Pouco mais de cinco anos foram suficientes para Mariana Leitão ser quase tudo dentro da Iniciativa Liberal. De dirigente local e autarca a presidente do Conselho Nacional, de chefe de gabinete a deputada e líder parlamentar. No dia em que Mariana Leitão é eleita vice-presidente de Rui Rocha é ao mesmo tempo anunciada como candidata à Presidência da República apoiada pela IL. Quando se fazem contas à sucessão de Rui Rocha — principalmente entre aqueles que acham que Bernardo Blanco será ainda muito novo daqui a dois anos — existe quem lhe trace um destino de líder do partido — cuja ambição não reconhece, mas também não rejeita.

Chegou à Iniciativa Liberal em 2019, ainda João Cotrim Figueiredo era presidente do partido e causou logo boa impressão. Houve um feeling de que o partido podia ter ali um quadro para o futuro e que era preciso limar arestas, desde logo na forma de comunicar em público. É recordada como alguém que foi “automaticamente capaz de captar a atenção” e “politicamente atraente”.

Daí em diante, a liberal licenciada em Relações Internacionais e com formação em gestão de empresas, que trabalhou 15 anos nessa área, começou um percurso fulgurante dentro da IL. Quando ainda não tinha feito um ano de militância já estava a agarrar o desafio de ser coordenadora do núcleo de Oeiras, município por onde se estreou como autarca, mais precisamente como deputada municipal.

Os embates com Isaltino Morais destacam-se no percurso político de autarca e atiraram-na várias vezes para os holofotes, desde logo quando confrontou o presidente da Câmara Municipal de Oeiras em plena Assembleia Municipal — após uma investigação jornalística a milhares de faturas de refeições durante o consulado de Isaltino em Oeiras. Denunciou que o autarca de Oeiras fez “desaparecer” um cartaz que o criticava e a oferta de bilhetes para o festival Alive.

Mas foi no Conselho Nacional, em que foi presidente durante dois anos, que teve alguns dos anos mais intensos no que toca à política interna do partido — já que liderava o órgão mais importante entre convenções quando Cotrim Figueiredo decidiu abandonar a presidência do partido, o que levou à crispação entre direção e oposição interna a alcançarem patamares nunca antes vistos dentro da IL.

Ainda assim, encabeçou a lista ao Conselho Nacional apadrinhada por Rui Rocha. Não ficou foi como presidente daquele órgão porque havia outro desafio para abraçar: ser chefe de gabinete da IL na Assembleia da República. A importância que tinha vindo a ganhar foi-se tornando cada vez mais visível, com a liberal a conquistar, step by step, algum mediatismo. Desde presenças em rádios e televisões, à coluna de opinião no jornal Expresso, a IL preparava o óbvio: a ascensão de Mariana Leitão.

E assim foi. À primeira oportunidade foi colocada num lugar elegível e alcançou um assento na Assembleia da República. Mais: acabada de chegar, foi eleita líder parlamentar. Esse cargo permitiu-lhe rapidamente tornar-se um dos rostos da IL — e uma das pessoas mais requisitadas para tudo, designadamente quando é preciso dar palco aos liberais nos mais diversos órgãos de comunicação social.

De campeã do bridge a campeã da liberdade

A gosto pela estratégia que procura pôr em prática no tabuleiro da política já vem de longe: é jogadora federada de bridge — campeã nacional de Equipas Mistas em 2019 e representante da seleção nacional feminina no Mundial de 2022 e no Europeu em 2018 e 2022.

Agora, é em Belém que tem os olhos postos. Antes de a apresentar ao país como a candidata que a IL vai apresentar na corrida à Presidência da República, Rui Rocha descreveu a escolha da seguinte forma: “Um campeão da liberdade, campeão do rigor e da transparência, e campeão da luta por um país mais próspero, com uma economia mais pujante, fundada na reforma das instituições, na reforma do Estado, reformas que são absolutamente indispensáveis e urgentes.”

Mariana Leitão é a primeira mulher a ser confirmada na corrida a Belém — uma missão que admitiu vir a ser “mais difícil” do que um jogo de bridge. Na entrevista ao Observador, ainda antes de ser anunciada por Rui Rocha, reconheceu que se sentia “honrada” por ter sido apontada como protocandidata e após o anúncio deixou logo uma promessa: não vai desistir da candidatura a meio do caminho.

Sentiu-se na “obrigação de avançar” quando identificou que era necessário a IL ter uma candidatura: “Nenhuma das pessoas que se perfilavam representa o espaço liberal e é preciso ocupar esse espaço”, entende, alinhada com o que Rui Rocha já tinha dito, até quando assegurou que Gouveia e Melo não ocupava o espaço do liberalismo.

E quanto aos adversários, há já algumas opiniões da agora candidata a ter em conta. Confrontada na entrevista ao Observador relativamente à sondagem que dá conta de que Gouveia e Melo e André Ventura podem vir a disputar uma segunda volta das presidenciais, Mariana Leitão admitiu que “dificilmente conseguiria votar nalgum dos dois”.

Além de deixar claro que André Ventura estaria “completamente excluído” das suas hipóteses de voto, a candidata a Belém explicou que “não sabemos exatamente o que pensa Gouveia e Melo”. Afirmou que esteve “associado a um período em que por incompetência do Governo teve de agir”, assumindo um papel de organização logística, mas também acusou Gouveia e Melo de ter “usado o medo” para chegar aos objetivos que tinha na altura — “Disse que pretendia fazer uma moldagem psicológica do campo de batalha”, lembrou.

Blanco é o líder esperado, mas Mariana Leitão pode ter tempo (e espaço)

Nos corredores da Iniciativa Liberal — onde se dá como certo que Bernardo Blanco será, um dia, presidente do partido —, há muito que se ensaia um cenário que inclui Mariana Leitão. A idade de Blanco é vista como um entrave para que avance já em 2027, pelo que Mariana Leitão é considerada uma boa solução para liderar o partido entre Rocha e, possivelmente, Blanco.

Questionada sobre esses voos, Mariana Leitão preferiu não se alongou e, mesmo que não “exclua liminarmente” a hipótese, não “pensa” ou “ambiciona” ser líder da IL. Assegurou que o desejado líder da IL, leia-se Bernardo Blanco, “é uma pessoa muito competente e inteligente”, mas não antecipa cenários.

Seja qual for o futuro, a nova candidata a Belém vai manter-se, para já, na liderança da bancada parlamentar da IL, acaba de chegar à vice-presidência do partido pelas mãos de Rui Rocha e se os últimos anos forem exemplo, Mariana Leitão continuará a ser uma das caras mais conhecidas da IL — e o partido vai continuar a fazer (cada vez mais) para que seja uma das caras políticas conhecidas do país.