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A forma como os livros de Jane Austen se tornaram indispensáveis entre livrarias e bibliotecas e como as suas histórias se mantêm omnipresentes, porém, contrasta diretamente com a pessoa que as escreveu e o que sabemos sobre ela
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▲A forma como os livros de Jane Austen se tornaram indispensáveis entre livrarias e bibliotecas e como as suas histórias se mantêm omnipresentes, porém, contrasta diretamente com a pessoa que as escreveu e o que sabemos sobre ela

▲A forma como os livros de Jane Austen se tornaram indispensáveis entre livrarias e bibliotecas e como as suas histórias se mantêm omnipresentes, porém, contrasta diretamente com a pessoa que as escreveu e o que sabemos sobre ela

Jane Austen aos 250 anos: cinco datas que explicam uma vida (e uma obra) de "acontecimentos, conquistas e traumas"

Uma biografia até agora inédita em Portugal ajuda a conhecer uma escritora tão afamada quanto desconhecida. Ao fim de 250 anos do seu nascimento, quem foi Jane Austen?

Não é preciso ser particularmente bibliófilo ou leitor voraz para já ter ouvido falar no nome de Jane Austen ou, pelo menos, ter sido exposto ao seu legado. De Sensibilidade e Bom Senso a Persuasão, a escritora britânica ajudou a redefinir o romance (tanto na forma literária e como no tema narrativo) e deixou uma marca cultural inescapável, na influência e na quantidade de adaptações cinematográficas ou televisivas que a sua obra originou: umas literais, outras não.

A forma como os seus livros se tornaram indispensáveis entre livrarias e bibliotecas e como as suas histórias se mantêm omnipresentes, porém, contrasta diretamente com a pessoa que as escreveu e o que sabemos sobre ela. “Jane é tão inapreensível como uma nuvem no céu nocturno”, escreve Claire Tomalin na reta final de Jane Austen — Uma Biografia. Publicado originalmente em 1997, mas até agora inédito em Portugal, é ainda hoje um dos retratos mais definitivos da vida de Austen, publicado entre nós pela Relógio d’Água no momento em que se assinalam os 250 anos do nascimento da escritora.

O que levou Tomalin — experiente biógrafa, que até aqui já tinha traçado as vidas de Mary Wollstonecraft, Percy Shelley e Katherine Mansfield, e ainda faria o mesmo a Samuel Pepys, Thomas Hardy e Charles Dickens — a fazer tal admissão? O facto de Austen, pelo recato que era exigido às mulheres no período da Regência, ter vivido num anonimato auto-imposto, mas particularmente por este ter depois sido perpetuado pela sua família, nem sequer figurando na sua lápide original que era uma escritora.

O que Jane Austen me ensinou sobre a vida, o amor e filmes de qualidade duvidosa

“Não é uma história fácil de investigar. Jane Austen não escreveu notas autobiográficas, e se manteve algum diário, este não chegou até nós. A irmã destruiu a maior parte das cartas que recebera dela, uma sobrinha fez o mesmo com as que haviam sido preservadas por um dos irmãos de Jane, e apenas sobreviveram um punhado delas, de outras fontes. No total temos 160 cartas de Jane Austen, e nenhuma da sua juventude; a mais antiga que se conhece data dos seus vinte anos”, avisa Tomalin logo no início deste livro. É por essa razão que a biógrafa, numa sessão pública logo após a publicação desta obra, admitiu que preferia “ter chamado a este livro uma ‘abordagem’, em vez de uma biografia, no sentido de que ele só pode ser uma abordagem a uma figura tão grande e tão defendida como Jane Austen”.

A expressão “defendida” refere-se ao facto de, mesmo nas cartas que sobreviveram à “destruição seletiva” de Cassandra Austen, a irmã de Jane ter cortado partes possivelmente comprometedoras ou indiscretas com o intuito míope mas bem intencionado de proteger a sua imagem. O resultado é que isso “deixa a impressão de que a sua irmã só se dedicava a coisas triviais”, sendo que “as cartas são enfadonhas, chegando a soar como uma tagarelice de comediante”. “Temos de ter sempre presente quão pouco estas cartas representam a sua vida real, que constituem uma versão censurada e forjada”, alerta Tomalin, razão para que, por exemplo, pareça que Austen nunca teve interesse em falar sobre política, sobre as guerras napoleónicas ou sobre os direitos das mulheres.

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▲ O único retrato verificado de Jane Austen, esboçado pela irmã Cassandra.

Universal Images Group via Getty

A frivolidade que parece transparecer destas missivas ajuda a explicar porque é que, do retrato que foi possível de fazer de Jane Austen, o que se tornou majoritário é o de uma mulher apaziguada, que manteve-se solteira e virginal toda a vida até à sua morte precoce aos 41 anos, dedicando-se a criar os seus sobrinhos. Mas essas cartas não foram as únicas responsáveis. Os seus familiares também ajudaram a passar essa ideia, a começar pelo seu irmão Henry, que foi quem assinou a primeira nota biográfica a atribuir a autoria destes romances a Jane em 1817, afirmando que a sua vida “não teve grandes acontecimentos”. O principal culpado, porém, apareceria 50 anos depois. Autor da primeira biografia da escritora, James-Edward Austen-Leigh, cimentou a imagem da tia no período vitoriano como casta e doméstica, escrevendo apenas como hobby. “A sua vida foi singularmente desinteressante: poucas mudanças e nenhuma grande crise que tenha interrompido a tranquilidade do seu curso”, escreveu, com as estas palavras a colar-se assim à autora.

Só apenas em meados do século XX é que essa figura cristalizada de Jane Austen começaria a ser desafiada, naquela que foi a primeira biografia independente a ser escrita sobre a escritora, Jane Austen: A Biography, publicada por Elizabeth Jenkins em 1938. Desde então, ainda que com dificuldade, mais e mais se tem investigado e escrito sobre a autora, ajudando assim a criar um retrato multidimensional. Já em 1997, Tomalin afirmava que Austen teve “uma vida cheia de acontecimentos, conquistas, de angústias e até de traumas, que lhe deixaram marcas tão permanentes como as de qualquer fábrica de graxa”. Estas são cinco datas que ajudam a explicá-lo.

16 de dezembro de 1775 — O nascimento

Jane Austen nasceu no presbitério de Steventon, uma aldeia no Hampshire, a apenas 80 quilómetros de Londres, mas já profundamente rural. “Não viviam mais de trinta famílias em Steventon, que era uma fila única de casas a alguma distância do presbitério; e na aldeia não havia nenhuma loja, nem sequer uma taberna”, escreve Tomalin.

Sétima filha do casal de Cassandra e George Austen, “Jenny” foi encarada pelos pais como “um presente e um brinquedo para a sua irmã”, já que os outros cinco irmãos mais velhos eram todos rapazes — depois de si, só viria mais um, Charles. Chegou um mês depois do previsto, num inverno particularmente rigoroso, o que forçou a que apenas fosse batizada em abril do ano seguinte pelo seu pai, que era o pároco de Steventon e da aldeia vizinha de Deane.

Uma das perversões no relato de James-Edward Austen-Leigh é que elevou a família Austen acima do seu real nível social, dando a entender que eram de classe média alta quando eram bem mais remediados. Em abono da verdade, havia Austens e Leighs (o lado da mãe) abonados, mas George e Cassandra vieram de ramos mais modestos das respetivas famílias, compensando em espírito intelectual e laborioso o que lhes faltava em dinheiro.

Na verdade, segundo Tomalin, quando Jane Austen nasceu o seu pai “estava muito endividado, devendo dinheiro a muita gente” porque “o seu rendimento anual era baixo, cerca de duzentas libras, proveniente dos dízimos combinados de Steventon e de Deane”. Como tal, e por ser sempre cumpridor, “os seus registos mostram um perpétuo malabarismo entre pagamentos de dívidas e novos empréstimos”. Para suplementar os seus parcos rendimentos, além de produzir bens agrícolas que depois tentava vender, George “começou a aceitar alunos”, já que “com os seus sete quartos e mais três no sótão, o presbitério era suficientemente grande para ser transformado numa pequena escola”.

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▲ A igreja de Steventon, da qual George Austen era o pároco.

The Washington Post via Getty Im

Criar tantos filhos não só era dispendioso — o que explica em parte a precariedade da família — como era logisticamente complicado, especialmente tendo de acolher ainda os alunos de George. É por isso que, segundo a biógrafa, a matriarca Austen desenvolveu um sistema que hoje seria alvo de reprovação: “A sua prática era amamentar cada bebé durante alguns meses para garantir um bom começo” e depois “entregar a criança a uma mulher da aldeia para que cuidasse dela durante mais um ano ou dezoito meses, até ter idade suficiente para ser facilmente cuidada em casa”.

Como aponta Tomalin, “do ponto de vista físico, o sistema funcionou muito bem”, já que nenhum filho morreu precocemente, contrariando a taxa de mortalidade infantil da época. Além disso “os Austens interessavam-se pela virtude, mas também estavam profundamente interessados no sucesso”, sendo que “o seu sistema de educação dos filhos funcionou notavelmente bem” e quase todos “cresceram fortes, sem tendência para a auto-compaixão e notáveis pelo seu afeto e apoio mútuos”. A exceção foi George, o segundo rapaz, que “não regressou de casa da ama na aldeia” porque “era epilético e não se desenvolveu normalmente”. No caso de Jane, o seu futuro como escritora foi auxiliado por ter aprendido a ler e escrever em casa, servindo-se principalmente da biblioteca do pai e da tolerância deste em ter uma filha a experimentar a escrita.

No entanto, a biógrafa identifica nesse método da mãe de Jane um mácula que afetaria o percurso da escritora, mesmo que entregar bebés a amas fosse prática comum na época. “No caso de Jane, a distância emocional entre a filha e a mãe é óbvia ao longo de toda a sua vida; e não apenas entre ela e a mãe. O aspeto mais marcante das cartas de Jane na idade adulta é a sua atitude defensiva. Carecem de afeto tanto para consigo própria como para com os demais. Percebe-se o ser humano interior, profundamente vivo e sensível, mas na maior parte das vezes deparamo-nos com uma couraça; e por vezes vemos estender-se uma garra e um duro remoque a algo que a tenha ofendido. São cartas de alguém que não abre o seu coração; e na mulher adulta que evita a intimidade sentimos a criança que não sabia ao certo de onde esperar amor ou encontrar segurança, e que se couraçou contra a rejeição.”

2 de dezembro de 1802 — O noivado que durou menos de 24 horas

Apesar de ajudar a redefinir como se estabelecem relações românticas credíveis e bem desenvolvidas numa obra literária, Jane Austen nunca casou e — tanto quanto se sabe — poucos momentos de intimidade teve ao longo da vida. Isso deveu-se em parte a má sorte mas, essencialmente, a uma decisão que tomou na mansão dos Bigg-Wither em Manydown.

Austen e a irmã eram próximas desta família e vieram passar várias temporadas aqui, sendo que, em maio de 1802, um dos herdeiros “de uma fortuna considerável”, Harris Bigg-Wither, tinha atingido a maioridade ao fazer 21 anos. Jane estava prestes a fazer 27 e era ainda um bom partido, sendo que “independentemente de Harris achar ou não que estava apaixonado por Jane, certo é que concluiu que ela daria uma boa esposa e pediu-a em casamento.” A escritora aceitou-o, sendo que “toda a família ficou deliciada com a notícia” e “a noite foi passada em felicitações e foram todos deitar-se muito satisfeitos.”

Casando-se com Bigg-Wither, Jane Austen “iria agora tornar-se na futura senhora de um casarão e de uma grande propriedade no Hampshire, a escassas milhas da aldeia onde nascera”. Além disso, seria capaz de apoiar toda a família financeiramente tendo “como marido um jovem perfeitamente decente”. No entanto, a escritora sabia que iria unir-se a uma pessoa que não amava, pelo que “passou a noite acordada, como uma heroína de romance que não consegue dormir, oprimida por demasiadas emoções”.

Na manhã seguinte, informou o seu pretendente “com toda a delicadeza de que era capaz, que havia cometido um erro e que, afinal, não poderia casar-se com ele. Estimava-o, sentia-se honrada com o seu pedido de casamento, mas, depois de pensar melhor, percebera que a estima e o respeito não eram suficientes e que não estaria a ser justa ou correta com ele se aceitasse o seu pedido”.

▲ Tom Lefroy, de paixoneta juvenil de Jane Austen a importante figura do sistema judicial irlandês

Para Tomalin, para esta recusa terá certamente pesado o facto de Jane Austen já se ter apaixonado verdadeiramente, mas por outro homem, sendo assim capaz de compreender “o abismo que existia entre a verdadeira felicidade e sonhos ilusórios”. O jovem em questão era Tom Lefroy, membro de uma outra família próxima dos Austens, sendo que os dois cortejaram-se quando Jane tinha 20 anos. “Deve ter havido entre eles algo mais do que dançar e conversar: beijos, ou pelo menos uma aceleração do pulso ou da respiração”, assume a biógrafa. “Chegou o dia em que vou namoriscar pela última vez com o Tom Lefroy, e quando receberes esta carta, tudo terá terminado — correm-me pelo rosto as lágrimas neste momento, perante ideia tão melancólica”, escreveu à irmã Cassandra, pendendo entre a ironia e a sinceridade.

O problema é que este relacionamento nunca poderia ir para a frente, já que, tal como os Austens, os Lefroy também não eram abonados. “As expectativas de toda a família estavam claramente depositadas em Tom, e não se podia permitir que ele arriscasse o seu futuro envolvendo-se amorosamente com uma rapariga que não tinha um tostão”, escreve Tomalin. Como tal, a mãe não arriscou e enviou-o de volta para a Irlanda, onde teria uma grande carreira em direito, chegando a presidente do Supremo Tribunal do país. Jane nunca mais voltou a vê-lo, sendo que Lefroy admitiria na velhice a um sobrinho que tinha tido um “amor de juventude” por Austen.

No entender de Tomalin, “esse encontro com o jovem Tom Lefroy foi talvez para Jane Austen uma experiência de importância secundária, embora dolorosa, mas o que dela extraiu foi algo bem diferente. A partir de agora, ela sabia por experiência própria, e não apenas por ter lido em livros e peças de teatro, o que era a vulnerabilidade sexual; o que significava ser fascinada por um perigoso estranho; o que era ter esperança, sentir o sangue a ferver, estremecer, recuar, o que era ansiar por algo que não se vai ter e que é preferível não mencionar. A sua escrita passa a ser influenciada por esse conhecimento, que subjaz sombriamente ao lado cómico da mesma.”

É possível assumir que foi também essa vertigem que a levou a rejeitar Bigg-Wither, tal como não levara a sério o jovem reverendo Samuel Blackall, apresentado juntamente pela mãe de Tom Lefroy. “O lacónico relato de Jane sobre os encontros que se seguiram sugere que o senhor Blackall lhe expôs com pesada obviedade as suas esperanças e necessidades, mas não a conseguiu cativar. As oportunidades de conversa entre ambos devem ter sido cuidadosamente planeadas em ambos os presbitérios. Jane não se deixou entusiasmar por ele nem pela situação” e o pretendente nunca chegou a fazer um pedido de casamento.

De resto, tanto quanto se sabe houve apenas mais um caso que Austen terá tido durante uma estadia de verão, mas é tão misterioso quanto improvável, tendo sido apenas transmitido por Cassandra a uma sobrinha quando já era uma mulher idosa. Segundo ela, ambas travaram amizade “numa povoação costeira de Devon, com um homem que parecera gostar de Jane, ao ponto de perguntar se poderiam encontrar-se de novo no verão seguinte”, sendo que Cassandra “ficou com a impressão de que o interesse dele era correspondido por Jane”, mas “quando voltaram a ouvir falar do homem, foi para descobrir que ele havia morrido; não houve um segundo encontro no verão seguinte, e a história terminou aqui”. Até hoje mantêm-se investigações para tentar descobrir quem foi esse misterioso amante.

O que é certo é que, após Harris Bigg-Wither, Jane Austen nunca mais teria um pretendente sério à sua mão. Se tivesse aceitado, é altamente improvável que viesse a escrever obras como Mansfield Park e Emma; ao não fazê-lo, “foi a última vez que ela encarou seriamente a possibilidade de se casar e ter filhos. Depois, tal como Cassandra, ela apressou-se a adotar as atitudes duma mulher de meia-idade.”

De 1801 a 1809 — O “silêncio”

Jane Austen começou a escrever aos 12 anos, demonstrando um talento extraordinariamente precoce. O seu trabalho enquanto adolescente chegou parcialmente até nós através de três cadernos com rascunhos, versos e histórias que sobreviveram à passagem do tempo e estão hoje guardados em bibliotecas no Reino Unido. Com a chegada à idade adulta, essa aptidão confirmou-se: entre os 18 e os 20 anos concebeu a novela Lady Susan (que só seria publicada muito depois da sua morte) e entre os 20 e os 23 escreveu os primeiros manuscritos de Sensibilidade e Bom Senso, Orgulho e Preconceito e Abadia de Northanger — na altura com os títulos provisórios Elinor and Marianne, First Impressions e Susan, respetivamente.

“Se um autor chega aos vinte e cinco anos com três romances notáveis no currículo, seria de pensar que está bem encaminhado para o sucesso, e que tem a fama, a riqueza e a felicidade ao alcance da mão”, escreve Tomalin. Esse era o futuro à partida fadado para Jane Austen, só que esta “emudeceu”. “Nos dez anos seguintes não escreveu quase nada, e só no verão de 1809, a caminho dos trinta e cinco anos, é que retomou os ritmos de escrita que tinha aos vinte”, aponta.

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▲ Com duas distinções da UNESCO, Bath é das mais históricas e apetecíveis cidades do Reino Unido. Jane Austen discordaria

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A que se deveu este hiato? No entender da biógrafa, à decisão surpreendente dos pais do clã Austen decidirem em dezembro de 1800 trocar Steventon pelas águas termais de Bath e levar a família consigo, efetivando-se em maio de 1801. “A expulsão de Steventon acarretou graves dificuldades de ordem prática, e provocou a Jane uma depressão tão profunda que a incapacitou como escritora. A depressão pode ser desencadeada pela repetição de uma experiência negativa, e parece provável que tenha sido isso o que aconteceu no seu caso. Primeiro em bebé e depois aos sete anos”, escreve Tomalin.

A escritora refere-se assim a uma fase da vida de Jane Austen em que esta foi enviada com a irmã Cassandra para um colégio interno de raparigas em Oxford, uma espécie de traição dos pais que se sucedeu ao desmame quando era bebé. Para piorar, não só as condições da escola eram péssimas — o que era a norma na Inglaterra deste tempo — como ela e a irmã quase morreram por apanhar febre tifoide, sendo salvas pela mãe, que as levou de volta para casa.

Curiosamente, Tomalin considera que essa experiência também pode ter sido formativa à sua faceta de escritora, sendo que o mesmo aconteceu a uma autora sua contemporânea, Maria Edgeworth. “Jane descreveu-se como uma criança tímida, e as crianças tímidas fecham-se em si próprias quando se sentem infelizes; uma coisa em que uma criança de sete anos pode refugiar-se é ler todos os livros que lhe caiam nas mãos. Os mundos dos outros proporcionam uma escapatória. Depois, é possível que a sua própria imaginação lhe tenha fornecido outra via de fuga”, afiança; mais à frente no livro lembra como “enquanto recuperava dos anos passados no colégio, Jane descobriu que tinha o poder de entreter a família com as coisas que escrevia” e “ao mesmo tempo, desenvolvia através da escrita um mundo imaginário no qual podia controlar todos os acontecimentos”.

▲ A biografia escrita por Claire Tomalin, publicada pela Relógio D'Água

Regressando a 1801, a biógrafa defende então que este “novo exílio” terá contribuído para o emudecimento da via criativa de Austen, já que “dependia condições de trabalho específicas, que lhe permitiam abstrair-se do quotidiano à sua volta”, o que perdeu na ida para Bath pois “retirá-la de Steventon significou destruir o delicado padrão de vida que havia criado, no qual podia ocupar o seu lugar dentro da família, mas ao mesmo tempo abstrair-se dela quando precisava”. Poucas cartas desses primeiros tempos na cidade sobreviveram, mas numa delas a escritora é inequívoca:“outra festa estúpida ontem à noite; talvez fossem menos insuportáveis se tivessem mais gente”, seguindo-se a admissão “já não consigo suportar as pessoas”.

A isto somaram-se os fatores destabilizadores de origem amorosa já descritos e as desilusões junto do mundo editorial —já lá iremos —, mas a verdade é que a autora tentou começar um romance novo, Os Watsons, muito mais negro que as suas outras obras, provavelmente pela fase que a autora atravessava. No entanto, esta abandonou-o subitamente pelas razões que Tomalin descreve:

“A primeira coisa que nele chama a atenção é que se trata da história de um grupo de mulheres jovens quatro irmãs elas solteiras e com pouco dinheiro, e que procuram, de forma mais ou menos desesperada, remediar a sua situação antes que o seu pai inválido morra, circunstância a partir da qual sabem que ficarão numa situação ainda pior. Por enquanto, têm pelo menos onde morar; mas como o pai delas, o senhor Watson, é pároco, quando ele morrer perderão também a casa onde vivem. A similaridade com a situação de Jane e Cassandra é óbvia, e torna-se ainda mais notável porque, quando ela pensava matar a personagem Watson, teve de enfrentar a morte do seu próprio pai, em janeiro de 1805. Nesse momento, Jane Austen abandonou para sempre esse romance”.

A morte de George Austen deixou as mulheres da família desamparadas, já que todas elas dependiam dos seus rendimentos, e se “a senhora Austen e Cassandra possuíam um pequeno capital próprio, que lhes proporcionaria mais umas duzentas libras por ano. Jane não tinha nada.” Dependendo dos irmãos para sobreviver e encarando a séria possibilidade de cair na pobreza, somou-se aqui outro fator a contribuir para a ausência de escrita da autora neste período, com ela, a irmã e a mãe a mudar frequentemente de casa e a fazer visitas aos familiares nos anos seguintes.

Felizmente para si, o seu irmão Edward tinha sido adotado como herdeiro legal por uns tios ricos e sem filhos do lado do pai, os Knight. Encarando a situação da mãe e das irmãs, ordenou que uma das suas propriedades, a casa de campo de Chawton, fosse remodelada para que pudessem ir para lá morar. Foi o que aconteceu a 7 de julho de 1809, sendo que Tomalin considera o fator definitivo para o fim do hiato criativo. “O efeito dessa mudança para um lar permanente, na qual pôde restabelecer o seu próprio ritmo de trabalho, foi notável para Jane. Era como se tivesse sido devolvida a si mesma, à sua imaginação, a todos os seus poderes: dissipara-se uma nuvem negra. Quase de imediato, começou de novo a trabalhar. Tirou da gaveta Sensibilidade e Bom Senso e começou a revê-lo.” Dois anos depois, finalmente uma das suas obras seria publicada.

England, Hampshire, Chawton, Jane Austen's House and Museum

▲ A residência de Chawton, onde a escritora se reconciliou com as letras. Hoje é a Casa-Museu Jane Austen

Universal Images Group via Getty

Outubro de 1811 — A publicação de “Sensibilidade e Bom Senso”

Como já foi aludido, apesar do seu talento precoce, Jane Austen só publicaria o seu primeiro romance aos 35 anos de idade, mas tal não se deveu meramente às circunstâncias de vida que a escritora enfrentou. O caso podia ter sido bem diferente se, em novembro de 1797, o editor Thomas Cadell, de Londres, tivesse respondido de outra maneira à proposta do pai da autora em publicar First Impressions, ou seja, Orgulho e Preconceito.

“Como tenho plena consciência de como é importante que uma obra deste género seja apresentada ao público sob uma chancela digna de toda a consideração, recorro a si”, escreveu George Austen. Sem mencionar o nome da filha, perguntou ainda “qual seria o custo de o publicar ‘a expensas do autor; e quanto é que o senhor arriscaria e adiantar pelos direitos de autor no caso de, depois de lido, o aprovar’”. A resposta chegou rápida: o manuscrito foi devolvido e nele vinha escrito “Recusado. Devolver ao remetente”. “Em matéria de gafes editoriais, esta foi uma das piores alguma vez cometidas por preguiça”, sugere Tomalin.

Jane Austen sofreria um dissabor ainda pior seis anos depois, quando o seu irmão Henry tratou de delegar a um advogado seu conhecido a tarefa de propor o manuscrito de A Abadia de Northanger — que na altura ainda se chamada Susan — ao editor Richard Crosby, também ele londrino. “Crosby pagou dez libras pelo manuscrito e prometeu publicá-lo em breve”, sendo que anunciou-o “num folheto chamado Flowers of Literature, onde se declarava que o mesmo estava ‘nos prelos’”, escreve Tomalin. O problema é que “depois disso nada mais aconteceu”, tendo esta situação a agravante de que “as esperanças de Jane haviam sido alimentadas pela aceitação da obra.”

Por fim, já em Chawton e depois de voltar a rever os seus manuscritos, Jane Austen conseguiria finalmente ver um livro seu publicado, tendo Henry conseguiu negociar com Thomas Egerton a edição de Sensibilidade e Bom Senso. “Só aceitou publicá-lo à comissão, o que significaria que a autoria pagaria a impressão do livro, assim como a sua distribuição e publicitação, conservando os seus direitos sobre a obra”, recorda a biógrafa. Estima-se então que o romance tenha sido publicado a 30 de outubro, pois no dia seguinte foi anunciado um jornal como “um romance inédito escrito por uma dama” — “uma dama” era, de resto, o nome que Austen escolhera ao invés do seu, visto que qualquer mulher respeitável “evitava naturalmente qualquer notoriedade pública”.

A família e os amigos mais próximos sabiam que Jane Austen era a responsável, até porque tinha o hábito de ler passagens em casa, mas esta “implorou-lhes que não divulgassem que era ela a autora”. Tomalin explica porquê, recorrendo ao depoimento de uma outra romancista do mesmo período, Mary Brunton: “‘Ser apontada pelas pessoas, ser alvo de olhares e comentários, suspeitar que te atribuem ares de literata, ser ostracizada como costuma acontecer às mulheres de letras até pelas mais modestas escritoras, e detestada pelos autores masculinos! Não, minha querida, preferiria exibir-me como funâmbula”.

▲ Hugh Grant e Emma Thompson como Edward Ferrars e Elinor Dashwood na adaptação de 1995 de "Sensibilidade e Bom Senso"

Columbia/Tristar

Independentemente do anonimato, o livro teve sucesso, recebendo boas críticas e sendo “apreciado pelo beau monde, pelas pessoas cujo gosto e opiniões eram mais influentes”, tendo inclusive como fã a princesa Charlotte, herdeira da coroa. E mesmo que Austen não pudesse granjear da adulação pública, houve outra coisa tão ou mais importante a acontecer: o livro deu um lucro de 140 libras. “A importância que para ela teve esse primeiro dinheiro ganho por si própria pode ser mais bem apreciada por mulheres que tenham passado por uma situação de dependência semelhante. Significava não apenas sucesso, por muito modesto que fosse, mas também liberdade; agora estava em posição de tomar uma ou outra decisão, como oferecer presentes ou planear uma viagem. Uma ordem fixa havia sido alterada”, escreve Tomalin.

Dois anos depois da publicação de Sensibilidade e Bom Senso seguiu-se a de Orgulho e Preconceito, sendo que desta vez Egerton comprou os direitos de autor por 110. “O romance foi anunciado como sendo ‘da autora de Sensibilidade e Bom Senso’ e vendido mais caro que o primeiro, a dezoito xelins. Foi de imediato acolhido com críticas extremamente favoráveis”, aponta Tomelin, sendo que, uma vez mais, “Jane Austen não tomou parte em toda essa agitação” pois “preservava o seu anonimato em Chawton, sozinha com a mãe”.

A partir desta localidade, Austen entraria na segunda fase altamente produtiva da sua vida: escreveu Mansfield Park (publicado em 1814), Emma (em 1815) e Persuasão (já editado postumamente), além de conseguir recuperar o manuscrito de A Abadia de Northanger, “devolvendo a Crosby as dez libras que ele lhe havia pago”. Sem nunca tornar-se numa atividade que lhe desse total estabilidade financeira, foi apreciando algum sucesso e o seu anonimato foi sendo cada vez mais mal guardado. É daí, aliás, que surge a história de como o príncipe regente, o futuro Jorge IV, acabaria por pedir por intermédio do seu bibliotecário uma dedicatória à sua pessoa no frontispício de Emma. Não tendo grande escolha — porque “uma sugestão real significava uma ordem” —, Austen deverá ter-se sentido tão lisonjeada quanto repugnada por ter partido de quem partiu, já que tinha muito má opinião do monarca e da forma como este tratava a sua mulher, Carolina de Brunsvique. “Pobre senhora, vou apoiá-la enquanto puder, porque é mulher e porque detesto o marido dela”, escreveu numa carta.

Nos primeiros meses de 1817, Austen atirou-se a um novo romance, Sanditon, do qual escreveu 12 capítulos, preparando-se para arrancar “numa direção inteiramente nova”. Esse frémito criativo, contudo, foi forçosamente interrompido quando começou a deixar de ter forças para escrever. Desta vez não era depressão, era uma doença de outro foro: em julho, morreria precocemente aos 41 anos.

18 de julho de 1817 — A morte

Nunca tendo sofrido de problemas de saúde de maior, Jane Austen deveria ter estranhado o facto de, no verão de 1813, sofrer “uma dor incómoda e persistente no rosto” e que “só desapareceu no outono”, como a sua sobrinha Fanny fez questão de anotar. Todavia, tendo uma mãe hipocondríaca, a autora não deverá ter feito grande caso disso. Três anos depois, “começou a sentir um vago mal-estar”, mas “nem ela nem ninguém lhe prestou muita atenção”, sendo “possível que ela o tenha atribuído ao facto de estar a completar quarenta anos.”

No decurso desse ano, começou a ter dores nas costas e a ver a sua saúde piorar a ponto de que “já não tinha forças para percorrer a curta distância” entre a sua casa e a da sobrinha Anna, mesmo que fosse gracejando em diversas cartas que estava “muito bem” de saúde, que era só “bílis” ou “reumatismo” o que a afetava. No entanto, a 8 de março de 1817, Jane abandonou o manuscrito de Sanditon devido a uma “‘febre e um ataque de bílis’ que a deixaram demasiado doente para poder “’escrever algo que não o estritamente necessário’”.

Daí, as coisas pioraram drasticamente, com outra das sobrinhas de Austen, Caroline, admitir impressionar-se ao ver “quão mudada ela estava”. “Muito pálida, falava com uma voz fraca e baixa, e havia nela uma aparência geral de fraqueza e de sofrimento; mas disseram-me que nunca chegou a sentir grandes dores. Não tinha forças para conversar connosco, e a nossa visita ao quarto da doente foi muito breve. A tia Cassandra depressa nos levou dali. Acho que não ficámos nem um quarto de hora; e foi a última vez que vi a tia Jane”, recordou.

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▲ O n.º8 de College Street em Winchester, morada onde Jane Austen morreu. Fotografia tirada em 1910

Hulton Archive/Getty Images

A situação em abril levou a que se chamasse um cirurgião da localidade vizinha de Winchester pois já se encontrava acamada. Este recomendou que ficasse internada mais perto do seu local de trabalho, o que aconteceu em maio, quando já tinha escrito o seu testamento. A 17 de julho, sofreu uma convulsão de tal modo que foi dada como morta, mas conseguiu acordar e, inclusive, falar com Cassandra sobre o que tinha acontecido. O médico, porém, “declarou que a morte estava iminente; estava convencido, aparentemente, de que se rompera um importante vaso sanguíneo.” Foi-lhe administrado láudano para lidar com as dores e, na madrugada de 18 de julho, deu o seu último suspiro.

Como Tomalin aponta num anexo presente no final do livro, durante muito tempo acreditou-se que Jane Austen sofreu uma morte tão nova devido a um caso de doença de Addison. No entanto, isso não explica alguns dos sintomas que teve, como a palidez ou as febres recorrentes. Análises mais modernas têm vindo a apontar que o mais provável é ter tido um Linfoma de Hodgkin que se manifestou primeiro em 1813 — daí as dores na cara — e que entrou em dormência, regressando em força em 1816.

Jane Austen foi então enterrada na Catedral de Winchester, onde a sua lápide daria conta da “benevolência do seu coração”, da “doçura do seu temperamento” e das “extraordinárias qualidades do seu espírito”, mas sem fazer qualquer referência à sua carreira de escritora. Para sabê-lo, seria preciso ler o obituário do Salisbury and Winchester Journal: “Na sexta-feira, dia 18 deste mês, faleceu nesta cidade a menina Jane Austen, filha mais nova do falecido reverendo George Austen, presbítero de Steventon, neste condado, e autora de Emma, Mansfield Park, Orgulho e Preconceito e Sensibilidade e Bom Senso. De maneiras gentis, afetos ardentes e candura insuperável, viveu e morreu como uma humilde cristã”.

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