No próximo dia 25 de Junho, Moçambique completa 50 anos como Estado independente. O caminho tem sido palmilhado com muito violência, sendo uma das causas que impedem a saída do país dos bottom ten (dez piores) no Índice de Desenvolvimento Humano. O que sobra em recursos naturais falta em recursos, mais do que humanos, humanistas. Desde outubro último há um dado novo: o povo perdeu o medo. Doravante, tudo será diferente.
Naquela madrugada de 25 de Junho de 1975, a chuva, que caiu em abundância fora de época, traiu um dos pontos de honra de Samora: a pontualidade. A declaração de independência, que supostamente devia ter sido efetuada pontualmente às zero horas, acabou por ser feita às zero e 20 minutos. Mas ninguém pareceu importunar-se com o atraso. Estava tudo demasiado eufórico para ligar a detalhes.
Portugal, a potência colonial que havia pisado pela primeira vez território moçambicano na Ilha de Moçambique por intermédio de Vasco da Gama, em Março de 1498, estava prestes a ceder a soberania à novel República Popular de Moçambique e, consequentemente, ao partido que havia dirigido a Luta Armada de Libertação Nacional: a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo).
Do lado português, para a passagem do testemunho, viajaram as mais altas individualidades do IV Governo provisório: Vasco Gonçalves, primeiro-ministro; Melo Antunes, ministro dos Negócios Estrangeiros; Magalhães Mota, ministro sem pasta, Mário Soares, secretário-geral do Partido Socialista; Álvaro Cunhal, secretário-geral do Partido Comunista Português e ministro sem pasta; e Otelo Saraiva de Carvalho, comandante do Comando Operacional do Continente (COPCON).
Marcam presença ainda os líderes dos países da região que apoiaram a luta da Frelimo: Julius Nyerere da Tanzânia – a grande retaguarda do movimento guerrilheiro; Kenneth Kuanda da Zâmbia; Agostinho Neto, então líder do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e Mohammed Said Barre, à época presidente da Somália, país que detinha a presidência rotativa da Organização de Unidade Africana (OUA), antecessora da União Africana (UA).
População branca assustada
Nas vésperas da independência, a população branca residente em Moçambique é de cerca de 190 mil, o que corresponde sensivelmente a 2,3% da população, que totaliza perto de 8 milhões de almas. Mas é esta minoria branca que detém as rédeas do país. Tanto a nível político, como económico e social.
Samora, nos seus discursos fidelianos, não se cansa de reiterar que a sua luta e, consequentemente, a da Frelimo, não foi contra os portugueses, mas sim contra o colonialismo do qual ambos foram vítimas e que conta com os moçambicanos de todas as raças e cores para a construção do país. Todavia, o seu governo vai tomando medidas que começam a assustar a população branca.
Menos de um mês depois, a 24 de Julho de 1975, a banca e os seguros são nacionalizados, assim como os prédios de rendimento. O Estado só autoriza a posse de uma casa na cidade e outra no campo. Quem investiu em prédios urbanos para rendimento tem de entregá-los à Administração do Parque Imobiliário do Estado (APIE), um organismo entretanto criado para gerir todo o património de imóveis sob a alçada do Estado. Mário Coluna, o “monstro sagrado”, futebolista internacional português nascido em Moçambique que fez parte do êxito dos Magriços no Mundial de 1966 em Inglaterra, irá lamentar até ao fim dos seus dias o investimento feito num prédio de quatro andares com oito apartamentos em que o Estado ficou com sete!
A revolução está em marcha e cada vez mais se vai sovietizando. Embora nas suas intervenções Samora decrete o fim do racismo e da exploração do homem pelo homem, a confiança da população branca nas instituições do novo país é cada vez mais reduzida. A nova Lei da Nacionalidade não admite a dupla. Quem está com a República Popular tem de estar com a Frelimo – partido que dirige a sociedade – e com as suas políticas. Não há lugar para hesitações. O verdadeiro revolucionário veste a camisola e transpira pela revolução até à última gota se for preciso. À sua entourage, Samora decreta: “Os primeiros nos sacrifícios, os últimos nos benefícios.”
Embora em Moçambique a debandada da população branca não tenha conhecido os níveis de aceleração da ponta aérea angolana, milhares de europeus e mestiços vão abandonando o território que muito consideravam seu para sempre.
Como resultado deste êxodo, prósperas propriedades agrícolas e de produção de gado, fábricas, lojas e residências são abandonadas. Os principais serviços públicos e privados entram em colapso devido à falta de quadros. É comum enfermeiros fazerem de médicos e estudantes da 4ª classe darem aulas aos colegas da 3ª classe.
A Justiça popular e a pena de morte
Para mitigar o êxodo da população de origem portuguesa, acorrem cooperantes internacionalistas da Europa de Leste e da América Latina, contando-se nestes últimos sobretudo chilenos a fugir das garras da ditadura de Pinochet. Para a área militar chegam conselheiros cubanos e soviéticos, mas em solo Moçambicano, ao contrário de Angola, Samora nunca permitirá a atuação de forças estrangeiras.
A Frelimo, partido único, é omnipresente e omnipotente em todas as estruturas do Estado e da Sociedade. Os três poderes clássicos, Legislativo, Executivo e Judicial, não têm qualquer independência. O primeiro é entregue à Assembleia Popular composta por 210 representantes eleitos pela Frelimo; o segundo é exercido pelo presidente da Frelimo que é simultaneamente chefe do Estado e comandante das Forças Armadas, governando por decreto; o terceiro é entregue a tribunais populares, tendo o governo proibido toda a prática do Direito privado que só volta a ser restabelecida em 1986.
Acontecia muitas vezes os julgamentos serem efetuados de forma arbitrária, sem utilização do sistema judicial, tendo sido introduzida e aplicada várias vezes a pena de morte. Uma das mais mediáticas foi a do comerciante de móveis Gulamo Nabi. Para complementar os parcos rendimentos, Gulamo arriscou exportar 40 quilos de Camarão via Suazilândia. Alvo de uma denúncia, Gulamo foi imediatamente detido e transportado para a prisão de máxima segurança na Machava. Sujeito a um julgamento sumário, foi condenado à morte por fuzilamento. Apesar dos apelos do papa João Paulo II e de governos ocidentais, Samora mostrou-se imperturbável e Nabi foi conduzido diante de um pelotão de fuzilamento, tendo sido crivado de balas, enquanto eram entoados hinos revolucionários. Estava dado o exemplo para futuros “sabotadores económicos”.
Os inimigos
Em 1976, o regime da Frelimo revela-se cada vez mais monolítico e repressivo. Cria-se o todo-poderoso Serviço Nacional de Segurança Popular (SNASP), os grupos dinamizadores, as guias de marcha, os chefes de quarteirão, os campos de reeducação. Por estes gulags moçambicanos passam cerca de 100 mil “inimigos do povo”, para serem transformados no Homem Novo. Situados, na sua maioria, na longínqua província do Niassa, é por um deles, M’ Telela, que passa um grupo de ex-dirigentes da Frelimo caídos em desgraça bem como líderes do Partido da Convergência Nacional (PCN), uma coligação de diversas formações políticas que pretendia, ainda em 1974, eleições pluripartidárias ao invés da entrega do poder à Frelimo pelo Governo português. Numa sentença sumária, à boa maneira leninista, o grupo de prisioneiros, entre os quais contam-se Joana Simeão, Uria Simango – havia sido vice-presidente da Frelimo no tempo de Eduardo Mondlane –, Lázaro N’Kavandame, Mateus Gwengere, Razão Nília, sob o ardil de serem libertados rumo ao estrangeiro, é executado a alguns quilómetros do campo e inumado numa vala comum. O Bureau político da Frelimo até hoje mantém uma opaca bruma em volta do sucedido.
Nos anos seguintes, as ameaças ao regime popular avolumam-se. Inimigos, quer internos quer externos, não faltam. A Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) trava uma guerra civil que se inicia no centro mas rapidamente se estende ao sul e a norte. A oeste a Rodésia (actual Zimbabwe), onde Ian Smith, governa à revelia do Reino Unido desde a Declaração Unilateral de Independência em 1965, faz temporariamente incursões militares no território vizinho, sobretudo na província fronteiriça de Manica, com dois objetivos: desarticular as bases da ZANU – partido nacionalista zimbabweano que lutava contra o regime racista de Smith – que moçambique acoita e apoiar a Renamo na guerra contra o comunismo no região. A sul, fica o inimigo mais poderoso: a África do Sul, onde impera o ignominioso regime do apartheid, então já alvo de grandes sanções internacionais. Esta vizinhança, pouco recomendável, leva Samora a afirmar que podemos escolher os amigos, mas não podemos escolher os vizinhos.
A grande fome
Em 1983, Moçambique encontra-se exaurido. No ranking da pobreza emparceira com o Burundi como o país mais pobre do mundo, com um PIB per capita estimado em 130- 140 USD.
Tudo se adensa: a guerra, a fome, a destruição de infra-estruturas, a deslocações internas de populações, a desarticulação do Estado, a repressão. A pouca ajuda, desarticulada, desenquadrada e inadequada, chega a conta-gotas dos países do leste europeu, da União Soviética e de Cuba. A Renamo não dá descanso e paralisa totalmente o país. Nas estradas ninguém se atreve a circular sem uma larga escolta. Os combates têm lugar nas matas, mas chegam aos arredores das cidades, incluindo a Matola, cidade-dormitório de Maputo. A estratégia da guerrilha é a desestabilização total do país e… Consegue.
No mato, a fome extrema vai dilatando os estômagos e raízes de árvores e plantas acabam por salvar vidas. Na cidade, come-se invariavelmente carapau com repolho e xima (papa de milho). As lojas do povo, as únicas às quais a população tem acesso, abrem por vezes as portas sem nada para vender. Grande parte do dia é passado em longas filas que serpenteiam as lojas sem se saber o que há para comprar. Surge um novo verbo: bichar. E muitas vezes “bicha-se” marcando o lugar com uma pedrinha enquanto se vai fazer coisas inadiáveis.
Trocar o romantismo pelo pragmatismo
Face a este cenário apocalítico, Samora é obrigado a trocar o romantismo revolucionário pelo pragmatismo. Assim, em 1984, Moçambique adere às instituições de Bretton Woods — Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial (BM) — e pede ajuda ao Clube de Paris.
Politicamente dá um passo impensável até há pouco tempo. A 16 de Março de 1984, numa carruagem de comboio nas margens do rio Incomáti, assina um pacto de não-agressão com o maior inimigo, a África do Sul do apartheid.
Os signatários, Samora Machel e Pieter W. Botha – alcunhado Groot Krokodil (“O Grande Crocodilo”, na língua africâner) – estabelecem um pacto de não-agressão. Moçambique deixa de apoiar o ANC em seu território e a África do Sul cessa o apoio militar à Renamo. Para muitos, interna e externamente, sobretudo entre os seus aliados da Linha da Frente, Samora vendeu a alma ao diabo, e não compreendem que seja uma maneira de sair do isolamento a que estava votado.
Passado poucos meses, o acordo fracassa, sobretudo do lado sul-africano que continua a apoiar a guerrilha, a quem a Frelimo chama ‘bandidos armados’. Mas Samora está decidido a fazer “novas amizades”, abrindo o país ao Ocidente. Viaja ao encontro do principal inimigo da União Soviética, Ronald Reagan, encontrando-se com ele no fire place da sala oval da Casa Branca, e ao número 10 da Downing Street, onde se avista com a “Dama de Ferro”, Margaret Tatcher. Apesar de se encontrarem nos antípodas em relação a questões ideológicas, os dois grandes aliados percebem que o Samora lhes estende a mão de forma honesta, sem segundas intenções.
Morre o homem, nasce o mito
A 19 de Outubro de 1986, o país acorda com uma notícia-bomba. O avião proveniente da Zâmbia que transportava o presidente Samora Machel e importantes ministros do seu governo despenha-se na zona montanhosa de Mbuzini, ainda do lado da África do Sul, mas muito perto da fronteira moçambicana. A bordo do Tupolev de fabrico soviético, seguiam 44 pessoas, mas 10 conseguem sobreviver. Samora, todavia, encontra-se entre as 34 vítimas mortais.
Fala-se de sabotagem, de mão interna e externa, mas nunca nada se provou, apesar das várias comissões de inquérito. Sabe-se que Samora se encontrava isolado dentro da Frelimo. O regime do apartheid também não desdenharia vê-lo pelas costas e mesmo para os soviéticos começava a ser uma figura incómoda.
Ao poder sobe, sem grandes disputas internas, Joaquim Chissano, um moderado, experiente, que havia sido primeiro-ministro do Governo de Transição, em 1974, e ministro dos Negócios Estrangeiros à data do acidente aéreo.
O novo Chefe de Estado procura consensos e equilíbrios. Chissano tem sobretudo dois focos: estabelecer a paz com a Renamo, algo que Samora sempre rejeitou afirmando que não dialogava com macacos; e dar os primeiros passos rumo a uma economia de mercado.
A paz como prioridade
Em 1987, têm início, embora muito discretamente, os primeiros contactos com o movimento rebelde. Afonso Dlakhama, o líder da Renamo, do seu quartel-general na Casa Banana, na serra da Gorongosa, centro do país, também revela alguma abertura. A guerra, com a idade de 11 anos, deixa um rasto de cerca de 1 milhão de mortos e 4 milhões de deslocados – à época 1/3 da população.
Nesse ano também, formaliza-se, sob orientação da FMI e do BM, a abertura à economia de mercado com a introdução do Plano de Reajustamento Estrutural (PRE). Os principais objetivos do plano são: relançar a economia, controlar a inflação, liberalizar os preços convocando a lei da oferta e da procura e atrair investimento internacional. Muitas empresas estatais são encerradas por falta de rentabilidade. Na agricultura há apoios ao sector familiar e aos pequenos produtores que tem como resultado quase imediato o aumento de produção.
Os efeitos da queda do muro de Berlim e, consequente, do comunismo no Leste Europeu, chegam ao continente africano em força. Moçambique, tal como os restantes PALOP’s, não escapa à vaga.
Em 1990, na tabela do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), Moçambique surge na cauda. Mas apesar deste desespero no desenvolvimento há esperança. Uma nova Constituição consagra o pluripartidarismo, reconhece a propriedade privada, a economia de mercado, a separação de poderes e as liberdades fundamentais. O nome oficial do país é encurtado caindo o termo popular. Tem início a II República.
Em Roma, com a intermediação da Igreja Católica, através da Comunidade de Santo Egídio, Frelimo e Renamo avançam nas negociações há algum tempo. Após progressos e recuos, à 13ª ronda os aspectos do acordo de paz já estão decididos.
Só falta a assinatura dos líderes. Joaquim Chissano pelo Governo (Frelimo) e Afonso Dlakhama pela Renamo. Dois dias antes da data prevista para a assinatura dos acordo, o líder rebelde, desconfiado e com pouca experiência nestas andanças, ameaça não comparecer. D. Jaime Gonçalves, arcebispo da Beira e um dos principais mediadores do processo, escreve-lhe uma carta diretamente ao coração e no fim dizia: “Venha estamos todos à sua espera!” E Dlakhama compareceu na cerimónia de Roma, no dia 4 de Outubro para assinar o Acordo de Paz que pôs termo a 16 anos de conflito armado em Moçambique. Desde 1964, esta é a primeira vez que país vive uma perspectiva de paz duradoura.
Agora, a esperança no futuro do país é enorme e Moçambique é acarinhado por toda a comunidade internacional no processo de reconstrução. Desta recebe cerca de 1.4 mil milhões de dólares por ano. Ao longo da década de 90, ajuda externa representa 14% do PIB e o apoio dos doadores ao Orçamento de Estado chega a ser mais de 50%.
O entusiasmo do povo que vai pela primeira vez às urnas, no final de Outubro de 1994, é estrondoso. A participação é de 88%, número jamais atingido nos pleitos subsequentes. O italiano Aldo Ajello, Representante Especial das Nações Unidas para Moçambique, disse que nunca tinha visto nada assim. “Este povo merece bons políticos.”
Joaquim Chissano, vence com 53%. Dlakhama obtém 34%. Nas legislativas a Frelimo tem mais dificuldade conquistando 129 assentos contra 112 da Renamo e 9 da União Democrática, uma coligação de partidos que nunca mais entrou no parlamento.
O líder da oposição denúncia fraude generalizada e reclama vitória mas a comunidade internacional não encontra razões para não considerar o pleito livre e transparente. A Frelimo consegue passar, pela primeira vez, entre os pingos chuva dos processos eleitorais.
Até ao final do século, Moçambique é o menino bonito da comunidade internacional. Durante vários anos tem um crescimento económico de dois dígitos. Em 2003, chega a crescer 13,1%, impulsionado pela paz duradoura, uma ajuda internacional maciça, por reformas económicas e por investimento direto estrangeiro, destacam-se neste último a fundição de alumínio Mozal, o maior investimento externo desde a independência.
Eleições no centro da violência
As eleições de 1999 são as primeiras a gerar grande tensão. Dlakhama não tem dúvidas que ganhou a Presidência da República e a maioria dos lugares no AR e dá conta disso num tom seguro por um dos porta-voz do partido.
Oficialmente ganha em seis das 11 províncias do país. E vence nas duas mais populosas, Nampula e Zambézia, responsáveis pelo preenchimento de quase metade dos lugares na AR. Ameaça tomar, pela força se necessário for, os governos das províncias em que saiu vencedor. Há manifestações nas zonas de maior influência da Renamo, centro e norte. Numa delas, em Montepuez, 75 pessoas que havia sido colocados numa pequena cela após protestos eleitorais morrem asfixiadas por falta de oxigénio. A culpa morre solteira.
A tensão cresce e o fantasma da guerra civil paira, até porque a guarda de Dlakhama continua armada. Dlakhama e Chissano conversam amiúde com mediação internacional. O crescimento económico pressiona a que o país não entre em nova guerra. O governo promete uma reintegração mais acelerada dos homens da Renamo nas estruturas administrativas do aparelho de Estado o que faz baixar a tensão. Mas continua a vigorar o winner takes it all, e com ele o crescimento das desigualdades.
O cancro da corrupção
Na dobragem do século, o florescimento da economia de mercado começa a criar uma elite capitalista que cresce à sombra da privatização das empresas estatais. A alienação, tanto de empresas como de prédios urbanos ou de propriedades fabris ou agrícolas, favorece invariavelmente os grandes do partido Frelimo. A maior parte das vezes a aquisição tem em vista a especulação, e não a criação de riqueza para o país. A corrupção, a que os moçambicanos chamam candidamente “refresco”, é transversal a todas as estruturas e classes sociais. Nada se consegue sem ela, é ela que apressa tudo, que tudo possibilita. É ela que permite, muitas vezes, triplicar o valor da folha de salário. O governo sabe que não é possível viver com o salário mínimo — que em muitos casos é de 110 euros — e por isso entende a corrupção como um complemento salarial, por isso não convém combatê-la.
A lucrativa indústria dos raptos
No governo de Armando Guebuza, que sucede a Chissano, a corrupção como um polvo, estende os seus tentáculos a tudo e… Enquista-se. O próprio Guebuza é conhecido como “Mr. Gue-Business”, tendo participação em dezenas de empresas.
É durante o seu governo que floresce uma indústria que aterroriza a sociedade moçambicana mas que é demasiado lucrativa para lhe porem termo: a dos raptos.
Desde 2011 há registo de 205 sequestros, sobretudo empresários de origem asiática mas também alguns portugueses. Entre 2011 e 2024, as autoridades conseguiram rastrear 33 milhões de dólares fruto dos raptos, mas pensa-se que poderá ser o triplo. Mais de uma centena de empresários já abandonou o país na sequência da insegurança provocada por este tipo de crime. Jacinto Nyusi, que substituiu Guebuza na presidência em 2015 e esteve no poder até Janeiro último, prometeu constituir uma brigada anti-raptos na polícia mas até hoje nada saiu do papel. Também a ajuda de polícias estrangeiras especializadas neste tipo de crime tem sido constantemente rejeitada por Maputo. Há a sensação generalizada que existe falta de vontade política para se terminar com os raptos, existindo altas figuras do Governo e da polícia envolvidos neste lucrativo negócio.
O caso das dívidas ocultas
Mas o maior escândalo da corrupção aconteceu na passagem de testemunho de Guebuza para Nyusi. O episódio ficou conhecido como “dívidas ocultas”, uma vez que o empréstimo contraído, na ordem dos 2.2 mil milhões de dólares, com o aval ilegal do Estado sem passar pelo crivo do Parlamento, supostamente deveria ter sido canalizado para empresas de vigilância e proteção marítima e pesca de atum que entretanto se haviam constituído, acabou por ser desviado para bolsos de governantes e para comissionistas que alimentaram o esquema de corrupção. O impacto para o país foi enorme, tendo entrado em descrédito total junto dos doadores que retiram todo o apoio ao Orçamento de Estado, tendo o FMI suspendido o seu programa financeiro com Moçambique.
Em 2016, o país entrou em default seletivo; a moeda, o metical, desvalorizou-se 33%; a inflação disparou; o crescimento económico caiu para metade; a dívida pública subiu de 61% do PIB em 2016 para 104% em 2018. O povo, indignado, saiu à rua trajando t-shirts onde se lia: “Eu não pago!”, um embrião para o movimento cívico que nasceria em Novembro de 2024.
A guerra em Cabo Delgado
Em Outubro de 2017, na província nortenha de Cabo Delgado, começa outra guerra. Os rebeldes desta vez têm ligações ao Estado Islâmico e procuram desestabilizar a região sobretudo a zona onde a petrolífera francesa Total lidera um consórcio para a exploração de gás natural. Com uma previsão de investimento de 20 mil milhões de dólares, o projeto é o segundo maior investimento direto estrangeiro na área do gás natural em África.
A partir de 2019, o conflito intensifica-se. Os terroristas arrasam aldeias e aldeões com uma liberdade de movimentos que a todos espanta. Os deslocados internos chegam a ultrapassar 1 milhão. As Forças de Defesa e Segurança (FDS), onde se sente mais a robustez da Unidade de Intervenção Rápida da polícia (UIR) do que do Exército, não dão conta do recado. Em seu auxílio chegam os mercenários do grupo Wagner, que acabam por não ser bem-sucedidos, abandonando o território seis meses depois com consideráveis baixas de homens e de meios aéreos.
Em Março de 2021, a vila de Palma, sede de distrito, é tomada com grande violência pelos islamistas. Pouco tempo depois, a Total suspende a operação invocando a cláusula de “Força Maior”, que mantém acionada até hoje, apesar das várias démarches encetadas pelo Governo para o regresso da multinacional francesa.
Face ao avanço imparável dos terroristas, o governo de Nyusi estabelece um acordo secreto com o Ruanda de Paul Kagamé para o envio de forças militares deste país para Cabo Delgado. O exército ruandês, bem treinado e bem equipado, em conjunto com as da SADC, acabam por expulsar os rebeldes das principais localidades, retomando Mocímboa da Praia e Palma. Embora, com uma intensidade mais baixa, a guerra em Cabo Delgado está para durar.
E tudo o povo levou
Mas não só a guerra é responsável pela violência em Moçambique. As eleições, que em muitos países são uma festa e uma manifestação de democracia e cidadania, em Moçambique são causa de perseguição política, de repressão e extrema violência policial e de… Morte.
As últimas eleições gerais, realizadas em Outubro último, foram uma espécie de “E tudo o povo levou”. Perdeu-se muita coisa de uma só assentada: a confiança nos órgãos eleitorais, no Conselho Constitucional – o equivalente ao Tribunal Constitucional em Portugal —, na Procuradoria-Geral da República, na polícia, o respeito pelo voto do povo e, o mais importante, o medo.
Ao perder o medo o povo desbragou-se. Tomou as ruas. Enfrentou a polícia – o que lhe custou mais de 500 mortos. Escorraçou todos os símbolos do partido no poder. Saqueou. “Governou” as artérias das principais cidades durante dias e dias, anarquizando-as. Entrincheirou o governo, reduzindo-o a sua autoridade a meia dúzias de ruas de Maputo. Elegeu um presidente, Venâncio Mondlane (VM), o “Presidente do Povo”, mesmo que oficialmente tenha perdido a eleição para Daniel Chapo, candidato do partido Frelimo. E pela quantidade de gente movimentada nas ruas quando um e outro se deslocam é legítimo que o povo assim pense.
A 15 de Janeiro último, Daniel Chapo, o vencedor oficial das eleições que pela primeira vez a União Europeia afirmou não terem sido transparentes, tomou posse como quinto presidente numa cerimónia restrita, altamente policiada e perante pouquíssimos convidados estrangeiros. O escasso povo que se fez presente observou a cerimónia de longe, para não perturbar. Mesmo assim, nesse dia, tombaram três pessoas vítimas de tiros das forças de segurança.
VM, numa recente entrevista à revista Sábado, a propósito dos 50 anos de independência do país, afirmou que “nos últimos dez anos, a incidência da pobreza em Moçambique aumentou 80%. Hoje o país tem 63% da população a viver abaixo do limiar da pobreza o que quer dizer que, em termos absolutos, corresponde a 22 milhões de pessoas. A Frelimo só criou miséria nestes 50 anos. Todos os indicadores económicos, humanos, sociais, nos últimos 50 anos decresceram. Tocámos no fundo do poço. Significa que no dia 25 de Junho não temos razões para festejar. Proponho que seja um dia de luto nacional, fúnebre, de tristeza profunda, com todos vestidos de preto. Estamos à beira do precipício.”
Na Frelimo, os mais moderados, vão dizendo que o partido precisa de “purificar as fileiras”, uma vez que há muito que os interesses individuais capturaram os interesses do povo. A regeneração deve ser profunda, passando previamente por uma grande reflexão interna.
Quem parece não acreditar nesta metamorfose do partido que governa o país desde a independência é o povo moçambicano exausto da indigência. Um dado é certo e confirmado pelas estatísticas: a libertação do jugo colonial de há 50 anos não correspondeu à libertação da pobreza absoluta.
João Vaz de Almada foi jornalista e trabalha atualmente na área da assessoria de imprensa em Moçambique