Dark Mode 45,1 kWh poupados com o MEO
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Hoje é um bom dia para mudar os seus hábitos. Saiba mais

i

JOÃO SEGURO/OBSERVADOR

JOÃO SEGURO/OBSERVADOR

José Cutileiro: cronista atento, menino travesso, sábio experiente /premium

Bruno Vieira Amaral escreve sobre o novo livro de José Cutileiro: "Este 'Inventário' não é sobre o autor, embora ele esteja em cada página, em cada palavra, em cada vírgula. É sobre Portugal".

[este texto foi lido na apresentação do livro “Inventário: Desabafos e Divagações de um Céptico”]

Como recomendam os sábios oradores anglo-saxónicos, permitam-me que comece esta apresentação contando uma história. Conheci o autor há dois anos. Durante duas horas, numa sala reservada de um luxuoso hotel cuja existência eu desconhecia, conversámos sobre os mortos, o passado, alguns livros, alguns vivos. Eu, com a minha moderna “mánicazinha” gravadora, gravava, e José Cutileiro falava e citava, de Robert Lowell a Destouches, sempre a propósito e nunca para se pavonear. No final, agradecido por ter partilhado comigo uma manhã, estendi-lhe um cartão de visita e, só nesse momento, talvez devido ao contraste com a sóbria elegância do meu interlocutor, me apercebi do espampanante que era o meu cartão, todo colorido, nada solene, e gaguejei uma desculpa, não fosse ele pensar que as debilidades estéticas patentes na escolha do cartão fossem indício de outras debilidades mais profundas: “Desculpe lá, isto parece um cartão de fotógrafo” disse eu, engolindo em seco e pedindo clemência. Com bonomia e subtil malícia, mas também com humor e o sentido de oportunidade de quem passou uma vida a trocar galhardetes, respondeu-me: “na melhor das hipóteses.” Game, set and match.

Até àquele dia de início de maio, só conhecia o autor enquanto autor. Dele tinha lido, ainda na faculdade, Ricos e Pobres no Alentejo, título que, sei agora, lhe valeu uma acusação de demagogia, e algumas crónicas assinadas com pseudónimo estrangeiro. Na conversa, encontrei pouco do antropólogo porque a ciência, mesmo que seja social, exige um apagamento e uma reserva que as crónicas, mesmo que (ou sobretudo quando) escudadas por um pseudónimo, dispensam. Ao ler este Inventáriodesabafos e divagações de um céptico, escrito e assinado por um tal José Cutileiro, o que mais me fascinou foi a fenomenal coincidência entre o autor e o homem com que, quase dois anos antes, conversei durante duas horas num hotel luxuoso cuja existência, repito, eu ignorava por completo.

O mesmo humor, o mesmo sentido de oportunidade, as mesmas citações certeiras que, como relâmpagos, iluminam e animam a conversa, o mesmo ceticismo suave, a mesma inclinação humanista para entender as falhas dos seus semelhantes não deixando, contudo, de as apontar, a mesma sabedoria tranquila de quem já viu muito mundo e, por temperamento, experiência ou simples joie de vivre, se recusa a reagir com um encolher de ombros e um gesto de enfado ao muito mundo que todos os dias se lhe revela, e tudo isto vertido para textos concisos, de um português meridiano, sem arrebiques ou piruetas pedantes que deixam o leitor de olho esbugalhado ou esmagado pela pompa da prosa servida.

“Inventário: Desabafos e divagações de um céptico”, de José Cutileiro (D. Quixote)

Os escribas do retângulo tendem, mais do que o bom senso e o bom gosto lhe exigem, para o sublime e sentencioso ou, quando se trata de opinião, a vestir a farda e a fazer músculo, não vá alguém tomar o general que imaginam ser por soldado raso e reles. Dizia Eça que “só termos simples, usuais, banais, correspondendo às coisas, ao sentimento, à moralidade simples, não envelhecem”, lição que, como ensinamentos de catequese, muitos conhecem e poucos praticam. Se a lição a aprendeu com Eça, desconheço; que a pratica com desenvoltura e nítido prazer, confirmo.

Como tal, o que estas páginas proporcionam, acima de tudo, é um prazer idêntico ao de uma conversa distendida com um amigo mais sábio e mais experiente do que nós e que, contudo, não perdeu aquela qualidade inicial de menino travesso, capaz de se rir dos outros e de si e que, mesmo quando o assunto é sério, nunca põe a cara séria, hierática, do professor ou do profeta. Desconfio que, a par da experiência e do temperamento, haja aqui qualquer coisa bebida nas ilhas, durante os anos em que por lá viveu.

Também virá de lá o hábito de juntar a um mau ou insuficiente título, o subtítulo que o salve e explique. Assim é com este Inventário, que serve apenas como porta genérica de entrada para o mais substancial “desabafos e divagações de um cético”. O que nele me interessa são menos as divagações – que até podem sugerir digressões atmosféricas e despropositadas quando o livro, talvez por mérito de quem o organizou, é bastante homogéneo para coletânea de crónicas – e mais os desabafos porque, a meu ver, a forma que mais se adequa à nossa peculiar propensão filosófica é, precisamente, o desabafo. Sobre filosofia: o autor lembra uma piada de uma revista espanhola sobre Ortega y Gasset. Distinguia-o a publicação com um título maldoso e arrasador: “D. José Ortega y Gasset, primeiro filósofo de España y decimoquinto de Alemania”. Se o filósofo fosse português, nem quero imaginar o lugar no ranking alemão.

"Sendo velho, e isto é que não é mesmo um insulto, não trata a juventude com a condescendência, o paternalismo e o culto da nostalgia com que a velhice geralmente se vinga do vigor juvenil. Talvez acredite, como o outro, que a juventude é uma doença que o tempo cura ou, como dizia Nelson Rodrigues, que o jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um que lhe é próprio, o da inexperiência."

É o culto do desabafo – nas empresas, nos cafés, nos táxis e na literatura – que nos impede de produzir grandes tratados filosóficos e, em simultâneo, nos protege dos efeitos secundários destes. Não tem a agressividade da diatribe, nem a profundidade do pensamento filosófico. Falta-lhe também o tom lamuriento e épico da verdadeira jeremiada. É apenas a válvula de escape que vai libertando o vapor que, acumulado, desencadeia as grandes revoluções. Nenhum povo que pratica o desabafo como nós o praticamos pode ser revolucionário. O desabafo, e não o fado (que é uma boa segunda opção), seria o expoente espiritual da nossa civilização, se tivéssemos erguido uma. Mas, por causa do desabafo, não erguemos. Gerações e gerações de “desabafadores” não têm em si a motivação, o rigor e o método necessários para erguer civilizações. Nem sequer para escrever romances. Quando se vê metido em angústias que, noutras paragens, teriam gerado um Dostoievski, o português precisa logo de “espairecer”. O desabafo é, pois, um espairecimento verbal que dissolve no ar as nossas aspirações de grandeza.

Julgo que o autor não terá dificuldades em reconhecer e identificar esta característica nos seus compatriotas, embora ele próprio pertença, não há como negá-lo, às nossas elites, e com isto não o quero insultar. Sobre Herman Melville, um autodidata das letras, escreveu Somerset Maugham que se notava nele o esforço, próprio do self-made man, de quem consumiu mais cultura do que aquela que a sua compleição intelectual lhe permite assimilar. No que o nosso autor escreve, deteta-se, por outro lado, a erudição sem esforço, marca de um certo tipo de nascimento e de um certo tipo de educação. Coabitam nele um gosto e um refinamento aristocráticos e um interesse sincero, e não meramente antropológico, por aqueles que não partilham tais atributos. Dizia Stendhal que amava o povo, detestava os seus opressores, mas que seria para ele um eterno suplício viver entre o povo.

Apesar do “gosto aristocrático” stendhaliano, não há lugar nestes desabafos e divagações para o desprezo com que as nossas elites tratam os que estão abaixo delas, que somos quase todos nós. Como exemplo desse desprezo, desse ódio larvar, leia-se o episódio aqui contado do proprietário a quem um trabalhador tinha incendiado uma seara. Com a soberba do dinheiro e do estatuto, o lavrador cuspiu: “custou-lhe mais o fósforo do que a mim o trigo”. Da mesma maneira, sendo velho, e isto é que não é mesmo um insulto, não trata a juventude com a condescendência, o paternalismo e o culto da nostalgia com que a velhice geralmente se vinga do vigor juvenil. Talvez acredite, como o outro, que a juventude é uma doença que o tempo cura ou, como dizia Nelson Rodrigues, que o jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um que lhe é próprio, o da inexperiência. Mas nunca os rebaixa. Se um jovem é imbecil, e há jovens imbecis, como sabemos, o problema não é a juventude, mas a imbecilidade. O que, sejamos honestos, também vale para os velhos, sendo que estes têm a agravante de nada terem aprendido com a experiência.

Com João de Deus Pinheiro, ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1987 e 1992

E é por conhecê-los tão bem, portugueses das elites e do, chamemos-lhe assim, povo, novos e velhos, e por tão bem ser capaz de exprimir esse conhecimento, que o autor nos oferece um retrato bastante razoável do que somos. Porque este livro, como aquele escrito por um antropólogo ou as crónicas escritas por um inglês expat, é sobre nós. Das muitas citações deliciosas que aqui podemos encontrar, um vício do autor que só nos faz bem, uma das minhas preferidas é a daquele professor que, em resposta a um aluno que lhe pedia para avaliar o livro de Norman Mailer sobre o Vietname, lhe disse: “O livro de Norman Mailer sobre o Vietname não é sobre o Vietname, é sobre o Norman Mailer.” Este inventário de desabafos e divagações é o mesmo, mas ao contrário: não é sobre José Cutileiro, embora ele esteja em cada página, em cada palavra, em cada vírgula — é sobre Portugal.

Sem elogios serôdios às virtudes do povo (como dizia François Mauriac, “não conheço a alma dos grandes criminosos, mas conheço a das pessoas decentes, e é horrível”), mas sem a cegueira que o impeça de ver e elogiar as suas qualidades, manifestadas de modo geral no acolhimento dos retornados ou na “aceitação estoica dos rigores da austeridade” e, de modo particular, nas expressões, comportamentos e sabedoria do homem comum, como o pastor tio Zé Peidinho, ou a mulher que dizia que os ricos são como os ciganos, são todos primos uns dos outros, ou o pequeno proprietário alentejano que dizia que o que é preciso é estar bem com a lei que há, ou, para sairmos do país, aquele trabalhador de supermercado em Bruxelas, sempre rezingão, que um dia, por ter encontrado a “pérola rara”, passou a sorrir aos clientes (este episódio em particular é de romancista). A argúcia e a capacidade de ler os seus compatriotas, os seres humanos que o rodeiam, permite-lhe insistir em ideias como a de que Salazar, ao contrário do que se pensava, não foi a causa dos nossos males, mas a sua consequência, e que o lugar mais parecido com o Portugal depois do 25 de Abril era o Portugal antes do 25 de Abril. Porque o regime mudou, mas os portugueses eram os mesmos.

Habituados a negociar com os santos em vez da severidade protestante que nasce da relação direta com a divindade, como escreve o autor, desconfiamos do Estado, não por amor à liberdade individual e horror à tirania, mas porque o sangue e os afetos nos impõem lealdades mais urgentes e tangíveis do que as lealdades abstratas e impessoais da Lei e do dever cívico. Somos, em suma, não um país de cidadãos, mas de primos. Não são só os ricos e os ciganos, como dizia a outra senhora: primos somos todos nós. Para cada uma das muitas aflições que nos assoberbam há um desenrascanço cujo segredo só um primo ou o primo de um primo – e nunca a máquina do Estado – conhece. Num país de intermediários, de santos com quem podemos combinar um arranjinho sem que tenhamos de nos enfarpelar para nos dirigirmos ao Deus sem rosto de Abraão e de Moisés, num país assim, só os primos são reais.

"É reconfortante ouvir um homem íntimo dos salões onde o nosso destino coletivo tantas vezes se decide falar da vida como se o fundamental também pudesse acontecer numa esquecida tasca em Algés."

As abstrações exigem de nós um esforço desumano, que talvez explique a nossa tendência para acatar ordens, seguir receitas que moem muito e quase matam, essa flexibilidade para estar bem com a lei que há, para aceitar a autoridade, que será menos servil do que à primeira vista parece. É que essas ordens emanam do topo de uma hierarquia nebulosa, de um mundo que desconhecemos, habitado por seres misteriosos – o Salazar, Deus, a Alemanha – com os quais não queremos muita conversa, obrigado. Aceitar a autoridade não é gosto pela escravidão, mas um modo pragmático de evitar chatices: pagamos multas indevidas para evitar chatices, aturamos chefes ingratos para evitar chatices, bebemos o café queimado para evitar chatices, trabalhamos muito para o pouco que ganhamos para evitar chatices (será assim tão surpreendente que um homem como Salazar, cujo génio político anunciado ao povo consistia em evitar chatices, nos tenha governado durante tanto tempo?).

Como evitar chatices parece ser o nosso grande desígnio, o desabafo tem neste sistema filosófico-prático um papel instrumental pois é ele que permite atenuar os esforços estoicos de contorcionismo e adaptação que o “evitar chatices” exige. É que se não desabafássemos teríamos de nos revoltar e isso, bem, seria uma chatice, uma broncalina do camandro. Ou uma carga de trabalhos. É curioso que os portugueses, tão elogiados pela capacidade de trabalho e que gostam de dizer, alto e bom som, que o trabalho não lhes mete medo, queiram tudo menos “meter-se em trabalhos”. Trabalho, sim, trabalheiras nunca.

Nada disto lhe será estranho porque, aos seus escritos, aflora um patriotismo delicado, mas de raízes profundas, um patriotismo de uma estirpe cosmopolita que não exclui, antes requer, uma desconfiança saudável em relação à ideia de pátria, muitas vezes conspurcada por aqueles que dizem estar em sintonia com o povo. Afinal, as coisas são como são e o país é como é. E o mundo também é como é. Aprendê-lo é atingir a sabedoria das coisas evidentes.

O autor reclama-se herdeiro mais do pessimismo do amigo Victor Cunha Rego do que do otimismo genial de outro amigo, Mário Soares. Mas, embora o curso dos acontecimentos o preocupe, o espetáculo do mundo – e com que facilidade ele passa das grandes questões da política internacional para existência comezinha – parece, acima de tudo, diverti-lo. Navegando à bolina entre o pessimismo e alguma esperança, nunca chega a extremos apocalípticos e nunca embarca em cenários de um otimismo idiota. Paixões assim só servem para incendiar corações jovens que da história, que não viveram e mal estudaram, pouco sabem. Os velhos sentem com a cabeça, pedem aos seus mortos que se lembrem do que eles já esqueceram. São como aquele político chinês que, em pleno século XX, dizia ser ainda muito cedo para saber qual a principal consequência da Revolução Francesa. Não nos precipitemos. Calma. É muito o que muda e não é pouco o que permanece.

Para mim, leitor que nasceu ontem, ou anteontem, é reconfortante ouvir um homem íntimo dos salões onde o nosso destino coletivo tantas vezes se decide falar da vida como se o fundamental também pudesse acontecer numa esquecida tasca em Algés. Foi aí que, numa tarde remota, o amigo Sttau Monteiro, desgostado com as favas que lhes tinham servido, queixando-se de que não eram aquilo, lhe disse no mais lúcido dos desabafos: “Mas a verdade é que nós também não somos.”

Bruno Vieira Amaral é crítico literário, tradutor e autor dos romances “As Primeiras Coisas”, vencedor do prémio José Saramago em 2015, e “Hoje Estarás Comigo no Paraíso”

Links promovidos

Recomendamos

A página está a demorar muito tempo.