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Arlindo Camacho

Arlindo Camacho

Diogo Piçarra: "Tenho de admitir as parecenças, claro. É óbvio"

Começou a tocar covers em Faro, esgotou os Coliseus e 16 horas depois do sucesso no festival, é acusado de plagiar um tema da IURD. Quem é Diogo Piçarra, o rapaz a quem a música "salvou a vida"?

O momento em que descobriu o cântico da IURD e da Igreja Cristã Nova Vida foi uma surpresa, garantiu Diogo Piçarra ao Observador, duas horas depois de ter rebentado na internet a acusação de plágio: “Lembro-me de ter visto o link e eu próprio fiquei surpreendido, a pensar: ‘Ih, a sério? Eu nunca ouvi isto na vida, nunca vi este senhor [cantor do tema brasileiro], nunca vi este título, este álbum… Nem sequer sabia que havia um álbum de música da Igreja [em questão], mais precisamente de cânticos do reino.”

Mas as parecenças são tantas que o cantor acaba por as reconhecer: “Tenho de admitir as parecenças, claro. É óbvio”. Na hora de encontrar algo que as possa ligar, Diogo Piçarra aponta as agulhas para “a melodia tão simples e tão elementar” dos dois temas, que torna “quase inevitável”, diz, que a sua canção (e também o cântico religioso) seja “parecida com muita coisa”. O cantor considera a música “lindíssima” e não recua: “Continuo a defendê-la”. Mas admite que a surpresa foi enorme: “Achava que tinha tido uma ideia brilhante”. Resume o que aconteceu assim: “É a sina do compositor. Desta vez calhou-me a mim. Acontece a todos, toca a todos e só quem não cria arte é que não sofre com isto”.

Este domingo Diogo Piçarra venceu a segunda semi-final do Festival da Canção e cerca de 16 horas depois foi acusado na internet de plágio pelas semelhanças entre o tema que levou a concurso, “Canção do Fim”, e o cântico evangélico “Abre os Meus Olhos”.

[Veja no vídeo as semelhanças entre a melodia de Diogo Piçarra e a do pastor da IURD]

A música “Abre os Meus Olhos”, uma versão do tema “Open Your Eyes” do norte-americano Bob Cull, é cantada por inúmeros grupos religiosos. No Brasil ganhou popularidade através da Igreja Cristã Nova Vida e da Igreja Universal do Reino de Deus (habitualmente conhecida pelas siglas IURD).

“Quem é que foi encontrar aquela música de 1979?”

Sentado nos escritórios da Universal Music Portugal (chancela portuguesa da maior editora discográfica do mundo), o cantor, que tem assinado alguns dos grandes êxitos recentes da música pop portuguesa (de “Tu e Eu” a “Dialeto”, de “História” a “Só Existo Contigo”), diz ao Observador que só ficou surpreendido com uma coisa: “Quem é que foi encontrar aquela música de 1979, que é tão antiga, que nem sequer passa na rádio, que só deve ser cantada nas igrejas. Eu, como ateu, não vou à igreja. Já fui à catequese em muito pequeno mas nunca me associei à IURD nem conheço as suas práticas e as suas crenças”.

Diogo Piçarra fala das semelhanças polémicas entre a canção que levou ao Festival da Canção e a versão brasileira da música de Bob Cull: “Qualquer compositor que me estiver a ouvir vai identificar-se porque é normal que, em 20 músicas, três ou quatro sejam iguais às que costumamos ouvir”. O seu caso, contudo, é diferente: Piçarra diz que não houve sequer inspiração acidental, já que “nunca tinha ouvido” o cântico a que a sua composição se assemelha: “Tudo o que tem surgido é um pouco cómico e irónico porque eu acho que nunca ouvi aquela música na minha vida, nem sequer sabia da existência daquela canção e nem sequer me associo à Igreja ou à IURD [em específico].”

[Veja no vídeo 5 respostas de Diogo Piçarra sobre a acusação de plágio, em entrevista ao Observador]

Entre os seus pares, diz Piçarra, “ninguém pensou” que o tema “fosse parecido” com o cântico brasileiro. “Se não, acho que me tinham avisado e eu tinha voltado atrás. Mas sinto-me de consciência limpa porque a música que eu tinha pensado não a associava a qualquer outra música, muito menos a um tema da IURD. É uma música que fiz sem segundas intenções, que pretendo levar à final e quem sabe representar Portugal na Eurovisão”, remata.

“Já está quase tudo inventado. Só nos resta variar”

Na música, diz Diogo Piçarra, “já está quase tudo inventado, todas as progressões, todas as melodias. Agora só nos resta neste século variar o que já foi inventado — mas se eu conhecesse a música de antemão teria variado um pouco na minha para tentar fugir [à da IURD], claro”. Ele não conhecia o cântico mas acha graça, diz, a que “agora toda a gente conheça a IURD, toda a gente conheça aquele disco, o volume dois, quando ontem ninguém sequer conhecia e toda a gente tinha adorado a [sua] música, que foi consensual entre jurados e público”.

“Nunca iria participar [conscientemente] num concurso nacional com a visibilidade que tem internacionalmente o Festival da Canção com uma música parecida com a da IURD. Acho que é ridículo [assumir que sim]. Nunca iria fazer isso e quem me conhece sabe que eu sou honesto, sou sincero e admitiria qualquer coisa que fizesse de errado. Mas neste caso não conhecia a música e é impossível associar-me à IURD.”

“Acho que a música salvou a minha vida. Eu era um rapaz muito envergonhado, muito tímido, que às vezes merecia levar uma chapada para acordar para a vida, que gostava muito de não chamar a atenção."

Tem o cantor receio de que a opinião do público relativamente à canção mude de forma drástica com este caso? “Pode ter influência mas não me preocupa. Quero que as pessoas escolham o vencedor com cabeça e responsabilidade. Se isso implicar não me escolherem eu não me preocupo. Isto não é o Festival da Carreira, é o Festival da Canção. Sinto que isto não vai afetar a minha carreira, as pessoas que me seguem ou o trabalho que está feito para trás. No festival já sabia que iria haver um vencedor e que poderia ser eu ou outra pessoa, por isso, estava sempre à espera da derrota. Isto pode influenciar um pouco a decisão de muitas pessoas mas acho que nunca vai mudar a opinião de quem gostou realmente da canção”.

“Às vezes merecia levar uma chapada para acordar para a vida”

Quem se lembra de Diogo Piçarra em Faro, dos seus tempos de estudante, recorda um rapaz “pacato, simpático e reservado”, que estava longe de ser “um dos mais populares da escola” e que era um pouco “virado para si mesmo”. O cantor concorda com o diagnóstico sobre os seus anos de adolescência: “Acho que a música salvou a minha vida. Eu era um rapaz muito envergonhado, muito tímido, que às vezes merecia levar uma chapada para acordar para a vida, que gostava muito de não chamar a atenção. Estava sempre no cantinho — da sala, de um bar, de onde quer que fosse. Era, se calhar, um rapaz com muito pouca auto-estima e a música mudou-me completamente, deu-me muito mais confiança.”

“Ter começado a tocar guitarra, dar os primeiros acordes” foi, segundo o próprio, o que transformou um miúdo acabrunhado numa futura estrela pop nacional, vencedor do programa Ídolos (em 2012), autor de dois álbuns que chegaram ao top de vendas (Espelho, de 2015 e do=s, lançado em 2017) e favorito à vitória no Festival da Canção 2018: foi o mais votado das semi-finais, com 24 pontos, atribuídos por júri e público. Isso e “uma boa educação”, lembra ele, dada pelos pais: “Sempre me ensinaram o valor do dinheiro e do trabalho”.

"Nunca tinha tido uma namorada. Andava meio perdido e depois as pessoas mudaram completamente ao ver-me tocar, as raparigas olhavam-me com outros olhos e acho que isso mudou imenso a minha maneira de estar e ser."

O sucesso no Ídolos em 2012 (depois de uma participação mal sucedida em 2009 nesse programa e outra em 2010 na Operação Triunfo) e a carreira que tem vindo a construir deram-lhe confiança: “Fizeram-me ser um bocadinho mais pró-ativo e confiante na vida. Acho que há uns anos nunca imaginaria subir a um palco e tocar para milhares de pessoas”.

A música “apareceu-lhe” na “altura certa”, assume. “Foi nos meus 16, 17 anos, em que acho que passamos todos por aquela fase de adolescência em que somos rebeldes, não sabemos o que estamos cá a fazer, quando achamos que os pais não nos compreendem, que os nossos amigos nos falham. Na altura nunca tinha tido uma namorada, também. Andava meio perdido e depois as pessoas mudaram completamente ao ver-me tocar, as raparigas olhavam-me com outros olhos e acho que isso mudou imenso a minha maneira de estar e ser. Agradeço à música e aos meus professores de música porque acho que se não fossem eles eu não estava aqui hoje e seria uma pessoa completamente diferente.”

Do Ídolos a uma canção para “mudar mentalidades”

Algarvio, Diogo Piçarra começou a cantar ainda adolescente. Os covers foram o primeiro repertório, os Green Day eram a paixão assolapada que o inspirava e o Bar Académico (também conhecido simplesmente como “BA”) de Faro um poiso habitual. O primeiro projeto mais a sério de Diogo chamava-se Fora da Bóia. A banda, em que Piçarra não era sequer vocalista principal (era guitarrista e compunha alguns temas originais) atingiu algum reconhecimento na região, tendo terminado em 2011, altura em que Diogo Piçarra, já licenciado em Línguas e Comunicação, decidiu fazer o primeiro ano de mestrado em Ciências da Linguagem na República Checa, através do programa Erasmus.

[Os Fora da Bóia foram cabeças de cartaz da Semana Académica de Faro, em 2010. Foi um dos maiores concertos da banda, que então tinha Diogo Piçarra como guitarrista]

Regressado a Portugal, o cantor decidiu começar a investir na sua carreira a solo e em 2012, depois de participações infrutíferas na Operação Triunfo e Ídolos (a última terminaria com palavras duras do jurado Manuel Moura dos Santos, que Piçarra admitiria mais tarde terem-lhe “dado calo” para enfrentar as dificuldades de uma carreira musical), venceria mesmo o segundo programa. A vitória deu-lhe um carro, a possibilidade de estudar produção na London Music School e a gravação de um álbum.

“Sem dúvida que a experiência no Ídolos me ajudou imenso”, diz Piçarra ao Observador. “Não só agora para o Festival da Canção mas em toda a minha vida. Deu-me imensas aprendizagens sobre como estar em palco, como estar na televisão, em frente a uma câmara. Toda aquela pressão e nervosismo durante dois meses foram uma aprendizagem para mim e é um percurso de que eu me orgulho imenso porque de facto tornei-me uma pessoa diferente desde que participei no Ídolos”.

Os álbuns que gravaria depois a solo seriam um sucesso, mas o cantor português regressou agora à televisão para participar em mais um concurso musical: o Festival da Canção. Quando foi convidado, viu no desafio uma oportunidade: “Havia uma certa pressão em cima dos ombros por ser um artista com bastantes seguidores, com uma base de fãs que tenho vindo a construir e que já chamo de família”. E acresenta: “Realmente esta experiência de ser um pouco mais conhecido pelo público fez essa pressão crescer. Senti também isso na fase em que tive de decidir se canto ou não canto, se participo ou não participo”. Acabou por decidir compor e interpretar “Canção do Fim” ele mesmo, em vez de escolher outro intérprete.

A afeição à canção foi uma das coisas que o fez cantá-la: “Acontece com qualquer compositor, vamo-nos apaixonando pela música, afeiçoando-nos e apegando-nos a ela. Quis também ser eu o responsável pela partilha da mensagem que eu queria partilhar com a música, uma mensagem forte e actual. A projeção internacional da Eurovisão foi outro aliciante: “Quero ser um pouco mais reconhecido internacionalmente e  levar a minha música mais além. Já tenho tocado fora de Portugal mas só para comunidades portuguesas. Sinto que me falta alcançar esse objetivo de ir lá fora. Acho que é o desejo de qualquer artista. Sinto e sei que aqui já é muito difícil e lá fora então parece-me quase impossível — mas não custa tentar.”

O tema tem uma forte mensagem interventiva e social. Diogo Piçarra canta sobre armas e muros e explica o que quis dizer: “Sempre tentei ser uma boa pessoa, ser um bom vizinho, um bom colega e um bom amigo. Acho que sempre tratei bem toda a gente. Sinto que o respeito desaparece a cada dia. Acho que as gerações mais jovens estão a perder isso, de certa maneira vivem agarradas a um telemóvel e não há ninguém que as faça ouvir [conselhos]. Vivem a olhar para um telefone e não têm ídolos, não têm os pais como ídolos, os professores muito menos”.

A música “não tem nada a ver com amor”, garante. Talvez as pessoas estivessem à espera de uma música mais romântica, também graças ao trabalho que eu tenho vindo a fazer, uma música à Piçarra, de amor. Eu quis fugir um pouco disso e falar sobre o mundo de hoje e sobre a nossa atitude perante os outros, perante o planeta e perante nós próprios, também”. Um dos objetivos que diz ter com “Canção do Fim” é “mudar mentalidades, nem que seja de uma pessoa só. Não haver valores para com o próximo tem tomado proporções gigantescas — e aqui já falo das guerras, do terrorismo, de tudo o que tem acontecido na Síria. Vejo imagens de bebés por baixo dos escombros na Síria, é surreal, já nem se sabe qual é a razão da guerra. E esta canção é um bocadinho a crítica a tudo isso, ao terrorismo e a tudo o que tem acontecido ultimamente.”

Agora, as reações ao alegado plágio, na Internet, têm variado muito, entre o apoio demonstrado ao cantor pelos seus fãs e as críticas mais violentas. Diogo Piçarra diz que ainda não foi contactado por ninguém da RTP ou do Festival da Canção para esclarecer a situação, mas compreende as reações das pessoas: “Eu percebo, claro, eu percebo. Só que como músico nunca comentei este tipo de coisas porque quem tem telhados de vidro não atira pedras. Percebo os comentários, mas isto é tudo muito curto, as pessoas depois esquecem-se, amanhã há outro escândalo, há outro tema, há outra coisa”.

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