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Andreia Reisinho Costa

Andreia Reisinho Costa

Kabir, o poeta indiano que uniu hindus e muçulmanos

Poeta místico e santo, Kabir nasceu na mais sagrada das cidades indianas, no seio de uma família convertida ao Islão. Em vida, "conseguiu uma coisa incrível: ser respeitado por hindus e muçulmanos".

A vida de Kabir mistura-se com a lenda. Poeta místico e santo, terá nascido no norte da Índia no final do século XIV, filho de uma viúva brâmane. Adotado por uma família de tecelões convertida à fé islâmica, presume-se que passou grande parte da vida em Banaras (atual Varanasi), a mais sagrada das cidades hindus e centro do comércio e peregrinação na primeira metade do século XV. De Banaras, cidade que prometia a salvação a quem nela morresse, ter-se-á retirado para Magahar, uma pequena localidade a pouco mais de 150 quilómetros.

Dividido entre duas fés (e ao mesmo tempo longe de todas as fés), diz a lenda que, quando morreu, o seu corpo foi disputado por hindus e muçulmanos — uns para cremá-lo, outros para enterrá-lo. No final de todas as contendas, quando finalmente abriram o seu caixão, a única coisa que encontraram foi uma coroa de flores, que foi dividida entre todos.

Nos últimos cinco ou seis séculos, Kabir tornou-se “no poeta mais citado no mundo hindu moderno”, como refere Vinay Dharwadker. Os seus poemas, sobre questões simples do dia-a-dia, religião e espiritualidade, influenciaram várias gerações de escritores indianos, incluindo o Prémio Nobel da Literatura Rabindranath Tagore. A partir do norte da Índia, Kabir conseguiu romper barreiras e chegar à Europa — primeiro pelas mãos de um monge italiano e depois pelo próprio Tangore –, marcando profundamente poetas como o irlandês W.B. Yeats.

Poeta, místico e profeta

Apesar de existirem muitas lendas sobre o “poeta conhecido por Kabir”, pouco se sabe sobre ele. As fontes históricas são escassas e a maioria é difícil de comprovar. “Não temos muitas informações históricas sobre Kabir. Existem algumas lendas sobre a sua vida e personalidade, mas não existem registos da sua data de nascimento e morte, da sua vida social ou pessoal”, disse ao Observador Vinay Dharwadker, autor do livro Kabir: The Weaver’s Songs, de 2013, e professor de literatura comparada e estudos folclóricos na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos da América. “Se analisarmos todas as histórias que circulavam oralmente, e os vários relatos escritos em diferentes línguas por autores tardios, então conseguimos construir um retrato geral de quem poderá ter sido e daquilo que poderá ter alcançado.”

De acordo com Dharwadker, Kabir viveu provavelmente entre 1398 e 1448, no norte da Índia. Alguns historiadores defendem, porém, que terá nascido mais tarde, já em pleno século XV, e que terá morrido no início do século XVI, por volta de 1518. Uma parte significativa da sua vida terá sido passada na cidade sagrada de Banaras (atual Varanasi), a capital espiritual da Índia, e na pequena localidade de Maghar, a cerca de 150 quilómetros.

Bernares

Kabir nasceu na antiga cidade de Banaras, no norte da Índia, atual Varanasi

Apesar de ter nascido no principal local de peregrinação hindu do seu tempo, o seu nome, de origem árabe, indica que poderá ter crescido no seio de uma família que se converteu ao Islão no final do século XIV. Em todas as histórias, Kabir surge associado à profissão de tecelão e é “muito provável” que não soubesse ler nem escrever, e que “compusesse os seus poemas oralmente”. “Os seus poemas estão associados aos padrões musicais, e talvez costumasse cantá-los e atuar para pequenos grupos dentro da sua comunidade”, explicou Dharwadker.

Tal como aconteceu com a obra de muitos poetas europeus da Antiguidade e da Idade Média, os poemas de Kabir começaram por ser transmitidos oralmente até que, ao fim de várias décadas, alguém decidiu passá-los para o papel. O exemplar mais antigo dos seus poemas terá sido criado entre 1570 e 1572, e faz parte dos primeiros cadernos dos Gurus da religião sikh. Entre as versões mais antigas dos seus textos, encontram-se também um manuscrito “preparado com apoio real em Rajasthan”, de 1582, e os poemas que compõem as escrituras sikhs, o Adi Granth. “Entre 1570 e 1973, um período de cerca de três séculos e meio, podemos encontrar versões dos poemas de Kabir em cerca de 40 manuscritos principais e fontes impressas”, salientou o professor da Universidade de Wisconsin.

O sikhismo foi estabelecido durante um período de mais de dois séculos (entre 1469 e 1708) por dez Gurus originais, que tinham como objetivo manter o bem-estar espiritual da população, fomentando a prática de princípios justos.

Todos os Gurus reforçaram a mensagem deixada pelo seu antecessor, o que levou à criação da religião que é atualmente conhecida por sikhismo. O primeiro Guru foi Nanak Dev (1469-1539) e o último Gobind Singh (1675-1708). Quando Singh morreu, nomeou o Adi Granth, o texto sagrado dos sikhs, como o último e derradeiro Guru.

O Adi Granth (literalmente “o primeiro livro”) é composto por cerca de três mil poemas, de diferentes autores, que constituem o núcleo central das escrituras sikhs. Estes foram reunidos pela primeira vez em 1604, pelo Guru Arjan Dev. “O Adi Granth inclui duas categorias principais — um extenso corpo de poemas, compostos pelos primeiros seis Gurus da tradição religiosa dos sikhs, e um conjunto amplo e diverso de poemas, escrito por poetas do início do século XV, exteriores à religião, que eram vistos como modelos e mentores espirituais pelos Gurus”, explicou Dharwadker. “Kabir é o principal poeta da segunda categoria do Adi Granth, com 228 poemas completos (sem contar com os dísticos, semelhantes a provérbios).”

Além de fazer parte do texto sagrado dos sikhs, Kabir é ainda considerado fundador de uma outra tradição religiosa — o Kabir Panth, ou o “caminho de Kabir”. Esta tradição, sediada na antiga cidade de Banaras, pretendendo unir o hinduísmo e o islamismo e manter a paz entre as duas religiões. O seu livro sagrado, o Kabir Bijak, é composto exclusivamente por poemas alegadamente escritos por Kabir.

Os seguidores do Kabir Panth, os kabirpanthi, acreditam que o Kabir Bijak contém a mais antiga coleção de poemas do poeta indiano. “Mas os manuscritos apenas vieram a público em 1805, pelo menos 350 anos depois da morte de Kabir”, frisou o professor de literatura comparada. “De todas as fontes da poesia de Kabir, o Kabir Bijak é a mais moderna e não há forma de comprovar a sua autenticidade. Não sabemos quando ou como é que os poemas do Kabir Bijak foram escritos, por quem ou em que circunstâncias.” Além disso, os poemas das escrituras dos kabirpanthi são muito diferentes dos que compõem o Adi Granth e os manuscritos do norte da Índia.

Apesar disso, os poemas do Kabir Bijak não deixaram de exercer a sua influência. “Estes poemas são famosos pela sua sátira. Muitos deles usam a sátira, a sabedoria e o humor para criticar outras religiões, incluindo o hinduísmo ortodoxo”, explicou Vinay Dharwadker. “Ou seja, o estereótipo mais popular de Kabir, o de ‘poeta satírico’, é baseado sobretudo nos poemas que constituem o Kabir Bijak.”

"Kabir não é um modelo secundário ou uma 'influência'. Está no centro do cânone. Em ambas as religiões, a sua poesia é tratada com uma fonte de ‘revelação mística’."
Vinay Dharwadker, especialista na obra de Kabir

Independentemente da veracidade dos poemas, uma coisa é certa — “em ambas as tradições, no sikhismo e no Kabir Panth, a poesia de Kabir é tratada como uma fonte de ‘revelação mística’ ou como algo equivalente”, salientou ainda Dharwadker. E para os kabirpanthi, é muito mais do que um modelo ou uma influência — é o centro do cânone.

Da Índia para a Europa, da Europa para a América

Apesar de se ter tornado rapidamente popular na Índia, foram preciso quase quatro séculos até Kabir chegar à Europa. As primeiras referências ao poeta místico surgem em narrativas de viagem do século XVIII, escritas por europeus que viajaram até à região de Banaras, onde viviam (e vivem) a maioria dos seus seguidores. O mais antigo desses relatos é de um monge capuchinho, Marco della Tomba, considerado o primeiro comentador europeu da obra de Kabir.

Entre 1758 e 1775, Tomba viajou até à Índia, Nepal e Tibete, onde serviu como missionário. Durante essas viagens, foi recolhendo vários poemas atribuídos ao poeta indiano, que depois se dedicou a traduzir. “Os seus textos sobre Kabir e as traduções de alguns dos seus poemas chegaram à Europa no século XVIII”, referiu Dharwadker. Mas foi só nas décadas de 1820 e 1830 que Kabir, as instituições e as práticas a ele associadas no se tornaram alvo de estudo por parte dos académicos europeus. No início do século XX, o poeta e santo já era considerado um “fenómeno regional multidimensional” pelos britânicos que escreviam sobre a sociedade indiana de então, numa altura em que a Índia fazia ainda parte do vasto Império Britânico. Foi nessa altura que se deu um passo importante na divulgação dos trabalhos do poeta fora da Índia.

"Yeats descobriu que Kabir usava a metáfora do cisne para se referir à alma humana e experimentou usar essa metáfora em poemas como 'The Wild Swans at Coole'."
Vinay Dharwadker, especialista na obra de Kabir

Em 1915, Rabindranath Tagore, o primeiro não-europeu a receber o Prémio Nobel da Literatura, publicou em Inglaterra uma tradução em prosa dos poemas de Kabir, Songs of Kabir (em português, as Canções de Kabir), que salientava “as qualidades literárias mas também espirituais do poeta”, explicou Vinay Dharwadker. O livro foi editado com a ajuda do poeta irlandês William Butler Yeats, cuja poesia foi influenciada por Kabir. Este incluía uma introdução escrita pela inglesa Evelyn Underhill, famosa pelas suas obras sobre religião e espiritualidade.

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Rabindranath Tagore, Prémio Nobel da Literatura em 1913, foi responsável pela primeira tradução dos poemas de Kabir em inglês

De todos os poemas traduzidos por Tagore, houve um que impressionou particularmente W.B. Yeats e outros intelectuais do seu tempo — o poema do cisne. “Yeats descobriu que Kabir usava a metáfora do cisne para se referir à alma humana”, explicou Dharwadker. “O cisne, juntamente com outras aves, tem uma simbologia muito antiga para as culturas e literaturas de origem indo-europeia. Yeats experimentou usar essa metáfora em poemas como ‘The Wild Swans at Coole’, que foi escrito pouco tempo depois de Songs of Kabir, de Tagore, ter sido publicado.”

“Conta-me ó cisne a tua história
de onde vens em que lago
vais descansar?
O que procura o teu coração?
Acorda e segue-me esta manhã
Há um país onde não existe
o terror da morte
as árvores estão sempre em flor
e a brisa traz um perfume delicado
O coração qual abelha
penetra nessas flores
sem aspirar a outro prazer”*

Para lá de Yeats, outro escritor ocidental a quem a obra de Kabir não passou despercebida foi Ezra Pound. “Pound não foi influenciado por Kabir de forma tão direta, mas ele procurou melhorar as versões em prosa de Tangor”, referiu o especialista na poesia do poeta indiano.

Kabir chegou aos Estados Unidos da América apenas na década de 60, pelas mãos do poeta Robert Bly, que publicou uma edição independente dos seus poemas, mas sem acesso ao texto original. “As versões inglesas de Tagore e Bly foram especialmente influentes na popularização de Kabir na Europa e no continente americano durante o século XX”, concluiu o professor de literatura comparada da Universidade de Wisconsin.

A Portugal, Kabir chegou em pleno século XXI. Ou, pelo menos, as versões portuguesas dos seus poemas. Em março deste ano, a Assírio & Alvim lançou a primeira tradução portuguesa de Kabir, O Nome Daquele Que Não Tem Nome, com versões da autoria de Jorge Sousa Braga. “Gosto muito de poesia clássica indiana e já conhecia alguns poemas e tinha a tradução de Rabindranath Tagore, feita a partir do bengali. Há uma série de anos que tinha este objetivo”, explicou o poeta e tradutor ao Observador.

Diz a lenda que, quando Kabir morreu, hindus e muçulmanos encontraram uma coroa de flores no interior do seu caixão, que foi depois dividida entre todos

Para o livro, Sousa Braga rodeou-se “de uma série de versões que existem em outras línguas, a maioria feitas a partir da do Tagore, e outras mais recentes feitas a partir do bengali e do hindi”. Os 73 poemas selecionados são oriundos de várias fontes originais, nomeadamente do Adi Granth. De acordo com o autor, a escolha seguiu apenas um critério — procurou encontrar aqueles que “se propunham mais à passagem para o português”.

De todas as histórias de Kabir, existem duas que Sousa Braga gostava que fossem verdadeiras. Uma é o relato do seu encontro com a poetiza mística indiana Mirabai, “porque ambos passaram por Varanasi, antiga Baranas”, e outra é a lenda que existe em torno da sua morte e que relata a descoberta de uma coroa no interior do seu caixão por hindus e muçulmanos. “Naquela altura, ele conseguiu uma coisa incrível”, admitiu o autor. “Conseguiu ser respeitado por hindus e muçulmanos.”

O nome daquele que não tem nome

Escritos no século XV, os poemas de Kabir, compostos por 2 a 20 linhas, abordam uma grande variedade de temas, que vão desde questões simples do dia-a-dia a problemas espirituais, ligados à religião hindu e muçulmana, que criticava constantemente. Os poemas mais pequenos, principalmente os de duas linhas (dísticos), são ainda hoje muito citados na sociedade indiana como provérbios.

“Todos veem uma gota
de água no oceano
mas poucos o oceano
numa gota de água”*

Uma boa parte dos seus textos, nomeadamente aqueles que compõem o Kabir Bijak, são satíricos e “atacam a discriminação, a injustiça, a religião ortodoxa, o ritual, a superstição e o status quo“, explicou Vinay Dharwadker. “Os poemas rejeitam constantemente os rituais comuns e as ortodoxias do hinduísmo e do islamismo. Por exemplo, ele rejeita a hierarquia hindu das castas, a ideia de poluição (através do contacto físico e da comida), a prescrição muçulmana de rezar apenas numa mesquita e a noção comum de que os crentes precisam de mediação e da orientação de padres brahmin, de qazis ou de mullahs.”

Outros poemas, expressão ainda a ideia de devoção a Deus ou explicam a natureza do divino, da humanidade, da espiritualidade ou da salvação. “Entre estes, existem muitos que se focam na união ‘mística’ entre o homem e Deus. É neste espetro que Kabir é mais famoso — por oferecer um conceito novo e alternativo de Deus, de salvação e de sociedade humana.” Mas que conceito é esse?

Na sua poesia, Kabir rejeitou constantemente todos os conceitos antropomórficos de Deus e de divino, que surgem tanto no hinduísmo e no islamismo. “Ele imaginava uma divindade que era ‘Deus para além de Deus’, ou aquilo a que chama em inglês pure godhead [em português, a “cabeça pura de deus”]. Esta divindade não tem qualidades ou atributos materiais ou abstratos — não pode ser descrita através da linguagem humana”, esclareceu Dharwadker. “Apesar disso, constitui a realidade constante e última que está subjacente a tudo o que pode existir, e é a base de todos os seres vivos.”

Isto significa que, a imagem que o poeta indiano tinha de Deus, não era de um deus vingativo, irado ou até mesmo de um pai celestial — era a de um deus sem atributos. “Os seus poemas rejeitavam, por isso, as características familiares de ambas as religiões [hinduísmo e islamismo], mas também sintetizam a sua semelhança porque representam uma forma de unificação secular na sociedade indiana, que surge acima dos conflitos de longa data e das diferenças entre hinduísmo e islamismo.”

"Naquela altura, ele conseguiu uma coisa incrível: conseguiu ser respeitado por hindus e muçulmanos."
Jorge Sousa Braga, poeta e tradutor

Este conceito de Deus e religião estava mais perto do de teólogos e autores europeus do que de pensadores indianos, seus contemporâneos. “É muito semelhante à do autor do texto The Cloud of Unknowing, um texto anónimo escrito em inglês médio no final do século XIV”, referiu o professor da Universidade de Wisconsin. “O pensamento de Kabir tem também muito em comum com o de autores europeus como Escoto de Erigena (século IX), S. Tomás de Aquino (século XIII) e Mestre Eckhart (século XIV).”

Os poemas místicos de Kabir, sobre o amor do homem a Deus, são também muito semelhantes aos textos de Santa Teresa de Jesus, que também escreveu poesia, e de João da Cruz, “porque ambos recorrem à mesma metáfora erótica — a da alma humana enquanto noiva de Deus“.

* Versões de Jorge Sousa Braga, incluídos no livro O Nome Daquele Que Não Tem Nome, publicado em março de 2016 pela editora Assírio & Alvim.

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