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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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O Rolex revolucionário, ACAB como lema e o gás com que se habituaram a chorar. Uma tarde no ato IV dos protestos em França

O Observador acompanhou manifestação de alunos em Estrasburgo, onde voltou a existir tensão com as autoridades. Entre anarquistas, comunistas, sindicalistas e alunos o grande alvo foram os polícias.

Niels aproveita a paragem na marcha para se sentar no murete da ponte de Saint Nicolas. O jovem de 16 anos, que estuda na Escola Marie Curie de Estrasburgo, explica calmamente ao Observador o que o levou ali em primeiro lugar: “O orçamento cresce cada vez mais para o exército e desce para a Educação. Não é aceitável”. Mais tensos, a cerca de dois metros, jovens com vários tipos de máscaras, de passa-montanhas a máscaras de gás, juntam-se para provocar a polícia que também se alinha com os escudos à prova de bala no outro lado da ponte. “ACAB” repetem os manifestantes, naquela que seria a palavra mais repetida da manifestação de estudantes que esta quinta-feira voltou às ruas de Estrasburgo.

ACAB é um acrónimo que significa All Cops Are Bastards (em português, numa tradução livre, “Todos os polícias são sacanas“). A frase está também por muitos dos cartazes que os estudantes mostram, por vezes em forma numérica: 1312, que corresponde à posição de cada uma das letras no alfabeto inglês. A luta por melhores condições nas escolas parece ter-se transformado mais numa luta contra a violência policial. E o dia, como seria de esperar, não iria acabar sem caixotes do lixo incendiados e gás lacrimogénio disparado pela polícia.

Niels, e o seu amigo Pierre, vão tentando abstrair-se da tensão entre manifestantes e autoridades. O jovens queixam-se de mau planeamento, de passarem demasiadas horas na escola, com uma carga letiva muito elevada e pouco sucesso. “Se olharmos outros sistemas, como a Alemanha ou a Finlândia, eles têm muito menos horas e os resultados escolares são melhores”, diz ao Observador Niels. Pierre interrompe-o. E diz-lhe: “Fala-lhes do calor que faz nas salas”. O jovem explica que a sua escola em Estrasburgo até tem condições, mas que já “não é assim, por exemplo, nos subúrbios de Paris”. A luta também se faz por solidariedade. O amigo insiste: “Fala-lhes do calor nas salas”.

“Pronto, está bem”, concede Niels. “No inverno temos aquecimento e está sempre calor nas salas, mais de 30 graus, mas no verão estão muito mais de 30 graus e não há ar condicionado. Não temos condições para trabalhar”, reclama, após a insistência do amigo.

O aluno da escola secundária Marie Curie diz que os estudantes têm sido convocados presencialmente e de forma espontânea junto às escolas, mas que os eventos são promovidos através do Signal. “Também há mobilização pelo Snapchat, WhatsApp e Instagram”, explica. Na manifestação não se veem só alunos. Há membros de sindicatos, movimentos anti-fascistas e movimentos anarquistas radicais. São esses que mais provocam a polícia. Há também grupos internacionais que se juntam em solidariedade como os jovens comunistas alemães (Sozialistishche Deutsche Arbeirterjugend). Niels admite que “há líderes de opinião dentro das escolas do partido de Le Pen e do Mélenchon”, mas que naquele caso “é mais esquerda, é mais Mélenchon”. Os cartazes e as palavras de ordem que se vão ouvindo comprovam-np: “Há aqui, an-ti-ca-pi-ta-lis-tas”.

Também há alguns professores no grupo de manifestantes. Poucos, mas há. Uma das professoras na manifestação de Estrasburgo dá umas breves palavras ao Observador, sem se querer identificar nem alongar: “Estamos aqui por duas razões: em primeiro para defender os nossos alunos, segundo também para melhorarmos as nossas condições de trabalho”. “Os professores são bem-vindos à nossa luta”, diria ao Observador um outro manifestante.

Os jovens seguem em marcha com palavras de ordem e vão tendo manifestações de apoio pela cidade. Há moradores que os saúdam das janelas. Do interior de uma obra, há um trabalhador que não se mostra, mas que se faz ouvir com gritos: “ACAB”. Os alunos repetem. Mais à frente, dois moradores de um segundo andar, atiram um unicórnio de peluche, que logo uma das manifestantes coloca às cavalitas e segue viagem.

Há alguns jovens no meio do grupo que têm a indicação de “médico” no capacete ou no colete e seguem equipados com borrifadores de soro fisiológico para colocar nos olhos de quem venha a ser atingido por gás lacrimogénio. O que viria a acontecer. Os confrontos não foram tão intensos como os de terça-feira, mas voltaram a existir. Se na terça-feira as estimativas falaram na presença entre 5 e 15 mil manifestantes, a polícia garante que, desta vez, eram apenas 1200.

▲ A polícia avançou que estavam cerca de 1200 manifestantes nas ruas de Estrasburgo

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Do Rolex revolucionário à guilhotina. Os cartazes do protesto

Os jovens organizam-se antes das manifestações para desenharem os cartazes de cartão que depois exibem nas horas seguintes. Há quase tantos contra a polícia como a favor das reivindicações iniciais. “Bater-nos dá-lhes tesão”, lê-se num dos cartazes críticos das autoridades mais ao estilo do Maio de 68. Num outro cartaz, crítico do Executivo, a imagem de uma guilhotina é acompanhada pela seguinte frase: “Decapitámos o nosso Governo por menos do que isto”. Ou outro ainda mais criativo: “Reciclem o vosso lixo, não façam deles ministros”. A estes juntaram-se também vários cartazes contra o capitalismo: “Olha para o teu Rolex. São horas da revolução.” Mbappé também foi chamado ao protesto, vestido de general como num famoso meme, com a questão enigmática: “Tu vois 1 etudiant perturbé?”

Em vários dos cartazes figuravam autocolantes de estruturas Antifas, como num em que se lia: “Nossos direitos não são privilégios”. Uma outra manifestante vestia um colete de sinalização cor-de-rosa, mas com a inscrição: “Gilet jaune”. Colete amarelo, numa alusão às manifestações massivas dos coletes amarelos que ocorreram em França em 2019.

Havia também estruturas de apoio espontâneas. Um grupo de jovens organizou uma espécie de padaria andante, numa instalação com carrinhos de supercado. “La boulangerie est ouverte e gratuite“, podia ler-se. A meio da manifestação, uma das “funcionárias” da padaria social avisava para a comida gratuita: “Sandes vegan, sandes vegan”. Muitos aproveitaram para uma pequena paragem que “a revolução não se faz de barriga vazia”.

▲ No cartaz da foto à esquerda é possível ler-se "Decapitámos o nosso Governo por menos do que isto". Na imagem da direita há um meme famoso do jogador Mbappé e a frase "Você vê um estudante pertubado?"

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Um dia longo de protestos em Estrasburgo

Apesar de não ter as dimensões de terça-feira, o dia esteve longe de ser calmo em Estrasburgo. Por volta das sete e meia da manhã, cerca de sessenta estudantes bloquearam a Sciences Po de Estrasburgo. Os liceus Fustel-de-Coulanges, Louis Pasteur (onde foram detidos cinco estudantes) e Jean-Rostand foram igualmente bloqueados, embora as autoridades tenham conseguido repor a normalidade em alguns casos. O mesmo aconteceu na Universidade de Estrasburgo com várias faculdades com a entrada bloqueada ao início da manhã. Ainda não eram dez da manhã e um carro já tinha sido incendiado na rua Primo-Levi, perto do liceu Marcel-Rudloff.

Ainda pela manhã, cerca de 120 jovens foram ao edifício do comissariado da polícia de Estrasburgo protestar contra o abuso policial. “Soltem os nossos camaradas“, numa alusão aos cinco detidos do liceu Pasteur, foram algumas das palavras de ordem ouvidas. A polícia de Estrasburgo tem, no entanto, garantido que só intervém para estabelecer a ordem e que não exerce “violência gratuita”. Nas horas em que o Observador acompanhou o protesto nunca assistiu a qualquer abuso ou provocação das forças de segurança.

Apesar de continuarem a fazer-se ouvir, nem tudo ocorreu como os manifestantes previam. Vários sindicatos da educação nacional apelaram à greve e à manifestação nas universidades, mas a academia de Estrasburgo praticamente não aderiu. De acordo com a reitoria, a greve só teve uma adesão de 0,2% (0% no primeiro e 0,72% no segundo ciclo de estudos).

▲ Neste cartaz é possível ler-se, no canto inferior direito, a sigla ACAB — um acrónimo que significa All Cops Are Bastards ("Todos os polícias são sacanas")

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Um mês de protestos: mais de 6 mil detidos e mais de mil feridos

Os protestos estudantis em França começaram a 17 de setembro na região de Paris, com os estudantes a reivindicarem melhores condições para as escolas, mas rapidamente se alastraram por toda a França. Os cortes no Orçamento para 2027 foi outro dos gatilhos para os protestos. Na terça-feira, segundo o ministério da Educação, fecharam 891 escolas. Esta quinta-feira, no chamado ato IV, cerca de 71.500 pessoas se manifestaram em toda a França, mas o ministério da Educação, ao meio-dia, dava conta de “apenas” 157 escolas encerradas.

A central sindical CGT, a segunda maior do País, declarou o apoio aos sindicatos estudantis nas manifestações desta quinta-feira. Desde 28 de setembro, de acordo com dados do ministério do Interior francês, já tinham detidos mais de 6500 manifestantes, a maioria menores de idade. Só na terça-feira tinha sido detidas cerca de cinco centenas de pessoas. Há também registo de 215 estudantes e 85 professores que ficaram feridos, aos quais se juntam 715 agentes de segurança. O Governo de Sébastien Lecornu teme uma repetição de manifestações como as dos “coletes amarelos”, que em 2019 paralisaram França, em particular a capital Paris.

O aumento de tensões na terça-feira levou o presidente francês Emmanuel Macron a convocar para uma reunião de urgência Lecornu, o ministro do Interior, Laurent Nuñez e o ministro da Educação, Édouard Geffray. Macron terá exigido moderação e que a intervenção policial mais musculada fosse utilizada só quando estritamente necessária e devidamente explicada à população.

Já esta quinta-feira, depois daquela que foi a quarta jornada de luta de mobilização dos alunos do secundário, Édouard Geffray anunciou medidas a aplicar no imediato: 3.000 professores substitutos que estavam “mal alocados” vão ser enviados para as 514 escolas que mais deles necessitam. São quase todas escolas em zonas problemáticas.

O caso tem tido repercurssão internacional e até já foi aproveitado pelo Presidente dos EUA para fazer política. Donald Trump escreveu na rede social Truth que “o que está a acontecer na França não é mais do que o resultado de uma imigração em massa fora de controlo. Não se trata das escolas, trata-se do islão a querer assumir o controlo de um país que já foi grande!”

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