Conan Osiris ganhou visibilidade ao participar no Festival Eurovisão da Canção, em 2019, com o seu estilo exuberante, numa altura em que já tinha lançado três discos: o EP Silk (2014) e os álbuns Música, Normal (2016) e Adoro Bolos (2017). Uma discografia particular e peculiar, aliada a uma existência pop singular que deixou muitos há muito a perguntar: o que era feito do artista, há tanto tempo em silêncio? Eis que surgem Xenonexo / Musicae MMXV, edições sem aviso, reveladas de surpresa no final de dezembro, em jeito de presente de Natal tardio e de lançamento de um novo ano.
Xenonexo condensa 20 faixas numa hora. E fez-se acompanhar pelo mini-álbum Musicae MMXV, que reúne música partilhada, em — claro está — 2015, no SoundCloud e em vídeos do Facebook do artista, mas que nunca tinha sido lançada, oficialmente, nas plataformas de streaming. Na coletânea contam-se temas como Guard (em que o Osiris canta: “Portugal, porque não queres ser nosso amigo?”) ou QMD (em que repete: “Quem me dera que tu fosses para o c******”). Essa irreverência vem de um lugar de genuinidade, como voltámos a ver e a ouvir à nossa frente, na noite deste domingo, no Porto, no concerto que marcou o regresso de Conan Osiris aos palcos.
Ainda as portas da sala não estavam abertas e já os namorados Ângela Dias e Paulo Ferreira esperavam, curiosos, pelo primeiro espetáculo de Conan Osiris ao fim de prolongada ausência. Residentes em Vila Real, deslocaram-se ao Porto de propósito para ouvir o músico que Paulo já conhecia antes da mediática aparição no Festival de 2019: “Trabalhava à noite e ouvia muito [o disco de 2017] Adoro Bolos. Quando soubemos do regresso, dissemos: temos de ir ver!”. Agora é Ângela que tem o disco novo a rodar em loop. E não duvida: “A essência está lá”.
▲ Hora e meia de um espetáculo sem necessidade de aparatos visuais além dos movimentos dos bailarinos, umas vezes frenéticos, outras vezes doces, e da figura franzina de Conan Osiris
Igor Martins
Com o aproximar da hora do espetáculo, o público ia preenchendo os lugares no auditório. Encontrámos Dinis Patrício sentado na primeira fila, vindo das Caldas da Rainha para matar saudades de Conan Osiris. Esperava por este momento desde que o vira atuar, em 2019, em Santarém. “Conheci-o na altura do Festival da Canção, depois vi-o ao vivo, comecei a descobrir a discografia e fiquei obcecado”, resume. Acompanhou as colaborações de Osiris com outros artistas (graças a isso, aproximou-se da música portuguesa), mas “precisava de algo novo, em nome próprio”. Aí está.
O álbum Xenonexo chegou de rompante, mas Dinis já então estava na primeira fila: “Cheguei a casa do trabalho, recebi a notificação de que ele publicara o álbum e ouvi-o durante três horas em loop”. E que tal? “A produção da voz está muito melhor, as letras muito mais sentidas, com muito mais emoção, embora Adoro Bolos continue a ser dos melhores álbuns portugueses. Fiquei muito feliz por ver toda esta evolução. Ele está mais à vontade para se expressar, mantendo o humor e o palavreado específico.”
Poesia, humor e um vocabulário muito próprio
A conversa é interrompida com o apagar das luzes. Pelo cenário sóbrio, despojado, com uma espécie de bancada, vão-se deitando cinco bailarinos, entre eles o companheiro de aventuras João Reis Moreira (a quem, quase no fim do espetáculo, uma espectadora há de ofertar uma rosa vermelha, tal como a Conan). Osiris entra também. Cortou os longos cabelos e exibe uma camisola preta transparente, com pedrarias que acompanham os seus movimentos de dança.
▲ "Ele está mais à vontade para se expressar, mantendo o humor e o palavreado específico", dizem-nos
Igor Martins
Arrancam os aplausos e o desfile de canções, a começar por 125X8AGRE, a primeira faixa do novo disco, amálgama perfeita do que esperamos de Conan: uma mistura de poesia e humor, com recurso a vocabulário muito próprio, a oralidade a intrometer-se na escrita, que incorpora as mais variadas referências. Exemplo? “Buenos dias, Matosinhos / Só quero o meu tostão, depois é hora dos patinhos.” E mais adiante: “Olha, desculpa? / Tu achas que eu vou discutir com quem nunca comeu sandes de carapaus / fritos d’um dia p’o outro? / Olha, desculpa / Tu achas que eu vou perder tempo? / Eu nem sei que horas são, ‘tava num continente e agora ‘tou noutro.”
O refrão de 125X8AGRE reza assim: “Ai, milagres / Que é ver mil árvores / Ai, milagres / Que é ver mil lágrimas rolar / Pela cara abaixo e revelar milagres / Milhões de milagres”. Conan revela-se comunicativo, interage com o público. Diz: “O milagre é eu estar aqui. O milagre é vocês estarem aqui! Tenho de me acalmar uma beca. Eu não ia falar já”. Da plateia, composta por gente de variadas faixas etárias, recebe piropos, que devolve: “Não, vocês é que são!”.
Ao segundo tema, Cartomancia, Osiris exorta o público a levantar-se das cadeiras. Era o sinal que faltava para libertar os corpos e cantar em coro as inspiradas letras em Português. O que se segue é pelo menos hora e meia de um espetáculo sem necessidade de aparatos visuais além dos movimentos dos bailarinos, umas vezes frenéticos, outras vezes doces, e da figura franzina de Conan Osiris, que não deixa espaço para aborrecimentos, mesmo nos intervalos das canções.
A sua espontaneidade vem à tona em diversos momentos. Como aquele em que pede a uma bailarina para segurar o microfone enquanto compõe as calças de ganga. Ou aquele em que sugere ter dez pessoas no palco para cantar Tomatinhos e nem uma se atreve (“Ninguém veio, que flop! Amei!”). Ou aquele em que desabafa: “Tanta gente, what the fuck? Eu a pensar que era um maluco em minha casa; afinal, são muitos malucos noutras casas!”. Risos. Aplausos.
▲ Ao todo, foram quase 20 temas a desfilar, nem sempre seguindo o alinhamento planeado, para atender as vontades do público. O tempo estava limitado a hora e meia, mas pedia-se mais, queriam mais
Igor Martins
Também há momentos de acalmia, com Osiris sozinho em palco, uma certa vulnerabilidade à mostra. Atente-se, por exemplo, em Formiga2, com a sua letra emotiva: “Talvez um dia eu vá ser teu amigo / Talvez um dia eu acredite em ti / Tu só querias ir comigo aos passarinhos / Mas as formigas subiram por ti acima / E as que ainda ‘tão vivas sobem por mim acima (…) Pai, eu ‘tou cansado / Diz-me se vais ‘tar do outro lado / E do outro lado / Será que sabes que já foste perdoado?”.
Personagem? Não. “Ele é um artista”
Ao todo, foram quase 20 temas a desfilar, nem sempre seguindo o alinhamento planeado, para atender as vontades do público. O tempo estava limitado a hora e meia, mas pedia-se mais, queriam mais. O êxito Telemóveis acabou por dar lugar a Celulitite, do álbum Adoro Bolos, a pedido do público, que soltou a anca e a voz para acompanhar artista e bailarinos no improviso: “Ninguém quer saber da celulite / Quer saber do seu limite…”.
Osiris mostrou-se até disponível para uma votação: “Quem quer Printcesas [do novo disco]? Quem quer Amália [do EP Silk]?”. Cantou as duas. Na quase despedida, deixou agradecimentos: “Para vocês, para o Porto, para nós, para a democracia, obrigado!”. Mas ainda não era o fim. O fim veio com mais um desejo concedido: Coruja, do álbum Música, Normal. “Agora é que é, pessoal, senão eu vou preso!”
E foi assim que uma noite fria e chuvosa de janeiro se tornou, subitamente, quente. Isso mesmo assinalou Patrícia Ferreira, enquanto se levantava do seu lugar na primeira fila, com o alinhamento impresso na mão. “Sou muito fã do Conan, desde Adoro Bolos, e este foi o primeiro concerto que vi dele”, conta, radiante. Mais: “Foi perfeito, um espetáculo completo: deu para cantar, para dançar, para chorar…. 2025 foi muito desafiante e eu chorei com a Loicinha”.
▲ "Eu a pensar que era um maluco em minha casa; afinal, são muitos malucos noutras casas!”, atira Conan ao público
Igor Martins
No entender de Patrícia, o novo álbum revela “um Conan mais sincero consigo próprio, mais solto, mais livre, mais dado; não estava à espera de que fosse tão interativo”. Foi o primeiro concerto do ano para ela e o décimo para o pai, Filipe Ferreira, melómano que já tem “50 e tal bilhetes comprados” para outros espetáculos, nos meses que se seguem. Vão para casa de coração aquecido, sim, mas antes Patrícia faz questão de sublinhar: este concerto de Conan Osiris “mostra que ele não é uma personagem — é um artista. É o Conan. Ele é ele.”
Conan Osiris, nascido Tiago Miranda, há 37 anos, em Lisboa, é cantor, compositor e produtor musical. Já estudou Design Gráfico, cultiva o interesse pela Moda (como se fosse preciso escrevê-lo num jornal), já trabalhou numa sex shop. Partilha a data de aniversário com o japonês Hayao Miyazaki e é à sua série de anime pós apocalíptica, Conan — O Rapaz do Futuro, que vai buscar o nome artístico. A segunda parte, Osiris, vem do deus da mitologia egípcia.
Definir a música de Conan Osiris é missão difícil, tal a miscelânea de estilos e referências: do fado ao kuduro, do canto cigano ao hip hop. O artista, que venceu o Festival da Canção em 2019, recebeu no mesmo ano o prémio de Artista Revelação nos Play – Prémios da Música Portuguesa, além de ter sido nomeado duas vezes para os Globos de Ouro, nas categorias de Revelação do Ano” e Melhor Intérprete. Nos últimos anos, tem colaborado com nomes como Ana Moura, Branko, Scúru Fitchádu, Expresso Transatlântico, João Maia Ferreira, Karetus, Nuno Ribeiro ou Filipe Sambado. Está de volta. Ei-lo.