Quase mil milhões de pessoas e cerca de um quarto de toda a vida marinha dependem da robustez e da saúde dos recifes de corais de água quente espalhados por todo o mundo. Em setembro deste ano, foi publicado um estudo feito pela Universidade de Exeter, no Reino Unido, concluindo que já estaríamos a ultrapassar o “ponto de inflexão” e que está a acontecer uma “mortandade generalizada” destes corais. A Organização das Nações Unidas avisa que quando este “ponto” ou limiar crítico do sistema é ultrapassado, podem ocorrer “mudanças abruptas e irreversíveis” nos vários ecossistemas.
A perda de corais é um fenómeno que se tem vindo a observar nos últimos anos e, há cerca de uma década, Jamie Craggs, um investigador britânico com uma longa experiência a trabalhar em aquários, especializou-se nesta classe de seres vivos com o objetivo de contribuir para a reversão desta tendência global. Em entrevista ao Observador, o biólogo descreve uma linha de trabalho inédita que nasceu fruto de uma paixão pela fotografia e uma “obsessão” pelos corais.
Trata-se, essencialmente, da criação de corais em viveiro com o objetivo final de os vir a transplantar mais resistentes e em maior quantidade para reestabelecer o equilíbrio nos diferentes ecossistemas afetados. Através da associação Coral Spawning International, Jamie Craggs conseguiu levar o produto da sua investigação para mais de 18 países, onde a reprodução sexuada e seletiva de corais é utilizada para combater as “consequências catastróficas” que podem surgir com a morte destes seres vivos.
Agora, o projeto chegou às Seychelles, um arquipélago no Oceano Índico, onde os recifes de corais têm sido dos mais ameaçados em todo o mundo. Jamie Craggs junta-se à organização sem fins lucrativos Nature Seychelles, que tem vindo a liderar a tentativa de repopular as colónias ao longo destas 115 ilhas perto da costa africana.
“Tenho uma obsessão com a reprodução dos corais. Acho realmente fascinante o facto de, como muitas espécies, os animais estarem completamente sintonizados”
O projeto foca-se integralmente na reprodução dos corais em cativeiro. Mas no seu habitat natural, como é que funciona este processo?
Os corais podem reproduzir-se de várias maneiras diferentes. Têm a possibilidade de se reproduzir assexuadamente, ou seja, corta-se ou cai um ramo do coral, volta a colar-se numa outra colónia e cresce um novo coral, apesar de ser geneticamente igual ao doador original. É uma ferramenta bastante útil e importante para continuar a utilizar [no terreno], porque se constrói aquela complexidade estrutural bastante rapidamente e é esse o objetivo principal dos nossos esforços de restauro dos recifes. Queremos estabelecer aquela estrutura tridimensional que cria a casa para os peixes pequenos e permite a prosperidade do ecossistema. O problema é que ao usar material destas colónias não resistentes às alterações climáticas, as segundas gerações vão sofrer o mesmo destino, o que tem levado a um maior foco noutro método de reprodução. É através da reprodução sexual que se criam novas combinações genéticas e destas combinações surgem vencedores e indivíduos mais resistentes à ameaça das alterações climáticas.
E é esta segunda opção que têm vindo a introduzir em vários ecossistemas… Voltou recentemente de uma viagem às Seychelles, no âmbito deste novo projeto, o que é que encontrou por lá?
Nós planeámos esta primeira viagem com base na lua cheia [uma das condições ideais para a reprodução dos corais]. A verdade é que não se sabe muito sobre os hábitos de reprodução dos corais nas Seychelles, mas utilizámos os das Maldivas — onde já trabalhei bastante — como modelo. Sabíamos, à partida, que novembro seria um período bastante provável para observarmos a desova, mas nem era este o objetivo principal. Inicialmente, o plano era construir o laboratório, e dizíamos que se víssemos a desova [dos corais] seria um extra, mas acabámos por alinhar as datas da viagem com o período previsto para vermos este fenómeno.
Logo no primeiro dia, estávamos a montar o equipamento no laboratório e, nas semanas antes de chegarmos, organizámos várias sessões online para ensinar à equipa o que precisam de observar para verificar se um coral está pronto para se reproduzir. Esta formação deu-lhes a oportunidade de trazer alguns dos corais para as instalações antes de chegarmos e conseguiram ver a desova a acontecer. E quando se trabalha com animais e com a natureza, há sempre muitas questões antes de uma viagem destas. Mas correu tudo lindamente, tivemos uma desova enorme — acho que foram 15 colónias de uma só vez, pouco menos de 800 mil embriões. Até tivemos ovos em excesso, tanto que aproveitámos alguns para experimentar algumas técnicas debaixo de água.
Lá, trabalhámos com os recifes mais degradados, mas sempre em locais onde temos um recife mais saudável ao pé para ter uma referência daquilo que queremos ter no final. Esta viagem foi um misto de montagens, observação da desova e ainda de atividades debaixo de água para decidir onde queremos verdadeiramente começar a intervir. Agora, temos as instalações montadas e, por isso, as próximas viagens serão muito mais focadas nas desovas seguintes e na plantação dos corais que agora nasceram. Até lá, temos de tentar perceber o que é que está a fazer crescer a mortalidade naquele ecossistema. Se é a química da água, se a temperatura… o objetivo é mesmo arranjar uma solução para estas questões e produzir o maior número possível de corais.
Foi a primeira vez que interagiu com os corais das Seychelles. Os das Maldivas, que serviram como termo de comparação antes de ir para o terreno, são de facto semelhantes? Se sim, estas parecenças podem fazer avançar a investigação de alguma maneira?
Quer dizer, não estive nas Maldivas naquele instante em que estava nas Seychelles, por isso não posso dizer que a desova ocorreu ao mesmo tempo. Mas acabei mesmo de voltar de lá [Maldivas] e pude comparar algumas amostras das espécies com que trabalhamos nas Seychelles e, de facto, as das Maldivas também já tinham desovado, por isso tenho quase a certeza que foi no mesmo período que as das Seychelles e outras tantas neste grupo com que temos vindo a trabalhar no Índico Ocidental.
Grande parte deste trabalho envolve tirar várias fotografias debaixo de água, armazenar informação e, a partir das imagens que recolhemos, conseguimos perceber o que se passa dentro dos corais e foi a partir desta metodologia que formámos a equipa que agora está a trabalhar nas Seychelles — o que procurar, quando e como se deve tirar amostras —, tudo para construir uma base de dados para depois se ir comparando com as diferentes espécies naquela região.
Nos laboratórios, quando já está tudo montado, descreve-se como um “matchmaker”, ou casamenteiro, de corais. O que é que isso significa?
Tenho uma obsessão com a reprodução dos corais. Acho realmente fascinante o facto de, como muitas espécies, os animais estarem completamente sintonizados, sabem que estão a observar ou a responder às mudanças sazonais que ocorrem através das mudanças de temperatura, da dinâmica da luz solar e do ciclo lunar. A partir das diferentes fases da lua, sabem exatamente quando é que está na altura de se reproduzir, não é quando quiserem soltam os ovos. Não, tem de ser feito naquele preciso momento. Nesse sentido são como os pandas [que têm uma janela de reprodução anual entre 24 e 72 horas], até.
E perceber as diferenças das janelas de reprodução entre cada espécie, as diferenças entre as regiões, dá-nos uma oportunidade de intervir nestes ecossistemas e aumentar a produtividade destes momentos reprodutivos e desenvolver outras técnicas que permitem tornar as colónias ainda mais resistentes a eventos de aumento de temperatura e outros fenómenos. A partir daqui, temos de garantir que estes genes são transmitidos para as gerações seguintes para assegurar o futuro daquela colónia. E é isso que temos ensinado às várias equipas que temos no terreno.
E quando é que entra, então, o processo de “matchmaking”?
Antes de sequer recolhermos os corais daqueles ambientes mais degradados, a primeira coisa que fazemos é uma análise aos ovos que estejam dentro dos indivíduos, para identificar aqueles que estão perto de desovar. Os ovos mudarão tanto em tamanho como em cor à medida que se aproximam da libertação, pelo que se estiverem pigmentados — rosa, laranja ou vermelhos — quer dizer que estão a desenvolver-se normalmente, mas se estiverem brancos, então estão ainda muito prematuros. Quando têm cor, então a desova será perto da próxima lua cheia. Esta é a primeira coisa que fazemos quando estamos debaixo de água: procurar os corais que estão prontos para desovar.
Depois, levamo-los para o nosso laboratório e colocamo-los nuns sistemas que conseguem simular as condições ideais para a desova, para que esta ocorra num ambiente controlado — o que não nos obriga a ficar acordados a noite inteira à espera que aconteça, e nos torna ainda mais produtivos. Desligamos a corrente nos tanques para ter a certeza que os ovos e os espermatozoides não se misturam e, quando chegam à superfície do aquário, recolhemos as amostras e depois misturamos para permitir a fecundação. Isto acontece na primeira hora após a desova.
Limpamos os ovos de todos os espermatozoides e depois em condições de cultura durante cerca de quatro dias. Tiramos umas fotos das amostras, para poder contar o número de células já individualizadas para saber a percentagem de células que foram fertilizadas e é aqui que percebemos realmente se dois indivíduos são compatíveis. São muito compatíveis se tivermos 99% das células fecundadas, mas se forem só 72%, aí podem já não ser um par tão bom. Quatro dias depois, formam-se larvas que nadam pelo tanque e, no nosso sistema, conseguimos direcioná-las para assentarem num local específico, onde depois ficam a crescer entre três a nove meses, para irem finalmente para o oceano.
Há alguma forma de saber a priori o que configura uma combinação perfeita?
O que queremos sempre é uma elevada taxa de fecundidade. Também olhamos para uma elevada diversidade genética, queremos uma grande variedade de genes. Essas são as duas características-chave, e é por isso que nos concentramos em 15 colónias de cada vez, para alargar essa diversidade de genes. Não é possível [prever se será uma combinação perfeita] através da taxa de fecundidade, mas há sempre avenidas que podemos explorar para garantir que são indivíduos geneticamente diferentes.
Podemos olhar para a história de cada uma destas colónias, por exemplo, se uns evoluíram para começar a partir ramos durante tempestades e depois, na hora de recolha das amostras, se visse um pedaço de um coral separado e o tentasse reproduzir com outro da mesma colónia, não seria possível fertilizar, porque são o mesmo indivíduo. Por este motivo, temos muito cuidado para garantir que estamos a recolher indivíduos geneticamente distintos.
Olhamos para a cor, para a espessura dos ramos, mas há outras técnicas antes de termos de fazer uma análise genética, porque é muito cara e não podemos ter este equipamento em todos os laboratórios. Mas há várias coisas que podemos fazer para observar diferenças entre as diferentes colónias.
▲ Desova dos corais fotografada pelo investigador britânico Jamie Craggs
Estão, de alguma forma, a fazer uma seleção artificial? Emparelham sempre as espécies com maiores hipóteses de sobrevivência nos recifes?
É, de facto, um caso clássico de reprodução seletiva. Já o fazemos há milhares de anos com animais domesticados, é exatamente o mesmo princípio. Escolhemos determinadas características que possam ser mais benéficas e queremos que estas se propaguem. Nos corais, olhamos para a resistência às alterações térmicas, para combater as tendências das alterações climáticas, mas também a morfologia do crescimento de diferentes espécies. Se quiséssemos reflorestar uma floresta, não iríamos só plantar um tipo de árvore. Queremos heterogeneidade, queremos várias espécies diferentes e precisamos de escolher as espécies certas para garantir que extraímos o máximo da recuperação dos recifes.
“Se quisermos mesmo uma visão completa de todo o ciclo de desenvolvimento e como estão a contribuir para o ecossistema, três anos são suficientes”
Começaram agora nas Seychelles, mas já têm os vossos corais instalados um pouco por todo o mundo?
Enviámos cerca de 80 destes sistemas de análise de corais para 18 países diferentes, creio eu, e estão a ser usados de formas diferentes. Por exemplo, seis dos sistemas estão na Califórnia, onde estão a ser utilizados para investigações genéticas puras, para perceber que genes dos corais é que são responsáveis pela resistência às alterações de temperatura. Outros sistemas foram para o Qatar, onde estão a restaurar ecossistemas e, por isso sim, as Seychelles são mais uma adição neste portefólio.
Hipoteticamente falando, é possível reproduzir um coral da Califórnia, por exemplo, e plantá-lo num recife nas Seychelles? Admitindo que já é também geneticamente adaptado…
Muito do trabalho que eu faço aqui no Reino Unido envolve a criação de algo chamado “híbrido intergeográfico”. E nunca recomendamos que estes sejam inseridos no oceano, porque há um grande risco de contaminação e introdução de doenças nestes ambientes. O trabalho que fazemos aqui em Londres é para perceber essencialmente até onde vai o limite do cruzamento de espécies. Aqui não há qualquer risco de contaminação de um recife, é tudo feito em aquários.
Exploramos estes cruzamentos e tentamos perceber como é que certas características são transmitidas — e depois usamos o conhecimento adquirido para atualizar o trabalho que está a ser feito nas Seychelles, por exemplo. Neste momento, estamos a tentar misturar uma espécie das Fiji com uma da Austrália. Já tentámos, no passado, misturar o coral australiano com um de Singapura, mas somente para perceber o que dá para fazer com esta técnica de reprodução seletiva.
No total, quanto tempo demora desde que começam o processo de reprodução até ser plantado?
Num espaço de nove meses podemos ter tudo pronto. A parte da reprodução, por si só, demora cerca de uma semana. Mas, na verdade, recomendamos sempre para que os corais recém-nascidos fiquem num ambiente terrestre [no laboratório] o máximo de tempo possível, porque quanto mais rápido conseguirmos que eles cresçam, mais estável é quando é plantado no recife e, por sua vez, maior a taxa de sobrevivência.
Mesmo quando é plantado, temos de continuar a monitorizar para ter a certeza que se adaptou bem ao meio onde foi inserido. Diria que entre a desova, entrar no oceano e ter a certeza que está estável, é um processo de 15 meses a dois anos. A partir daí, é continuar a observar para ver o quão bem funcionou o processo. A maioria dos corais que plantámos atingem a maturidade sexual em três anos, por isso se quisermos mesmo uma visão completa de todo o ciclo de desenvolvimento e como estão a contribuir para o ecossistema, três anos são suficientes para concluir quão eficaz foi todo o processo.
E têm capacidade para ter os corais nos vossos laboratórios durante tanto tempo? Não acabam por ficar sobrelotados e incapazes de começar novos processos de reprodução neste período?
Os nossos sistemas têm uma componente chamada “pista em forma de V”, onde crescem os recém-nascidos. Tem capacidade para cerca de 8.500 jovens. O que acontece nas Seychelles, por exemplo, tal como o que acontece nas Maldivas, é que a época da desova é bastante prolongada — nas Maldivas observámos cerca de seis meses e deverá ser o mesmo padrão nas Seychelles. Isto quer dizer que desde a desova inicial, ainda vai demorar um pouco até começarmos realmente a plantar.
É aqui que entra aquela “pista em forma de V”, que é uma espécie de tapete rolante, onde os que desovaram em novembro circulam e, quando estiverem prontos para plantar, os que desovam em março ou abril preenchem este espaço. E o ciclo repete-se: quando uns estão suficientemente desenvolvidos para irem para o oceano, abre uma vaga para os que acabam de desovar. É assim que temos um sistema com capacidade para 8.500 corais — e este não é o limite para os que conseguimos produzir ao longo de um ano, estão sempre a circular.