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▲Sam Altman, o cofundador e CEO da OpenAI

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▲Sam Altman, o cofundador e CEO da OpenAI

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Musk quer mesmo comprar OpenAI ou está só a escalar a guerra contra o rival?

Musk lidera um consórcio que diz querer comprar a OpenAI. O seu CEO diz não estar "à venda” e não está a levar a oferta “particularmente” a sério. Especialistas falam em manobra de pressão.

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Depois de um processo em tribunal e muitos tweets de ataque, Elon Musk desferiu um novo golpe contra Sam Altman. O Wall Street Journal avançou na segunda-feira que Musk lidera um consórcio que fez uma oferta de compra de 97,4 mil milhões de dólares (94 mil milhões de euros) pela organização sem fins lucrativos que controla a OpenAI, a startup que desenvolveu o ChatGPT e da qual Altman é CEO.

“É tempo de a OpenAI voltar a ser uma força de código aberto, focada na segurança e no bem como já foi em tempos”, declarou Elon Musk num comunicado divulgado pelo seu advogado Marc Toberoff. “Vamos garantir que isso acontece.” No ano passado, Musk processou Altman e a OpenAI por considerar estar em curso um desvio da missão de desenvolver IA para benefício da humanidade, a razão que levou à sua criação em 2015.

Grupo liderado por Musk apresenta proposta para comprar dona do ChatGPT. Valor chega a 95 mil milhões de euros

Ao lado de Musk, que se envolve na oferta através da sua empresa de inteligência artificial, a xAI, estão alguns nomes de peso na indústria financeira, como a Valor Equity Partners, a Baron Capital, a Atreides Management, a Vy Capital ou a 8VC, a sociedade de capital de risco liderada por Joe Lonsdale, que cofundou a Palantir. O empresário de Hollywood, Ari Emmanuel, um nome próximo de Musk, e que é CEO da Endeavor, também está envolvido no negócio através do seu fundo de investimento.

A oferta é mais um capítulo da disputa entre Elon Musk e Sam Altman, o CEO da OpenAI, que dura há anos. Primeiro, Altman usou o X para reagir à oferta. “Não, obrigado, mas podemos comprar o Twitter por 9,74 mil milhões se quiseres”.

Uma farpa que atingiu Musk em dois pontos: usando o antigo nome da rede social, que Musk fez questão de rebatizar, e mudando a vírgula do valor oferecido pela sua empresa para frisar a desvalorização do X (valerá cerca de 9,4 mil milhões, muito abaixo dos 44 mil milhões pagos). “Vigarista”, respondeu-lhe o patrão da Tesla, também num post na mesma rede. Uma alternativa ao epíteto “Scam Altman” (esquema Altman) que já usou noutras ocasiões para sublinhar a rivalidade.

Uma missão “deitada fora”, o medo da IA da Google e a ambição de “controlo absoluto” da OpenAI. Musk e Altman de costas voltadas

“A OpenAI não está à venda”, frisou, já esta terça-feira, Altman em entrevista à Bloomberg, durante a cimeira de inteligência artificial (IA), em Paris. “O Elon tenta todo o tipo de coisas a toda a hora, este é o episódio desta semana”, respondeu, encolhendo os ombros. “Acho que ele está só a tentar abrandar-nos, é um concorrente e já levantou muito dinheiro para a xAI [a empresa de IA de Musk], está a tentar competir connosco de uma perspetiva tecnológica, de ter o produto no mercado. E queria só que ele competisse através de um produto melhor, mas há muitas táticas, vários processos. Vamos só concentrar-nos e continuar a trabalhar”, explicou. Depois, passou ao ataque. “Provavelmente toda a vida dele vem de um sentimento de insegurança. Tenho pena dele, (…) acho que não é uma pessoa feliz.”

Elon Musk, o apostador

Os especialistas dividem-se sobre o futuro da oferta. Dan Ives, analista da Wedbush, corrobora, numa nota, que a casa de investimentos “vê a oferta não como competitiva, mas como uma intenção de abrandar a OpenAI”. Fala mesmo na probabilidade de ser “o início de uma novela maior que deverá desenrolar-se entre Musk e Altman”. Mas há uma relativa unanimidade em considerar que o avanço de Musk é feito num momento sensível para Altman, que tenta fazer alterações à estrutura da OpenAI, para refletir uma organização mais orientada para o lucro.

"As entidades sem fins lucrativos estão legalmente obrigadas a deveres fiduciários que dão prioridade à sua missão em detrimento dos resultados financeiros, o que torna uma venda ou reestruturação altamente complexa e sujeita a escrutínio regulatório."
Anat Beck, professora de Direito

Um trabalho que se torna ainda mais complicado quando a própria OpenAI “é um sistema complexo de entidades que interagem entre si”, nota Jill Horwitz, professora de direito da Universidade da Califórnia. “Ao contrário de uma aquisição tradicional, comprar uma entidade sem fins lucrativos como a OpenAI não é só uma questão de preço“, completa a professora Anat Beck, da Case Western Reserve University School of Law. “As entidades sem fins lucrativos estão legalmente obrigadas a deveres fiduciários que dão prioridade à sua missão em detrimento dos resultados financeiros, o que torna uma venda ou reestruturação altamente complexa e sujeita a escrutínio regulatório.”

Enquanto Altman atacou Musk, Larry Summers, um dos diretores do board da OpenAI, pôs alguma água na fervura, avançando à Bloomberg que ainda não receberam “qualquer tipo de comunicação formal, além do que está nos media”. Até agora, o consórcio não tornou pública mais informação sobre como pretende fazer a aquisição.

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▲ Elon Musk lidera um consórcio que oferece 97,4 mil milhões pela OpenAI

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Uma oferta de compra que não se limita a dinheiro

A estrutura atual da OpenAI é composta por vários patamares. No topo, há um conselho de diretores, que controla uma organização sem fins lucrativos (OpenAI Inc), responsável pelo controlo de uma entidade gestora (OpenAI GP LLC), que por sua vez tem poder sobre uma subsidiária orientada para o lucro. É nesta última entidade, a OpenAI Global LLC, que a Microsoft é investidora — já canalizou 13 mil milhões de dólares para o desenvolvimento de IA.

Estrutura OpenAI

A estrutura da OpenAI: em cima, o board de diretores que controla a OpenAI Inc, a organização sem fins lucrativos (o ativo que Musk quer comprar)

A estrutura é propositadamente dominada pela organização sem fins lucrativos para garantir que é cumprida a missão firmada em 2015, de desenvolver IA que beneficia e faz avançar a humanidade. “A componente da non-profit foi especificamente desenhada para governar e supervisionar o braço virado para o lucro que desenvolve os modelos de IA e a tecnologia”, completa ao Observador Ruben Ferreira, líder das operações portuguesas da FlowCommunity. A avançar, esta não é “uma aquisição típica corporativa”, terá “ de navegar requisitos únicos a nível legal e de regulação”, nota.

A ausência de detalhes do que o consórcio de Musk efetivamente quer torna a análise complexa, reconhece a professora Ellen P. Aprill, da Universidade de Loyola Marymount. Mas assegura que “ninguém pode comprar uma organização sem fins lucrativos, não pode ter donos privados”. Porém, admite que “possa vender os seus ativos, se conseguir um valor justo e a venda promova o propósito da organização sem fins lucrativos”, explica ao Observador.

Jill R. Horwitz, professora de direito da Universidade da Califórnia, também sublinha que a “non-profit não pode ser comprada, portanto o que está em jogo é se pode vender os seus ativos virados para o lucro”. “E, mais importante, o direito de controlar os ativos orientados para lucro.”

Nesse sentido, nota ao Observador que está em jogo mais do que os tais 97 mil milhões de dólares oferecidos pelo consórcio. “O mais importante é o que a organização pode fazer se abdicar do seu controlo sobre os ativos de lucro.”

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De qualquer forma, caberá ao board da organização-mãe (sem fins lucrativos) tomar uma decisão sobre a oferta. Por agora, o site especializado Information avançou que o conselho estará a ponderar rejeitar a oferta. Kristian Stout, diretor de inovação do International Center for Law & Economics (ICLE), recorda ao Observador que, de acordo com a legislação norte-americana, o estatuto de non-profit faz com que a administração “não seja legalmente obrigada a maximizar o valor para os acionistas, portanto não tem qualquer obrigação de aceitar a oferta”.

Ellen P. Aprill acrescenta, por outro lado, que o conselho pode decidir que o preço não compensa a venda dos ativos ou que a venda não é o melhor método para atingir os propósitos da organização sem fins lucrativos.

Oferta “complica” planos para reestruturação da OpenAI

“Incerteza”, “dores de cabeça” e “pressão” são algumas das palavras usadas pelos especialistas para descrever as consequências que esta oferta pode trazer à OpenAI. Até porque o momento é sensível para a startup, que em dezembro anunciou a intenção de alterar a estrutura corporativa.

Já havia rumores há algum tempo sobre a mudança. Com a nova estrutura, a área orientada para o lucro teria muito mais presença e controlo. Seria uma “sem fins lucrativos mais forte, suportada pelo sucesso da organização virada para o lucro”.

“Se há investidores que estão disponíveis a pagar mais” do que o valor determinado pela empresa, “isto tudo complica o processo para Altman de tornar a OpenAI numa entidade virada para lucro”.
Kristian Stout, do ICLE

“A OpenAI está a tentar reestruturar-se para se tornar uma empresa completamente virada para o lucro, para que seja elegível para mais financiamentos de empresas maiores e capitais de risco”, explica Kristian Stout, do ICLE. “E, como parte desse processo, os ativos da organização sem fins lucrativos têm de ser avaliados para garantir que todas as partes recebem condições justas.” Ou seja, ativos como “o ChatGPT, a marca, o código, têm de ser avaliados”, continua. “O que Altman parece estar a fazer é tentar avaliá-los com um valor mais baixo. O que esta oferta faz é que todos os ativos pareçam muito mais valiosos, portanto, teoricamente, quando o acordo [de alteração de estrutura] seja avaliado, poderá ser rejeitada a avaliação.”

“Se há investidores que estão disponíveis a pagar mais” do que o valor determinado pela empresa, “isto tudo complica o processo para Altman de tornar a OpenAI numa entidade virada para lucro”.

Há ainda outra relação que Altman terá de gerir: o papel da Microsoft, que controla 49% do atual braço orientado para o lucro. “A oferta levanta várias preocupações” neste campo, nota Ruben Ferreira, da FlowCommunity. “A atual parceria, que já está a ser alvo de escrutínio regulatório, poderá precisar de renegociação. Além disso, uma mudança de dono da OpenAI afeta o alinhamento estratégico entre as empresas e pode ter impacto na colaboração em vários projetos, incluindo a migração dos modelos da OpenAI para os produtos da Microsoft.”

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▲ Sam Altman e Satya Nadella, o CEO da Microsoft. A dona do Windows é uma investidora de peso na OpenAI

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Que papel para Trump: distância ou pressão?

No verão passado, Musk declarou o apoio público à campanha de Donald Trump. Esteve ao lado do agora Presidente dos EUA em comícios durante a campanha ao ponto de se tornar no “first buddy”. Com a nomeação para liderar o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), Elon Musk assumiu ainda mais destaque e ganhou influência junto do Presidente.

Trump apoia projeto de milhões para a IA, mas Musk levanta dúvidas. O que é o Stargate, ponto de discórdia entre Presidente e “first buddy”?

Por isso, surgem as dúvidas sobre que papel poderá Trump assumir: vai manter a distância ou apoiar Musk, aplicando pressão? “Acho que Trump vai manter a distância disto. Já o ouvimos a fazer comentários de que gosta de Elon Musk, mas também que sabe que ele tem disputas com outros empreendedores da área, uma sugestão do conflito entre Altman e Musk”, explica Kristian Stout, referindo-se às declarações sobre o projeto Stargate. Logo no dia a seguir à tomada de posse, Trump recebeu na Casa Branca os líderes da OpenAI, Oracle e do SoftBank para anunciar o apoio ao projeto que prevê um investimento privado de 500 mil milhões de dólares em infraestrutura de IA.

Musk usou o X para levantar dúvidas sobre o projeto, mas Trump desvalorizou. “Ele odeia uma das pessoas que está no acordo”, respondeu o Presidente, quando foi questionado pela imprensa sobre se ficou magoado com a crítica pública de Musk.

Já Ruben Ferreira, da FlowCommunity, admite outros cenários. “A aliança entre Musk e Trump poderá realmente criar pressão significativa para a OpenAI”, que nos últimos tempos já viu chegar uma rival chinesa (DeepSeek). Até porque a “influência de Trump pode manifestar-se através de vários canais: escrutínio regulatório, ordens executivas a afetar políticas de IA ou a orientar agências federais para aumentar a supervisão às operações da OpenAI”. Porém, defende que ainda que a aliança Musk-Trump gere “complexidade aos desafios da OpenAI, qualquer tentativa de atingir a empresa iria provavelmente enfrentar escrutínio legal e público”.

Em tempos, Altman e Musk também já fizeram parte de uma aliança: justamente aquela que formou a OpenAI.

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