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Eram duas horas da manhã quando caíram as primeiras bombas. Por toda a Cidade de Gaza, Khan Yunis e Rafah fizeram-se sentir os bombardeamentos israelitas nas horas seguintes. O número de mortes ia aumentando, com o Ministério da Saúde de Gaza (controlado pelo Hamas) a falar em mais de 400 mortos e outras tantas centenas de feridos. “Isto não é vida. É uma luta pela sobrevivência”, resumiu à correspondente do Le Monde em Gaza um palestiniano que vive no norte do enclave.
Ao fim de dois meses de paz, o cessar-fogo na Faixa de Gaza foi quebrado. O anúncio foi feito na noite desta segunda-feira, pelo próprio primeiro-ministro israelita: “De agora em diante, Israel irá agir contra o Hamas com crescente força militar.” Horas depois, caíam as primeiras bombas. Até à hora de publicação deste artigo, não se tinha registado nenhuma reação militar por parte do grupo terrorista islâmico.
▲ Imagens da destruição no campo de refugiados de Jabalia, no norte de Gaza, um dos locais bombardeados esta terça-feira
HAITHAM IMAD/EPA
O acordo assinado por Israel e Hamas (promovido pelos Estados Unidos e vários países árabes) caiu antes sequer da segunda de três fases começar a ser aplicada. “Não estou surpreendido. Estava escrito”, comenta ao Observador Avi Melamed, analista israelita. Nathan J. Brown, professor veterano da George Washington University especialista em Médio Oriente, reforça a ideia: “É agora óbvio que este cessar-fogo foi feito para vir a ser quebrado.”
A pergunta que se impõe é uma: porquê? Para os especialistas ouvidos pelo Observador, um conjunto de fatores se avolumaram para tornar a paz insustentável: um impasse nas negociações com resistência do Hamas (que não queria entregar mais reféns) e de Telavive (que não queria retirar tropas do enclave); uma administração norte-americana agora mais favorável a quaisquer ações do executivo de Benjamin Netanyahu; e um primeiro-ministro israelita cujo governo está refém dos partidos mais extremistas e desejoso de evitar uma nova ida às urnas.
Perante tudo isto, as bombas voltaram a cair em Gaza. E não há uma previsão de quando poderão voltar a parar.
Nem entrega de reféns, nem retirada de tropas. O impasse das últimas semanas nas negociações
A 19 de janeiro entrou em vigor o cessar-fogo acordado por ambas as partes, mas nem por isso as negociações pararam. Telavive e o Hamas continuaram a debater intensamente ao longo dos últimos dois meses como deveriam ser aplicadas as fases dois (entrega de todos os reféns a Israel e retirada de todas as tropas israelitas do enclave) e três (gestão política de Gaza retirada ao Hamas e reconstrução).
Mas não se registavam desenvolvimentos. A segunda fase deveria ter entrado em vigor a 1 de março e, no entanto, por essa altura ninguém deu o primeiro passo: o Hamas não entregou mais reféns e Israel não retirou as suas tropas estacionadas em locais como o corredor de Filadélfia (na zona de fronteira de Gaza com o Egito).
Pelo contrário, ambos os lados deram sinais de que se preparavam para voltar a lutar: o Hamas reforçou a recruta, tendo o seu número de combatentes aumentado nas últimas semanas; já Israel voltou a proibir a entrada de ajuda humanitária em Gaza.
▲ O Hamas terá engrossado as suas fileiras ao longo das últimas semanas
MOHAMMED SABER/EPA
Com cerca de 60 reféns ainda na posse do Hamas (não sendo claro quantos estão ainda vivos) e uma terceira fase que prevê o afastamento total do grupo da liderança de Gaza, há quem note que os radicais islâmicos não tinham qualquer interesse em cumprir o acordo: “O Hamas não ia libertar os reféns, porque, caso contrário, ele próprio cairia”, nota Melamed.
É nessa lógica que Israel justifica a atual decisão de voltar a atacar Gaza: “Nas últimas duas semanas e meia, demos por nós num beco sem saída e isso é algo que Israel não pode aceitar”, declarou o ministro dos Negócios Estrangeiros Gideon Saar.
Guy Ziv, diretor do Centro Meltzer Schwartzberg para Estudos Israelitas, em Washington, descreve assim a situação ao Observador: “Os EUA estavam a trabalhar para estender o cessar-fogo de forma a libertar os reféns israelitas, mas o Hamas foi intransigente. A ofensiva israelita pode ser vista como uma forma de pressionar o Hamas a negociar — mas não é claro se isto vai acontecer, nem se esta é apenas uma manobra temporária.”
Porque, na prática, o grupo terrorista não foi o único a incumprir parte do acordo, como lembra Nathan Brown: “O governo israelita não queria um cessar-fogo, porque não queria acabar com as suas operações militares, nem retirar as suas tropas de Gaza”, nota o académico. “A administração Trump conseguiu um cessar-fogo que implicava uma segunda fase que exigia precisamente isto — e era evidente que Israel estava relutante em avançar para esta segunda fase.”
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“Depois de alguma ambiguidade, os Estados Unidos abraçaram as decisões de Israel”. O papel da administração Trump
Com as culpas sobre o impasse negocial bem distribuídas, soma-se “a política de Donald Trump”, que Avi Melamed considera essencial para explicar este quebrar do cessar-fogo. “A política que ele trouxe é de mudança radical e de alteração do atual equilíbrio do poder na região”, descreve, referindo-se às declarações do Presidente norte-americano sobre tornar Gaza numa “Riviera” do Médio Oriente. “Não por acaso, os líderes árabes apressaram-se a trazer uma proposta [alternativa] que foi rejeitada pela administração Trump.”
Trocando por miúdos, isso significa que, apesar de ter assumido o papel de árbitro na negociação do cessar-fogo, esta nova administração norte-americana parece querer vincar a sua solidariedade com Israel por comparação a uma postura mais crítica do Presidente anterior, Joe Biden.
Sabendo disso, Netanyahu e o seu governo decidiram quebrar com o impasse ao partir para o ataque militar esta terça-feira — segundo os media norte-americanos, de forma previamente coordenada com Washington.
▲ A administração de Donald Trump colocou-se ao lado do governo israelita sobre este ataque militar
SHAWN THEW / POOL/EPA
Um sinal claro pelas reações públicas da equipa de Trump. Brian Hughes, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, apressou-se a culpar o Hamas, dizendo que o grupo “podia ter libertado os reféns em troca do cessar-fogo, mas em vez disso escolheu a recusa — e a guerra”.
A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, foi ainda mais enfática: “Como o Presidente Trump deixou claro, o Hamas, os Houthis, o Irão, todos os que tentam aterrorizar não apenas Israel, mas também os EUA, pagarão um preço: soltar-se-á o inferno [sobre eles].”
Na prática, perante o xadrez geopolítico que liga Hamas, Houthis e Irão, os Estados Unidos assumem que estão do outro lado da barricada — como foi visível, por exemplo, nos ataques da véspera aos Houthis. Não tardou a que isso se traduzisse num apoio à decisão israelita de quebrar o cessar-fogo: “Depois de alguma ambiguidade, os Estados Unidos abraçaram as decisões de Israel”, resume Nathan Brown.
Um chefe das secretas despedido e uma ofensiva sobre Gaza a troco de uma maioria parlamentar?
Os bombardeamentos foram criticados pela comunidade internacional, da ONU ao presidente do Conselho Europeu, António Costa. Mas foram também fortemente criticados dentro de Israel e em particular por um grupo com grande relevância política: os antigos reféns e as suas famílias
Shocked and saddened by the news coming from Gaza and the many civilian casualties following the Israeli airstrikes last night.
Violence must stop and the terms of the ceasefire agreement must be respected. All hostages and detainees must be released, and humanitarian aid must…
— António Costa (@eucopresident) March 18, 2025
“Netanyahu decidiu assassinar os nossos reféns”, escreveu no Facebook Einav Zangauker, mãe de um dos cerca de 60 reféns israelitas que ainda estão em Gaza (não sendo claro quantos estão ainda vivos). O Fórum das Famílias de Reféns e Desaparecidos partilha dessa postura: “O maior medo das famílias, dos reféns e dos cidadãos israelitas cumpriu-se”, declarou a organização em comunicado. “Estamos horrorizados, furiosos e assustados pela destruição intencional do processo para trazer de volta os nossos entes queridos.”
Mas a reação em Israel não se fez apenas de críticas e de lamentos. Itamar Ben-Gvir, líder do partido de extrema-direita Otzma Yehudit, por exemplo, declarou que o bombardeamento a Gaza é “o passo certo, moral, ético e mais justificado”. Só que o próprio Ben-Gvir está possivelmente envolvido na explicação para esta decisão de Benjamin Netanyahu: afinal, tinha-se demitido do governo em protesto pelo acordo de cessar-fogo; agora, perante esta ofensiva, já anunciou que voltará a integrar o executivo.
▲ Netanyahu terá voltado a integrar no governo Itamar Ben-Gvir (à direita), líder de um partido de extrema-direita que exigiu o retomar da guerra para integrar o governo
AFP via Getty Images
A oposição não tardou a acusar o primeiro-ministro de estar a usar a situação em Gaza para seu próprio benefício. Afinal, a inclusão do Otzma Yehudit é fulcral para que o governo tenha a maioria necessária no Knesset (Parlamento israelita) para aprovar o Orçamento do Estado, cuja votação deve ocorrer na próxima semana.
O outro partido mais à direita que compõe o governo, o Partido Sionista Religioso do ministro das Finanças Bezalel Smotrich, tinha imposto como condição para se manter no governo que a ofensiva militar fosse retomada depois do fim da primeira fase do acordo do cessar-fogo — o que está precisamente a ocorrer agora.
O retomar da ofensiva em Gaza era também uma das condições impostas por Ben-Gvir em troca do seu apoio político. Mas não era a única: queria o afastamento do líder do Shin Bet (serviços secretos internos). Este foi decretado por Netanyahu há três dias — uma decisão histórica, já que nunca um líder das secretas israelitas foi diretamente demitido por um primeiro-ministro, como explica o Haaretz.
“As famílias dos reféns estão extremamente preocupadas que estes ataques estejam a por o seus entes queridos em perigo. E, para além disso, o timing é questionável, por coincidir com a decisão controversa de despedir o chefe do Shin Bet”, resume Guy Ziv. Avi Melamed também sublinha como esta ofensiva militar terá sido acelerada pela posição dos partidos mais radicais: “A extrema-direita deixou claro: ‘Se a guerra não continuar, vamos deitar abaixo o governo’.”
Um braço de ferro à vista com os familiares dos reféns e a sociedade civil
Essa é uma possibilidade que parece aterrorizar Benjamin Netanyahu, já que as sondagens mostram claramente que, se for as eleições, corre o risco de não só perder uma maioria parlamentar como a própria eleição. ‘Bibi’ é neste momento altamente impopular: 87% dos israelitas acham que devia assumir responsabilidades pelo que aconteceu no 7 de Outubro e 73% querem a sua demissão — agora ou quando a guerra acabar.
▲ As famílias dos reféns têm feito parte da oposição mais enfática a Benjamin Netanyahu
NurPhoto via Getty Images
Combinando esta nuance de “quando a guerra acabar” com o seu julgamento por crimes de corrupção que está a decorrer — com a sessão desta terça-feira, onde iria testemunhar, cancelada por causa da ofensiva em Gaza —, Netanyahu parece ter várias motivações para arrastar o conflito. “As decisões de Netanyahu por estes dias são motivadas sobretudo pelos seus interesses pessoais e políticos”, resume o analista Ziv. “Os políticos de extrema-direita de que ele depende exigiram-lhe que despedisse Ronen Bar, o chefe do Shin Bet, e retomasse a guerra em Gaza até o Hamas ser derrotado.”
Esta é a interpretação que muitos em Israel fazem neste momento — como o antigo primeiro-ministro Barak Ehud, que fala na “bandeira negra da perda de legitimidade” de Netanyahu e apela aos israelitas para que assumam “a desobediência civil não violenta”.
תחת דגל שחור של אובדן הלגיטימיות, עסוק נתניהו בהחזרת בן גביר בפיטורי בר, ובהסטת הקשב מההפגנות. הקרבת חטופים וצעדים נוספים קשורים לכך. נתניהו מהווה סכנה וודאית וקרובה לביטחון המדינה, מעמדה בעולם, ערכיה ועתידה. רק מרי אזרחי בלתי אלים לצד קריאה להכרזת נבצרות ולהתפטרותו, יתנו מענה.
— אהוד ברק (@barak_ehud) March 18, 2025
Na tarde desta terça-feira decorreram as primeiras manifestações em Jerusalém dos que se opõem a estes bombardeamentos. A exigência de que seja cumprido o plano acordado com o Hamas, a fim de que todos os reféns possam regressar a casa, parece orientar a maioria dos protestos. A pressão nas ruas sobre Benjamin Netanyahu pode bem aumentar nas próximas semanas e não é óbvio qual será a força da sociedade civil para direcionar a política do primeiro-ministro.
Quantos aos seus aliados de governo mais extremistas, não parece haver grandes dúvidas. Esta terça-feira, a nora de um dos reféns mortos em Gaza, Yoram Metzger, lamentou a ofensiva num comité parlamentar onde estava a participar: “Achava que servíamos as Forças de Defesa de Israel e não o Exército da Vingança de Deus. Estamos neste momento a assassinar reféns quando há um acordo em cima da mesa”, afirmou Ayala Metzger.
????At the Knesset, FinMin Smotrich, who demanded a return to war, to Ayala Metzger, whose father-in-law was murdered in Hamas captivity: "We heard you! Why do you think you are allowed to shut others up all the time? We hear too much from you. Get out." pic.twitter.com/WnkPkI6oqe
— Noga Tarnopolsky נגה טרנופולסקי نوغا ترنوبولسكي (@NTarnopolsky) March 18, 2025
O ministro das Finanças e líder do Partido Sionista Religioso, Bezalel Smotrich, contestou. “Parem de achar que têm o direito de controlar a narrativa e não permitir que outros pensem de forma diferente”, rebateu. Quando outro dos familiares presentes na reunião suspirou “Já ninguém nos ouve”, Smotrich reagiu taxativamente: “Andamos a ouvir-vos demasiado.”