muito, muito perspicaz e dava um rim para ter assistido às conversas deles.

A parte do documentário em que Jeff Buckley se torna uma estrela é interessante neste sentido: Robert Plant diz-lhe que ele é o melhor cantor do mundo e Jeff desapareceu durante dois dias. Os amigos insinuam que começou aí um processo depressivo. A editora pressionava-o para fazer novo disco, ele não parava de andar em digressão e é muito diferente ser um desconhecido ou ter toda a pressão do mundo nos ombros.

GettyImages-688526964

▲ Na sua vida acidentada, não encontrou propriamente paz – mas pegou nos seus traumas, no desamor do seu pai, na sua intensidade e fez das canções mais viscerais e arrebatadoras que alguma vez ouvimos

Getty Images

Jeff não se sentia capaz de fazer um segundo disco e punha tudo em causa. Grace tinha sido uma compilação de tudo o que havia feito durante 27 anos e perguntava-se se precisava de outros 27 anos para fazer um novo disco. Talvez Grace tivesse sido um acaso e a única coisa que sabia com certeza era que não queria repetir tal feito. E, ao mesmo tempo, era perseguido pelos seus traumas: ter vivido mais do que o pai pareceu-llhe uma vitória; mas quando isso aconteceu, quando passou esse marco, também disse aos amigos que não iria viver muito mais tempo.

Há um telefonema dele para a mãe, que ouvimos, que é de deixar o coração mais cheio de amor completamente gelado. Noutro testemunho ele admite não saber como “ser um homem” e se algum rapaz estiver a ler isto: amigo, nenhum de nós sabe e está na altura de não pensarmos mais nesses termos. Mas a dor dele era real: ele precisava de um modelo de como atuar e nunca o tivera. Nunca tivera um pai.

Os sinais de desintegração parecem acumular-se: ele achava que tinha um tumor no cérebro, dizia que não ia viver muito mais tempo, desafiava a editora – e, de súbito, liga à banda, a dizer que finalmente as canções estavam a chegar ao lugar que ele queria. E tão depressa como tinha caído num buraco, estava feliz.

Quando a banda aterra de avião na terra onde ele vivia, estava ele a mergulhar no rio – e morreu. E nunca saberemos se o quis ou se foi um acidente (embora saibamos que não tinha drogas no corpo). O que sabemos é que na sua vida acidentada, Jeff Buckley não encontrou propriamente paz – mas pegou nos seus traumas, no desamor do seu pai, na sua intensidade e fez das canções mais extraordinárias, viscerais, arrebatadoras que alguma vez ouvimos. E sabemos mais uma coisa: este não é o nosso último adeus. Não há adeus enquanto um de nós se comover com as tuas canções, querido Jeff.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.