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Arca diz que "as pistas de dança" foram onde encontrou "a liberdade"
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▲Arca diz que "as pistas de dança" foram onde encontrou "a liberdade"

Marisa Cardoso

▲Arca diz que "as pistas de dança" foram onde encontrou "a liberdade"

Marisa Cardoso

Muito mais do que um "perreo": que artistas são estas que desafiam os limites do reggaeton?

Da sexualidade de Six Sex, ao transhumanismo de Arca e ao amor próprio de Isabella Lovestory, estas são algumas das vanguardistas que misturam géneros musicais e transformam a dança latina de hoje.

    Índice

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Em 2023, a Real Academia Espanhola, sediada em Madrid, passou a incluir a palavra perreo no Diccionario de la lengua española, o maior do género do castelhano. Na definição da palavra, lê-se que esta é uma “dança que se executa geralmente ao ritmo de reggaeton, com movimentos eróticos das ancas”. Apenas mais uma prova da explosão de popularidade destas batidas latinas, que dominam a pop mundial contemporânea.

Falado maioritariamente em espanhol, o reggaeton, com origem em Porto Rico, é um estilo musical que transformou a cultura popular, gerando fenómenos de popularidade mundial como Debí tirar más fotos de Bad Bunny — que passará pelo Estádio da Luz, em Lisboa em 2026 — ou Mañana será bonito de Karol G, artistas que seguem os passos do sucesso pioneiro — Gasolina, de Daddy Yankee — ainda que levando o género para outras paragens.

Bad Bunny vai atuar em Lisboa em maio de 2026

O reggaeton clássico, protagonizado por Daddy Yankee, Wisin e Yandel, é visto como um estilo enraizado em letras misóginas e na objetificação das mulheres, protagonistas sexualizadas dos videoclips de artistas de maioria masculina.

No caso de Bad Bunny, o reggaeton foi o princípio de uma caminhada que hoje, e sobretudo com o mais recente álbum, faz-se com a infusão de tradição porto riquenha e a manifestação de posições políticas e sociais nas letras das canções. Vários mundos de distância que deverão continuar a ser percorridos neste exercício criativo que não deverá ficar por aqui.

O inescapável triunfo de Bad Bunny

Mas além deste mainstream de dimensões planteárias, um pouco por toda a América Latina há artistas que usam o erotismo das letras e do perreo para se auto-empoderarem enquanto mulheres ou pessoas LGBTQI+, expandindo os horizontes do reggaeton, juntando-os com os universos rave, techno, ou da música de dança desconstruída e com letras desinibidas e com o papel de protagonistas nas histórias que constroem, em vez de personagens secundárias sem nenhuma fala.

Six Sex e a rave libertadora

O erotismo e a sexualidade desinibida são a marca de água de X-Six, o último EP lançado em março deste ano pela cantora e modelo Six Sex, uma “personagem” assumida pela argentina Francisca Cuello, nascida em Villa Tesel, na província da capital argentina Buenos Aires.

Reprodução/Six Sex

Apesar de se apresentar assim, Francisca e Six Sex são indesligáveis uma da outra. “A minha personagem tem um pouco mais de graça, permite-me brincar com coisas que se calhar na vida quotidiana são mais rígidas”, contou a artista à revista argentina IndieHoy.

E foi o processo de construção de X-Six, conta ainda, que a ajudou melhor “a moldar o ideal da pessoa” que Francisca quer ser: uma pessoa que quebra imposições sociais e que “quer viver com mais liberdade“.

Logo a abrir o disco, a faixa How to make your ass bigger mostra ao ouvinte aquilo que deve esperar, com a cantora a apresentar uma aula de fitness erótico — uma “hot squat class” nas palavras da própria — com instruções de pose sobre sintetizadores algures entre os vídeos de aeróbica e uma discoteca no pico da noite.

Já na energética canção Tócame, em colaboração com o rapper argentino Dillom, as letras ficam ainda mais explícitas, descrevendo uma cena de sexo, com gemidos à mistura.

Segundo Six Sex, estas letras e este estilo de apresentação não servem para “provocar por provocar”, funcionando sim como uma forma da própria artista se expressar, tendo ainda assim admitido que a reação que recebe mostra uma diferença face ao género masculino.

“Se um homem sexualiza uma mulher nos seus vídeos, ninguém o questiona. Mas se uma mulher decide mostrar-se assim, criticam-na. É um machismo instalado no inconsciente da sociedade”, contou.

Há sempre opiniões sobre o que uma mulher faz. Questiona-se sempre o poder que se pode exercer sobre o próprio corpo".
Six Sex, à Rolling Stone da Argentina

E é este “machismo” que, para a cantora, é bem visível nas críticas à sua expressão de erotismo totalmente desinibido, incluindo naquilo que a própria veste.

“Reparo que muitas pessoas se ressentem por verem uma mulher empoderada a aproveitar o seu talento, ou talvez a mostrar-se com pouca roupa quando assim o decide, sem precisar de estar ao lado de um homem para o justificar”, acrescentou Six Sex à IndieHoy.

Para Cuello, que tem ganho popularidade entre a comunidade queer (à qual também pertence), este projeto também “não existiria” sem essa comunidade. “A identificação com a música e o modo de vida é o que faz com que tudo flua tão naturalmente”, revela, sublinhando que está agradecida às pessoas LGBTQI+ que a acompanham “de forma orgânica” desde o início.

Este EP marca também uma nova viragem estilística para Six Sex. A artista, que antes se auto descrevia como “ravetón” — um estilo que funde o reggaeton com o techno de uma rave — assume agora um som mais próximo de um dance pop, largando as batidas mais latinas, mas mantendo as fortes ligações ao mundo das grandes danças eletrónicas, muito pelo facto de o álbum ter sido gravado quase todo em Berlim.

Para Six Sex este é um regresso a um estilo antigo e “mais efeverscente” que adotou nos seus primeiros trabalhos e ao qual voltou neste EP, contando que o desligar dos beats reggaeton clássicos lhe permite manipular com a “maneira de frasear” as palavras e “brincar com o ritmo”.

“A verdade é que me aborreci do reggaeton”, admitiu a cantora que sublinha que “sempre disse” que não se “queria fechar em géneros musicais” Apesar desta mudança, a cantora conta à IndieHoy que não descarta regressar onde já foi feliz, revelando que irá voltar “um dia, de certeza” ao perreo.

Arca e a desconstrução de si própria

Num campo diferente, uma das principais artistas que desafia as barreiras entre o reggaeton e outros estilos musicais é a produtora, DJ, cantora e artista visual venezuelana Arca.

Nome artístico de Alejandra Ghersi, Arca é conhecida por flutuar entre os ritmos latinos e uma mistura de batidas industriais de hip-hop e a música de dança puramente experimental. Ao longo de boa parte da sua eclética discografia, a produtora vai desconstruindo os ritmos do reggaeton, tal como desconstrói a sensualidade do estilo ou mesmo o seu género, enquanto mulher trans.

“As pistas de dança foram onde encontrei a liberdade”, revelou a artista numa entrevista ao New York Times, falando sobre quando se mudou para Nova Iorque, vinda de Caracas, aos 17 anos.

“Eu era muito reprimida. Havia muitas cores que eu estava a silenciar internamente”.
Arca, em declarações ao New York Times

O mergulho no reggaeton só se deu a meio da série de quatro álbuns com o mesmo nome: Kick. Na segunda obra, Kick II, de 2021, Arca mistura a experimentalidade da música que compõe com batidas mais latinas, mantendo a mesma estética que esbate as fronteiras entre o género, a sexualidade e um mundo robótico e digital.

Nas faixas Prada e Rakata, feitas em colaboração com o produtor Safety Trance, o eco do beat ao estilo de reggaeton envia o ouvinte para um ambiente de uma discoteca algures entre o espaço sideral e um universo digital, com a voz distorcida de uma Arca ciborgue a liderar a dança.

“Trabalhar com estes temas do corpo e da tecnologia é algo que me atrai esteticamente desde que me lembro”, revelou ainda a artista ao New York Times. Para Arca, a transformação entre o neoclássico e o tecnológico em vídeos como os de Prada/Rakata simbolizam a crença dela de que o ser não é “uma fotografia” e que se pode ir moldando e transformando ao longo dos tempos.

Noutra colaboração com o DJ Safety Trance na faixa El Alma Que Te Trajo, Arca exprime-se plenamente de forma desinibida, intitulando-se “una perra” sobre uma batida reggaeton com sintetizadores de uma atmosfera quase obscura e que enchem de urgência cada palavra carregada de desejo que sai da boca de Arca.

O mais recente lançamento da venezuelana surgiu em maio deste ano, com o single duplo Puta/Sola. Com dois beats de perreo, a artista traz de volta o seu estilo distorcido nas batidas e na voz, com Sola destacando-se por uma sonoridade meio dream pop — recheada de reverberação na voz — e com uma Arca a apresentar-se no videoclipe apenas como ela própria.

A artista passou pelos palcos do festival Coachella este ano e também já atuou em Portugal por várias vezes — a última no Primavera Sound 2024. Arca é hoje uma figura incontornável da música de dança de vanguarda, contando com colaborações com músicos como Bjork, Frank Ocean, Rosalía, ou a potência da club music que é a cantora e produtora britânica Shygirl.

Isabella e uma história de amor pela música

É no single True Religion, que faz parte do último álbum da britânica, Club Shy Room 2, que encontramos Isabella Lovestory, que canta em espanhol no meio do tema, entre versos em inglês da produtora e da cantora PinkPantheress.

Isabella Rodriguez nasceu em Tegucigalpa, capital das Honduras, país onde viveu até aos 13 anos, antes de se mudar para o estado de Virgínia, nos EUA e, depois, Montreal, no Canadá. Estas mudanças radicais de vida levou Isabella a resguardar-se na Internet, usando sites como o Tumblr para se resguardar e criar mundos e estéticas dela própria.

“Sinto que o Tumblr reconfigurou completamente o meu cérebro e a minha forma de trabalhar. Faço muita pesquisa e muitas colagens e curadoria para os meus visuais. O Tumblr era um tipo de aprendizagem muito visual e tinha-se tanta liberdade para procurar o que se quisesse”, contou a cantora e produtora à revista Gay Times.

Para além de exercitar a sua criatividade visual, foi na Internet onde passou “muitas horas” a “descobrir música nova”, algo que foi influenciado pela música da infância na rádio e que os seus pais ouviam e que modelou o seu gosto pessoal.

“Nas Honduras crescei a ouvir muito reggaeton na rádio. E os meus pais ouviam rock, indie, como The Cure, Deftones, Radiohead, etc., por isso tinha influências de todo o lado. Depois, quando me mudei para os EUA, passava muitas horas na Internet a descobrir música nova“, lembrou a cantora à revista espanhola Vein.

"Um dia sou super shoegaze e no outro sou mega perreo. Também gosto de combinar esses sons e criar coisas novas ”, acrescentou.
Isabella Lovestory, à revista espanhola Vein

Isabella adotou o apelido artístico Lovestory na sua carreira musical, que se iniciou com o single Humo, em 2019. Depois, em 2022, a artista lançou o disco de estreia, Amor Hardcore, tornando-se uma das caras mais associadas ao mundo do neoperreo, um subgénero que abraça abertamente os lados mais experimentais do reggaeton, com um cunho claramente vincado nas artistas femininas e queer, tal como Isabella.

No entanto, questionada pela Vein sobre se se identificava com este rótulo, a artista disse acreditar que a música dela “vive no seu próprio mundo”, na qual Lovestory serve como uma “personagem”, ainda que, tal como Six Sex, seja uma versão exagerada.

“Isabella Lovestory é magia, mistério, diversão e liberdade. É uma espécie de caos controlado. Ela é 100% eu. É uma personagem, tal como a personalidade de qualquer pessoa é uma personagem nesta vida”, conta.

Em junho, Isabella lançou um novo disco: Vanity que flutua entre o reggaeton clássico como no caso de Telenovela, e um estilo pop inspirado no som que se podia ouvir na rádio nos anos 2000, como em Putita Boutique e Gorgeous. Apesar das inspirações, para a cantora, o reggaeton “old-school” continua a movê-la e a inspirar.

“Eles divertiam-se muito porque era um género muito novo naquela época. Especialmente no início dos anos 2000. Eles tinham aquela espontaneidade de fazer algo por diversão e muita curiosidade. Não tinham regras sobre como fazer algo”, falou ao LA Times, referindo que é algo que tenta homenagear com uma faixa de introdução em cada projeto que faz.

Lovestory tem passagem marcada por Lisboa, com um concerto marcado para 26 de outubro deste mas ainda com lugar por confirmar. É o segundo concerto da artista em Portugal, que atuou no festival Primavera Sound do Porto, em 2023, na promoção de Amor Hardcore.

Neste novo projeto, Lovestory abraçou uma faceta diferente face àquela que tinha mostrado no disco anterior, afastando-se de um reggaeton mais agressivo para abraçar um lado “mais vulnerável e mais sensível, que nunca tinha mostrado antes“, contou ao jornal de Los Angeles. “Estou a mostrar mais o meu lado mais doce, mais vulnerável e sonhador. É mais um olhar muito profundo no espelho”, acrescentou a cantora.

À revista i-D, Lovestory diz uma frase que podia ter sido dita ou pelo menos expressada por todas estas artistas: “Não tenho limitações… Simplesmente faço o que amo”.

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