Cabul, Londres, Joanesburgo, Bruxelas. O antropólogo tornado embaixador passou a vida a saltar de lugar em lugar, mas nunca perdeu a ligação a Portugal. Habituou-se desde cedo a analisar o país de fora, com a frieza dos emigrados. Hoje em dia, continua a carregar nas críticas em colunas de opinião cheias de recordações do passado, onde também se consegue enternecer com as falhas de caráter coletivas. “Lembro-me quando era antropólogo social e estava no Alentejo a falar com um senhor que era o principal proprietário da aldeia onde vivia, em 64, 65. Perguntei-lhe: ‘Como era a relação com Évora, com Lisboa, com o Governo Civil, no tempo da República comparado com agora?’ E ele respondeu-me: ‘Isto, senhor doutor, o que é preciso é a gente estar bem com a lei que há'”, recorda ao Observador.

José Cutileiro é talvez menos famoso do que o seu irmão, o escultor João Cutileiro, mas a sua vida não lhe fica atrás. Nascido em Évora, cedo veio para Lisboa, numa infância dividida entre o republicanismo do pai e o catolicismo e salazarismo do avô materno. Aos 17 anos, teve uma experiência única entre os seus colegas de liceu no Valssassina, ao ir para Cabul com a família — cidade onde arranjou tempo para desenvolver uma paixoneta por uma afegã mais velha. No regresso, andou perdido entre a Arquitetura, a Medicina, e as tertúlias no Almanaque com José Cardoso Pires e Luís de Sttau Monteiro, até encarreirar na Antropologia em Oxford, local que o “ensinou a pensar”.

A vida mudaria com o 25 de Abril. O amigo Mário Soares — “a quem devemos tudo” — abriu-lhe as portas para o mundo diplomático e chegou a levá-lo a ele, homem sem fé, a Fátima, a propósito de uma investigação sobre a morte de Humberto Delgado. Na África do Sul conheceu Nelson Mandela acabado de sair da prisão, bem como Desmond Tutu, e sentiu-se no olho do furacão. Pelo meio, filiou-se no Partido Socialista e desfiliou-se com a mesma rapidez, por considerar que a política não era para si. Continua a preferir a escrita, razão pela qual publicou recentemente o livro Abril e Outras Transições, mas também o prazer de resumir, sem floreados desnecessários, a vida de um homem — sobretudo daqueles de quem mais gosta.

Nasceu em Évora, numa família de pai republicano e mãe de origens salazaristas. Como é que foi essa combinação?
Não dei por ela. Os pais da minha mãe eram católicos e salazaristas e em casa do meu avô em Évora havia uma capela. No Natal, ia com o meu pai lá, que era ateu, fazer o presépio. As conversas sobre religião, não houve nunca naquela casa. Havia um respeito mútuo pelas crenças de cada um.
Em cima do piano que estava na sala dessa casa havia um retrato do meu avô, de óculos, casaco preto e umas calças de fantasia, com um ar muito chato, a ler ao Salazar. Que estava também com um ar chatíssimo, vestido da mesma maneira, e outros personagens igualmente tristes, sombrios. Havia um respeito pelo salazarismo que não era, de resto, um respeito raro em Portugal. A maioria das pessoas nessa altura, e em muitas alturas, tinham uma noção de quais eram as relações que se deviam ter com o poder político.
Dito isto, o meu pai era de uma família republicana, o pai dele já tinha sido personagem de alguma importância local e até nacional, durante o fim da Monarquia. O meu pai foi proibido pela PIDE de fazer concurso para professor catedrático na Faculdade de Medicina. E mais tarde teve uma outra questão: era diretor de uma coisa chamada Centro de Saúde de Lisboa e foi encarregado de uma investigação de um surto epidémico e descobriu o que aquilo era, mas o resultado da investigação dele não era o resultado que a Direção Geral da Saúde estava à espera e puseram-lhe um processo disciplinar. Então concorreu à Organização Mundial da Saúde e foi para Cabul.

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