Se fosse por sua vontade, André Ventura teria feito a campanha inteira na Madeira. Quem o diz é o próprio, duas horas depois de ter aterrado no Funchal, esta quinta-feira, e de ter imediatamente convocado a imprensa para fazer algumas declarações à porta do restaurante onde vai jantar. Ventura fala longamente sobre a campanha e os cenários para o day after, com o candidato, Miguel Castro, ao lado, a sinalizar a sua concordância com um aceno de cabeça. Neste momento como em boa parte da campanha, mesmo que esta seja regional, Ventura é o protagonista.
A crise política no plano nacional complicou-lhe a agenda, mas Ventura não hesitou em voar para a Madeira assim que pôde. Para o Chega, não são só umas simples eleições antecipadas que estão em jogo. Por um lado, esta é a chance de o partido provar que, depois de em 2024 ter voltado atrás com a sua palavra e viabilizado um governo de Miguel Albuquerque, leva a sério o “não é não” ao líder do PSD-Madeira e a bandeira anticorrupção que tanto agita; por outro, é uma oportunidade de ouro para Ventura nacionalizar a crise madeirense.
Apesar da específica realidade do arquipélago, os traços comuns que permitem a comparação estão lá: um governo caído no parlamento, uma oposição que não confia no líder do governo, um cenário de instabilidade em que o Chega pode ter uma palavra decisiva na (in)viabilização de soluções de governação. E sobretudo, com o caso da empresa familiar de Luís Montenegro e o caso — muito diferente, até porque é um caso judicial — de Miguel Albuquerque, arguido, Ventura aproveita para misturar ambos e tirar uma conclusão com que faz a ponte da Madeira para a campanha nacional: “Montenegro apoia Albuquerque porque são parecidos e têm o mesmo estilo de fazer política: se há uma suspeita de ilegalidade, preferem ir a votos”.
Sabendo que pode ter trunfos importantes na mão — o Chega tem neste momento quatro deputados, que lhe serviram para viabilizar, no ano passado, o programa de governo de Albuquerque e depois, em dezembro, para o fazer cair através de uma moção de censura — a pressão é passada para o PSD. Nestes dois dias de campanha na Madeira, Ventura repetiu sempre que pôde que o PSD precisa de “limpar a casa” e trocar de líder, porque só dessa forma poderá contar com o apoio, potencialmente crucial, do Chega. Até porque Miguel Albuquerque, insistiu, “não pode sequer ser presidente de um condomínio”.
▲ A arruada do Chega passou pelas ruas mais movimentadas do centro do Funchal.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O sucesso de Ventura na rua e o “engano” do Chega
Pelas ruas do Funchal, o líder do Chega faz sucesso: esta quinta-feira à tarde, percorre-as numa arruada ao sol e é tantas vezes interpelado que mal consegue percorrer um par de metros sem parar para tirar fotografias. São senhoras que lhe elogiam a beleza e duvidam de que já tenha 42 anos, são homens zangados com a “malandragem” que dizem que governa a Madeira, são adolescentes entusiasmados que gritam pelo “André”. Todos querem aparecer ao lado de Ventura, que nesta amostra não tem maus encontros.
A excitação gerada pela aparição do líder nacional é alimentada pelo próprio Chega, que, como se estivesse numa verdadeira antecâmara das legislativas antecipadas, promove sobretudo a imagem do presidente do partido. Apesar de Miguel Castro ser bastante reconhecido pelas ruas do Funchal, André Ventura também é incluído nos cartazes do Chega. A sua voz ouve-se primeiro, nos ecos altos dos altifalantes dos carrinhos do partido que percorrem a ilha, ameaçando expulsar os “imigrantes ilegais” do país. E é a sua cara que está impressa no topo da tenda branca montada pelo Chega no centro da cidade, ao lado da mensagem “vota partido Chega”, sem referências específicas à campanha da Madeira.
Apesar de a preponderância de Ventura ser enfatizada em todos estes momentos, o líder do Chega já se deparou com obstáculos quando deputados dos Açores (o líder do Chega-Açores, José Pacheco, esteve nesta arruada) e da Madeira decidiram exercer a sua autonomia e contrariar decisões do presidente (para viabilizar, por exemplo, orçamentos do PSD). Desta vez, asseguram que o Chega-Madeira e o Chega nacional estão em harmonia.
Era também essa a garantia que esta semana, de visita ao concelho de Curral das Freiras para falar dos problemas de produção da castanha madeirense, Miguel Castro deixava aos jornalistas. “Na legislatura anterior demos o benefício da dúvida [a Miguel Albuquerque]. Isso custou-nos imenso, mas estávamos sem orçamento há oito meses e ele já tinha sido indigitado”, justificava. “Mas só nos enganam uma vez. Muito mau seria se fizéssemos qualquer entendimento”.
Por isso, o Chega assegura que agora só faz acordos com o PSD sem Albuquerque, tal como teria estado disponível para retirar a moção de censura se o líder do PSD-Madeira fosse substituído. Nesse dia, Castro garantia que o partido estará disposto a “falar com todos”, embora um entendimento com o PS seja “praticamente impossível”. Já no Funchal, Ventura afinava o discurso: “Temos um programa claramente anti-socialista. O Chega nunca em caso algum fará alinhamentos com partidos socialistas ou da área socialista. JPP é uma cisão do PS e não representam mais do que outro socialismo”, sentenciava.
Sabendo que poderá ter o poder de decidir se o governo vai para a frente na mão, sobretudo se, como prevê, PSD e Chega juntos puderem “chegar à maioria absoluta”, Ventura sabe também que corre um “risco eleitoral”, já que o eleitorado costuma castigar os partidos que provocam eleições. E o povo madeirense, vai-se repetindo um pouco por todos os partidos, está farto de ir às urnas e de que dessa ida não resulte uma solução estável.
Mesmo assim, Ventura acredita que fez bem em “assumir o risco” e que isso vai mesmo levar a uma “mudança na história da política portuguesa”, tentando fazer jurisprudência política: pode ser que desta vez quem provoca a crise não saia prejudicado, sobretudo quando o fez para denunciar (alegada) “corrupção”, atira. Fala sempre como se as suspeitas estivessem comprovadas e faz comparações com Albuquerque: “O [Hugo] Chávez também ganhava eleições, os presidentes de repúblicas subsarianas também, o Lula da Silva também. Não é por ter mais ou menos votos que isto fica branqueado”.
Fica assim definida uma fasquia de derrota para o Chega: se o PSD tiver uma “maioria clara” — chega a falar em maioria absoluta, depois refere que basta uma votação maior nos sociais democratas do que a que tiveram em 2024 — isso será uma “derrota” para o partido. “Uma derrota clara é que deem mais valor ao governo que deitámos abaixo”, assume.
Ainda assim, nesta arruada, Ventura vai ouvindo frases de ânimo e “conforto” que lhe servem para garantir que a sua teoria pode comprovar-se e que o Chega pode crescer e tornar-se ainda mais decisivo nestas eleições: dizem-lhe que a “coragem” do Chega é necessária, que quem governa a Madeira “tem de ir para a cadeia”, que tem de “correr com os corruptos”. Ele vai prometendo fazer o seu “melhor”. E cita, como já é habitual, Sá Carneiro contra o PSD, para dizer que agora resta ao partido afastar Albuquerque: “Primeiro vem o país, depois o partido, depois a circunstância pessoal de cada um”.