Luísa Sobral, o novo disco e ainda ‘Amar pelos Dois’: “Se tivesse sido eu a cantar tínhamos perdido” /premium

03 Novembro 2018319

Um disco novo em português, o último lugar de Isaura e Cláudia Pascoal, a validação como compositora na Eurovisão e a interpretação do irmão, que "acha que pode mudar o mundo". Luísa fala de tudo.

À primeira vista, a postura de Luísa Sobral pode parecer contradizer as características do seu novo disco. A compositora e cantora, que no ano passado venceu o Festival Eurovisão da Canção com “Amar pelos Dois” (cantada pelo seu irmão), diz que “não gosta muito que as pessoas entrem na sua vida pessoal” e que falem da sua família. O novo disco, todo ele composto em português (chega às lojas a 9 de novembro), chama-se Rosa, nome da sua segunda filha, nascida há poucos meses. Mas nada disto é contradição.

Sentada num sofá do Mesaluísa, espaço gerido pela sua mãe Luísa Villar no Pátio da Ribeira (Avenida 24 de julho, próximo do Mercado da Ribeira, no Cais do Sodré, em Lisboa), Luísa Sobral conta que chegou a ter “medo” que o single do disco fosse “um convite” para que as pessoas entrassem “na sua vida pessoal”, até porque “hoje as pessoas entram na vida dos outros assim, sem pedir”. Felizmente, a reação à canção tem sido boa: “Fico super feliz quando vejo pessoas tornarem a canção sua. No outro dia, uma senhora escreveu ‘esta canção é minha e das minhas filhas’. Pois é, já não é minha, até é mau querer que o seja. A partir do momento em que pode ser de outros, que bonito que o seja”.

A vontade de Luísa Sobral é que quem ouvir o seu novo álbum, o quinto da sua discografia, torne todas as canções suas. O título do disco explica-se rapidamente: Rosa é um álbum “completamente condicionado” pelo nascimento da filha. Luísa Sobral escreveu “as canções todas enquanto estava grávida”, foi com a filha para estúdio e sofreu uma alteração na voz durante a gravidez que mudou tudo — o tom das canções, a forma de cantar, o estilo das composições. Por isso, diz: “Dediquei-lhe o disco”.

Com outra canção já revelada além do single (“Maria do Mar”, apresentada ao vivo pela primeira vez na final do último Festival da Canção, em Guimarães),  é um álbum que “não é difícil de ouvir, qualquer pessoa ouve e entende as minhas letras, nada é muito elaborado e eloquente, com palavras esquisitas que as pessoas não conhecem”. Produzido pelo catalão Raül “Refree”, é um disco diferente dos anteriores (como o antecessor Luísa, gravado nos Estados Unidos da América), muito mais ancorado na voz e guitarra acústica, a que se somam uns elegantes e pouco invasivos sopros, com um som próximo e íntimo.

“É um disco mais de cantautora, são canções”, explica Luísa Sobral, detalhando que parte da inspiração deveu-se a um concerto que viu o ano passado no Centro Cultural de Belém, da catalã Silvia Pérez Cruz. A atuação marcou-a profundamente, por ter visto na redução de artifícios e na “procura da essência da canção e do som dos instrumentos clássicos” (Silvia tocou com um quarteto de cordas, Luísa trocou-o por guitarra e um trio de sopros) uma beleza ímpar. Por isso, foi para estúdio com o produtor catalão, com quem passou os três primeiros dias a gravar o que os dois tocavam e cantavam em simultâneo, sem grandes takes, procurando mais um diálogo íntimo que a perfeição da produção mais polida. Nessa primeira fase, procurava tanto uma “química” no diálogo que não deixou ninguém assistir às gravações dos dois. Do estúdio saiu um disco descarnado, simples mas não simplista, de onze canções, uma delas um dueto com o irmão Salvador Sobral, “Só um Beijo”.

“Rosa”, de Luísa Sobral (Universal; edição a 9 de novembro)

Em entrevista ao Observador, Luísa Sobral falou de tudo. A conversa começou pelo disco, mas prosseguiu pelos objetivos de vida que não passam por “ser gigante em lado nenhum”, pela paixão pelo teatro que pensou seguir e ainda a faz ficar “um bocadinho triste” (quando vai ver peças fica “com vontade de estar ali”), pela escrita em português, pela preocupação maior desde que foi mãe (quando vê algo de mau, “projeto logo os meus filhos ali”), pelo machismo que só sentiu muito amiúde na carreira, pela junção da família com a carreira e pela felicidade que sente por ver um número crescente de  compositoras mulheres em Portugal.

Ponto de paragem obrigatório era o tema do Festival Eurovisão da Canção. Este é o primeiro disco editado por Luísa Sobral desde a vitória histórica (a primeira de Portugal) no festival, com “Amar pelos Dois”, composta por si e cantada pelo irmão Salvador. Luísa Sobral fala da “coragem” que não teve, “e ainda bem”, para cantar ela o tema (“estava numa fase da minha carreira em que não queria ser posta à prova dessa forma”) e pela convicção de que a interpretação do irmão, a relação entre os dois e o efeito surpresa de Salvador ajudaram ao “fenómeno único” que deu a vitória. Cantando-o ela, tem “quase a certeza” que não ganhavam.

Hoje, Luísa Sobral não quer nada com a Eurovisão. Diz que espera “nunca mais lá ir” e que, ao contrário do irmão, que “acha que pode mudar o mundo”, já sabia que o festival “não ia mudar nada”. Lamenta o último lugar de Isaura e Cláudia Pascoal, que considera injusto (“a maior parte das canções são horríveis, ainda por cima”), conta como viu as acusações de plágio a Diogo Piçarra enquanto jurada do Festival da Canção português e sublinha que o caso não teve nada a ver “com o do Tony Carreira”. Dias 9 e 22 de fevereiro, Luísa Sobral apresenta Rosa respetivamente na Casa da Música, no Porto, e no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa.

“Já não estava com muita vontade de cantar em inglês”

O disco acabou de ser gravado em meados de setembro. Como é que têm sido os dias desde aí?
Depois de gravar, há muitas decisões a tomar. Tive de fazer uma sessão fotográfica, porque a capa [do CD] é uma ilustração e o resto também, então tive de fazer fotografias de imprensa. Tive de ensaiar, também, tivemos de definir datas de concertos, fazer as misturas, o videoclip, trabalhar o site… Há várias coisas que se tem de fazer, não há tempo para descansar. Até porque fiz tudo um bocado em cima, já era suposto ter gravado o disco em agosto e mudámos para setembro. Não foi bem a correr, mas não houve muito tempo. E agora é altura de entrevistas. Até agora tenho vivido para o disco, mesmo depois de o acabar.

"Nos primeiros três dias estive só com o Raül [Refree, produtor] em estúdio. Queríamos captar no disco o à vontade a tocar e cantar um com o outro. Houve pessoas da minha família e amigos que me perguntaram se poderiam ir ver as gravações. Eu disse que não, queria estar só com o Raül e com o técnico de som."

Quanto tempo é que passou em estúdio?
Houve um dia que estivemos só a ouvir, no outro estivemos a ensaiar com os sopros e tivemos mais três dias [de gravação]. Nos primeiros três dias estive só com o Raül [Refree, produtor] em estúdio. O disco é muito voz e guitarra e vive muito de uma química que criámos a tocar juntos, no momento. Nenhum de nós procura a perfeição nos takes [gravações]. Já tínhamos tocado, ele já tinha vindo cá algumas vezes e eu já tinha ido a Barcelona. Queríamos captar no disco um à vontade a tocar e cantar um com o outro. Os três primeiros dias foram para isso, para gravarmos os onze temas só os dois. Os seguintes foram para colocar os sopros, fazer harmonias, segundas vozes (tenho lá algumas coisas dessas) e outras pequenas partes. Veio ainda um percussionista clássico dar uns toques em algumas coisas. Mas a essência foi gravada nos  primeiros três dias. Queria muito que fosse um disco que sobrevivesse dessa forma, depois os sopros vinham [só] adicionar alguma coisa. Houve até pessoas da minha família e amigos que me perguntaram se poderiam ir ver as gravações. Eu disse que ninguém podia. Nesses primeiros três dias queria estar só com o Raül e com o técnico de som, o Javier, a gravar. A partir daí já poderiam vir ver-nos trabalhar, mas esses três dias eram essenciais para gravarmos o que iria ser o coração do disco.

Editou o disco anterior em 2016. Quando é que começou a sentir vontade ou necessidade de voltar a estúdio?
Portugal é um país tão pequeno que se não tivermos um disco de dois em dois anos é um bocadinho difícil viver disto, quase. Passamos pelos teatros todos em muito pouco tempo, então os discos em Portugal têm uma vida de dois anos. Se vivesse nos Estados Unidos da América se calhar poderia fazer um disco de três em três anos, ou de quatro em quatro. Cá o país é pequeno e há necessidade de mostrar alguma coisa nova. Os [programadores dos] teatros dizem: pode voltar cá, mas tem alguma coisa nova para mostrar? Também já não me sentia a mesma pessoa. Isso acontece-me muito nos discos, neste momento já me sentia outra pessoa e queria gravar. Já não estava com muita vontade de cantar em inglês. Nada contra, mas nesta fase tenho vontade de cantar em português. Pode ser que a vontade de cantar em inglês, francês ou espanhol, o que seja, volte, mas neste momento já não tinha muita vontade de tocar aquele disco. Quando senti isso, tendo passado dois anos, comecei a compor para um álbum novo.

Presumo que tenham sido três anos bastante agitados, ainda assim. Entre 2016 e agora, editou um disco, foi mãe duas vezes, venceu o festival da Eurovisão, tocou ao vivo, compôs para outros, gravou este álbum…
Não é que tenham sido anos chatos, de todo, mas tenho sempre vontade de fazer coisas novas. Fui mãe mas continuo a ter vontade de ter a minha vida profissional bastante ativa, porque sei que consigo conciliar as duas coisas. Os meus filhos também vêm sempre em alturas ótimas, vêm em momentos em que posso parar depois de eles nascerem. Os dois vieram no fim de digressões de discos, então acaba por ser um momento em que iria parar de qualquer forma.

Procurou regressar ao jazz?
Bom, o jazz é o meu background, por isso é possível que haja sempre, mas sinto que o único jazz está para o lado da música brasileira, em canções como o “Envergonhado”, a “Querida Rosa” e a canção que faço com o meu irmão [“Só um Beijo”]. São canções que têm uma harmonia mais brasileira, pelas minhas inspirações — o Chico Buarque, Caetano Veloso. Quase poderiam ser canções brasileiras. Aí sim, entra um bocado o jazz, mas em geral sinto que é um disco muito de canção. O outro, é verdade, tem muito folk, mas acho que este é um disco de uma cantautora. São canções. O jazz que terá é o que está em mim, porque foi o que estudei e toquei até agora.

"O disco foi completamente condicionado pela minha filha. Escrevi as canções todas enquanto estava grávida dela. Depois ainda fui para estúdio com ela. Durante a minha gravidez, fiquei muito rouca, tive um problema com as cordas vocais. Mudei muito o registo. Por ter condicionado tudo -- as canções, a forma de cantar e o estilo de composição --, dediquei-lhe o disco."

“Querida Rosa / se o mundo acabasse e só ficasses tu e eu / para mim bastaria saber que acordaria / cada dia com um beijo teu”. É uma declaração forte, que canta no tema “Querida Rosa”. O disco também tem como título o nome da sua filha. Porquê?
O disco foi completamente condicionado pela minha filha. Escrevi as canções todas enquanto estava grávida dela e isso não aconteceu no anterior, em que fui gravar grávida do meu filho mas não escrevi as canções grávida. Aqui isso aconteceu e depois ainda fui para estúdio com ela. Durante a minha gravidez, fiquei muito rouca, tive um problema com as cordas vocais. Comecei a compor as canções completamente condicionada por isso, compondo com mais graves. Mudei muito o registo por ser onde a minha voz [mais rouca] encaixava. Por ter acabado por condicionar tudo — as canções, a forma de cantar e o estilo de composição –, dediquei-lhe o disco.

Que canções estão mais diretamente relacionadas com ela, além de “O Melhor Presente” [espécie de carta ao filho sobre o nascimento da sua nova irmã, Rosa]?
Há três canções que são mais ou menos sobre ela, em que pelo menos o título está muito relacionado com ela. Não sabia se era rapaz ou rapariga, então há uma canção que é o “Benjamim” — para o caso de ser rapaz, era para ele. Há a “Maria do Mar”, que era um dos nomes que tinha pensado, e há o “Querida Rosa”. Contudo, as minhas canções não são para um filho. A “Querida Rosa”, por exemplo, não é de mim para ela, é uma carta de amor que gostava que um dia alguém lhe escrevesse. É o modo como gostava que um dia alguém a amasse. Nós, pais, gostamos dos nossos filhos, mas mais do que tudo queremos que isso continue quando formos embora, queremos que as pessoas também os amem. Então, preferi escrevi uma carta de amor que gostava que um dia alguém lhe cantasse. O “Maria do Mar” não é sobre ela, só o nome é que tem relação.

“Hoje em dia as pessoas entram na vida dos outros sem pedir”

É preciso ter segurança e coragem para tirar as proteções e os filtros e revelar intimidade nas canções?
Claro, claro. Eu às vezes escrevo, mas as coisas estão um bocadinho camufladas. O meu problema com “O Melhor Presente” [o single], no início, é que era uma coisa muito óbvia. Estava grávida do meu segundo filho e estava a falar sobre isso. E eu, que não gosto muito que as pessoas entrem na minha vida pessoal, de repente tinha medo que aquela canção fosse um convite para isso. Um convite que não queria dar, porque gosto muito de separar as duas coisas. Sim, sou mãe, mas também sou cantora, é a minha profissão e não gosto que falem da minha família. É um bocado parvo, não faz sentido, porque nem sequer digo o nome dos meus filhos nem ponho fotografias deles no vídeo. Mas tenho tanto medo que entrem na minha vida pessoal que às vezes ponho esses escudos nas canções.

Hoje em dia, as pessoas entram na vida dos outros assim, sem pedir. Por isso, fico super feliz quando vejo pessoas tornarem a canção sua. No outro dia, uma senhora escreveu um comentário: “Esta canção é minha e das minhas filhas. Pois é! É sua e das suas filhas, é verdade, já não é minha”. Até é mau querer que seja só minha, a partir do momento em que pode ser de outros, que bonito que o seja.

Voltando atrás: se a vida não a tivesse encaminhado para os Estados Unidos da América [já depois da participação no programa “Ídolos”], poderia ser outra coisa que não cantora? Atriz, por exemplo?
Sim, atriz. Sempre tive essas duas paixões, sempre fiz teatro e sempre cantei. Chegou ali uma altura, no 12.º ano, em que tive de decidir o que é que queria fazer. Vi escolas de teatro e de música nos EUA, porque já estava a viver lá nessa altura. E o que me fez decidir foi uma coisa completamente estúpida e insignificante, mas que mudou a minha vida: sabia que nunca ia conseguir ter um sotaque completamente americano. Era muito difícil, não falo com um sotaque forte mas é o suficiente para não ser credível como personagem americana, teria de trabalhar muito. Ainda por cima tenho esta cara que é tudo menos latina, portanto nunca poderia fazer personagens latinos, aí então não era credível de todo.

"Sempre fiz teatro e sempre cantei. Chegou uma altura em que tive de decidir. Vi escolas de teatro e de música nos EUA, estava a viver lá nessa altura. Fui para a música. Mas sempre que vou ver peças de teatro fico sempre um bocadinho triste, com vontade de estar ali."

Na altura pensei nisso: nunca vou conseguir ter personagens americanos. Poderia fazer de sueca, ou assim, mas também não tenho altura… Perante isso, pensei: vou para a música e depois logo vejo. Eram duas paixões mesmo fortes, aliás, ainda adoro teatro, fiz duas peças de teatro amador, uma há dois anos, outra há três. Teatro musical nunca fiz, não gosto de misturar as duas coisas. Mas sempre que vou ver peças de teatro fico sempre um bocadinho triste, fico sempre com muita vontade de estar ali.

O que é que une a vontade de interpretar uma personagem numa peça de teatro e a vontade de escrever canções? É a vontade de contar histórias?
Completamente, acho que tem tudo a ver. Agora dou aulas de composição e digo isso aos meus alunos, o processo é semelhante ao de um ator. Ainda hoje acabei uma canção e enviei para uma cantora, que me a pediu. É uma canção sobre uma pessoa que se vai casar, é o dia do casamento e ela está super entusiasmada, a olhar para o vestido. Veste-se, põe o colar da mãe, começa à frente do espelho a fingir que está a entrar com o pai no altar e emociona-se. Eu nunca quis casar na minha vida, nunca tive o sonho de entrar numa igreja. O que é que fiz para escrever a canção? Encarnei a personagem. Tenho de fazer perguntas à personagem como fazia quando fazia teatro: quem é esta pessoa, porque é que se sente assim, que idade mais ou menos é que tem, de onde é que vem? É um trabalho que é feito enquanto ator, perguntar tudo para se ser o mais credível possível. Nas canções, acontece o mesmo. Faço uns traços com todas as coisas que sei sobre a personagem da canção, é o mesmo processo. Tento que os meus personagens sejam ricos como um ator quereria que o seu personagem fosse. Ou um escritor.

Quando decidiu ir estudar para o Berklee College of Music, já depois do ensino secundário, que grau de convicção é que tinha na sua carreira musical? Ainda tinha um plano B?
Acho que quando uma pessoa quer mesmo fazer uma coisa tem de fazê-la. O plano B só vem a seguir, se não resultar. Não quero ter um plano B, acho que se temos um plano B não nos esforçamos o suficiente pelo A. Não havia opção. Tinha participado no “Ídolos” antes de ir fazer o intercâmbio [durante o 12.º ano] e tinha plena noção de que tinha imenso para aprender. Não tinha ainda identidade musical, cantava um bocado de tudo, de músicas brasileiras das telenovelas a standards de jazz. Sabia que tinha de ir à procura disso, que tinha de ir aprender a ler música. Se dava ou não? A única coisa que me pediram, sobretudo o meu pai, foi que terminasse o curso, porque terminando-o poderia sempre ensinar música. Esse era o plano B, mas estava dentro do plano A, a música. Na verdade os meus planos passavam por teatro ou música e nenhum era uma coisa considerada muito estável [sorri].

“Não é meu objetivo de vida ser gigante em lado nenhum”

Quando é que começou a sentir mais vontade de escrever em português? Não é novidade fazê-lo mas um disco todo ancorado no português é quase [só tinha acontecido no terceiro, Lu-Pu-I-Pi-Sa-Pa].
Acho que tem a ver com viver cá. No início [da atividade como compositora] vivia nos EUA, falava e pensava em inglês o dia inteiro. Quase não tinha amigos portugueses, já sonhava em inglês e a partir do momento em que uma pessoa sonha numa língua, é nela que vai escrever. Também lia em inglês. Quando vim viver para Portugal, lancei um primeiro disco que tinha dois temas em português, porque tive sempre vontade de escrever em português. Depois fui fazendo isso um pouco mais regularmente, mas a minha cabeça ainda funcionava um bocado em inglês, porque estive vários anos a viver lá. Em Portugal comecei a ler muitos autores lusófonos porque queria escrever melhor, queria inspirar-me. Aí, comecei a escrever mais.

Para este disco a mudança grande deveu-se a uma coisa: antes e depois do Festival da Canção, comecei a ter muito mais gente a pedir-me para escrever canções. Comecei a escrever muito em português para outras pessoas. De repente, quando chegou o momento de escrever para mim, estava tão apaixonada pela língua e com tanta vontade de ter a ligação que percebi que as outras pessoas tinham com as minhas letras em português, quando as cantavam, que foi inevitável. Cria-se uma ligação mais imediata com o público.

Com o público português?
Cá e lá fora. Durante os anos em que cantei em português e inglês lá fora, as pessoas diziam que se ligavam mais a mim quando cantava em português, mesmo não entendendo o que dizia. Isso foi-me ficando no ouvido, apesar de fazer sempre o que me apetecia. Cheguei agora a este momento em que estava a escrever para muita gente em português e de repente, sempre que pegava na guitarra o que saía era em português.

Isso acaba por contrariar a ideia de que escrevendo em inglês chega-se mais facilmente ao público internacional.
Completamente, não é verdade. As pessoas raramente ouvem muito as letras, é um facto e é uma pena, porque sempre me habituei desde miúda a ouvir logo as letras. Quando ia a países como Israel, em que as pessoas não são sequer fluentes em inglês, o que é que lhes interessava se cantava em inglês ou português? Uma vez, precisamente em Israel, disseram-me que sentiam que quando cantava em português a minha ligação à canção era mais forte. Isso sentia-se. Depois disseram-me o mesmo imensas vezes. Foi importante para decidir gravar o disco assim e não me importar com a carreira lá fora. Sinto que as pessoas podem gostar na mesma, a música vai muito além de uma letra e de uma língua. Foi uma das coisas que aprendi com a Eurovisão, também.

Referia há pouco a questão das canções relacionarem-se com o Brasil. Sendo este um disco em português, é um mercado em que lhe interessa estabelecer-se mais? Nos últimos anos tem crescido para os músicos portugueses.
Não sei sequer se é correto dizer isto, mas nunca tive um grande fascínio pelo Brasil. Tenho um fascínio enorme pela música brasileira, mas pelo Brasil nunca tive. É uma coisa que os portugueses têm muito, querem ir ao Brasil, tocar no Brasil… nunca fui assim, nunca tive muita vontade de viajar para o Brasil. Já fui algumas vezes e não é o meu país preferido, de todo. Acho que às vezes somos um bocado pequeninos, falamos muito das praias brasileiras quando as praias portuguesas são incríveis. Irrita-me um bocadinho acharmos sempre os brasileiros melhores em tudo. Há compositores brasileiros de que gosto muito, o Chico Buarque, o Caetano Veloso, o Pixinguinha, o Cartola. Mas também gosto muito do Bob Dylan e por aí fora. É bom, claro, ir a um sítio em que as pessoas percebem a nossa língua. Sei que, embora não percebam quando estamos a falar, percebem através da música e da maneira como canto, já vi e senti isso, porque ainda há um ano fui ao Brasil tocar. Gostei muito, mas o meu sítio de eleição para ir tocar é mesmo o Japão, adorava fazer uma digressão grande na Ásia, sobretudo no Japão.

"Não é o meu objetivo de vida ser gigante do Brasil. Neste momento não é o meu objetivo de vida ser gigante em lado nenhum, aliás, só quero tocar e viajar."

Depois de uma digressão em África, que já aconteceu…
Exatamente. Mas tive sempre um fascínio enorme com a Ásia. Com o Brasil, o fascínio que a maior parte dos músicos tem — e que eu percebo pelo lado musical –, não tenho. Não é o meu objetivo de vida ser gigante do Brasil. Neste momento não é o meu objetivo de vida ser gigante em lado nenhum, aliás, só quero tocar e viajar.

Ainda agora o Brasil foi a eleições e notou-se uma grande diferença, animosidade até, entre boa parte da sociedade brasileira e a elite intelectual e artística do país. Isso diz alguma coisa da forma como a arte é vista hoje em dia pelos pessoas?
O problema é que o Brasil tem pouca classe média. Há uma grande discrepância, por isso é normal que os artistas estejam muito afastados da maior parte da população. Em Portugal não acho que aconteça, temos uma grande classe média e o artista está taco a taco com a média da população, acho. No Brasil não, temos o artista intelectual e a pessoa da favela que quase nem sabe falar. Acho que cá não é igual. Para mim este disco, por exemplo, não é comercial mas não é difícil de ouvir, qualquer pessoa ouve e entende as minhas letras, nada é muito elaborado e eloquente. A maneira como escrevo é direta, fácil, não é com palavras esquisitas que as pessoas não conhecem. Então, acredito que pode chegar à maior parte da população, não acho que seja difícil. Já eles não são artistas ouvidos pela maior parte da população, essa ouve funk e outras coisas. Achamos sempre que os brasileiros adoram o Caetano Veloso, mas não. Os brasileiros da classe alta adoram o Caetano, isso sim. Já fui ao Brasil, disse que adorava isto e aquilo e disseram-me: “ah, isso é MPB”. É uma coisa de elite e nós não temos tanto música de elite. A nossa música de elite talvez seja mais o jazz ou a música clássica.

“Os meus pais chegavam a casa às 19h e não me lembro de me faltarem”

A sua apreensão com os problemas sociais e com o futuro é maior desde que tem filhos?
Completamente. Até em coisas mais pequenas. Agora ando a dar aulas a adolescentes. De repente, percebo que elas cantam sobre bullying na escola ou sobre a aceitação nas redes sociais, sobre coisas mundanas. Projeto logo aquilo e ponho a minha filha ali, penso logo que eles se sentem valorizados através das redes sociais — dez likes quer dizer que sou muito feia, cem quer dizer que já sou muito bonita. Essas pequenas coisas já me assustam e já enquadro nelas a minha filha. Vejo situações de rapazes a ir à discoteca e o porteiro bate em toda a gente, imagino logo o meu filho a ir sair à noite. É uma coisa normal, acontece-nos em fenómenos que acontecem no mundo: se caiu um avião na Conchichina, olha que chatice, mas se cair em Paris é logo outra coisa. Em Paris?! Isso acontece porque sentimos que poderíamos lá estar. Toca-me mais ver coisas que podem acontecer-me a mim ou aos meus filhos. É um bocado hipócrita, mas acontece.

"Gravei o disco todo, no fim chega a pessoa do estúdio -- não me importo de dizer isto porque era ótimo que ele percebesse que fez isto -- e pergunta: quem é o homem da assinatura? São coisas muito irritantes. A pessoa da assinatura sou eu, eu é que pago o estúdio, é o meu disco. Como assim, o homem da assinatura?!" 

Há algum tempo perguntava-lhe se algumas das suas referências musicais tinha sido, durante algum tempo, uma figura tutelar, uma obsessão musical. Disse-me: “A Joni Mitchell, talvez”. É uma pessoa que lidou com uma indústria musical diferente, com um sexismo muito vincado. Em 1971, por exemplo, no ano em que lançou o disco Blue, a revista Rolling Stone colocou-a na capa chamando-lhe “Old Lady of the Year” [a expressão “old lady”, naquele sentido, refere-se a alguém que é namorada/mulher de um homem] e enumerando os homens com quem alegadamente teria estado. Sente que beneficiou de surgir como compositora e autora numa época em que não se sentirá de forma tão vincada esse sexismo?
Acho que ainda é profundo em algumas áreas e contextos. Tenho sorte de nunca ter sentido isso. Não tenho uma grande carreira, em oito anos tive duas situações um bocadinho chatas, mas nada de mais. No outro dia também me aconteceu no estúdio uma coisa que me acontece muito pouco. Gravei o disco todo, no fim chega a pessoa do estúdio — não me importo de dizer isto porque seria ótimo que ele percebesse que fez isto — e pergunta: “Quem é o homem da assinatura?”. São coisas muito irritantes. A pessoa da assinatura sou eu, eu é que pago o estúdio, é o meu disco. Como assim, o homem da assinatura?! Mas como nunca sinto essas coisas… [desvaloriza].

Na minha agência, editora, os músicos com quem trabalhei, em todo o lado rodeei-me sempre pessoas de pessoas que nunca senti que me achassem inferior ou me respeitassem menos por ser mulher. Nunca aconteceu. Acabo por ser líder de uma banda e às vezes tenho de dizer a alguém que não quero que faça a coisa assim ou que gostava mais que fizesse de outra maneira. Tenho de ser eu a liderar e tomar as decisões e nunca senti que houvesse menos respeito ou diferenciação por ser mulher. Sinto-me privilegiada porque, é verdade, vivo num tempo em que acontece menos. Mas continua a acontecer muito, se calhar mais camuflado, noutros meios em que as mulheres estão mais vulneráveis. Eu acabo por mandar na minha carreira, para uma atriz que está a fazer um filme é um bocadinho mais difícil decidir não fazer algo, por exemplo. Não se sentir [machismo] deveria ser o normal, mas considero-me privilegiada porque nunca me aconteceu nada de muito significativo…

Como é conciliar a família com uma carreira que implica viagens, concertos e digressões?
Agora é um bocadinho mais difícil, com dois filhos. Não dormir complica, com o cansaço ando a trocar os dias. Mas depois as coisas acabam por acontecer. Claro que isso requer fazer coisas diferentes, agora vou ter de fazer um calendário gigante para pôr no frigorífico para eu e o meu marido vermos, para termos a noção das coisas que mudam. É verdade que é muito mais difícil fazer isto, mas é uma fase, porque a minha filha ainda não está na escola. O meu filho já está e é mais fácil, ela não, também porque escolhi assim. Mesmo a promoção [dos discos] é intensa mas são duas semanas. Desde que me concentre, desde pense que vou fazer as coisas e que tenho de me organizar, as coisas acontecem e no fim do dia sinto-me feliz, porque acabo por ser uma inspiração para os meus filhos, porque continuo a seguir o que gosto de fazer.

"A minha mãe e o meu pai também chegavam a casa às 19h e nunca me lembro de me faltarem. Eles é que me inspiraram a mim e ao meu irmão a sermos aquilo que queríamos ser. Por isso acho que, apesar de não poder estar sempre a 100% com os meus filhos, isto funciona como uma inspiração para eles um dia serem felizes. E, quando estou, estou a 100%."

A minha mãe e o meu pai também chegavam a casa às 19h e nunca me lembro de eles me faltarem. Eles é que me inspiraram a mim e ao meu irmão a sermos aquilo que queríamos ser. Por isso acho mesmo que, apesar de não poder estar sempre a 100% com os meus filhos, isto funciona como uma inspiração para eles um dia serem felizes. E, quando estou, estou a 100%. Não é por ser mãe que vou deixar de cantar e adoro partilhar isso com o meu filho, que ele entre no meu mundo, é uma coisa que ele só pode fazer a partir de agora [que tem dois anos].

“Quem fica conhecido é quem canta”

Depois da Eurovisão começou a escrever mais para outros artistas e até a trabalhar como produtora [produziu um álbum da cantora Elisa Rodrigues]. A vitória da “Amar pelos Dois” chamou a atenção das pessoas para o facto da composição ser uma coisa própria, diferente da interpretação, que tem um valor em si mesmo?
Completamente, porque as pessoas às vezes nem têm a noção de quem escreve as canções. As pessoas às vezes dizem “a canção da Aurea”, por exemplo, sobre uma canção que não foi escrita por ela. Mas quem fica conhecido é quem a canta. Não há problema nenhum nisso, sempre que escrevi para outras pessoas nunca senti que tinha de ter os louros por ter escrito uma canção. O compositor tem de ter essa humildade de ficar na sombra.

Neste caso não fiquei na sombra por causa das circunstâncias, porque quem foi convidado para participar no Festival da Canção fui eu, como compositora. Só depois convidava alguém. Por causa disso, as pessoas prestaram mais atenção aos compositores e acho interessante, porque as pessoas normalmente não sabem quem escreve as canções. É bonito as pessoas virem dizer-me: gosto muito do seu irmão, a sua canção é muito bonita. Se ele tivesse gravado aquilo num disco dele nunca ninguém diria isso, mas acho interessante dar-se esse valor ao compositor, apesar de não me importar nada de ficar na sombra quando alguém tem sucesso com uma canção minha.

Mesmo entre os seus pares, esse reconhecimento enquanto compositora não cresceu? Surgiram mais convites…
Isso senti muito. Não de uma maneira má, mas de repente senti que existia mais no mundo musical do que antes. Não senti que as pessoas tivessem passado a gostar de mim por ter ganho, foi natural, mas de facto senti que as pessoas me valorizavam de outra forma, mesmo os músicos. Também porque em Portugal há um bocadinho a ideia de que quem não escreve em português é porque não sabe. Comigo nunca foi a questão, simplesmente não tinha vontade. Como de repente escrevi uma canção que fez falar de Portugal e de que alguns músicos gostaram, parecia que já era válida, não sei. Mas não acho que tenha sido maldade. Gosto dessa validação e fez com que fosse convidada para fazer uma coisa de que gosto muito: compor para cantores que adoro.

"Há muitas fadistas que não escrevem e há muitos homens a escrever para elas. Não há nada de mal nisso, mas sempre achei que era pena não haver também homens a cantarem canções com palavras de mulheres. É pena que não haja mais vezes homens a cantar a nossa maneira de ver o mundo. Agora já começa a haver mais mulheres a escrever para outros."

Há outra coisa que acho super importante: temos muitos compositores homens a escrever para cantoras. No fado, por exemplo, há muitas fadistas que não escrevem e há muitos homens a escrever para elas. Não há nada de mal nisso, mas sempre achei que era pena não haver também homens a cantarem canções com palavras de mulheres. Os homens e as mulheres têm maneiras diferentes de ver o mundo, é normal, e é pena que não haja mais vezes homens a cantar a nossa maneira de ver o mundo. Agora já começa a haver muito mais mulheres compositoras, estou a adorar viver nesta época porque acho que começa a haver mais mulheres a escrever para outros.

A ser reconhecidas como autoras, não só como cantoras?
Exatamente, exatamente. Acho que cada uma de nós que começa uma carreira a compor tem peso nessa mudança, porque outras mulheres olham para nós e dizem: também posso ser compositora. Estamos a viver uma fase muito boa com esta maior igualdade. Não é possível que só os homens escrevam bem. Agora, por exemplo, o [António] Zambujo vai lançar uma canção que fui eu que escrevi e que escrevi toda no feminino. Ele vai cantar no feminino, como o Chico Buarque fazia e faz muitas vezes. Acho interessante ele cantar uma perspetiva de uma mulher assim como nós cantamos muitas vezes perspetivas de homens.

Já que fala de compositoras, a Isaura, que a sucedeu como vencedora do Festival da Canção…
Aí está outra mulher que escreve super bem!

Ela chegou a dizer publicamente que equacionou ser ela a interpretar a canção que levou ao Festival da Canção e depois à Eurovisão. Alguma vez lhe passou pela cabeça cantar a “Amar pelos Dois”?
Não, não. Sinceramente, não tive coragem — e ainda bem que não tive coragem. Havia dois fatores envolvidos. Primeiro, não me queria expor dessa forma, não queria estar numa competição como cantora. Entrei na competição como compositora, com os meus amigos compositores. Nem levei aquilo como competição, tenho uma aversão enorme a competições desde que participei nos “Ídolos”. Também senti que estava numa fase da minha carreira em que não queria ser posta à prova dessa forma, não queria ter de me comparar com outras pessoas, senti que poderia até nem ser benéfico para mim, porque se corresse bem, boa, se corresse mal era muito chato para a minha carreira. Ou não, mas poderia ser. Então, não me apetecia mesmo competir dessa forma, não me apetecia ter aqueles nervos de chegar ali e cantar com o playback.

Por outro lado, o meu irmão já tinha lançado o disco e eu sabia da qualidade e do potencial dele. Queria mesmo que as pessoas ouvissem a voz dele, queria que o conhecessem, que soubessem o cantor e intérprete incrível que ele é. Tinha essas duas coisas, que me fizeram logo pensar nele. Depois dele teve de dizer que sim, mas para mim fez todo o sentido. Nunca pensei mesmo em ser eu a cantar, logo na primeira reunião pensei “é o meu irmão, se ele disser que não estou um bocado à rasca porque tenho de pensar noutra pessoa”. Mas compus a canção para ele. Lembro-me que na nossa gala a Márcia ia cantar sozinha e recordo-me de pensar: que coragem, eu nunca faria isto.

[Eurovisão] “Tenho quase a certeza que se tivesse sido eu a participar não tínhamos ganho. Ele ser quase completamente desconhecido fez parte do fenómeno, acho. Depois, tudo aquilo junto fez sentido. A nossa ligação, o irmão que canta a canção do outro irmão…”

E depois da vitória, nunca lhe passou pela cabeça o que teria acontecido se fosse a Luísa a cantá-la?
Tenho quase a certeza que se tivesse sido eu tínhamos perdido. Não por achar que sou inferior ao meu irmão, nada disso. Somos completamente diferentes, mas em primeiro lugar o que fez com que aquilo fosse um fenómeno em Portugal foi exatamente o facto de ele ser quase completamente desconhecido. Isso fez parte do fenómeno, acho. Depois, tudo aquilo junto fez sentido, acho que eu [a cantar] não teria feito tanto sentido. Não por me achar inferior enquanto intérprete, mas porque a conjugação daqueles fatores é que fez com que tivéssemos ganho e com que as pessoas se tivessem emocionado daquela forma. A nossa ligação, compositor e cantor, o irmão que canta a canção do outro irmão, todas essas coisas fizeram sentido assim. Por isso, tenho quase a certeza que se fosse eu a participar não teríamos ganho. E não fico nada triste com isso, até porque é impossível quando dois irmãos se dão bem termos realmente ciúmes um do outro. Quero que o meu irmão se dê muito melhor do que eu.

Este ano esteve no festival com outro papel, de jurada, numa edição…
Foi horrível.

… Em que a vencedora portuguesa ficou em último lugar na final da Eurovisão.
Não foi nada merecido, não fez sentido nenhum.

O resultado é mais revelador da canção portuguesa ou do formato da Eurovisão?
Da Eurovisão, nada da canção que era bonita. A Cláudia [Pascoal] cantou super bem. Se era uma canção para ficar em primeiro… também não é a minha canção preferida de sempre, mas era uma canção bonita. Para primeiro não sei, mas último não merecia, mesmo. Acho que as pessoas pensaram que como tínhamos ganho no ano anterior, estava feito, não votaram em Portugal. Voltou um bocado ao que era antes, em que ninguém se lembrava de votar em Portugal.

As expetativas e grau de comparação poderão ter tido o seu impacto?
Sim, mas o fenómeno da “Amar pelos Dois” é um fenómeno exatamente porque não acontece todas as vezes, acontece uma. Era normal que não voltasse a acontecer. Elas também foram… coitadas, não foi fácil ir depois de nós, não porque fôssemos muito bons, mas porque não é fácil ir depois de uma coisa que revolucionou um pouco aquilo. Ainda para mais sendo em Portugal, parecia que havia uma carga maior. Não mereciam mesmo o último lugar, a canção era muito bonita e a maior parte das canções são horríveis, ainda por cima. Fiquei um bocado triste por elas, que são as duas muito queridas, e pela canção, que não merecia.

[A vitória na Eurovisão] "Eu sabia que não ia mudar nada. O meu irmão achava que sim, porque o meu irmão acha que pode mudar o mundo. Disse-lhe logo para não ficar com essas ideias porque no ano seguinte não ia ser tudo bandas de jazz na Eurovisão. Aquilo é o que é. E realmente este ano ganhou a rapariga de Israel a fazer de galinha, ficou igual. (…) Espero nunca mais lá ir."

Discutia-se muito se a vossa vitória mudaria o paradigma e o formato da Eurovisão. Achava que era possível?
Eu sabia que não ia mudar nada. O meu irmão achava que sim, porque o meu irmão acha que pode mudar o mundo. Disse-lhe logo para não ficar com essas ideias porque no ano seguinte não ia ser tudo bandas de jazz na Eurovisão. Foi uma coisa que foi diferente um ano, mas aquilo é o que é. E realmente este ano ganhou a rapariga de Israel a fazer de galinha, ficou igual. Nunca tive essa ideia e disse sempre ao meu irmão que as pessoas que mudaram o mundo nunca tiveram a pretensão de o fazer. Acredito mesmo nisso. Se tivermos a pretensão de mudar alguma coisa no mundo, não vamos mudar nada. As coisas mudam naturalmente pelos atos, pelas coisas que nós fazemos. Nunca tive a pretensão de mudar a Eurovisão e sinceramente quero lá saber se mudo [risos], espero nunca mais lá ir, é-me indiferente. Foi giro por causa do momento em si, mas acabou, nunca mais quero ir lá fazer nada. Ainda este ano fui convidada para participar com uma cantora italiana, porque escrevi uma canção em italiano e fui convidada para participar no concurso de Itália que leva à Eurovisão. “Não, não quero mais!” [Risos].

Esta edição teve outra peculiaridade. Alguns membros do júri, como o Tozé Brito, comentaram as acusações de plágio a um concorrente [Diogo Piçarra]. Não sei se chegou a comentar, mas tenho curiosidade em saber o que pensa, como autora, compositora e participante do júri.
Foi horrível. Hoje em dia de repente mata-se uma pessoa em dez minutos nas redes sociais, toda a gente odeia alguém que amava há uns minutos. É tão agressivo e tão violento, é horrível. Não fiquei chocada porque sei que é assim, mas foi muito feio. Claro que não foi plágio nenhum, por várias razões. Conheço o Diogo e sei que ele nunca faria isso. A canção dele era um bocado óbvia, são sequências de acordes muito comuns, é um tema melódico muito comum, então é normal [haver temas semelhantes]. Deve haver imensa gente que escreveu canções iguais àquelas, porque a ideia é um bocadinho óbvia.

"O Diogo [Piçarra] é uma pessoa que faz parte da geração da internet, não é a mesma coisa do que o caso do Tony Carreira, por exemplo. Quando o Tony Carreira escreveu aquelas canções, não o fez numa era em que achasse que alguma vez alguém iria descobrir. Agora, o Diogo faz parte de uma geração que sabe que tudo se encontra na internet. Portanto nunca faria isso até por uma razão lógica."

O Diogo é uma pessoa que faz parte da geração da internet, não é a mesma coisa do que o caso do Tony Carreira, por exemplo. Quando o Tony Carreira escreveu aquelas canções, não o fez numa era em que achasse que alguma vez alguém iria descobrir. Agora, o Diogo faz parte de uma geração que sabe que tudo se encontra na internet. Portanto, ele nunca faria isso até por uma razão lógica. Quando ouvi a [outra] canção, pensei: é óbvio que ele não foi buscar isto à IURD ou o que raio era. Mas se calhar não devia continuar no festival porque aquilo é uma competição de canções originais e a partir do momento que se descobre isso é normal que a canção não possa competir. Mesmo não tendo sido essa a origem da canção, deixa de ser original.

“Os irmãos mais velhos / são os heróis do batalhão / da nova geração”. Ser irmã mais velha encaminhou-a para ser uma pessoa organizada e responsável, como já assumiu que é?
Não sei, tinha agora de nascer como irmã mais nova para ver se era diferente, mas acho que sim. No outro dia estava a falar disso com uns amigos meus. Mesmo agora vejo como é que educo o meu filho e as coisas que faço com a minha filha, vejo que somos muito mais exigentes com o primeiro filho porque também temos muito mais tempo e disponibilidade. Acho que é por isso que os filhos mais velhos normalmente também são um bocadinho mais exigentes com eles próprios e mais ‘certinhos’. Sempre fui muito organizada, sabia exatamente o que é que queria, enquanto o meu irmão foi sempre completamente diferente. Irritava-me imenso isso, porque depois o filho mais velho tenta educar o filho mais novo. Eu fazia de mãe, ele dizia-me ‘não és minha mãe’, aquela resposta que muitas vezes os irmãos dão às irmãs mais velhas. Ouvi-a muitas vezes. Sinto isso agora com os meus filhos, que provavelmente vou ser sempre mais rigorosa com ele do que com ela. Já fica aqui para ele saber um dia [risos].

Agora com a edição deste Rosa, o que vem a seguir? Concertos, digressões?
Os primeiros três concertos grandes do ano que vem vão ser no Porto, em Lisboa e em Coimbra, em fevereiro. Agora vou fazer o lançamento do disco, depois só em fevereiro é que começo uma digressão [pelo país]. Vamos estar em ensaios e vai ser diferente, porque os concertos vão ser com duas guitarras e um trio de sopros. Estou super entusiasmada por fazer os concertos assim, será muito diferente do que já fiz. Tenho feito sempre com a mesma banda exceto no último álbum, que chamei mais um guitarrista, e no disco das crianças, que tinha um clarinetista. Mas o núcleo duro era sempre o mesmo e agora vai ser uma coisa totalmente diferente.

Senti necessidade de fazer uma pausa no que fazia. Lembro-me de dizer aos meus músicos há um ano que não sabia o que iria acontecer mas que não seria igual, que por causa disso tinham liberdade para ir procurar outros trabalhos. Nós, líderes de banda, na maior parte das vezes acabamos por ter só a nossa banda, ao contrário de quem toca connosco, que pode passar por várias bandas, experimentar coisas novas e tocar vários tipos de som. Nós não. Queria uma mudança, queria ir para a estrada com outro som e explorar outras coisas. Vi um concerto da Silvia Pérez Cruz no CBB, no ano passado, que me inspirou imenso. Era ela com um quarteto de cordas e foi dos concertos mais bonitos da minha vida. De repente, percebi que aquilo era muito mais forte do que encher o palco com coisas. Ela estava só com um quarteto de cordas e foi tão emocionante que me fez querer aquilo, querer ir buscar a essência da canção e do som dos instrumentos clássicos.

A escolha do produtor teve a ver com isso, já que ele trabalhou com a Silvia Pérez Cruz, ou foi anterior ao concerto?
Foi as duas coisas, acho. Não me lembro muito bem da cronologia, mas fui tocar a um festival da [editora] Universal em Madrid. O festival tinha vários workshops e um deles era um workshop de produção, dado pelo Raül. Convidaram-me uns dias antes para fazer parte do workshop, levava uma canção e ele produzia-a à frente das pessoas. Só que acabou por ser cancelado. Fiquei com o contacto dele, tínhamos falado antes e tinha-lhe mandado uma canção que tinha escrito na altura. Uma canção virgem, que não estivesse produzida, que ele pudesse pegar, que não faz parte deste disco nem fez parte de disco nenhum. Passado um tempo, já depois desse concerto da Silvia [Pérez Cruz], comecei a pensar em ter um produtor que conseguisse evidenciar o cantautor, a canção em si. Pensei logo nele, contactei-o, enviei-lhe umas canções e a partir daí começámos a trabalhar.

E chegámos aqui. Obrigado, Luísa.
Está bom? Boa.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: gcorreia@observador.pt
Crónica

As aventuras da coerência /premium

Paulo Tunhas

Até certa altura pensei que a chamada “esquerda” era depositária da tradição de liberdade e garantia da democracia. Mas uma observação das suas reacções políticas mostra algo diferente e inquietante.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)